Cotidiano, família

Confia em mim

Há cinco anos, quando comecei a fazer aulas de circo, não conhecia a variedade de aparelhos, e modalidades, e atividades, e estilos que fazem parte desse vasto universo. No decorrer desse período, já me pendurei em tecidos, liras, cordas; já dei mortais em camas elásticas, colchões, fossos; e já me lancei nas mãos de outros seres humanos a seis metros do chão em um trapézio de voos. Recentemente, nesta última modalidade, comecei a treinar um truque que envolve dar um balanço completo no trapézio – um swing –, virar um moral e meio no ar e entregar as pernas ao trapezista de ponta cabeça no outro trapézio – o catcher. Tudo é feito com muita segurança: há, é claro, uma rede logo abaixo e uma corda presa à minha cintura, controlada por um instrutor – o lonjeiro. Mas isso não muda o fato de que, durante o treino – feito sem o catcher –, ao terminar o movimento, estou mergulhando de cabeça em direção a rede, à mercê das habilidades do lonjeiro, em quem eu invariavelmente preciso confiar.

Todas as atividades circenses, aliás, envolvem confiar em alguém: seja no seu parceiro de truque que te segura com os pés, seja na professora que diz “pode soltar, a trava está certa” na hora de uma queda de três metros no tecido. Mas essas são pessoas em quem escolhemos confiar.  Na vida fora do circo, porém, nem sempre é exatamente assim.

Há algumas semanas, vendi um carro que acompanhou minhas aventuras desde 2013. Eu sei o quanto cuidei dele e o quão sortuda seria a pessoa a tirá-lo das minhas mãos. Já Felipe, o comprador, não. É verdade que ele pode inspecionar o motor, checar os antecedentes na internet, fazer um test drive, mas em última instância ele precisa confiar que o carro não vai desmontar em suas mãos assim que ele me transferir o dinheiro. Da mesma forma, eu não conheço meu xará: posso investigá-lo na internet, checar se seus dados são reais, mas em última instância preciso confiar que o dinheiro não vai desaparecer em uma nova modalidade de golpe assim que ele puser as mãos na chave. Saindo do cartório – ele com o documento, eu com o dinheiro –, estávamos quase surpresos com o fato de que, olha só, não era um golpe, deu tudo certo!

Mas naquele mesmo dia ainda seria desafiado a confiar em mais alguns desconhecidos.

Enquanto assinava a transferência do veículo em frente ao tabelião, minha mãe assinava a internação no hospital para uma cirurgia de emergência.

— Mas essa roupa tá horrível, eu nem troquei! — indignava-se ela.

— Da próxima vez a senhora precisa se planejar melhor pra quebrar a perna — brincava o médico.

Parte de seu incômodo – juntamente com a dor de um fêmur partido ao meio – era não poder se preparar com antecedência para a cirurgia, escolher um médico conhecido, uma data menos pandêmica.

— Quando é um dia bom pra quebrar a perna, mãe?

O fato é que, de um dia para o outro, ela seria operada por alguém sobre quem nunca ouvira falar – e em quem teria de confiar.

Dr. Thiago entra no quarto radiante e afirma que a cirurgia será naquela mesma noite.

— Você parece meu primo! — diz minha mãe.

— Eu sou mais bonito — diz o Dr. Desconhecido.

Uma mulher de crocs que eu jurava ter dezenove anos se apresenta como anestesista.

— Vai ser uma picadinha aqui, outra ali, vira de lado, mais uma, e a senhora não vai sentir nada. Agora é só assinar estes papéis, e mais estes, e depois estes aqui também, por favor.

Dr. Thiago volta e anuncia:

— O plano de saúde aprovou a cirurgia! Vou operar com o Dr. Lucas.

E se fosse o Dr. Rogério? Ou o Dr. Epaminondas? Ou a Dra. Cleide? Que diferença faz, se a gente não conhece ninguém?

Às nove da noite, a enfermeira a leva para o centro cirúrgico, onde alguém vai desligá-la por algumas horas, fazer três cortes na sua perna direita, inserir uma haste, dois parafusos, costurá-la de volta e esperar que em alguns meses sua perna se movimente como antes. A nós, só resta confiar.

Todos nós temos uma rede de apoio – amigos, família, parceiros: pessoas em quem confiamos e com quem podemos contar quando a coisa aperta. Mas a verdade é que isso não basta. Não vivemos numa bolha redonda e cristalina: vivemos numa grande bagunça em que, cientes ou não, precisamos confiar no outro: que ele vai parar no sinal vermelho; que ele não vai cuspir na comida; que ele não bebeu antes da sua corrida; que ele fez a manutenção do avião; que ele vai consertar a minha mãe.

É verdade que não estamos todos no mesmo barco, mas certamente estamos todos no mesmo oceano. E sem um estranho pra te lançar uma boia de vez em quando, a gente afunda.

Foto: Rogério Takahashi

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Cotidiano, viagem

A grande beleza

Uma das informações mais irrelevantes a meu respeito é o meu signo. Dentre as características aleatoriamente atribuídas a mim pela posição do planeta no dia do meu nascimento estão a indecisão, a busca por harmonia e a apreciação pelo belo. É verdade que não posso refutar nenhum desses atributos, mas convenhamos que dizer que alguém gosta do que é belo não é lá dizer muita coisa, já que dizer o oposto seria no mínimo estranho. “Que lindo esse jogo de toalhas! Jussara vai odiar.”

Talvez tenha sido justamente a busca pelo belo – consciente ou não – que me levou a aceitar o convite para um concerto de música clássica no Hollywood Bowl numa tarde ensolarada de 2010. Foi lá que conheci Paul, um vienense que estudava direção de cinema e que, descobriria depois, havia se formado em história da arte em Paris: uma informação que eu traria à tona nos anos seguintes em qualquer oportunidade de ridicularizá-lo. “Eu sei o suficiente pra parecer que sei muito mais”, dizia ele enquanto me explicava pseudo-pretensiosamente sobre alguma obra de arte moderna. Eventualmente viajamos para o Alasca e, em meio a partidas de xadrez, tentamos chegar a uma definição importante: afinal, o que é arte? “É tudo aquilo que provoca emoção”, concluímos a princípio. Mas o pôr-do-sol à meia noite por trás das montanhas nevadas dizia algo diferente: não dava para negar que aquilo provocava emoção, que aquilo arrebatava os sentidos, mas, não, aquilo não era arte. Era a natureza. Era Deus. Era Algo: mas não era arte. “Arte é tudo aquilo criado pelo Homem que provoca emoção”, foi a nova tentativa. Mas ainda não era isso. “Assassinato não é arte”, refletimos. Então “arte é tudo aquilo criado pelo Homem que provoca emoção, mas que não interfere diretamente na realidade.” Mas como dizer que a arte não interfere na realidade?

Há alguns anos, depois de muita insistência, fui convencido a assistir a uma peça de cinco horas de duração. “Eu sei, eu sei, mas você nem sente passar, eu juro!”, dizia minha irmã, entusiasmada. E ela tinha razão. Tanta razão que quando Os sete afluentes do rio Ota voltou aos palcos anos depois, lá estava eu novamente, sendo arrebatado por movimentos de luz, e som, e dança, e drama, e beleza. E como dizer que aquilo não interferia na realidade? Na minha realidade? Mal sabia eu que em poucos meses o belo deixaria de dar as caras por tanto tempo…

Em 2014 estive em Viena para visitar Paul e tive a chance de explorar a cidade sozinho enquanto ele trabalhava. Sem saber a fundo o que a capital austríaca oferecia em termos culturais, uma das minhas primeiras paradas foi o impronunciável Kunsthistorisches Museum: o museu de história da arte. Foi lá que dei de cara com a obra de arte mais impressionante que vi até hoje. Minha memória me diz que na entrada do museu há um saguão com um altíssimo pé direito e um guichê de cada lado; à frente, há um grande biombo – ou seria uma parede? – que impede que vejamos o que está do outro lado. Comprei meu ingresso e segui pela lateral do biombo, para adentrar o museu. Ali notei que as pessoas paravam por um instante, boquiabertas, observando o que estava à sua frente. Segundos depois, eu seria uma delas: à minha frente estava um lance de escada de mármore branco; no topo, entre lances de escada à esquerda e à direita que levavam ao segundo andar do museu, impunha-se a escultura de Antonio Canova: Teseu vencendo o centauro. Esculpida em mármore branco, a obra retrata Teseu inclinado sobre o centauro, com o joelho esquerdo pressionando o peito da figura mitológica, a mão esquerda apertando seu pescoço e a mão direita com um bastão pronto para atacá-lo. A criatura, metade homem, metade cavalo, tem uma expressão de horror, as patas dobradas sob o torso, a mão esquerda apoiada no chão e os dedos da mão direita fincados no braço de Teseu. Tanta vida num pedaço de pedra… A Europa ainda me tiraria o ar em outras ocasiões – o brilho dourado de O beijo, que parecia saltar da parede preta exclusiva para ele, a diminuta Mona Lisa, escondida atrás de fitas de segurança, vidros blindados e turistas orientais –, mas o impacto da primeira obra do primeiro museu que visitei na Áustria nunca foi superado.

Outro dia a internet me fez cruzar com o antigo professor de teatro da escola onde estudei. Nunca fiz aulas de teatro, mas me lembrei de imediato de uma peça montada por sua turma, a qual assisti no auditório do colégio. Sem ter nem sequer pensado naquela montagem cômica por mais de vinte anos, algumas cenas voltaram com clareza à minha mente. Uma delas, em particular, envolvia uma discussão entre uma personagem e sua irmã mais velha que, irritada, grita: “Puta que pariu, que merda!”, deixando a pequena em choque. É refrescante pensar que a arte fica na gente, que mesmo anos, décadas depois, aquilo que é belo, aquilo que é arte fica guardado em algum lugar da memória, mesmo que a gente não se lembre, para que a gente possa acessar nos momentos de escuridão, em que “puta que pariu, que merda!” não poderia definir melhor o tempo presente.


Paul e eu temos a tradição de falar pelo Skype uma vez ao mês para mantermos nossa amizade viva. No próximo encontro vou dizer a ele que já tenho uma definição: arte é tudo aquilo criado pelo Homem que provoca emoção e torna a realidade suportável.

Foto: Tabuleiro de xadrez em Kachemak Bay, por Paul Schwind.

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Cotidiano, família, viagem

Devassos

Tendo passado a grande maioria dos meus trinta e seis anos solteiro, estar em viagens ou eventos sociais acompanhado de amigos e familiares é, para mim, completamente natural. A sociedade, porém, não parece pensar da mesma forma. Isso ficou evidente em uma viagem de três dias que fiz para um hotel no interior de São Paulo com meu amigo Jorge.

Estávamos almoçando, Jorge e eu, quando ele levantou-se para buscar mais comida. Um garoto de uns 10 anos de idade se aproximou e me encarou, curioso. Ele vestia uma camisa do São Paulo e uma chuteira colorida, e tinha um olhar que transmitia, ao mesmo tempo, inocência e sadismo. Descobriria no futuro, sem grande surpresa, que seu nome era Enzo.

— Você é o tio do futebol? — ele perguntou.

Tentei me lembrar da última vez em que eu havia tocado numa bola de futebol, possivelmente em uma brincadeira entre amigos, em 2006. A penúltima certamente havia sido em 1993.

— Não — respondi.

— O que você faz?

— Aqui ou na vida?

Ele refletiu por um instante.

— Aqui.

— Estou de férias, descansando.

— Você namora?

Quem é você? Minha mãe? Por que esse interesse na minha vida afetiva?

— Não.

— Cadê o moço que estava sentado aqui?

— Foi pegar mais comida.

Não é a primeira vez que alguém suspeita que Jorge e eu somos um casal. Não por qualquer característica em particular – apesar de Jorge já ter sido questionado sobre o tamanho de suas golas V, o comprimento de suas bermudas, a estampa de sua sunga –, mas simplesmente porque se dois homens estão juntos, e não estão bebendo, jogando futebol ou arrotando, eles só podem, é claro, estar chupando o pinto um do outro. Jorge não é gay – algo que ele faz questão de deixar claro para as mulheres solteiras ao redor. Aliás, se medíssemos a heterossexualidade de alguém pela quantidade de parceiros do sexo oposto, Jorge seria possivelmente a pessoa menos gay do meu convívio. Dito isso, não é como se ele se importasse com a questão – um dos muitos motivos pelos quais somos tão amigos.

Ser confundido com um casal não é uma novidade para mim. Certa vez, em um bar descolado, um garçom/modelo decidiu que Larissa e eu éramos o par perfeito, a ponto de perguntar para mim qual drink ela queria e nos servir água no mesmo copo. Isso acontece também de maneira ainda mais costumeira – e perturbadora – quando estou com minhas irmãs. Durante anos, fiz aulas de espanhol com uma delas, cinco anos mais velha. Um dia, renovando a matrícula, a secretária tomou coragem e se manifestou:

— Desculpa, posso fazer uma pergunta? Faz muito tempo que eu quero perguntar, mas não tinha coragem.

— Pode falar — respondi, com alguma tensão.

— Vocês são o quê?

Levamos alguns instantes para entender o que ela queria dizer.

— Vocês são casados? — ela esclareceu.

“Eu tenho dezesseis anos! E você sabe disso, porque na ficha que está na sua frente tem minha data de nascimento!”

— Não, nós somos irmãos.

— Nooooossa, eu nunca ia imaginar! Eu via o mesmo sobrenome, mas bem que achava vocês muito novinhos pra serem casados…

Com minha outra irmã – esta, treze anos mais velha – a situação é parecida. Basta entrarmos em qualquer quarto de hotel para encontrarmos uma cama de casal romanticamente decorada. “Olá, é do spa? / Gostaria de marcar duas sessões para hoje à tarde. / Não, não estamos em lua de mel. Quer dizer, espera. Tem desconto?” Agora um homem e uma mulher não podem nem fazer uma massagem esfoliante juntos sem parecerem um casal? Também acontece de estarmos com minhas sobrinhas, de idades treze a dezessete, o que automaticamente nos configura como um casal com três filhas – ou, em dias menos generosos com minha irmã, uma mãe com quatro filhos.

Já quando visito minhas sobrinhas, sua mãe anuncia ao porteiro:

— Pode deixar subir, é meu irmão – “e não meu amante”, é o que fica implícito.


No segundo dia da viagem, Enzo nos encontrou na piscina.

— Você é o tio do futebol? — perguntou, desta vez para Jorge.

— Não.

— O que você faz?

— Estou de férias, descansando.

Eu já sabia o que vinha depois.

— Você namora?

— Não.

Enfim, ele tomou coragem, apontou para nós dois e perguntou o que realmente queria saber:

— Vocês são o quê?

— Amigos — Jorge respondeu.

Não sei se ele resolveu mudar de assunto ou validar a resposta, mas a pergunta seguinte foi direcionada a mim.

— Hoje você não está usando o arquinho?

Era uma época conturbada, em que muitos homens – e mulheres – abandonaram qualquer senso estético, de forma que mullets e raízes brancas repentinamente voltaram à moda. Sendo assim, a forma mais prática de manter meus cabelos apresentáveis à sociedade era usando uma tiara, o que Enzo, suspeitava eu, considerava um artigo feminino.

— É que na piscina não precisa — respondi.

— E esse livro que você tá lendo? É Harry Potter?

Ele apontou para o livro com uma coruja na capa, apoiado sobre uma toalha na borda da piscina. “Vamos Explorar Diabetes com Corujas – ensaios, etc.” era o título, em tradução livre. Escrito por David Sedaris – um autor alcoólatra, homossexual e genial – o livro reúne histórias em primeira pessoa sobre o roubo de tartarugas-bebês, desavenças com estranhos em aeroportos e aventuras sexuais em um trem, entre diversos outros episódios.

— Não, definitivamente não é Harry Potter.

Horas depois, estávamos de volta ao restaurante, Jorge, eu e agora Renata, uma garota que viajava sozinha e a quem Jorge havia deixado claro que não era gay. “Viajando sozinha nesse hotel que só tem velho e família? Certeza que é puta!”, refletiram os pais de Enzo em algum momento. Enzo voltou, dessa vez acompanhado de dois amigos mais novos. “Vem comigo, quero mostrar uma coisa incrível pra vocês!” – ele certamente dissera minutos antes. Os três nos encaravam como quem acompanha pinguins sendo alimentados no zoológico. A equipe de animação do hotel nos olhou da mesa ao lado. Talvez estivessem com ciúmes. “O que eles têm que eu não tenho?”

— Viu, Enzo? Eu chamei ele pra jantar! — disse Renata apontando para Jorge, sugerindo que ela também havia sido vítima do interrogatório afetivo do garoto.

Depois de nos encararem por mais alguns desconfortáveis minutos, o pequeno trio partiu rumo a alguma atividade seguramente menos interessante.

— Hoje cedo ele me perguntou como vocês dormiam — confessou Renata. — “Porque nos quartos só tem uma cama de casal!”

— E você disse que no nosso quarto a cama é de solteiro e que dormimos nus, de conchinha?

Ainda veríamos Enzo mais uma vez naquela viagem. Jorge, Renata e eu conversávamos na recepção quando ele passou com os pais, que levavam as malas para fora.

— Já vai embora? — perguntou Renata.

— Já… — disse ele, decepcionado com o fim das férias.

Seus pais, por outro lado, carregavam o carro aliviados por levarem seu rebento para longe daquele antro, onde atos impronunciáveis eram praticados ao cair da noite na intimidade do quarto 238.

Foto: Thomas Couture“Les Romains de la décadence” (Musée d’Orsay, 1847. Óleo sobre tela, 472 x 772 cm)

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Cotidiano

Discord

Recentemente, na agência onde trabalho, começamos a usar um programa de comunicação chamado Discord. Meu primeiro pensamento ao ver aquele logo com um robô feliz foi: “por que alguém daria esse nome justamente a um programa de comunicação?” Eu poderia ter investigado um pouco e resolvido esse mistério, mas não me importei o suficiente – confesso. Apelidei o famigerado de “discórdia” e segui a vida. Essa singela reflexão, porém, levou-me a outra um pouco mais profunda.

Há alguns anos, um casal de amigos veio jantar em casa (numa época em que isso era socialmente aceitável). Surgiu o assunto do sistema educacional brasileiro, sobre o qual ele, professor de Geografia, tinha fortes opiniões. Não posso dizer que as minhas opiniões eram fortes, mas eram, certamente, diferentes das dele. Porém, decidi me calar. Não nos víamos havia muito tempo, e só o que eu queria era conversar amenidades e beber um vinho. E assim foi.

Por uma grande casualidade, no dia seguinte, uma amiga em comum iria jantar na casa desse mesmo casal. E lá fui eu novamente. “Ou a gente não se vê nunca, ou se vê duas vezes no mesmo fim de semana! Que coisa, não?” Novamente, surgiu o assunto do sistema educacional brasileiro, dessa vez ainda mais inflamado do que na noite anterior. A amiga em comum – que também não os via há tempos e, portanto, poderia usar o mesmo argumento que eu – tinha uma visão distinta e resolveu expressá-la. Não foi uma briga. Não houve tensão. Ele tinha uma opinião. Ela discordava. O assunto foi debatido. Jantamos, tomamos vinho, aprendemos uns com os outros.

Foi então que eu percebi que estou desaprendendo a discordar. Não apenas eu: nós. Numa época de cancelamentos e lacrações, vamos nos tornando meros hospedeiros de ideias virais que precisam impreterivelmente contaminar o outro; polos negativos de ímãs que jamais conseguem se aproximar. Em meio a discursos inflamados de “somos todos iguais”, vamos perdendo a habilidade de lidar com o diferente.

No final de 2016, no dia seguinte à eleição em que Donald Trump venceu Hillary Clinton, a repórter Stephanie Foo entrevistou dois amigos, militares, para um breve segmento do podcast This American Life que concluía assim:

“Sentar com esses caras logo depois dessa eleição tão pesada e segregadora foi revigorante. Não a parte sobre uma possível guerra nuclear, mas a maneira como eles falavam um com o outro. Eles discordam em tudo, mas gostam demais um do outro. Eles trabalham muito bem juntos, fazem o que precisam fazer. Muitos dos eleitores de lados opostos não conversam o suficiente para perceber que, na verdade, poderiam se dar bem. Neste momento, em que ninguém parece ouvir ninguém com um ponto de vista diferente, em que um lado despreza o outro e acredita que ele vai destruir o país, foi um alívio assistir a uma discussão decorrer dessa forma, sem qualquer julgamento, raiva ou rancor, em que uma pessoa reconhecia continuamente a humanidade da outra. Depois deste último ano, a gente precisa muito disso.”

Foi há quase quatro anos, mas poderia ter sido ontem; foi nos EUA, mas poderia ter sido em qualquer lugar do mundo; foi sobre política, mas poderia ter sido sobre qualquer assunto.

Mas voltando ao Discord. Que nome incrível para um programa de comunicação!

Foto: discord.com

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Cotidiano

Dezessete

Há coisas na vida que aparentemente não fazem sentido. Muitas, na verdade. Uma delas — e uma nada relevante, devo adiantar — é a minha relação com o número 17. Muito antes de ser um ícone nacional de polarização política associado a figuras nefastas, o número 17 já era um símbolo internacional de mau agouro. Alguns dizem ser devido ao anagrama VIXI, do algarismo romano XVII, que em latim significa “eu vivi”, portanto, “estou morto”. Na Itália, aliás, de onde vem minha herança genética, o 17 equivale ao nosso 13: o dia de azar é a sexta-feira 17. Vixi!

Mas na adolescência eu não sabia de nada disso, e nem me importava (o que me importava na adolescência?). Aos 15, uma grande amiga completou 17 anos. Por algum motivo, aquilo me era fascinante. “Dedé, você vai fazer dezessete!” — eu repetia, incrédulo, da mesma forma como alguém talvez ficasse ao saber que um avô nasceu no século XIX, por exemplo. O fato é que eu tinha uma amiga adulta e ninguém mudaria aquilo! Dois anos depois, seria a minha vez de quebrar a barreira dos 17. Mal sabia eu que celebraria a entrada dessa era do outro lado do planeta, em plenos Jogos Olímpicos, em um novo mundo que se abria, com infinitas possibilidades, com amigos que não conhecia nos 17 anos anteriores. Alguns deles continuariam amigos por algum tempo, outros se tornariam colegas de trabalho e muitos eu jamais veria novamente.

Mas eu também não sabia de nada disso.

O não saber o que vinha depois era empolgante, e assim os 17 anos que se seguiram passaram rápido. Uma carreira imprevisível, viagens inesperadas, amizades inusitadas e — olha só — um apartamento no 17º andar de um prédio convenientemente localizado a três quadras de um trabalho que, para a minha surpresa, ainda seria meu sete anos depois.

Tantas coisas novas até o aniversário de 34! Este, também, celebrado com pessoas novas, advindas de uma atividade impensável no passado — o circo —, em um restaurante inédito.

“A vida é tão cheia de novidades!”

E de repente… não é mais. Ou não parece ser.

Aos 17, a vida toda está pela frente: um mundo de sonhos e possibilidades. Então, num piscar de olhos, os grandes marcos já ficaram para trás; alguns sonhos foram conquistados, outros não; novos sonhos vêm e vão, e o futuro deixa de ter um alvo definido. A ilusão de que tudo é possível dá lugar à realidade. O não saber o que vem depois passa a ser tão excruciante quanto saber que não há nada específico pelo que ansiar — e que tudo bem.

Aí só resta viver o presente — algo que 2020 está nos forçando a aprender.


Este ano, minha sobrinha, que até ontem era um bebê, completou 17 anos. Perguntamos o que ela queria ser no futuro.

— Ainda não sei — respondeu, sabiamente.

Eu também não.

Foto: Acervo pessoal

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Contos

Filhos

O conto a seguir pode ser acompanhado nas vozes dos atores Helena Fraga e André Pottes.

Helena Fraga
André Pottes

Você diz que não quer ter filhos. Não que você não goste de crianças, não é isso. Você inclusive passa bastante tempo com crianças, você acredita que elas podem mudar o mundo, mas você nunca quis ter crianças suas, pra cuidar 24 horas por dia. Sempre te disseram que isso mudaria um dia, “Ah, na sua idade eu também não queria ter filhos, mas depois todo mundo quer.”, mas você não é todo mundo: o tempo passou e você continuou não querendo ter filhos. E tudo bem. Aí ele aparece na sua vida, numa noite que já tinha quase acabado. Marcam um encontro perto da casa dele. Você chega antes. Ele chega uns minutos depois. Você o vê de costas, dá um tapinha em seu ombro, ele vira e sorri. Vocês tomam um café. Você não tinha expectativas – o que é raro, mas quando percebe já quer prolongar aquela noite. Torce pra que ele te chame pra subir, e ele chama. Você vai embora horas depois querendo vê-lo o mais breve possível. Vocês se veem no dia seguinte, e no outro, e no outro. Você achava que ele estava de passagem, mas ele puxa uma cadeira e fica por ali. Sem querer, entra na sua vida naquele mesmo fim de semana, com escova de dente e tudo. Vocês conversam hipoteticamente sobre a vida, sobre o futuro. Ele logo diz que quer ter filhos. E logo. Você diz que não pensa muito naquilo e deixa pra refletir depois, afinal não quer ser do tipo que já pensa em filhos e casamento e almoços de domingo no primeiro encontro. Mas os almoços de domingo logo viram o assunto, e fica decidido que seriam da família. A princípio ele não tem muito a ver com você, mas aos poucos aquilo tudo começa a fazer sentido. A maneira como ele tira o celular do silencioso só pra não perder sua mensagem, a maneira como ele te liga em vez de mandar mensagem só pra ouvir sua voz. Mal se conhecem e já têm uma música. Ele muda sua maneira de passar perfume, de usar o teclado do computador, de usar o celular. Aí você começa a pensar em como será apresentá-lo aos seus amigos. Ele é mais velho, e você pensa que eles talvez tenham pouco em comum, mas você pensa que tudo bem, porque a vida muda, a gente evolui, e você sabe que os amigos mudam, é natural. De repente você se assusta com o quão rapidamente a sua vida pode mudar, mas respira fundo, empolga-se, até: na sua idade, casais vão morar junto em pouco tempo. Ele cogita ir morar na Suécia em dois ou três anos. Você pensa que aquilo nunca passou pela sua cabeça, mas por que não? Você tem amigos na Suécia, você gosta de frio, e com ele um cenário diferente faz sentido. Muita coisa com ele faz sentido. Inclusive ter filhos. Você lembra que nunca quis ter filhos, mas nunca pensou que isso poderia impedir que outro os tivesse, e com ele você começa a pensar diferente. Você também começa a pensar nas suas escolhas até aqui. “Será que eu sou o suficiente pra ele?” Você sabe que não deveria pensar assim, mas isso fica na sua cabeça e faz você querer ser uma pessoa melhor. Você passa os dias planejando os momentos em que vão estar juntos. Os dias e as noites. Vocês dormem juntos, e você dorme como nunca dormiu com ninguém, porque sabe que ele vai estar lá no dia seguinte, e com sorte nos outros também. Você quer estar com ele mais do que com seus amigos com quem ele provavelmente não vai se enturmar e aceita que uma nova fase da sua vida está começando. Uma fase em que você pode a qualquer momento ter novos amigos, uma nova casa. E até ter filhos. Vocês já criaram uma rotina, e quando você tem certeza de que está tudo bem, ele fica estranho.

Tudo bem, todo mundo fica estranho, às vezes. Um dia ruim no trabalho, talvez. Você tenta não dar muita bola, mas não consegue. Aí você pensa como puderam chegar a esse nível em pouco mais de um mês. Há quarenta dias eram estranhos, e agora temia não ter os filhos dele. Você tenta deixar os pensamentos de lado, mas uma mensagem de “Vamos conversar?” os trazem de volta. Você esperava um encontro com um jantar e muitos beijos, mas contenta-se com um café – na mesma mesa em que se conheceram. Ele já está lá quando você chega. Ele te vê e sorri, um sorriso triste. Você faz o mesmo. A garçonete vem retirar os pedidos. Seria a mesma do mês anterior? Ele está sem jeito, mas acha um jeito de dizer o quanto te acha incrível, mas que não se vê em um relacionamento com você. Diz que falta algo, que não sabe o que é, mas que precisa ir buscar. Você dá um gole no café e digere as palavras. Você sabe que ele não quer te machucar, e isso torna tudo mais difícil. Você quer pedir pra que ele fique, mas não quer mendigar o seu amor. Você quer ficar com raiva, mas a tristeza não deixa. Você decide dizer a verdade: que quer estar com ele, mas que quer estar com alguém que fale de você como você fala dele. Ele aceita a sua tristeza. Agora é ele quem bebe o café. Você diz que não resta muito a dizer e que vai tentar transformá-lo numa boa lembrança. Ele diz que vai sempre se lembrar de você com carinho. Você se levanta tentando afastar o pensamento de que nunca vai conhecer sua família, seu cachorro, sua vida. De que ele vai ter os filhos de outra pessoa. Vocês se despedem com um abraço com mais sentimentos do que muitos beijos, e você sai, sem olhar pra trás, tentando entender como pôde se envolver tanto em tão pouco tempo. Tão de repente como as coisas começaram, elas terminam, e você parte, pensando que realmente nunca quis ter filhos.

Foto: “Nighthawks”, de Edward Hopper

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Contos

Pão de miga

Fechou o laptop apressada: já eram quase oito da noite e ainda precisava comprar um presente se quisesse mesmo aparecer no aniversário – “não pega bem chegar de mão vazia”, dizia sua mãe –, agarrou a bolsa sobre a mesa do escritório, a chave do carro, e mal havia apanhado o celular quando recebeu uma notificação: um e-mail de trabalho. Bufou e respondeu enquanto caminhava até a saída, onde cruzou com Heitor, que perguntou se ela ia ao aniversário. “Vou ver”, ela disse. “Ah, você sempre fala isso e nunca vai”, ele respondeu. “É sério, eu vou ver”, devolveu sem tirar os olhos do celular e sem saber ainda se dizia a verdade, e chamou o elevador esbravejando algo para a tela.

Quando percebeu já estava em casa, no banho.

Relaxou.

Saiu do banho e abriu o armário, ainda de toalha. Lembrou que se esquecera de comprar o presente. Apanhou uma calça e uma blusa sem refletir muito e jogou-as sobre a cama. Pegou o celular e deitou ali do lado por um instante, pensando como faria com o presente.


Acordou.

Sua mente divagou até que pensou naquele dia corrido de trabalho – não sabia que seria o último, como poderia saber? – e no aniversário que não foi. É que estava tão cansada! Vivia cansada, refletiu. Agora já nem lembrava há quanto tempo não saía de casa. Que estação do ano estamos? Como eram divertidos os aniversários…

Pensou, ainda na cama, sobre as noites mal dormidas por causa do cliente insatisfeito, as mensagens de cobrança às onze da noite, os jantares cancelados por causa do trabalho. Por causa de alguém que sequer existe mais – pelo menos não no seu universo. Sentiu um misto de tristeza e alívio ao pensar nisso. Mais tristeza do que alívio, constatou, um tanto surpresa. Quantas vezes havia desejado que uma pessoa sumisse de sua vida, e agora que havia sumido, por que não se sentia feliz? Talvez tenha de fato morrido. Será?

Rolou as fotos e mensagens mecanicamente no celular como sempre fazia. Para que acompanhava tantos memes e notícias e exercícios e receitas e revoltas e mensagens motivacionais já não sabia mais: era apenas um ritual que havia incorporado sem perceber – como tantos outros – e que agora temia abandonar. O que mais poderiam-lhe tirar?

Tinha o dia inteiro pelo frente, mas não sabia como vivê-lo – nem se queria vivê-lo. De certa forma, as opções nunca foram tão abundantes. Pensou em estudar sueco – afinal, a escola de línguas estava com pacotes imperdíveis para aulas online! –, podia ser-lhe útil um dia para agradecer um Prêmio Nobel. Em que área mesmo? Lembrou que poderia aceitar o prêmio em inglês e desistiu. 

Tentou lembrar a última vez que havia tocado em alguém. Sabia que não havia se despedido de ninguém no último dia de trabalho, mas e antes disso? Teria sido um aperto de mão em uma reunião? Que triste. Um beijo? Não, isso fazia mais tempo. A última lembrança concreta era de esbarrar no entregador que devolvia-lhe o cartão, mas, não, aquilo não contava.

Pensou em levantar-se. Precisava tomar café da manhã. Ou já era hora do almoço? Que dia é hoje, mesmo? Poderia pedir um pão de miga na padaria ali do lado, mas mesmo assim teria que colocar uma roupa, escovar os cabelos, trocar os sapatos, esperar o elevador vazio, colocar a máscara, limpar a sacola, tomar outro banho… Sair de casa era tão animador antes. Um dia. Tiraram-lhe a vontade de sair. E também não tinha tanta fome assim. Um abacaxi congelado desde a última entrega do mercado duas semanas antes daria conta. Mais tarde poderia pedir um sushi, talvez. Ou não. Tanto faz.

Era o Nobel da Paz! Mas esse é na Noruega. Será que o app ensina norueguês?

Teve uma ideia.

Pegou o celular novamente e desviou-se um instante para fotos de um passado distante e lives e desafios sem sentido sobre seus gostos musicais e cinematográficos. A quem interessa?

Qual era a ideia, mesmo?

Largou o celular e voltou a dormir.


Acordou enrolada na toalha, os cabelos molhados – e agora o travesseiro também. Checou o celular: ainda dava tempo. Trocou a blusa amarrotada sobre a cama por uma mais colorida, maquiou-se mais depressa do que se achava capaz e saiu pela porta sem perceber – ou ligar – que o celular tinha ficado para trás.

Entrou no bar esticando o pescoço para encontrar os conhecidos e logo viu Heitor com uma bebida na mão, conversando com uma colega. Sorriu. Ele ficou surpreso ao vê-la. Surpreso e feliz. “Olha só, você veio!”, disse caminhando em sua direção.

Ela esperou que ele se aproximasse. “Me dá um abraço?”

Foto: “Morning Sun”, de Edward Hopper

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família

À mão

Eu nunca gostei das minhas mãos. Não há nada efetivamente errado com elas, mas elas simplesmente nunca me agradaram. Embora sejam grandes, meus dedos são finos; em uma análise mais crítica, são um pouco tortos, sobretudo o dedo médio da mão esquerda. Minhas unhas parecem acabar antes do que deveriam, como se as pontas dos meus dedos quisessem engolir as unhas. “Que fofos!”, já me disseram, mas eu discordo.

A parte de cima das mãos tem veias bem aparentes (a alegria das enfermeiras que precisaram colocar um acesso ali), enquanto as palmas já exibem pequenos calos, consequência de alguns anos de acrobacias em liras e trapézios — características que, confesso, não me incomodam. 

Há algum tempo, devido às mesmas atividades circenses, minhas mãos começaram a doer: uma dor nas juntas no meio dos dedos que durou meses de descanso e acupuntura até que desaparecesse. Não que dores nas mãos fossem uma novidade, já que aparecem toda noite, depois de alguns minutos de escrita à mão (e, desde que inventei de aprender piano, depois de alguns minutos tocando algumas míseras teclas). 

Quando estou nervoso, encaixo a mão esquerda sobre a direita, entrelaçando os dedões, e aperto com força, numa tentativa frustrada de conter a irritação, sempre percebida pelos colegas de trabalho. Quando estou empolgado, abro a mão como se estivesse alongando os dedos, o que também não passa despercebido por quem está por perto.

Na família, o consenso sempre foi de que quem tem mãos bonitas é meu pai. São grandes, com dedos alongados e proporcionais, e unhas que crescem até o fim e só pedem para ser aparadas quando não há mais dedo sobre o qual crescer. Também é um consenso que ele e sua irmã, que vivia na Itália, têm as mãos surpreendentemente idênticas, de maneira que seria impossível distingui-las em uma foto. 

Há um movimento muito específico que meu pai faz com as mãos quando está refletindo: enquanto estende uma delas à frente, como se observasse as unhas, a outra a apalpa como se a examinasse, com o dedão por cima e os outros dedos por baixo. Não seria algo particularmente notável, não fosse o fato de que eu, quando estou refletindo, me pego fazendo exatamente o mesmo movimento.

De fato, gostando ou não, minhas mãos me representam: simbolizam a minha profissão, exibem as marcas do meu esporte, carregam literalmente o meu peso; às vezes doem, às vezes decepcionam, mas no fim das contas sempre dão conta do recado. E acusam a minha origem.


Há alguns anos testemunhei o reencontro de meu pai com sua irmã, com quem conviveu muito pouco de suas nove décadas de vida. Quando ela se pôs a refletir, estendeu uma das mãos à frente, como se observasse as unhas, e apalpou-a com a outra como se a examinasse. 

Exatamente como meu pai. Exatamente como eu. 

Foto: Acervo pessoal

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Cotidiano

Só um pouquinho

Eu estava deitado de lado em uma maca, uma agulha de acesso espetada no meu braço, esperando para a receber a anestesia. Sob meu rosto, um pedaço de papel toalha. “É que você vai babar,” havia explicado o enfermeiro minutos antes. “Que sexy,” reflito.

Existem muitas coisas que me deixam tenso: andar de carro sem GPS por lugares desconhecidos, aguardar o salto numa plataforma de trapézio, organizar eventos sociais… mas fazer exames médicos não é uma delas. Prestes a ser invadido por um tubo no esôfago, minha maior preocupação era acordar falando besteira por efeito das drogas (nada que millennials não vivenciem com certa frequência).

Até aquele momento, o porteiro Jabson — sim, Jabson —, a recepcionista Leila e o enfermeiro Francisco haviam sido totalmente gentis e solícitos, validando minha teoria de que fazer exames não é muito diferente de ir a um spa.

Eis que se aproxima Marielza, a nova enfermeira.

— Abre a boca — ela ordena.

Dr. Henrique, que vai realizar meu exame, está do outro lado da sala, fora do meu campo de visão e também segue a linha “papo reto” de Marielza.

— Por que pediram esse exame pra você? — ele pergunta.

Tento olhar para ele, mas não posso me virar. Aguardo que ele venha se apresentar antes de me apagarem, mas ele continua ali, alheio à minha necessidade de conhecê-lo.

— Morde — comanda Marielza com uma peça redonda na mão. Eu obedeço.

— Catatepa dara a errame? — pergunto.

— Hein?

— Quanto tempo dura o exame? — repito.

— Uns dez minutos. Agora para de falar porque senão a peça vai cair da sua boca!

Antes que eu pudesse tirar qualquer outra dúvida, meus sentidos se vão. Acordo já na sala de recuperação, sem nunca saber a cara de Dr. Henrique nem poder dizer à Marielza que ela arruinara minha experiência relaxante daquela endoscopia.

Eu não duvido que Marielza e Henrique sejam profissionais competentes, afinal, eu ACORDEI da anestesia, na hora certa, e meu exame identificou direitinho todas as “ites” existentes. Mas se um “oi” a mais teria feito diferença para mim, que estava quase me divertindo, imagino àquelas pessoas normais, que se sentem desconfortáveis e temerosas a menor presença de um instrumento médico.

Criei cenários na minha cabeça que justificariam o comportamento despachado da dupla, tão destoante dos outros com quem havia interagido aquele dia: talvez Marielza não estivesse escalada para tabalhar aquele dia e tenha vindo ao trabalho às pressas, desfazendo todos os seus planos para aquela quarta-feira; Dr. Henrique talvez estivesse preocupado com o filho, cuja professora acabara de ligar, informando sobre uma briga com um colega na escola. O que chega para nós dos outros é sempre uma parte tão pequena…

É fato que eu também já fui Marielza/Henrique muitas vezes na vida; já não dei muita bola a quem precisava de atenção, já simplesmente “tirei da frente” o que precisava fazer; já fiz meu trabalho empregando o mínimo de esforço possível; já justifiquei meu comportamento culpando todo um cenário alheio à minha vontade.

Mas, no fundo, a conclusão é uma só, e é bastante simples: seja lá o que for, sempre dá pra fazer com um pouquinho mais de amor.

Foto: http://wumo.com/wumo/2016/03/05

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viagem

Você quer brincar na neve?

Era primavera. Eu caminhava por uma trilha deserta rumo a uma estação de esqui que já havia encerrado a temporada de inverno, mas o parque ao redor ainda não estava aberto para as visitas de verão. Ao meu lado estava Henning, um engenheiro alemão que, assim como eu, estava em Ushuaia para estudar espanhol. Em certo momento, após uma curva, avistei uma mancha branca e marrom alguns metros adiante.

— Aquilo é neve? — perguntei, empolgado.

Henning deu risada.

— Aquilo é um resto de neve suja que está derretendo.

Tomei aquilo como um “sim” e corri, completamente fascinado, até aquele metro quadrado branco, sujo de terra. Henning, acostumado com neve tanto quanto eu estou acostumado com trânsito, gargalhava, enquanto tirava uma foto minha. Seguimos pela trilha até que ela desapareceu em meio a uma floresta de árvores secas… e entendi porque Henning ria: quilômetros e quilômetros de neve branca e fofa cobriam a montanha até a altura dos joelhos. 

Éramos nós, o silêncio e nenhum outro ser.

Henning estava quase sem voz, tomando antibióticos por uma infecção na garganta e grandes goles de conhaque com mel “que ajudavam a esquentar e a melhorar”.  Entre uma palavra e outra que buscava no pequeno dicionário em sua mochila, Henning me contava sobre sua vida em Köln, sobre sua deficiência na mão esquerda e sobre seu pai, cujo nome traduzia-se como João Joaquim Cozinheiro. 

Foram horas e horas de conversa até percebermos que estávamos perdidos.

Começava a anoitecer, e as indicações da trilha, já escassas devido à neve, agora desapareciam por completo. Escolhemos não entrar em desespero. Com as meias molhadas e os pés congelando — “ahhh, nieve en los zapatos!” — guiamo-nos pela direção da neve derretida que corria rumo às luzes das casas ao pé da montanha.

Passaram-se nove horas desde a partida até a chegada. 

Ficamos muito amigos, Henning e eu. Seguimos viagem, junto a outros novos amigos, rumo ao Norte do país, passando pela Patagônia chilena e pelas paisagens nevadas mais incríveis que já vi. 

Dias depois, dissemos adeus. Nunca mais nos vimos.

É uma coisa engraçada, a neve. Nada mais é do que água, que bebemos, usamos, desperdiçamos todos os dias, mas basta mudar seu estado e mudamos nosso olhar. Há quem ache a coisa mais fascinante do mundo — “tudo branquinho, que lindo!” — há quem prefira a morte — “já teve que tirar a neve do carro pra ir trabalhar às sete da manhã?”; seja como for, o sentimento é passageiro: a neve derrete, e ficam as memórias, tenras ou traumáticas, de um momento que passou.


Onze anos depois viajei com uma amiga que via neve pela primeira vez.

— Aquilo é neve? — ela perguntou de dentro do carro, apontando para uma área branca ao pé da montanha.

Eu segurei a risada.

— Aquilo é um resto de neve suja que está derretendo.

Ela tomou aquilo como um “sim”. Paramos o carro e ela correu, completamente fascinada, até aquele metro quadrado branco, sujo de terra, sem saber que logo estaria em meio a quilômetros e quilômetros de neve branca e fofa que cobriam a montanha até a altura dos joelhos, criando um cenário fascinante que, assim como aquela viagem, duraria apenas mais alguns dias.

Foto: Acervo pessoal

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