Este mês fez cinco anos que o Sonhar Acordado acabou. Quer dizer, isso não é exatamente verdade: o Sonhar Acordado não acabou, estritamente falando. A ONG ainda está presente em várias cidades do Brasil, inclusive em São Paulo, onde fui voluntário por 13 anos. Mas o Sonhar Acordado como um projeto que trabalhava minhas virtudes, me aprofundava espiritualmente, reunia meus amigos e transformava a minha vida, esse, sim, acabou retumbantemente.
A proposta do Sonhar sempre foi ousada: formar jovens voluntários — de diferentes raças, credos, realidades — em virtudes e valores, para que esses pudessem formar crianças e jovens em situação de vulnerabilidade e transformar seu entorno, criando um verdadeiro círculo virtuoso. (Viu? Ousado.)
O Sonhar Acordado era (e ainda é) parte de um movimento católico chamado Regnum Christi, o que nos proporcionava uma grande formação espiritual — e, descobriríamos depois, polêmicas ainda maiores. Tinha (e aqui fica no passado mesmo) como princípio ser aberto a todas as pessoas, independentemente da religião, desde que estivessem alinhadas à sua missão. Nos primeiros anos, incluindo o ano em que eu entrei, bastava passar na porta para ser puxado para algum programa. Éramos algumas dezenas de jovens entre 15 e 25 anos querendo mudar o mundo falando sobre generosidade, caridade, responsabilidade… Começava com um sábado por mês, e quando percebíamos estávamos envolvidos em atividades quase diárias para organizar um evento, planejar uma festa, pintar uma instituição, construir uma capela, organizar um show. Voltávamos para casa destruídos e realizados.
Passados os anos, a ONG cresceu. Os eventos de abertura agora tinham centenas e centenas de interessados, as vagas acabavam em instantes. Já éramos quase mil voluntários, de 15 a 35 anos, querendo debater sobre fé, verdade, prudência.

As intenções sempre foram as melhores, mas não era preciso ser um gênio da sociologia para imaginar que uma adolescente do Ensino Médio discutindo sobre verdade com um homem 30+, num ambiente laico ma non troppo, em um período de polarização crescente, tinha tudo para dar errado. Mas, como dizem os americanos, hindsight is 20/20.
E foi justamente nesse contexto altamente instável que chegamos a twenty-twenty… e à pandemia. “Só algumas semanas, só alguns meses…” Assim passou-se um ano. Sem as crianças e os adolescentes para encontrar um sábado por mês, foram ficando apenas as discussões, as movimentações nas redes sociais (ah, as redes sociais…), a preparação para um dia que nunca chegava. Um bolo saboroso feito com muito custo que ninguém comia. Ainda assim, em 2021, quando os responsáveis pelo Sonhar Acordado de São Paulo comunicaram para alguns de nós sua ideia de encerrar as atividades, ao menos temporariamente, meu primeiro pensamento foi: “o mal venceu”.
Em seu inusitado encontro com Dalai Lama em 2016, Lady Gaga disse: “o mal é uma cobra invisível […] que está pensando: ‘vou dividir meus inimigos em grupos pequenos e menos fortes e depois vou fazê-los odiar uns aos outros.’” Um grupo que anos antes era coeso, unido em prol de uma causa clara e profunda, agora já não se entendia mais.
Quando antes ouvíamos Avicii e discutíamos se o almoço seria cachorro-quente ou sanduíche de metro, se usaríamos cartolina ou EVA na atividade sobre esperança com a música do Aliados, a discussão agora era postar ou não postar um quadrado preto em homenagem a George Floyd para os nossos mais de 10 mil seguidores no Instagram. “Mas não temos bagagem pra falar sobre racismo!” “Mas não podemos ficar em silêncio!” “Vocês não têm lugar de fala!” “Não se posicionar é se posicionar!” “Por que não podemos fazer um post sobre o dia da visibilidade trans?” Debates intermináveis surgiam a cada efeméride, a cada acontecimento global. Séculos e séculos de rusgas entre a Igreja Católica e a sociedade emergiam e borbulhavam em meio a voluntários que, em última instância, só queriam fazer o bem aos outros (e a si mesmos). Nosso “hospital de almas” estava respirando por aparelhos. Se o mundo estava bem mais complexo que dez anos antes, por que o Sonhar não estaria?
Assim, ficou decidido que o Sonhar Acordado de São Paulo encerraria suas atividades por tempo indeterminado, a fim de refletir sobre sua atuação naquele contexto, na esperança de voltarmos revigorados quando a pandemia acabasse — o que poderia ocorrer em um ano ou uma década, quem poderia dizer?
Em 14 de abril de 2021, o anúncio do encerramento foi feito (via Zoom, como tudo naquela época) aos diretores dos programas.
Foi um desastre.
O que deveria ter chegado àqueles ouvidos era: “o que nós fazemos aqui todos os meses é incrível, mas está dificílimo, por isso, precisamos parar e entender o que somos capazes de dar conta e o que não, sobretudo nesse contexto tão inédito e assustador das nossas vidas.”
Mas o que chegou foi: “o Sonhar Acordado falhou, obrigado, podem ir.”
Eu era o diretor nacional do Sonhar Acordado nessa época, e até hoje não me lembro de ter vivido dias piores do que aqueles que se seguiram. Voluntários revoltados, dirigentes frustrados, amigos inconformados. Corações entristecidos. A nós, envolvidos na famigerada decisão, coube lidar com as ruínas daquele onze de setembro particular: ligar para as instituições, dar satisfações a voluntários desorientados, organizar a verba remanescente, limpar depósitos com objetos que até então eram essenciais.
Mas o mais doloroso foi lidar com as redes sociais. Sob ataques de ódio a torto e a direita em fotos e postagens, nos restou mudar senhas e apagar registros de tudo que havíamos construído em mais de uma década de amor. Dezenas de festas com milhares e milhares de crianças e voluntários; dezenas de capelas construídas em quatro dias; incontáveis sonhos de crianças realizados; inúmeros eventos em museus, parques, zoológicos; crianças que viram o mar pela primeira vez de mãos dadas com um voluntário.
Em um instante, tudo desapareceu.
Seria muita pretensão querer esgotar nestas poucas linhas tudo o que o Sonhar Acordado significou para mim e para todos os envolvidos; tudo que deu certo, tudo que deu errado. Como no término de um longo relacionamento, é difícil apontar com precisão o que levou àquele fim. O que é, sim, fácil é perceber o gosto amargo que ele deixou na boca.
Para mim, o que adoça essa memória são as mais de 150 terças-feiras de reuniões, as centenas de eventos, as 19 capelas construídas, as virtudes que viraram valores, o poço de espiritualidade que eu cavei para beber sempre que precisar, a realização de um projeto de alfabetização e autoestima que dificilmente será superado por qualquer conquista profissional que eu venha a ter, as amizades profundas que me acompanham até hoje. E as histórias.
Em meio a tudo isso, a vida seguiu e o mundo foi acontecendo. Avicii cometeu suicídio, o vocalista da banda Aliados foi preso por tráfico de drogas, o policial condenado pela morte de George Floyd foi esfaqueado na cadeia, a polarização se calcificou. Parece que o mundo precisava mesmo trabalhar virtudes e valores…
* * *
Esta semana, escrevendo este texto, fui olhar como estavam as redes sociais do Sonhar Acordado em São Paulo, que hoje é tocado por um novo grupo de pessoas, em um novo local, atendendo a novas instituições. E para minha grata surpresa, lá estavam, ressurgidos das cinzas, aqueles álbuns que precisaram ser retirados às pressas da vista cheia de ódio daqueles cujo sabor amargo se sobrepôs a todos os outros. Passeando por essas memórias, fui ouvir aquela música do Aliados que marcou uma época do Sonhar que me enche de saudade. E por uma impressionante coincidência do universo, a música seguinte na playlist dizia:
“Ontem o sonho acabou, mas a vida continua e eu vou estar sorrindo. E isso não quer dizer que eu não possa mais sonhar. Preciso ser mais eu, continuar sorrindo…”
Fotos: Arquivo pessoal / “Árvore sonhadora”, design de Letícia Guerrero