Cotidiano

Dezessete

Há coisas na vida que aparentemente não fazem sentido. Muitas, na verdade. Uma delas — e uma nada relevante, devo adiantar — é a minha relação com o número 17. Muito antes de ser um ícone nacional de polarização política associado a figuras nefastas, o número 17 já era um símbolo internacional de mau agouro. Alguns dizem ser devido ao anagrama VIXI, do algarismo romano XVII, que em latim significa “eu vivi”, portanto, “estou morto”. Na Itália, aliás, de onde vem minha herança genética, o 17 equivale ao nosso 13: o dia de azar é a sexta-feira 17. Vixi!

Mas na adolescência eu não sabia de nada disso, e nem me importava (o que me importava na adolescência?). Aos 15, uma grande amiga completou 17 anos. Por algum motivo, aquilo me era fascinante. “Dedé, você vai fazer dezessete!” — eu repetia, incrédulo, da mesma forma como alguém talvez ficasse ao saber que um avô nasceu no século XIX, por exemplo. O fato é que eu tinha uma amiga adulta e ninguém mudaria aquilo! Dois anos depois, seria a minha vez de quebrar a barreira dos 17. Mal sabia eu que celebraria a entrada dessa era do outro lado do planeta, em plenos Jogos Olímpicos, em um novo mundo que se abria, com infinitas possibilidades, com amigos que não conhecia nos 17 anos anteriores. Alguns deles continuariam amigos por algum tempo, outros se tornariam colegas de trabalho e muitos eu jamais veria novamente.

Mas eu também não sabia de nada disso.

O não saber o que vinha depois era empolgante, e assim os 17 anos que se seguiram passaram rápido. Uma carreira imprevisível, viagens inesperadas, amizades inusitadas e — olha só — um apartamento no 17º andar de um prédio convenientemente localizado a três quadras de um trabalho que, para a minha surpresa, ainda seria meu sete anos depois.

Tantas coisas novas até o aniversário de 34! Este, também, celebrado com pessoas novas, advindas de uma atividade impensável no passado — o circo —, em um restaurante inédito.

“A vida é tão cheia de novidades!”

E de repente… não é mais. Ou não parece ser.

Aos 17, a vida toda está pela frente: um mundo de sonhos e possibilidades. Então, num piscar de olhos, os grandes marcos já ficaram para trás; alguns sonhos foram conquistados, outros não; novos sonhos vêm e vão, e o futuro deixa de ter um alvo definido. A ilusão de que tudo é possível dá lugar à realidade. O não saber o que vem depois passa a ser tão excruciante quanto saber que não há nada específico pelo que ansiar — e que tudo bem.

Aí só resta viver o presente — algo que 2020 está nos forçando a aprender.


Este ano, minha sobrinha, que até ontem era um bebê, completou 17 anos. Perguntamos o que ela queria ser no futuro.

— Ainda não sei — respondeu, sabiamente.

Eu também não.

Foto: Acervo pessoal

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