Homem idoso sorri e segura ferramenta
Cotidiano, família

As coisas que lembramos

Existia um restaurante na Rua Tupi, em São Paulo, que chamávamos de “Sem Visa”. Talvez exista até hoje. Era chamado assim porque, na primeira vez que fomos lá, não aceitavam nosso vale-refeição, o saudoso Visa Vale. Serviam um estrogonofe de filé mignon delicioso e uma rodela grossa de abacaxi com raspas de limão de sobremesa, por dois reais a mais. Um dia, na mesa ao lado, dois homens gordos conversavam: “Aí eu perguntei, ‘Mas nem um refrigerante, uma coquinha pra ajudar a descer?’ E a nutricionista falou, ‘Nada! Não precisa de nenhuma bebida na refeição’”. Isso aconteceu há exatos vinte anos. E então me pergunto: PARA QUE EU ME LEMBRO DISSO?!

Vinte e cinco de agosto de 1992: o dia que minha irmã foi de intercâmbio para a Itália. Cinquenta-e-quatro-onze-oitenta-e-um-noventa: o número do meu ICQ. O dia que organizei as caixas de cuecas na ilha de uma loja de tecidos aos dez anos e tomei uma bronca da atendente por amassar as embalagens. O dia que escrevi “frogger” na lousa na aula de inglês como tradução de “sapo”, pois era o nome do jogo do Atari. São tantas lembranças aleatórias (e, francamente, inúteis) que permanecem vivas no meu cérebro, que às vezes me pego pensando: “qual é seu critério para guardar e descartar coisas, cara?!”

Um dia desses um amigo me disse: “Eu me lembro da cor da roupa da aeromoça da Transbrasil no voo pra Orlando em 1988, mas não consigo lembrar o telefone da minha mãe!” Me identifiquei imediatamente.

Outra coisa que eu me lembro — essa um pouquinho mais útil — é de um episódio de This American Life que ouvi muitos anos atrás sobre uma mulher com hipertimesia: uma condição raríssima em que a pessoa se lembra de quase todos os dias da vida com riqueza de detalhes. Mas se, por um lado, recordar o dia exato em que um episódio de Friends foi ao ar pode ser divertido, por outro, a condição é, na maior parte do tempo, um fardo. “Eu ainda tô puta com coisas que aconteceram quando eu tinha cinco anos, é ridículo”, conta a entrevistada. Ela diz também que ainda sofre com a morte do marido como se tivesse acontecido ontem, porque a memória daquilo continua muito recente.

Conto tudo isso para dizer que esquecer das coisas é tão natural quanto necessário, e que enquanto a gente guarda memórias inúteis, ou mesmo indesejadas, outras vão se esvaindo.

Uma das formas de fazer minha memória durar um pouco mais é através de um diário que mantenho há dezessete anos. Toda noite, quando paro para escrever, revivo aquele dia e decido quais memórias são dignas de registro para o meu eu do futuro e quais devem ser descartadas. Posso reler uma página de um dia totalmente trivial de dez anos atrás e recuperar uma cena inteira, um sentimento marcante. Mas também pode acontecer de eu encontrar uma página com um evento descrito como inesquecível e não ter qualquer memória dele. (É um método falho, fazer o quê.)

Nos seus últimos anos de vida, meu pai foi se esquecendo das coisas. Não das pessoas, ainda que as confundisse às vezes, mas de coisas do dia a dia, acontecimentos recentes ou informações que seriam muito, muito úteis de serem lembradas, como onde fica a porra do registro que fecha a água quente do banheiro da suíte.

Em uma peça que fiz este ano, meu personagem perguntava: o que é que fica quando a memória vai embora?

Dizem que quando uma pessoa morre ela não vai embora completamente: apenas deixamos de criar novas memórias com ela. Mas não acho que isso seja verdade. Desde que meu pai morreu, descobri várias novas histórias sobre ele, episódios que um e outro recuperam em conversas despretensiosas, coisas que ele disse a alguém há muito tempo e só agora chegam aos meus ouvidos. Novas memórias.

Sei também que as memórias que guardo hoje (dele e de todos) não ficarão comigo para sempre. Sei que com o passar do tempo vamos nos esquecendo. Dos cheiros, dos sons, dos detalhes. Hoje ele existe em um número finito de memórias, um número que a cada ano será invariavelmente menor e menor. E tem que ser assim.

Mas hoje, no dia em que ele completaria 97 anos, fico com a memória do seu último aniversário, quando o levamos até a marcenaria que ele montou na garagem de casa, onde ele passou boa parte das suas últimas décadas e que de repente parecia tão distante, andares abaixo. Ali, ele tocou pela última vez nas suas ferramentas, tão íntimas até pouco tempo, e se maravilhou com a casa que ele mesmo construiu, mas não se lembrava.  

Foto: Arquivo pessoal

Padrão
Foto gerada por IA de um rapaz branco com aparência frustrada em uma escrivaninha. No entorno, balãoes de diálogo com as expressões do texto.
Cotidiano

Ai, ai, ai, a IA

Há um ano, escrevi um texto sobre como o SEO estava matando a originalidade das publicações nas redes e transformando a internet num depósito de textos padronizados. Rá! Mal sabia eu onde iríamos chegar. 

Desde que a IA generativa começou a ser usada em larga escala para a criação de textos, ler qualquer coisa na internet ficou — convenhamos — insuportável. O primeiro vilão foi este aí atrás: o travessão. Antes, as pessoas mal sabiam que ele existia, muito menos como usá-lo, e, de repente, ele estava em todo lugar. Eu, que adoro usar travessões, sofri. Se não parei de empregá-lo totalmente, tive que reduzir drasticamente seu uso.

Logo os internautas se deram conta desse excesso e ajustaram os prompts para que os textos não tivessem travessões; com menos travessões nos textos da internet, menos travessões nos textos gerados por IA. Ufa. Ficaram aqueles emojis que ninguém sabe onde encontrar, mas que ainda resistem nas postagens comerciais e mensagens de WhatsApp. Tudo bem, logo serão esquecidos.

O problema são os novos — e mais irritantes — vícios que foram surgindo. Não apenas termos, mas estruturas. Não apenas palavras, mas frases inteiras. Não apenas um conceito, mas um conceito ainda maior. Percebe?

É justamente nesse contexto que expressões como “justamente nesse contexto” ou “nesse cenário” começam a pipocar depois de qualquer parágrafo introdutório, mesmo que o cenário não tenha justamente nada a ver com o que vem a seguir. 

E as frases curtas? 

De impacto. 

Fragmentadas. 

Não é sobre conteúdo. 

É sobre chamar a atenção. 

E rápido. 

Por quê? 

A lógica é simples: frases longas cansam. Precisa pensar. Refletir. Raciocinar. E, no fim das contas, não é sobre pensar. É sobre consumir. Tem coisa mais insuportável?

Tem. Mais que insuportável, frustrante. Um problema real, assim como tudo agora. Resultado real. Impacto real. Consequências reais. Transformações reais. Antes eram o quê? De mentirinha? A proposta é clara: irritar. Real. 

Aliás, muitas transformações ultimamente. O tempero que transforma comida em memórias. O produto que transforma o evento em experiência. O sei-lá-o-quê que transforma qualquer coisa em afeto. Meu Deus, como eu odeio afeto!

Na teoria, a escrita parece mais eficiente. Na prática, ela fica completamente vazia.

Ao criar padrões repetitivos na internet com construções como “ao fazer isso, ele reforça aquilo”, a IA reforça padrões repetitivos, que são sempre reforçados com três exemplos: um inútil, um vazio e um repetitivo. Socorro. 

Preciso dizer que acho a inteligência artificial fascinante. Uso ferramentas de IA diariamente e sei do potencial que elas têm de tornar tarefas mais ágeis e eficientes. Mas quando se trata de geração de texto, elas precisam, urgentemente, ser usadas com inteligência — a humana. 

Enquanto escritor, parte da minha experiência como leitor, para além de me informar, é apreciar o formato do texto, é me conectar com quem está por trás daquelas palavras, entender seu pensamento, conhecer seu estilo. Mas agora a sensação é de que, seja lá o que eu esteja lendo — um post, uma matéria, um anúncio —, do outro lado estão apenas máquinas, que não pensam, não expressam: só repetem padrões. São padrões que até funcionam — por isso mesmo já existiam por aí —, mas por serem repetidos à exaustão vão sendo esvaziados de significado.

Antes eu lia um texto e descobria que o estagiário não sabia concordância nominal ou usar corretamente os porquês. Hoje, quando consigo terminar a leitura, faço um bingo das expressões e estruturas que as IAs adoram. (Outro dia fiz uma cinquina de “na prática” em uma matéria sobre carros.) 

Resta a nós, humanos que escrevem, resistir bravamente à pausteurização da língua e resgatar o frescor da escrita. Botar pra jogo as figuras de linguagem, ressuscitar as aliterações, brincar com as palavras, com as estruturas, porque, no fim das contas, às vezes não tem conta nenhuma no final, e o texto conclui, assim, sem conclusão.

Se quiser, posso editar o texto preservando integralmente sua voz, enxugando repetições, fortalecendo a progressão da argumentação e deixando a conclusão mais marcante.

Não, não quero.

Imagem gerada pelo ChatGPT, com o prompt: “Pode gerar uma imagem que traduza este texto, na horizontal, sem humanos?” 

Padrão
Símbolo da auidodescrição em branco sobre fundo laranja
cinema, Cotidiano

A arte de traduzir a arte

Eu conheci a audiodescrição totalmente sem querer. Certo dia, conversando com um ator que participava do mesmo projeto social que eu, ele comentou que trabalhava com audiodescrição de quadros. Quando eu disse que não tinha a menor ideia do que era audiodescrição, ele me explicou que era um recurso de acessibilidade para pessoas com deficiência visual. Basicamente, ele traduzia imagens em palavras. Achei aquilo fascinante.

Fui pesquisar esse termo até então desconhecido e descobri duas coisas básicas: que a audiodescrição faz parte do campo da tradução intersemiótica e que quase ninguém sabe o que é audiodescrição (ou tradução intersemiótica). 

— Ah, são aquelas legendas que descrevem o que tá acontecendo nos filmes, né? — diziam alguns amigos, instantes antes de se darem conta de que cegos não leem legendas.

— Aquilo são legendas para surdos e ensurdecidos — explico eu. — A audiodescrição é uma faixa de áudio, como uma faixa de dublagem, só que em vez de dublar, a voz descreve as imagens. 

Isso, é claro, no caso de filmes e programas de TV. Em obras de arte, fotografias e outras imagens estáticas, ela, em geral, é uma faixa de áudio num aplicativo. E no teatro — pasmem —, ela acontece ao vivo, tal qual uma tradução simultânea. 

Aproveitei a ausência de eventos sociais da pandemia e resolvi me meter numa pós-graduação sobre o tema. Não tardou para que eu estivesse totalmente imerso nesse cativante universo.

Meu primeiro choque foi perceber o quanto eu era ignorante em relação à deficiência visual. Até então, não me lembro de ter interagido com nenhuma pessoa cega. E de repente estava ali, entendendo como elas formam imagens, como orientá-las pelo espaço, como são capazes de ter a autonomia em uma sociedade que raramente tenta incluí-las. 

— Não importa o quão evidente esteja o aviso na coleira de “não fale com o cão, ele está trabalhando”, as pessoas sempre vêm fazer carinho — me revela uma colega cega com seu cão-guia enquanto saio do metrô.

— Você segue sozinha daqui até em casa? — pergunto.

— Claro, sempre faço esse caminho — ela responde, pouco antes da porta se fechar, certamente pensando: “que pergunta imbecil.”

Para a audiodescrição audiovisual, o processo é assim: eu assisto ao vídeo, escrevo o roteiro de audiodescrição (AD, para os íntimos) já com a marcação de onde entra cada trecho, e um consultor cego assiste ao vídeo com AD para fazer suas considerações. Eu reviso o texto com base nessas considerações, e um locutor grava a versão final.

O trabalho audiovisual mais peculiar que já fiz foi um reality show. Não é exagero dizer que tudo que os participantes faziam era brigar e transar. Meu papel, portanto, era descrever as brigas e as transas e encontrar o termo perfeito para cada elemento — como, por exemplo, contas anais. 

“Juliano corre pelado cobrindo a bunda e o pau.” Ou seria “…e o pinto”? “…e o pênis”?

“Marcela chupa os seios de Patrícia.” Mas na cena ela fala “teta”. Coloco “teta”, então? “Peitos”, talvez?

— Você diz que Renata está cavalgando em Eduardo, mas ela está de frente para ele? De costas? Eles estão sob o lençol ou vemos eles nus? — questiona o consultor. 

Pode parecer um mero detalhe, mas cabe ao espectador cego entender exatamente o que acontece e o que se vê para poder julgar, por si mesmo, o valor artístico daquela obra — mesmo que seja nenhum. 

De maneira geral, a audiodescrição me coloca em contato com obras de arte que eu não conheceria não fosse por ela — seja um filme, uma exposição, uma peça.

Ao escrever os audioguias do Museu do Ipiranga, por exemplo, além de aprender sobre o conteúdo das galerias, aprendi também sobre todo processo de expografia, curadoria e toda história do museu — que, estritamente falando, é a sede do Museu Paulista. 

Teve também a experiência de assistir dezessete vezes à mesma peça musical enquanto fazia a audiodescrição ao vivo: perceber a evolução dos atores, os ajustes do diretor, as mudanças de última hora. Isso sem falar na interpretação em Libras que ocorria no palco e que me hipnotizava a cada fim de semana. Você já viu uma intérprete de Libras interpretando um rap? Eu já, e o resultado foi: hoje também faço aula de Libras. 

Já escrevi sobre o Cazuza, sobre Dom Pedro I, sobre Stranger Things, sobre moedas raras. Esta semana fiz a audiodescrição de uma exposição sobre o branco (a cor, não o homem cancelado): descobri que a crisálida do bicho-da-seda é fervida dentro do casulo e conheci um artista de um vilarejo no Japão que desenha obras de arte gigantes na neve com os pés.

A audiodescrição também me proporciona situações divertidíssimas. Certa vez, em uma pré-estreia onde fiz a AD ao vivo das ativações do saguão do cinema, um convidado que acompanhava uma mulher cega encontrou um objeto estranho no chão. Era um olho. 

— Itamara, esse olho não é seu?!

— Ué, não, né? O meu tá aqui, não tá vendo? — respondeu ela, apontando para o próprio olho.

Guardo o olho no bolso e vou em busca de um cego sem olho pelo cinema. Não encontro nenhum. “Como alguém perde um olho?!”, reflito. Ao término da sessão, Itamara se aproxima de mim, rindo.

— Filipe, lembrei: o olho é meu! Eu ando com ele na bolsa porque eu uso pra dar aula, deve ter caído quando fui pegar o celular. 

* * *

Seja divertida ou culturalmente enriquecedora, a audiodescrição faz com que eu saia de mim e me coloque no lugar do outro; faz com que eu veja o mundo com outros olhos, ainda que sejam fechados; faz com que eu use minhas habilidades para que a arte chegue a novos públicos, que percebem o universo com sentidos diferentes dos meus. Acima de tudo, faz com que eu continue sempre a me maravilhar. 

E como diz o filósofo francês Edgar Morin — que faleceu semana passada aos 104 anos —, maravilhar-se diante da vida é o que nos dá forças para resistir às crueldades do mundo.

Padrão
Cotidiano

Sonhar Acordado

Este mês fez cinco anos que o Sonhar Acordado acabou. Quer dizer, isso não é exatamente verdade: o Sonhar Acordado não acabou, estritamente falando. A ONG ainda está presente em várias cidades do Brasil, inclusive em São Paulo, onde fui voluntário por 13 anos. Mas o Sonhar Acordado como um projeto que trabalhava minhas virtudes, me aprofundava espiritualmente, reunia meus amigos e transformava a minha vida, esse, sim, acabou retumbantemente. 

A proposta do Sonhar sempre foi ousada: formar jovens voluntários — de diferentes raças, credos, realidades — em virtudes e valores, para que esses pudessem formar crianças e jovens em situação de vulnerabilidade e transformar seu entorno, criando um verdadeiro círculo virtuoso. (Viu? Ousado.) 

O Sonhar Acordado era (e ainda é) parte de um movimento católico chamado Regnum Christi, o que nos proporcionava uma grande formação espiritual — e, descobriríamos depois, polêmicas ainda maiores. Tinha (e aqui fica no passado mesmo) como princípio ser aberto a todas as pessoas, independentemente da religião, desde que estivessem alinhadas à sua missão. Nos primeiros anos, incluindo o ano em que eu entrei, bastava passar na porta para ser puxado para algum programa. Éramos algumas dezenas de jovens entre 15 e 25 anos querendo mudar o mundo falando sobre generosidade, caridade, responsabilidade… Começava com um sábado por mês, e quando percebíamos estávamos envolvidos em atividades quase diárias para organizar um evento, planejar uma festa, pintar uma instituição, construir uma capela, organizar um show. Voltávamos para casa destruídos e realizados. 

Passados os anos, a ONG cresceu. Os eventos de abertura agora tinham centenas e centenas de interessados, as vagas acabavam em instantes. Já éramos quase mil voluntários, de 15 a 35 anos, querendo debater sobre fé, verdade, prudência. 

As intenções sempre foram as melhores, mas não era preciso ser um gênio da sociologia para imaginar que uma adolescente do Ensino Médio discutindo sobre verdade com um homem 30+, num ambiente laico ma non troppo, em um período de polarização crescente, tinha tudo para dar errado. Mas, como dizem os americanos, hindsight is 20/20.

E foi justamente nesse contexto altamente instável que chegamos a twenty-twenty… e à pandemia. “Só algumas semanas, só alguns meses…” Assim passou-se um ano. Sem as crianças e os adolescentes para encontrar um sábado por mês, foram ficando apenas as discussões, as movimentações nas redes sociais (ah, as redes sociais…), a preparação para um dia que nunca chegava. Um bolo saboroso feito com muito custo que ninguém comia. Ainda assim, em 2021, quando os responsáveis pelo Sonhar Acordado de São Paulo comunicaram para alguns de nós sua ideia de encerrar as atividades, ao menos temporariamente, meu primeiro pensamento foi: “o mal venceu”. 

Em seu inusitado encontro com Dalai Lama em 2016, Lady Gaga disse: “o mal é uma cobra invisível […] que está pensando: ‘vou dividir meus inimigos em grupos pequenos e menos fortes e depois vou fazê-los odiar uns aos outros.’” Um grupo que anos antes era coeso, unido em prol de uma causa clara e profunda, agora já não se entendia mais.

Quando antes ouvíamos Avicii e discutíamos se o almoço seria cachorro-quente ou sanduíche de metro, se usaríamos cartolina ou EVA na atividade sobre esperança com a música do Aliados, a discussão agora era postar ou não postar um quadrado preto em homenagem a George Floyd para os nossos mais de 10 mil seguidores no Instagram. “Mas não temos bagagem pra falar sobre racismo!” “Mas não podemos ficar em silêncio!” “Vocês não têm lugar de fala!” “Não se posicionar é se posicionar!” “Por que não podemos fazer um post sobre o dia da visibilidade trans?” Debates intermináveis surgiam a cada efeméride, a cada acontecimento global. Séculos e séculos de rusgas entre a Igreja Católica e a sociedade emergiam e borbulhavam em meio a voluntários que, em última instância, só queriam fazer o bem aos outros (e a si mesmos). Nosso “hospital de almas” estava respirando por aparelhos. Se o mundo estava bem mais complexo que dez anos antes, por que o Sonhar não estaria? 

Assim, ficou decidido que o Sonhar Acordado de São Paulo encerraria suas atividades por tempo indeterminado, a fim de refletir sobre sua atuação naquele contexto, na esperança de voltarmos revigorados quando a pandemia acabasse — o que poderia ocorrer em um ano ou uma década, quem poderia dizer?

Em 14 de abril de 2021, o anúncio do encerramento foi feito (via Zoom, como tudo naquela época) aos diretores dos programas.

Foi um desastre. 

O que deveria ter chegado àqueles ouvidos era: “o que nós fazemos aqui todos os meses é incrível, mas está dificílimo, por isso, precisamos parar e entender o que somos capazes de dar conta e o que não, sobretudo nesse contexto tão inédito e assustador das nossas vidas.” 

Mas o que chegou foi: “o Sonhar Acordado falhou, obrigado, podem ir.”

Eu era o diretor nacional do Sonhar Acordado nessa época, e até hoje não me lembro de ter vivido dias piores do que aqueles que se seguiram. Voluntários revoltados, dirigentes frustrados, amigos inconformados. Corações entristecidos.  A nós, envolvidos na famigerada decisão, coube lidar com as ruínas daquele onze de setembro particular: ligar para as instituições, dar satisfações a voluntários desorientados, organizar a verba remanescente, limpar depósitos com objetos que até então eram essenciais. 

Mas o mais doloroso foi lidar com as redes sociais. Sob ataques de ódio a torto e a direita em fotos e postagens, nos restou mudar senhas e apagar registros de tudo que havíamos construído em mais de uma década de amor. Dezenas de festas com milhares e milhares de crianças e voluntários; dezenas de capelas construídas em quatro dias; incontáveis sonhos de crianças realizados; inúmeros eventos em museus, parques, zoológicos; crianças que viram o mar pela primeira vez de mãos dadas com um voluntário. 

Em um instante, tudo desapareceu.

Seria muita pretensão querer esgotar nestas poucas linhas tudo o que o Sonhar Acordado significou para mim e para todos os envolvidos; tudo que deu certo, tudo que deu errado. Como no término de um longo relacionamento, é difícil apontar com precisão o que levou àquele fim. O que é, sim, fácil é perceber o gosto amargo que ele deixou na boca. 

Para mim, o que adoça essa memória são as mais de 150 terças-feiras de reuniões, as centenas de eventos, as 19 capelas construídas, os valores que viraram virtudes, o poço de espiritualidade que eu cavei para beber sempre que precisar, a realização de um projeto de alfabetização e autoestima que dificilmente será superado por qualquer conquista profissional que eu venha a ter, as amizades profundas que me acompanham até hoje. E as histórias.

Em meio a tudo isso, a vida seguiu e o mundo foi acontecendo. Avicii cometeu suicídio, o vocalista da banda Aliados foi preso por tráfico de drogas, o policial condenado pela morte de George Floyd foi esfaqueado na cadeia, a polarização se calcificou. Parece que o mundo precisava mesmo trabalhar valores e virtudes…

* * *

Esta semana, escrevendo este texto, fui olhar como estavam as redes sociais do Sonhar Acordado em São Paulo, que hoje é tocado por um novo grupo de pessoas, em um novo local, atendendo a novas instituições. E para minha grata surpresa, lá estavam, ressurgidos das cinzas, aqueles álbuns que precisaram ser retirados às pressas da vista cheia de ódio daqueles cujo sabor amargo se sobrepôs a todos os outros. Passeando por essas memórias, fui ouvir aquela música do Aliados que marcou uma época do Sonhar que me enche de saudade. E por uma impressionante coincidência do universo, a música seguinte na playlist começava assim: 

“Ontem o sonho acabou, mas a vida continua e eu vou estar sorrindo. E isso não quer dizer que eu não possa mais sonhar. Preciso ser mais eu, continuar sorrindo…”

Fotos: Arquivo pessoal / “Árvore sonhadora”, design de Letícia Guerrero

Padrão
Contos

A goiaba

Não é como se Júlia não gostasse de carne. Na verdade, ela sempre adorou comer carne, sobretudo as milanesas: bife à milanesa, frango à milanesa, peixe à milanesa. Mas tudo mudou na 3ª série, quando Tia Odete levou toda a turma a uma fazendinha, e ela viu, pela primeira vez, uma vaca. Achou-a fofíssima de imediato; perguntou, inclusive, se poderia ter uma em casa, não daquele tamanho, claro, mas uma menor, “de preferência, que não crescesse muito.” Tia Odete explicou que não, que aquele não era o que chamamos de “animal doméstico”, que podemos ter em casa, como um gato, um cachorro ou um peixe: esses animais viviam soltos na natureza ou nas fazendas. 

Júlia chegou em casa determinada a pedir a seu pai que comprasse uma fazenda, só para que pudesse ter uma vaca. Foi então que seu pai, sem qualquer sensibilidade, disse que jamais seria capaz de comprar uma fazenda, sobretudo uma fazenda de gado, onde as vacas e bois eram criados para o abate. Júlia, é claro, perguntou o que era “abate”, pergunta à qual seu pai deu uma resposta detalhada, assim, à mesa de jantar, justamente enquanto comiam um delicioso bife à milanesa. Júlia saiu da mesa aos prantos sem terminar o jantar e, desde então, não conseguiu mais olhar os bifes da mesma forma. 

Já era uma vida difícil não poder comer os bifes à milanesa que ela tanto gostava, mas como era de se esperar, logo veio a curiosidade de saber de onde vinham as outras milanesas. Com medo da resposta de seu pai, resolveu perguntar diretamente à mulher que sabia de tudo, Tia Odete, que foi mais sensível ao explicar que o frango, na verdade, “vem das galinhas, bem velhinhas, que já não botam mais ovos, aí viram alimento para nós.” 

Não ajudou. Júlia já tinha visto galinhas no quintal de uma vizinha de sua avó no interior e tinha achado aqueles bichos “uma gracinha”. Agora descobria que aqueles bichinhos graciosos eram seus frangos à milanesa. Pior: Tia Odete, na tentativa de minimizar o trauma, disse que quase tudo era aproveitado, inclusive o coração. Júlia, que adorava comer coraçõezinhos nos churrascos de família, comentou:

— Eu não sabia que as galinhas tinham vários corações…

Chorou por dias quando soube que não tinham. A partir daí, não tardou para que descobrisse tudo que tinha origem animal e passasse a se alimentar exclusivamente de vegetais e afins, para a irritação de sua mãe, que precisava adaptar todos os cardápios. No começo ainda tolerava ovos, queijos e outros derivados, mas logo sentiu que manter vacas amamentando só para que nós, humanos, tomássemos seu leite já era demais.

— Nenhum outro animal precisa de leite quando cresce, muito menos de outras espécies! — bradava.

Assim, aos 18 anos já era uma vegana convicta, que não comia nem mel. Formou-se em agronomia, casou-se e foi morar no interior, na tentativa de viver uma vida menos caótica e consumir menos agrotóxicos e microplásticos. Levava os dois filhos à escola de bicicleta; lá, as crianças almoçavam legumes e verduras da horta comunitária. No caminho de volta, apanhava amoras e goiabas das árvores do bairro, dependendo da época. Julia tinha um apreço especial pela goiabeira que ficava na porta da escola, que ela dizia ter a melhor goiaba entre todas as goiabas do mundo.

Foi justamente ali, apanhando uma goiaba madura depois de deixar os filhos na aula, que Júlia teve uma interação que mudaria sua vida. O pai de uma coleguinha, vendo-a apanhar a fruta, sorriu e comentou de longe:

— Tá difícil achar uma goiaba sem bicho, né? 

Júlia sorriu de volta e respondeu:

— Sabe que eu nem olho?

Ao que ele devolveu, rindo:

— Você não é vegana, né?

Não seria exagero dizer que o tempo parou por uma fração de segundo. Júlia ficou inerte, com uma goiaba na mão e uma resposta na cabeça que não encontrava o caminho das suas cordas vocais. “Sim, eu sou vegana! Sou muito vegana! Se tem uma coisa que eu sou, é vegana!” E lá estava ela, toda vegana, segurando uma goiaba de Schrödinger, sem conseguir dizer alguma coisa ou muito menos tomar uma decisão: morder ou não morder a melhor goiaba do mundo. 

Chegou em casa minutos depois com a cesta da bicicleta lotada de goiabas e espalhou-as sobre a mesa da cozinha. Ela queria evitar aquele pensamento, mas era impossível: será que o sabor da melhor goiaba do mundo vinha… Não! 

Instantes depois, Julia tinha uma faca na mão e estava pronta para chegar ao veredicto. Abriu a primeira goiaba, e lá estavam: alvas, diminutas, disfarçadas de sementes, mas inconfundivelmente, larvas. Abriu a segunda, a terceira… sempre o mesmo resultado: larvas branquinhas fazendo um banquete da polpa avermelhada. 

Tomada por um desejo carnal incontrolável, Julia pegou uma delas e levou-a à boca, degustando-a de olhos fechados como uma verdadeira iguaria. 

Horas depois, com as dezenas de goiabas ainda esfaceladas sobre a mesa, correu para o mercadinho ao lado de casa, onde apanhou a primeira carne que viu: um pacote de salsichas. Não conseguiu esperar chegar em casa e comeu-as cruas, depois de rasgar o plástico que as envolvia com os dentes. Naquela mesma noite, insistiu em levar marido e filhos a uma churrascaria, onde se deliciou, sobretudo, com os corações de galinha. 

A partir daquele dia, nunca mais foi a mesma. Não tardou até que decidisse se mudar para a cidade grande. “Não dá pra viver numa cidade que não tem McDonald’s, Marco Antônio!”, exclamava. Mudaram-se para São Paulo meses depois, para um prédio ao lado de um Madero. Descobriu na cidade onde servem o melhor foie gras e, claro, o melhor bife à milanesa.

Hoje Júlia trabalha na Syngenta, garantindo a máxima eficácia dos defensivos agrícolas, que, segundo ela, “são a solução para acabar com a fome do mundo.” Diz que é feliz.

* * *

Dedicado a Débora De Maio, que não é vegana, mas mudou-se para o interior e come as goiabas da porta da escola sem medo de ser feliz.

Foto: depositphotos.com / taciophilip

Padrão
Cotidiano

As oportunidades de ser gentil

No fim do ano passado, fui ao show do Imagine Dragons no Estádio do Morumbi com meu namorado e duas amigas. Chegamos não muito antes do início do show, e como nossos ingressos eram para a arquibancada superior, o desafio era encontrar quatro assentos juntos. Embrenhamo-nos em meio aos espectadores mais pontuais, pisamos em alguns pés e finalmente encontramos alguns assentos vagos, mas separados. Numa fileira havia dois assentos vazios — um deles molhado pela chuva recente — com um casal entre eles. Prontamente o casal se ofereceu para pular uma cadeira. Eles ocuparam o assento seco, eu sequei o assento molhado com minha capa de chuva e, voilá, dois assentos juntos. Logo acima, um pouco à esquerda, mais dois assentos vazios. Perfeito. Sentamos, Jeff e eu, nos assentos de baixo, e elas, diagonalmente, nos assentos de cima. Bem atrás de nós (portanto, ao lado de nossas amigas) um casal de garotas conversava animadamente, até que, pipoca vem, refrigerante vai, nos demos conta do óbvio: podemos pedir para trocar de lugar com elas, afinal, tecnicamente, nossos assentos são melhores. Educamente perguntamos se elas não gostariam de vir para frente para que pudéssemos nos juntar às nossas amigas. Para nossa surpresa, a resposta foi:

— Não. Tamo de boa.

Surpresos, Jeff e eu nos voltamos para as luzes que se acendiam sobre o vocalista descamisado no palco e assim, diagonalmente às nossas amigas, assistimos ao show que acabava de começar, não sem antes ouvir o comentário (nem tão) de canto de boca entre elas:

— Chegaram em cima da hora e ainda querem sentar juntos? Problema deles!

Antes de mais nada quero dizer que elas estavam inteiramente no direito delas: chegaram antes, ocuparam o assento que queriam e não tinham nenhuma obrigação de sair de lá. Mas minha questão não é com o direito, com a justiça, é algo mais simples, mais social. Que desperdício de uma oportunidade de ser gentil! 

Esse episódio me fez lembrar de outra situação, muitos anos atrás, em uma época em que os cinemas não tinham lugares marcados (!). Entrei na sala lotada com uma amiga durante os trailers e, na última fileira, havia dois assentos livres, bem no centro, com uma garota sozinha entre eles. Nos aproximamos, pipoca e refrigerante em mãos, e perguntamos se ela poderia pular uma cadeira, já certos de uma resposta afirmativa. Mas o que veio foi:

— Não. É que gosto de sentar EXATAMENTE no meio — disse, enquanto fuçava no celular.

Chocados, nos sentamos um de cada lado, em um esforço hercúleo para conter o riso. Como a gente vai dividir a pipoca agora?! AI DELA FICAR COM ESSE CELULAR LIGADO QUANDO O FILME COMEÇAR! Um casal à minha esquerda, divertindo-se com a situação, aproveitou a oportunidade de ser gentil que a garota central havia desperdiçado e se ofereceu para pular um assento, de forma que conseguíssemos sentar juntos em outra parte da fileira. Tão simples, tão grátis. 

Outra oportunidade se deu uns meses atrás, quando fui assistir à apresentação do coral da USP no Teatro Sesi. Durante a apresentação, alguns dos coralistas faziam solos, entre eles, uma mulher branca, magra e alta, de rosto jovem e cabelos grisalhos na altura dos ombros. Como total leigo no mundo musical, posso dizer que todos os solos foram muito agradáveis, sobretudo o dela: um solo suave, confiante, preciso. Logo depois da apresentação, já na Avenida Paulista, me percebi caminhando ao lado dela, que conversava com um casal que eu deduzi serem seus pais.

— Nossa, é sempre assim, na hora do solo eu fico tão nervosa!

Eu queria virar para ela e dizer que estava sentado na primeira fila, a poucos metros dela, e que o solo foi perfeito, e que ninguém diria que ela estava nervosa. Mas o farol abriu e eu atravessei a rua. A oportunidade de ser gentil veio, mas eu desperdicei.  

Anos antes, fui mais sagaz. Novamente no cinema, dessa vez para assistir à pré-estreia do filme Click, eu tinha dois pares de ingresso promocionais, que ainda davam direito a pipoca e refrigerante. Com um dos pares prestes a ir para o lixo, pouco antes da sessão começar me aproximei de um casal que debatia (discutia?) sobre qual filme veriam. Eu disse que tinha ingressos para o Click, com pipoca e refrigerante, e que iam morrer na minha mão. Ele se empolgou; ela, não muito, mas cedeu. Ele sacou a carteira.

— Quanto é?

— Não, é de graça. Eu ganhei os ingressos, estou te dando também.

Eles se olharam incrédulos e finalmente abriram um sorriso: a noite estava a salvo. 

Aqui vale fazer outra ressalva: não estou defendendo a perigosíssima máxima “seja legal e as pessoas vão gostar de você”. O ponto não é se anular ou mesmo desviar do seu caminho para agradar o outro. Me refiro às breves relações sociais do dia a dia, os desconhecidos que a gente encontra no elevador, no metrô, no restaurante (e, claro, no cinema); me refiro a lançar mão da gentileza quando a oportunidade cai, assim, no seu colo. 

Alguém quer se enfiar na sua frente no trânsito, furando uma fila, você pode assumir que é um arrombado folgado ou alguém desesperado para chegar ao hospital (eu mesmo já fui os dois), mas você provavelmente nunca vai saber a resposta. Por que não assumir o melhor?

Tantas das nossas interações diárias são com desconhecidos que impactam pouco ou nada na nossa vida, cuja opinião nos é irrelevante e provavelmente não veremos novamente. Por que não ser gentil? É bom para o outro, claro, mas também é bom para nós, senão, por que razão doar um par de ingressos extras ainda estaria na minha memória vinte anos depois?

* * *

Nas inúmeras vezes em que esteve internado, meu pai insistia em ser gentil com todos que passavam no quarto. Se uma dupla de médicos entrava às seis da manhã com uma parafernália enorme para tirar um raio-x, ele sorria e dizia:

— Opa! Vieram tirar uma foto minha?

Ele não estava tentando agradar, buscando aprovação nem nada do tipo. Ele estava simplesmente sendo gentil. Talvez, do alto de seus 96 anos ele já soubesse muito bem que ser gentil é bom para a vida de todo mundo, ainda que da dele já não restasse muito mais.

Foto: O Globo

Padrão
Cotidiano, família, viagem

2025 foi embora com o mar

Eu não costumo passar a virada de ano na praia. Em 42 anos, esta deve ter sido a sexta ou sétima vez que terminei o ano olhando para os fogos no mar. Na última virada, por exemplo, entre uma alta hospitalar do meu pai na noite de Natal e uma nova internação no início de janeiro, passei o réveillon com vista para a Marginal Pinheiros, em uma festa que me fez dormir durante todo o primeiro dia do ano. Era como se eu descansasse para tudo que viria a ocorrer no ano que começava.

Pisquei, e já era dezembro. O plano de ser fitness tinha sido abandonado em fevereiro, mas ainda assim continuei firme nas aulas de pilates e de circo, onde reencontrei uma dupla de estripolias. Juntos nos arrastamos duas vezes por semana às 7h da manhã para ficarmos de ponta cabeça num trapézio. Quem teve essa ideia? Quantos anos a gente acha que tem?! Agora é tarde, já pagamos a apresentação.

O circo não era a única oportunidade de humilhação pública. Tinha também o teatro. Aquele que até então era meu refúgio de sanidade mental agora me exigia ensaios mais constantes à medida que a data de apresentação se aproximava. Por que eu quis fazer um personagem que não cala a boca em uma peça de duas horas? Seria para compensar as aulas de Libras que também inventei de fazer esse ano, onde passo quase três horas por semana em silêncio? 

Entraram na rotina também novos trâmites burocráticos. Percebi que não sabia nada dessas coisas financeiras/tributárias da vida adulta (isso que dá ficar anos estudando a Jornada do Herói e como contar histórias). A solução? Fazer uma faculdade de contabilidade, online, rapidinho. Quatro anos passam assim, num instante!

Poderia ser o suficiente, mas o dia a dia da casa estava tranquilo demais com um gato de cinco anos, altamente adaptado e comportado. Logo, resolvemos adotar outro, adicionando ao mix noites mal dormidas com uma gatinha fechada no banheiro. 

Foi nesse espírito que chegamos ao fim do ano. Minha irmã sugeriu, “vamos pra Ilhabela?” Bora! Mas essa pousada ninguém conhece, tem nota 2 de avaliação. Só tem essa. Bora! Não dá mais pra reservar a balsa. Bora! Faz 40 graus de dia e cai o mundo à noite. Bora? Bora!

Embora fomos, cinco adultos, duas crianças, uma idosa e um sonho: entrar em 2026 um pouco mais leves e mais bronzeados. A configuração de pessoas exigia um mínimo de planejamento, como, por exemplo, um local específico para passar o momento da virada, mas decidimos ser mais aventureiros. Ano novo, vida nova. 

E este, no fim das contas, foi o resumo perfeito de 2025: crianças, velhos e adultos vivendo juntos sem planejamento, sem expectativas, um dia de cada vez, tentando fazer as melhores caipirinhas com os limões que apareciam — quando apareciam. Era como os ovos do café da manhã da pousada: alguns dias estavam lá, outros não, porque não chegaram de Caraguatatuba, e então nos virávamos com o pão de queijo (mas só se chegássemos cedo, caso contrário, já teriam acabado.) 

As praias também foram como 2025: lindas, mas acessíveis só depois de algum sofrimento (fosse o calor, o trânsito ou a lotação). Idem a virada de ano, que não prometia nada: uma festa num shopping (?), depois de uma chuva que fez todos trocarem seus looks e seguirem pelas ruas sem calçadas dividindo guarda-chuvas e capas de plástico. Mas que, no fim das contas, entregou tudo: música, fogos, comida, bebida… E a lembrança de que esse foi o último ano que meu pai viveu — e que nós seguimos aqui, navegando pelo caos incontrolável e maravilhoso que é viver.  

Imagem gerada por IA

Padrão
Cotidiano

SEO, a seu dispor

Recentemente comecei a escrever artigos sobre o mercado publicitário, tendências de mídia e outros conteúdos que certamente vão me render palminhas no LinkedIn. É um estilo diferente do que estou habituado, mas que não deixa de ser prazeroso. E é sempre bom entender o mercado onde se atua.

A questão, porém, é que, diferentemente das crônicas que costumo escrever, esses textos precisam passar pela aprovação de um poderoso capataz: o SEO.

Confesso que não me preocupo com a “otimização em mecanismos de buscas” há muito tempo — se é que já me preocupei em algum momento. Em 2015 cheguei a fazer um curso sobre o tema, mas que nunca chegou a ser relevante no meu dia a dia. Corta para: dez anos depois. A batalha “humanos versus algoritmos” corre solta e é preciso usar todas as armas para ser visto e considerado relevante nas redes. Uma dessas armas é um farolzinho verde que indica que o texto presta — pelo menos no que diz respeito ao SEO.

Para isso, primeiro é preciso definir uma “frase-chave de foco”. Digamos, a título de exemplo, que a frase-chave de foco deste texto seja “benefícios do SEO”. Isso significa que o termo benefícios do SEO precisa aparecer algumas vezes na publicação, e de forma relevante. Portanto, não adianta apenas lançar benefícios do SEO ao vento: é preciso usar o termo benefícios do SEO dentro de um contexto. E nada de usar sinônimos de benefícios do SEO! Talvez o termo benefícios do SEO esteja te irritando ao final do texto? Talvez. Mas, paciência. O texto é sobre benefícios do SEO, então sobre benefícios do SEO falaremos.  

É importante ter subtítulos

Sim, porque, como diz o título do artigo da argentina Leticia Martin, que viralizou recentemente, ninguém lê nada, logo, é preciso deixar o texto em blocos pequenos e as frases, curtas, tudo bem palatável. Esta frase que você acabou de ler, aliás, está longa demais. Para que seja aprovada pelo SEO, é preciso quebrá-la em períodos menores. Vamos tentar de novo. Um artigo da argentina Leticia Martin viralizou recentemente. O artigo chama-se ninguém lê nada. Usando esse título como inspiração, poderíamos dizer, por exemplo, que deixar o texto em blocos pequenos e as frases mais curtas facilita a leitura. (Esta última foi no limite! Mais uma única palavra e a luzinha vermelha acenderia.) Mas agora temos dois novos problemas: o uso excessivo da voz passiva e a falta de palavras de transição. Nesse caso, para corrigi-lo, seria preciso — digo, eu precisaria — voltar no texto acima e substituir alguns “é preciso” por uns “precisamos”. Outrossim, precisaria inserir alguns conectores, como “outrossim”, “nesse caso”, ou “afinal”, afinal, quem seria capaz de fazer essas conexões sozinho? Contudo, surge aí um terceiro problema: o parágrafo ficou longo demais.

Ó, céus. 

A frase-chave de foco, como “benefícios do SEO”, precisa estar no subtítulo

Não apenas no subtítulo, mas também no parágrafo de introdução. Afinal, ninguém vai perder tempo lendo seu texto se não souber, já nas frases iniciais, sobre o que você está falando. Nada de suspense! Aliás, a construção “não apenas / mas também” também está com os dias contados, já que virou a queridinha das IAs — juntamente com esse aí de trás: o travessão. 

Mas o SEO não está só no texto. É importante que a publicação tenha imagens. Como dizia nosso ex-presidente, tem muita coisa escrita nas publicações atuais. Um absurdo. 

Esses links acima também não são por acaso: links externos são fundamentais para um bom SEO. Links internos também, então aproveita e dá uma olhada na minha página de contos.

Por fim, há também a meta descrição: aquele texto curto que aparece sob o título da página nas buscas do Google e que, é claro, precisa ter a frase-chave de foco, no caso, benefícios do SEO. 

Prontinho! Agora é só escolher um título e publicar. Mas nada de um título muito longo, como “Como as regras de SEO estão matando a originalidade das publicações e transformando a internet num depósito de textos padronizados”.

Texto revisado, imagens e links inseridos, luzes verdes no SEO. Quem precisa de IA quando nós mesmos podemos escrever como máquinas?

Imagens geradas por IA

Padrão
cinema

O natimorto

Ouça o texto na voz do autor

Quando me perguntam sobre o que eu escrevo, a resposta não vem de forma rápida, muito menos óbvia. Dez anos atrás, respondia essa pergunta dizendo que escrevia sobre personagens que não querem estar onde estão, que passam por uma jornada geográfica para completar sua jornada dramática. Recentemente descobri, quase sem querer, que sempre gostei de escrever sobre o extraordinário no cotidiano, ou sobre o cotidiano no extraordinário. Mas em 2007, quando terminei o primeiro tratamento de Do outro lado da lua (que ainda se chamava Sixteen light-years away), percebi que o assunto sobre o qual escrevia era a morte. O que eu não sabia é que o filme, assim como um de seus personagens, iria morrer na praia.

Um professor meu dizia que o fato de um filme existir — qualquer filme — é praticamente um milagre: é preciso uma história que tenha um mínimo de coerência, muitas pessoas que queiram dar vida a ela e mais outras que queiram fazer aquela história chegar a ainda mais pessoas. E muito dinheiro. Cabia a mim, a princípio, a primeira parte da equação. Ao som de Bryan Adams, os tratamentos se desdobravam em três línguas, e dezenas de páginas ganhavam tração. Do outro lado da lua venceu o prêmio Ibermedia de desenvolvimento, foi selecionado para o Laboratório Novas Histórias do SESC, para o laboratório da Spcine, para o mercado de coprodução do Festival de San Sebastián e — quem diria! — do Festival de Cannes. Em 2018, depois de mais de uma década de trabalho, o projeto foi contemplado por um edital em Santa Catarina que disponibilizava mais de um milhão de reais para que o filme fosse realizado. Parecia que o milagre da Sétima Arte iria, enfim, acontecer.

As filmagens ocorreram em outubro daquele ano, no Canto Grande, na casa do diretor/produtor do filme, onde pude acompanhar os últimos dias de ensaios e os primeiros dias de gravação. Um trio de argentinos, pais e filhos na vida real, deram vida aos irmãos Luiz e Francisco e a seu pai, Jorge; a queridíssima Paula Braun fez a mãe dilacerada pela perda de um filho; a brilhante Denise Weinberg foi a avó do garoto; e a Ivo Müller, que viraria um amigo e parceiro de escrita, coube interpretar Antonio, o pai da garotinha que deu nome ao curta-metragem e à serie infantil derivados do filme: Valentina.

Ver personagens e lugares que só existiam na imaginação ganharem vida é uma experiência única. As roupas, os desenhos que o protagonista faz; alguém preparou um salmão porque o roteiro pedia. Depois tiveram os elementos que o acaso trouxe para o filme: o pequeno lago onde os peixes garra rufa faziam um tratamento de pele nos pés; a grande pedra sob a casa que virou parte do cenário. São as pequenas belezas que brotam junto ao florescer de um filme.

Mas a partir daí as flores começaram a murchar. Soube que o clima das filmagens foi degringolando e que boa parte da equipe rompeu com diretor ao término das gravações — inclusive eu. Com as relações pessoais cortadas, começou uma eterna espera por aquele que seria o primeiro corte. “Estamos editando” deu lugar a “falta dinheiro para finalizar”, que deu lugar a um silêncio sepulcral. Até que veio a pandemia e enterrou de vez o bebê que não conseguiu nascer — ou que sufocaram no parto.

A verdade é que nunca soube, de fato, o destino do filme. A cena de Francisco correndo na praia, de Antonio observando uma tempestade de raios, de Valentina mergulhando sob o barco de pesca, ficaram apenas no papel e na imaginação. E talvez perdidas em algum HD. Também é um mistério o destino do valor milionário arrecadado para a produção, que certamente exigiu uma prestação de contas ao governo — incluindo a entrega de um filme finalizado e exibido em circuito comercial.

Na minha ficção — afinal este é meu trabalho: criar realidades — Do outro lado da lua um dia será resgatado de algum arquivo público, algum HD abandonado. Veículos especializados noticiarão o ressurgimento acidental da famigerada obra perdida; técnicos conseguirão recuperar as imagens e editores-arqueólogos recriarão a história inacabada criada décadas antes.

Como disse Denise Fraga em O que só sabemos juntos: “O meu futuro imaginado, também não faz parte da minha memória? Não são as minhas lembranças do futuro que me dão hoje a saudade do que eu não vivi?”

Saudades, Do outro lado, saudades…

Padrão
Cotidiano

Carros 2

Talvez ninguém mais se lembre, mas houve um tempo em que para ir a algum lugar de carro era preciso, de fato, saber o caminho. Google Maps, Waze e afins eram, no máximo, uma ideia futurista, e para chegar a algum lugar desconhecido era necessário checar um guia físico de ruas e seguir quadrantes ordenados por mais de trezentas páginas — como faziam os Incas.

Pouco antes de tirar minha habilitação, um pequeno trauma envolvendo uma discreta perseguição com um policial disfarçado de agente de trânsito pelas ruas de Osasco me tornou um verdadeiro ás dos guias de rua: me perder não era uma opção.

— Nossa casa está na página 248, quadrante B3. Para chegar à Av. Rebouças, siga para a página 179 — eu podia anunciar, de cor.

Já habilitado, tive de desenvolver temporariamente a habilidade de dirigir um Fiat Uno que sempre morria na mesma curva, voltando do cursinho. “É normal,” dizia meu pai. Porém, uma habilidade permanente adquirida desde os aventureiros tempos de autoescola foi a de fazer baliza. O terror da maioria dos novos motoristas sempre foi minha zona de conforto. Era ver aqueles cabos de vassoura fincados em latas de cimento e ter a certeza de que eu estava no controle. Os cabos de vassoura logo viraram faróis e para-choques, e lá estava eu colocando meu Picanto em qualquer buraco. Ah, a juventude!

Certa vez estacionei o carro em frente a uma escola onde teríamos um evento. Uma amiga chegou logo depois, um pouco tensa:

— Fi, acho que você não vai conseguir tirar seu carro. Tem dois carros esmagando você!

— Fui eu que coloquei ele lá — disse eu, com um sorriso maroto.

Anos depois, a caminho da aula de circo, encontro uma vaga perfeita em frente a uma padaria. Seguro de minhas habilidades balizadoras, emparelho meu carro ao lado de um Polo branco e engato a marcha à ré, na expectativa de encaixar meu Palio entre o Polo e uma Spin preta que já viu dias melhores. Longos minutos depois percebo que meu golpe de vista talvez tenha sido equivocado e que a vaga quiçá fosse mais apropriada a um Cinquecento… ou uma moto. Um funcionário da padaria se aproxima com o mesmo olhar preocupado da minha amiga anos antes.

— Ih, prenderam você, né? Peraí um instantinho que vou chamar o Gilmar pra—

— Não, não! — interrompo — Eu estou estacionando.

— Vixe…

Gilmar vem lá de dentro e espia enquanto eu giro o volante freneticamente. A essa altura, é melhor terminar de estacionar do que desistir, penso — nem que para isso eu precise abrir um pouco de espaço.

— Bate um pouco no da frente pra variar! — grita Gilmar, quem eu deduzo ser o dono da Spin.

Termino a empreitada com o carro ligeiramente na diagonal e desço sem encarar o grupo que se forma na padaria. Chego à aula já aquecido! Na próxima hora eu deveria focar em não despencar de um trapézio, mas minha preocupação é uma só: como é que eu vou tirar o carro dali?!

Volto para a cena do crime e a saga recomeça, movendo o carro um centímetro por vez, até que Gilmar finalmente sai da padaria, emputecido, e finalmente dá ré na sua Spin.

POR QUE ELE ESPEROU QUE EU VOLTASSE E MANOBRASSE O CARRO POR DEZESSETE MINUTOS PRA FAZER ISSO?!

Então me coloco no lugar de Gilmar: se um idiota sem noção de espaço viesse empurrar meu carro com pequenas batidinhas para estacionar o dele eu também iria querer vê-lo sofrer, torcendo até mesmo por uma direção mecânica e um ar-condicionado quebrado. Compadecido, abro o vidro na esperança de pedir desculpas e dizer que me responsabilizo por eventuais danos ao carro dele. Mas já é tarde. Gilmar já bateu a porta e voltou para a padaria, ocupado demais para ouvir minhas desculpas e entretido demais com seu mais novo hobby: me odiar.

Foto: Arquivo pessoal

Padrão