Não é como se Júlia não gostasse de carne. Na verdade, ela sempre adorou comer carne, sobretudo as milanesas: bife à milanesa, frango à milanesa, peixe à milanesa. Mas tudo mudou na 3ª série, quando Tia Odete levou toda a turma a uma fazendinha, e ela viu, pela primeira vez, uma vaca. Achou-a fofíssima de imediato; perguntou, inclusive, se poderia ter uma em casa, não daquele tamanho, claro, mas uma menor, “de preferência, que não crescesse muito.” Tia Odete explicou que não, que aquele não era o que chamamos de “animal doméstico”, que podemos ter em casa, como um gato, um cachorro ou um peixe: esses animais viviam soltos na natureza ou nas fazendas.
Júlia chegou em casa determinada a pedir a seu pai que comprasse uma fazenda, só para que pudesse ter uma vaca. Foi então que seu pai, sem qualquer sensibilidade, disse que jamais seria capaz de comprar uma fazenda, sobretudo uma fazenda de gado, onde as vacas e bois eram criados para o abate. Júlia, é claro, perguntou o que era “abate”, pergunta à qual seu pai deu uma resposta detalhada, assim, à mesa de jantar, justamente enquanto comiam um delicioso bife à milanesa. Júlia saiu da mesa aos prantos sem terminar o jantar e, desde então, não conseguiu mais olhar os bifes da mesma forma.
Já era uma vida difícil não poder comer os bifes à milanesa que ela tanto gostava, mas como era de se esperar, logo veio a curiosidade de saber de onde vinham as outras milanesas. Com medo da resposta de seu pai, resolveu perguntar diretamente à mulher que sabia de tudo, Tia Odete, que foi mais sensível ao explicar que o frango, na verdade, “vem das galinhas, bem velhinhas, que já não botam mais ovos, aí viram alimento para nós.”
Não ajudou. Júlia já tinha visto galinhas no quintal de uma vizinha de sua avó no interior e tinha achado aqueles bichos “uma gracinha”. Agora descobria que aqueles bichinhos graciosos eram seus frangos à milanesa. Pior: Tia Odete, na tentativa de minimizar o trauma, disse que quase tudo era aproveitado, inclusive o coração. Júlia, que adorava comer coraçõezinhos nos churrascos de família, comentou:
— Eu não sabia que as galinhas tinham vários corações…
Chorou por dias quando soube que não tinham. A partir daí, não tardou para que descobrisse tudo que tinha origem animal e passasse a se alimentar exclusivamente de vegetais e afins, para a irritação de sua mãe, que precisava adaptar todos os cardápios. No começo ainda tolerava ovos, queijos e outros derivados, mas logo sentiu que manter vacas amamentando só para que nós, humanos, tomássemos seu leite já era demais.
— Nenhum outro animal precisa de leite quando cresce, muito menos de outras espécies! — bradava.
Assim, aos 18 anos já era uma vegana convicta, que não comia nem mel. Formou-se em agronomia, casou-se e foi morar no interior, na tentativa de viver uma vida menos caótica e consumir menos agrotóxicos e microplásticos. Levava os dois filhos à escola de bicicleta; lá, as crianças almoçavam legumes e verduras da horta comunitária. No caminho de volta, apanhava amoras e goiabas das árvores do bairro, dependendo da época. Julia tinha um apreço especial pela goiabeira que ficava na porta da escola, que ela dizia ter a melhor goiaba entre todas as goiabas do mundo.
Foi justamente ali, apanhando uma goiaba madura depois de deixar os filhos na aula, que Júlia teve uma interação que mudaria sua vida. O pai de uma coleguinha, vendo-a apanhar a fruta, sorriu e comentou de longe:
— Tá difícil achar uma goiaba sem bicho, né?
Júlia sorriu de volta e respondeu:
— Sabe que eu nem olho?
Ao que ele devolveu, rindo:
— Você não é vegana, né?
Não seria exagero dizer que o tempo parou por uma fração de segundo. Júlia ficou inerte, com uma goiaba na mão e uma resposta na cabeça que não encontrava o caminho das suas cordas vocais. “Sim, eu sou vegana! Sou muito vegana! Se tem uma coisa que eu sou, é vegana!” E lá estava ela, toda vegana, segurando uma goiaba de Schrödinger, sem conseguir dizer alguma coisa ou muito menos tomar uma decisão: morder ou não morder a melhor goiaba do mundo.
Chegou em casa minutos depois com a cesta da bicicleta lotada de goiabas e espalhou-as sobre a mesa da cozinha. Ela queria evitar aquele pensamento, mas era impossível: será que o sabor da melhor goiaba do mundo vinha… Não!
Instantes depois, Julia tinha uma faca na mão e estava pronta para chegar ao veredicto. Abriu a primeira goiaba, e lá estavam: alvas, diminutas, disfarçadas de sementes, mas inconfundivelmente, larvas. Abriu a segunda, a terceira… sempre o mesmo resultado: larvas branquinhas fazendo um banquete da polpa avermelhada.
Tomada por um desejo carnal incontrolável, Julia pegou uma delas e levou-a à boca, degustando-a de olhos fechados como uma verdadeira iguaria.
Horas depois, com as dezenas de goiabas ainda esfaceladas sobre a mesa, correu para o mercadinho ao lado de casa, onde apanhou a primeira carne que viu: um pacote de salsichas. Não conseguiu esperar chegar em casa e comeu-as cruas, depois de rasgar o plástico que as envolvia com os dentes. Naquela mesma noite, insistiu em levar marido e filhos a uma churrascaria, onde se deliciou, sobretudo, com os corações de galinha.
A partir daquele dia, nunca mais foi a mesma. Não tardou até que decidisse se mudar para a cidade grande. “Não dá pra viver numa cidade que não tem McDonald’s, Marco Antônio!”, exclamava. Mudaram-se para São Paulo meses depois, para um prédio ao lado de um Madero. Descobriu na cidade onde servem o melhor foie gras e, claro, o melhor bife à milanesa.
Hoje Júlia trabalha na Syngenta, garantindo a máxima eficácia dos defensivos agrícolas, que, segundo ela, “são a solução para acabar com a fome do mundo.” Diz que é feliz.
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Dedicado a Débora De Maio, que não é vegana, mas mudou-se para o interior e come as goiabas da porta da escola sem medo de ser feliz.
Foto: depositphotos.com / taciophilip
