Existia um restaurante na Rua Tupi, em São Paulo, que chamávamos de “Sem Visa”. Talvez exista até hoje. Era chamado assim porque, na primeira vez que fomos lá, não aceitavam nosso vale-refeição, o saudoso Visa Vale. Serviam um estrogonofe de filé mignon delicioso e uma rodela grossa de abacaxi com raspas de limão de sobremesa, por dois reais a mais. Um dia, na mesa ao lado, dois homens gordos conversavam: “Aí eu perguntei, ‘Mas nem um refrigerante, uma coquinha pra ajudar a descer?’ E a nutricionista falou, ‘Nada! Não precisa de nenhuma bebida na refeição’”. Isso aconteceu há exatos vinte anos. E então me pergunto: PARA QUE EU ME LEMBRO DISSO?!
Vinte e cinco de agosto de 1992: o dia que minha irmã foi de intercâmbio para a Itália. Cinquenta-e-quatro-onze-oitenta-e-um-noventa: o número do meu ICQ. O dia que organizei as caixas de cuecas na ilha de uma loja de tecidos aos dez anos e tomei uma bronca da atendente por amassar as embalagens. O dia que escrevi “frogger” na lousa na aula de inglês como tradução de “sapo”, pois era o nome do jogo do Atari. São tantas lembranças aleatórias (e, francamente, inúteis) que permanecem vivas no meu cérebro, que às vezes me pego pensando: “qual é seu critério para guardar e descartar coisas, cara?!”
Um dia desses um amigo me disse: “Eu me lembro da cor da roupa da aeromoça da Transbrasil no voo pra Orlando em 1988, mas não consigo lembrar o telefone da minha mãe!” Me identifiquei imediatamente.
Outra coisa que eu me lembro — essa um pouquinho mais útil — é de um episódio de This American Life que ouvi muitos anos atrás sobre uma mulher com hipertimesia: uma condição raríssima em que a pessoa se lembra de quase todos os dias da vida com riqueza de detalhes. Mas se, por um lado, recordar o dia exato em que um episódio de Friends foi ao ar pode ser divertido, por outro, a condição é, na maior parte do tempo, um fardo. “Eu ainda tô puta com coisas que aconteceram quando eu tinha cinco anos, é ridículo”, conta a entrevistada. Ela diz também que ainda sofre com a morte do marido como se tivesse acontecido ontem, porque a memória daquilo continua muito recente.
Conto tudo isso para dizer que esquecer das coisas é tão natural quanto necessário, e que enquanto a gente guarda memórias inúteis, ou mesmo indesejadas, outras vão se esvaindo.
Uma das formas de fazer minha memória durar um pouco mais é através de um diário que mantenho há dezessete anos. Toda noite, quando paro para escrever, revivo aquele dia e decido quais memórias são dignas de registro para o meu eu do futuro e quais devem ser descartadas. Posso reler uma página de um dia totalmente trivial de dez anos atrás e recuperar uma cena inteira, um sentimento marcante. Mas também pode acontecer de eu encontrar uma página com um evento descrito como inesquecível e não ter qualquer memória dele. (É um método falho, fazer o quê.)
Nos seus últimos anos de vida, meu pai foi se esquecendo das coisas. Não das pessoas, ainda que as confundisse às vezes, mas de coisas do dia a dia, acontecimentos recentes ou informações que seriam muito, muito úteis de serem lembradas, como onde fica a porra do registro que fecha a água quente do banheiro da suíte.
Em uma peça que fiz este ano, meu personagem perguntava: o que é que fica quando a memória vai embora?
Dizem que quando uma pessoa morre ela não vai embora completamente: apenas deixamos de criar novas memórias com ela. Mas não acho que isso seja verdade. Desde que meu pai morreu, descobri várias novas histórias sobre ele, episódios que um e outro recuperam em conversas despretensiosas, coisas que ele disse a alguém há muito tempo e só agora chegam aos meus ouvidos. Novas memórias.
Sei também que as memórias que guardo hoje (dele e de todos) não ficarão comigo para sempre. Sei que com o passar do tempo vamos nos esquecendo. Dos cheiros, dos sons, dos detalhes. Hoje ele existe em um número finito de memórias, um número que a cada ano será invariavelmente menor e menor. E tem que ser assim.
Mas hoje, no dia em que ele completaria 97 anos, fico com a memória do seu último aniversário, quando o levamos até a marcenaria que ele montou na garagem de casa, onde ele passou boa parte das suas últimas décadas e que de repente parecia tão distante, andares abaixo. Ali, ele tocou pela última vez nas suas ferramentas, tão íntimas até pouco tempo, e se maravilhou com a casa que ele mesmo construiu, mas não se lembrava.
Foto: Arquivo pessoal

