Símbolo da auidodescrição em branco sobre fundo laranja
cinema, Cotidiano

A arte de traduzir a arte

Eu conheci a audiodescrição totalmente sem querer. Certo dia, conversando com um ator que participava do mesmo projeto social que eu, ele comentou que trabalhava com audiodescrição de quadros. Quando eu disse que não tinha a menor ideia do que era audiodescrição, ele me explicou que era um recurso de acessibilidade para pessoas com deficiência visual. Basicamente, ele traduzia imagens em palavras. Achei aquilo fascinante.

Fui pesquisar esse termo até então desconhecido e descobri duas coisas básicas: que a audiodescrição faz parte do campo da tradução intersemiótica e que quase ninguém sabe o que é audiodescrição (ou tradução intersemiótica). 

— Ah, são aquelas legendas que descrevem o que tá acontecendo nos filmes, né? — diziam alguns amigos, instantes antes de se darem conta de que cegos não leem legendas.

— Aquilo são legendas para surdos e ensurdecidos — explico eu. — A audiodescrição é uma faixa de áudio, como uma faixa de dublagem, só que em vez de dublar, a voz descreve as imagens. 

Isso, é claro, no caso de filmes e programas de TV. Em obras de arte, fotografias e outras imagens estáticas, ela, em geral, é uma faixa de áudio num aplicativo. E no teatro — pasmem —, ela acontece ao vivo, tal qual uma tradução simultânea. 

Aproveitei a ausência de eventos sociais da pandemia e resolvi me meter numa pós-graduação sobre o tema. Não tardou para que eu estivesse totalmente imerso nesse cativante universo.

Meu primeiro choque foi perceber o quanto eu era ignorante em relação à deficiência visual. Até então, não me lembro de ter interagido com nenhuma pessoa cega. E de repente estava ali, entendendo como elas formam imagens, como orientá-las pelo espaço, como são capazes de ter a autonomia em uma sociedade que raramente tenta incluí-las. 

— Não importa o quão evidente esteja o aviso na coleira de “não fale com o cão, ele está trabalhando”, as pessoas sempre vêm fazer carinho — me revela uma colega cega com seu cão-guia enquanto saio do metrô.

— Você segue sozinha daqui até em casa? — pergunto.

— Claro, sempre faço esse caminho — ela responde, pouco antes da porta se fechar, certamente pensando: “que pergunta imbecil.”

Para a audiodescrição audiovisual, o processo é assim: eu assisto ao vídeo, escrevo o roteiro de audiodescrição (AD, para os íntimos) já com a marcação de onde entra cada trecho, e um consultor cego assiste ao vídeo com AD para fazer suas considerações. Eu reviso o texto com base nessas considerações, e um locutor grava a versão final.

O trabalho audiovisual mais peculiar que já fiz foi um reality show. Não é exagero dizer que tudo que os participantes faziam era brigar e transar. Meu papel, portanto, era descrever as brigas e as transas e encontrar o termo perfeito para cada elemento — como, por exemplo, contas anais. 

“Juliano corre pelado cobrindo a bunda e o pau.” Ou seria “…e o pinto”? “…e o pênis”?

“Marcela chupa os seios de Patrícia.” Mas na cena ela fala “teta”. Coloco “teta”, então? “Peitos”, talvez?

— Você diz que Renata está cavalgando em Eduardo, mas ela está de frente para ele? De costas? Eles estão sob o lençol ou vemos eles nus? — questiona o consultor. 

Pode parecer um mero detalhe, mas cabe ao espectador cego entender exatamente o que acontece e o que se vê para poder julgar, por si mesmo, o valor artístico daquela obra — mesmo que seja nenhum. 

De maneira geral, a audiodescrição me coloca em contato com obras de arte que eu não conheceria não fosse por ela — seja um filme, uma exposição, uma peça.

Ao escrever os audioguias do Museu do Ipiranga, por exemplo, além de aprender sobre o conteúdo das galerias, aprendi também sobre todo processo de expografia, curadoria e toda história do museu — que, estritamente falando, é a sede do Museu Paulista. 

Teve também a experiência de assistir dezessete vezes à mesma peça musical enquanto fazia a audiodescrição ao vivo: perceber a evolução dos atores, os ajustes do diretor, as mudanças de última hora. Isso sem falar na interpretação em Libras que ocorria no palco e que me hipnotizava a cada fim de semana. Você já viu uma intérprete de Libras interpretando um rap? Eu já, e o resultado foi: hoje também faço aula de Libras. 

Já escrevi sobre o Cazuza, sobre Dom Pedro I, sobre Stranger Things, sobre moedas raras. Esta semana fiz a audiodescrição de uma exposição sobre o branco (a cor, não o homem cancelado): descobri que a crisálida do bicho-da-seda é fervida dentro do casulo e conheci um artista de um vilarejo no Japão que desenha obras de arte gigantes na neve com os pés.

A audiodescrição também me proporciona situações divertidíssimas. Certa vez, em uma pré-estreia onde fiz a AD ao vivo das ativações do saguão do cinema, um convidado que acompanhava uma mulher cega encontrou um objeto estranho no chão. Era um olho. 

— Itamara, esse olho não é seu?!

— Ué, não, né? O meu tá aqui, não tá vendo? — respondeu ela, apontando para o próprio olho.

Guardo o olho no bolso e vou em busca de um cego sem olho pelo cinema. Não encontro nenhum. “Como alguém perde um olho?!”, reflito. Ao término da sessão, Itamara se aproxima de mim, rindo.

— Filipe, lembrei: o olho é meu! Eu ando com ele na bolsa porque eu uso pra dar aula, deve ter caído quando fui pegar o celular. 

* * *

Seja divertida ou culturalmente enriquecedora, a audiodescrição faz com que eu saia de mim e me coloque no lugar do outro; faz com que eu veja o mundo com outros olhos, ainda que sejam fechados; faz com que eu use minhas habilidades para que a arte chegue a novos públicos, que percebem o universo com sentidos diferentes dos meus. Acima de tudo, faz com que eu continue sempre a me maravilhar. 

E como diz o filósofo francês Edgar Morin — que faleceu semana passada aos 104 anos —, maravilhar-se diante da vida é o que nos dá forças para resistir às crueldades do mundo.

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