Cotidiano, família, viagem

Devassos

Tendo passado a grande maioria dos meus trinta e seis anos solteiro, estar em viagens ou eventos sociais acompanhado de amigos e familiares é, para mim, completamente natural. A sociedade, porém, não parece pensar da mesma forma. Isso ficou evidente em uma viagem de três dias que fiz para um hotel no interior de São Paulo com meu amigo Jorge.

Estávamos almoçando, Jorge e eu, quando ele levantou-se para buscar mais comida. Um garoto de uns 10 anos de idade se aproximou e me encarou, curioso. Ele vestia uma camisa do São Paulo e uma chuteira colorida, e tinha um olhar que transmitia, ao mesmo tempo, inocência e sadismo. Descobriria no futuro, sem grande surpresa, que seu nome era Enzo.

— Você é o tio do futebol? — ele perguntou.

Tentei me lembrar da última vez em que eu havia tocado numa bola de futebol, possivelmente em uma brincadeira entre amigos, em 2006. A penúltima certamente havia sido em 1993.

— Não — respondi.

— O que você faz?

— Aqui ou na vida?

Ele refletiu por um instante.

— Aqui.

— Estou de férias, descansando.

— Você namora?

Quem é você? Minha mãe? Por que esse interesse na minha vida afetiva?

— Não.

— Cadê o moço que estava sentado aqui?

— Foi pegar mais comida.

Não é a primeira vez que alguém suspeita que Jorge e eu somos um casal. Não por qualquer característica em particular – apesar de Jorge já ter sido questionado sobre o tamanho de suas golas V, o comprimento de suas bermudas, a estampa de sua sunga –, mas simplesmente porque se dois homens estão juntos, e não estão bebendo, jogando futebol ou arrotando, eles só podem, é claro, estar chupando o pinto um do outro. Jorge não é gay – algo que ele faz questão de deixar claro para as mulheres solteiras ao redor. Aliás, se medíssemos a heterossexualidade de alguém pela quantidade de parceiros do sexo oposto, Jorge seria possivelmente a pessoa menos gay do meu convívio. Dito isso, não é como se ele se importasse com a questão – um dos muitos motivos pelos quais somos tão amigos.

Ser confundido com um casal não é uma novidade para mim. Certa vez, em um bar descolado, um garçom/modelo decidiu que Larissa e eu éramos o par perfeito, a ponto de perguntar para mim qual drink ela queria e nos servir água no mesmo copo. Isso acontece também de maneira ainda mais costumeira – e perturbadora – quando estou com minhas irmãs. Durante anos, fiz aulas de espanhol com uma delas, cinco anos mais velha. Um dia, renovando a matrícula, a secretária tomou coragem e se manifestou:

— Desculpa, posso fazer uma pergunta? Faz muito tempo que eu quero perguntar, mas não tinha coragem.

— Pode falar — respondi, com alguma tensão.

— Vocês são o quê?

Levamos alguns instantes para entender o que ela queria dizer.

— Vocês são casados? — ela esclareceu.

“Eu tenho dezesseis anos! E você sabe disso, porque na ficha que está na sua frente tem minha data de nascimento!”

— Não, nós somos irmãos.

— Nooooossa, eu nunca ia imaginar! Eu via o mesmo sobrenome, mas bem que achava vocês muito novinhos pra serem casados…

Com minha outra irmã – esta, treze anos mais velha – a situação é parecida. Basta entrarmos em qualquer quarto de hotel para encontrarmos uma cama de casal romanticamente decorada. “Olá, é do spa? / Gostaria de marcar duas sessões para hoje à tarde. / Não, não estamos em lua de mel. Quer dizer, espera. Tem desconto?” Agora um homem e uma mulher não podem nem fazer uma massagem esfoliante juntos sem parecerem um casal? Também acontece de estarmos com minhas sobrinhas, de idades treze a dezessete, o que automaticamente nos configura como um casal com três filhas – ou, em dias menos generosos com minha irmã, uma mãe com quatro filhos.

Já quando visito minhas sobrinhas, sua mãe anuncia ao porteiro:

— Pode deixar subir, é meu irmão – “e não meu amante”, é o que fica implícito.


No segundo dia da viagem, Enzo nos encontrou na piscina.

— Você é o tio do futebol? — perguntou, desta vez para Jorge.

— Não.

— O que você faz?

— Estou de férias, descansando.

Eu já sabia o que vinha depois.

— Você namora?

— Não.

Enfim, ele tomou coragem, apontou para nós dois e perguntou o que realmente queria saber:

— Vocês são o quê?

— Amigos — Jorge respondeu.

Não sei se ele resolveu mudar de assunto ou validar a resposta, mas a pergunta seguinte foi direcionada a mim.

— Hoje você não está usando o arquinho?

Era uma época conturbada, em que muitos homens – e mulheres – abandonaram qualquer senso estético, de forma que mullets e raízes brancas repentinamente voltaram à moda. Sendo assim, a forma mais prática de manter meus cabelos apresentáveis à sociedade era usando uma tiara, o que Enzo, suspeitava eu, considerava um artigo feminino.

— É que na piscina não precisa — respondi.

— E esse livro que você tá lendo? É Harry Potter?

Ele apontou para o livro com uma coruja na capa, apoiado sobre uma toalha na borda da piscina. “Vamos Explorar Diabetes com Corujas – ensaios, etc.” era o título, em tradução livre. Escrito por David Sedaris – um autor alcoólatra, homossexual e genial – o livro reúne histórias em primeira pessoa sobre o roubo de tartarugas-bebês, desavenças com estranhos em aeroportos e aventuras sexuais em um trem, entre diversos outros episódios.

— Não, definitivamente não é Harry Potter.

Horas depois, estávamos de volta ao restaurante, Jorge, eu e agora Renata, uma garota que viajava sozinha e a quem Jorge havia deixado claro que não era gay. “Viajando sozinha nesse hotel que só tem velho e família? Certeza que é puta!”, refletiram os pais de Enzo em algum momento. Enzo voltou, dessa vez acompanhado de dois amigos mais novos. “Vem comigo, quero mostrar uma coisa incrível pra vocês!” – ele certamente dissera minutos antes. Os três nos encaravam como quem acompanha pinguins sendo alimentados no zoológico. A equipe de animação do hotel nos olhou da mesa ao lado. Talvez estivessem com ciúmes. “O que eles têm que eu não tenho?”

— Viu, Enzo? Eu chamei ele pra jantar! — disse Renata apontando para Jorge, sugerindo que ela também havia sido vítima do interrogatório afetivo do garoto.

Depois de nos encararem por mais alguns desconfortáveis minutos, o pequeno trio partiu rumo a alguma atividade seguramente menos interessante.

— Hoje cedo ele me perguntou como vocês dormiam — confessou Renata. — “Porque nos quartos só tem uma cama de casal!”

— E você disse que no nosso quarto a cama é de solteiro e que dormimos nus, de conchinha?

Ainda veríamos Enzo mais uma vez naquela viagem. Jorge, Renata e eu conversávamos na recepção quando ele passou com os pais, que levavam as malas para fora.

— Já vai embora? — perguntou Renata.

— Já… — disse ele, decepcionado com o fim das férias.

Seus pais, por outro lado, carregavam o carro aliviados por levarem seu rebento para longe daquele antro, onde atos impronunciáveis eram praticados ao cair da noite na intimidade do quarto 238.

Foto: Thomas Couture“Les Romains de la décadence” (Musée d’Orsay, 1847. Óleo sobre tela, 472 x 772 cm)

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Discord

Recentemente, na agência onde trabalho, começamos a usar um programa de comunicação chamado Discord. Meu primeiro pensamento ao ver aquele logo com um robô feliz foi: “por que alguém daria esse nome justamente a um programa de comunicação?” Eu poderia ter investigado um pouco e resolvido esse mistério, mas não me importei o suficiente – confesso. Apelidei o famigerado de “discórdia” e segui a vida. Essa singela reflexão, porém, levou-me a outra um pouco mais profunda.

Há alguns anos, um casal de amigos veio jantar em casa (numa época em que isso era socialmente aceitável). Surgiu o assunto do sistema educacional brasileiro, sobre o qual ele, professor de Geografia, tinha fortes opiniões. Não posso dizer que as minhas opiniões eram fortes, mas eram, certamente, diferentes das dele. Porém, decidi me calar. Não nos víamos havia muito tempo, e só o que eu queria era conversar amenidades e beber um vinho. E assim foi.

Por uma grande casualidade, no dia seguinte, uma amiga em comum iria jantar na casa desse mesmo casal. E lá fui eu novamente. “Ou a gente não se vê nunca, ou se vê duas vezes no mesmo fim de semana! Que coisa, não?” Novamente, surgiu o assunto do sistema educacional brasileiro, dessa vez ainda mais inflamado do que na noite anterior. A amiga em comum – que também não os via há tempos e, portanto, poderia usar o mesmo argumento que eu – tinha uma visão distinta e resolveu expressá-la. Não foi uma briga. Não houve tensão. Ele tinha uma opinião. Ela discordava. O assunto foi debatido. Jantamos, tomamos vinho, aprendemos uns com os outros.

Foi então que eu percebi que estou desaprendendo a discordar. Não apenas eu: nós. Numa época de cancelamentos e lacrações, vamos nos tornando meros hospedeiros de ideias virais que precisam impreterivelmente contaminar o outro; polos negativos de ímãs que jamais conseguem se aproximar. Em meio a discursos inflamados de “somos todos iguais”, vamos perdendo a habilidade de lidar com o diferente.

No final de 2016, no dia seguinte à eleição em que Donald Trump venceu Hillary Clinton, a repórter Stephanie Foo entrevistou dois amigos, militares, para um breve segmento do podcast This American Life que concluía assim:

“Sentar com esses caras logo depois dessa eleição tão pesada e segregadora foi revigorante. Não a parte sobre uma possível guerra nuclear, mas a maneira como eles falavam um com o outro. Eles discordam em tudo, mas gostam demais um do outro. Eles trabalham muito bem juntos, fazem o que precisam fazer. Muitos dos eleitores de lados opostos não conversam o suficiente para perceber que, na verdade, poderiam se dar bem. Neste momento, em que ninguém parece ouvir ninguém com um ponto de vista diferente, em que um lado despreza o outro e acredita que ele vai destruir o país, foi um alívio assistir a uma discussão decorrer dessa forma, sem qualquer julgamento, raiva ou rancor, em que uma pessoa reconhecia continuamente a humanidade da outra. Depois deste último ano, a gente precisa muito disso.”

Foi há quase quatro anos, mas poderia ter sido ontem; foi nos EUA, mas poderia ter sido em qualquer lugar do mundo; foi sobre política, mas poderia ter sido sobre qualquer assunto.

Mas voltando ao Discord. Que nome incrível para um programa de comunicação!

Foto: discord.com

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Dezessete

Há coisas na vida que aparentemente não fazem sentido. Muitas, na verdade. Uma delas — e uma nada relevante, devo adiantar — é a minha relação com o número 17. Muito antes de ser um ícone nacional de polarização política associado a figuras nefastas, o número 17 já era um símbolo internacional de mau agouro. Alguns dizem ser devido ao anagrama VIXI, do algarismo romano XVII, que em latim significa “eu vivi”, portanto, “estou morto”. Na Itália, aliás, de onde vem minha herança genética, o 17 equivale ao nosso 13: o dia de azar é a sexta-feira 17. Vixi!

Mas na adolescência eu não sabia de nada disso, e nem me importava (o que me importava na adolescência?). Aos 15, uma grande amiga completou 17 anos. Por algum motivo, aquilo me era fascinante. “Dedé, você vai fazer dezessete!” — eu repetia, incrédulo, da mesma forma como alguém talvez ficasse ao saber que um avô nasceu no século XIX, por exemplo. O fato é que eu tinha uma amiga adulta e ninguém mudaria aquilo! Dois anos depois, seria a minha vez de quebrar a barreira dos 17. Mal sabia eu que celebraria a entrada dessa era do outro lado do planeta, em plenos Jogos Olímpicos, em um novo mundo que se abria, com infinitas possibilidades, com amigos que não conhecia nos 17 anos anteriores. Alguns deles continuariam amigos por algum tempo, outros se tornariam colegas de trabalho e muitos eu jamais veria novamente.

Mas eu também não sabia de nada disso.

O não saber o que vinha depois era empolgante, e assim os 17 anos que se seguiram passaram rápido. Uma carreira imprevisível, viagens inesperadas, amizades inusitadas e — olha só — um apartamento no 17º andar de um prédio convenientemente localizado a três quadras de um trabalho que, para a minha surpresa, ainda seria meu sete anos depois.

Tantas coisas novas até o aniversário de 34! Este, também, celebrado com pessoas novas, advindas de uma atividade impensável no passado — o circo —, em um restaurante inédito.

“A vida é tão cheia de novidades!”

E de repente… não é mais. Ou não parece ser.

Aos 17, a vida toda está pela frente: um mundo de sonhos e possibilidades. Então, num piscar de olhos, os grandes marcos já ficaram para trás; alguns sonhos foram conquistados, outros não; novos sonhos vêm e vão, e o futuro deixa de ter um alvo definido. A ilusão de que tudo é possível dá lugar à realidade. O não saber o que vem depois passa a ser tão excruciante quanto saber que não há nada específico pelo que ansiar — e que tudo bem.

Aí só resta viver o presente — algo que 2020 está nos forçando a aprender.


Este ano, minha sobrinha, que até ontem era um bebê, completou 17 anos. Perguntamos o que ela queria ser no futuro.

— Ainda não sei — respondeu, sabiamente.

Eu também não.

Foto: Acervo pessoal

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Só um pouquinho

Eu estava deitado de lado em uma maca, uma agulha de acesso espetada no meu braço, esperando para a receber a anestesia. Sob meu rosto, um pedaço de papel toalha. “É que você vai babar,” havia explicado o enfermeiro minutos antes. “Que sexy,” reflito.

Existem muitas coisas que me deixam tenso: andar de carro sem GPS por lugares desconhecidos, aguardar o salto numa plataforma de trapézio, organizar eventos sociais… mas fazer exames médicos não é uma delas. Prestes a ser invadido por um tubo no esôfago, minha maior preocupação era acordar falando besteira por efeito das drogas (nada que millennials não vivenciem com certa frequência).

Até aquele momento, o porteiro Jabson — sim, Jabson —, a recepcionista Leila e o enfermeiro Francisco haviam sido totalmente gentis e solícitos, validando minha teoria de que fazer exames não é muito diferente de ir a um spa.

Eis que se aproxima Marielza, a nova enfermeira.

— Abre a boca — ela ordena.

Dr. Henrique, que vai realizar meu exame, está do outro lado da sala, fora do meu campo de visão e também segue a linha “papo reto” de Marielza.

— Por que pediram esse exame pra você? — ele pergunta.

Tento olhar para ele, mas não posso me virar. Aguardo que ele venha se apresentar antes de me apagarem, mas ele continua ali, alheio à minha necessidade de conhecê-lo.

— Morde — comanda Marielza com uma peça redonda na mão. Eu obedeço.

— Catatepa dara a errame? — pergunto.

— Hein?

— Quanto tempo dura o exame? — repito.

— Uns dez minutos. Agora para de falar porque senão a peça vai cair da sua boca!

Antes que eu pudesse tirar qualquer outra dúvida, meus sentidos se vão. Acordo já na sala de recuperação, sem nunca saber a cara de Dr. Henrique nem poder dizer à Marielza que ela arruinara minha experiência relaxante daquela endoscopia.

Eu não duvido que Marielza e Henrique sejam profissionais competentes, afinal, eu ACORDEI da anestesia, na hora certa, e meu exame identificou direitinho todas as “ites” existentes. Mas se um “oi” a mais teria feito diferença para mim, que estava quase me divertindo, imagino àquelas pessoas normais, que se sentem desconfortáveis e temerosas a menor presença de um instrumento médico.

Criei cenários na minha cabeça que justificariam o comportamento despachado da dupla, tão destoante dos outros com quem havia interagido aquele dia: talvez Marielza não estivesse escalada para tabalhar aquele dia e tenha vindo ao trabalho às pressas, desfazendo todos os seus planos para aquela quarta-feira; Dr. Henrique talvez estivesse preocupado com o filho, cuja professora acabara de ligar, informando sobre uma briga com um colega na escola. O que chega para nós dos outros é sempre uma parte tão pequena…

É fato que eu também já fui Marielza/Henrique muitas vezes na vida; já não dei muita bola a quem precisava de atenção, já simplesmente “tirei da frente” o que precisava fazer; já fiz meu trabalho empregando o mínimo de esforço possível; já justifiquei meu comportamento culpando todo um cenário alheio à minha vontade.

Mas, no fundo, a conclusão é uma só, e é bastante simples: seja lá o que for, sempre dá pra fazer com um pouquinho mais de amor.

Foto: http://wumo.com/wumo/2016/03/05

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Mr. Jones

Era uma tarde de setembro do ano 2000. Os Jogos Olímpicos de Sidney (do qual o Brasil sairia sem medalhas de ouro) estavam a poucos dias do início. Eu era um estudante de intercâmbio do Ensino Médio na Beacon Hill Technology High School, que hoje dá lugar a um condomínio de casas residenciais, e aguardava a aula seguinte no pátio com uma amiga brasileira. Ela sacou seu novíssimo discman da mochila, dividiu o fone de ouvido comigo e disse que queria ouvir só mais uma música, antes que a pilha acabasse. A música era Mr. Jones

O sucesso do Counting Crows logo se tornou minha música favorita e não demorou até que amigos começassem a associá-la a mim quando ela tocava no rádio, na balada ou no karaokê. “Vai lá cantar Mr. Jones!” Como é normalmente o caso, só depois de ouvir e cantar excessivamente a música comecei a prestar atenção na letra. A princípio, nada muito profundo ou original: dois amigos num bar, divagando sobre como seria ser famoso e, consequentemente, conquistar as mulheres que quisessem. 
 
Adam Duritz tinha vinte e poucos anos e não era um astro do rock quando escreveu a música, portanto frases como I wanna be a rock star ou When I look at the television I wanna see myself staring right back at me eram apenas sonhos que compartilhava com o baixista Marty Jones. Porém, quando seus sonhos se tornaram realidade, ideias como When everybody loves me, I will never be lonely provaram-se bastante equivocadas.
 
Conquistar um sonho de infância assim, tão diretamente, é para poucos, e deve ser assustador perceber que a realidade é bem diferente da sua percepção. Adam Duritz chegou a declarar que o suicídio de Kurt Cobain  um astro de idade e sonhos similares aos seus, que tirou a própria vida na mesma época em que Mr. Jones atingia o auge  afetou bastante sua maneira de perceber a carreira. Perceber o mundo, aliás, sempre foi uma questão complexa para Adam Duritz, que declarou sofrer de uma doença mental que o faz ter uma percepção distorcida da realidade, como se os acontecimentos não fossem reais, o que o faz ter dificuldade de se conectar com as pessoas. Como lidar com a ironia de ser famoso e conectar-se com mundo todo e ao mesmo tempo sentir-se desconectado desse mundo?
 
O escritor americano David Sedaris publicou há alguns anos um livro com trechos dos seus diários, que começam no início de sua vida adulta, quando era um estudante quase sempre sem dinheiro e envolvido com drogas, e chega até seus dias de sucesso, vivendo em Paris, viajando o mundo para divulgar seu trabalho. Há um momento mágico no livro, quando sua vida começa a seguir o caminho que ele sempre sonhou, seus livros publicados, suas peças lotadas: quando ele está exatamente onde sempre quis estar  e percebe isso. Mas o mundo não para nesse ponto alto e a vida segue. Quando antes ele precisava pedir carona e aplicar pequenos golpes para viajar pelo país, agora suas milhas dão upgrade para a classe executiva. No começo, ele diz, virava o rosto envergonhado para não encarar o julgamento dos passageiros da classe econômica que passavam pelo corredor, até que um dia viu-se enfurecido quando a Air France não pôde colocá-lo na primeira classe. “O que está acontecendo comigo?!”
 
Todos nós sonhamos coisas. Às vezes temos sucesso, às vezes não; às vezes aquilo era exatamente o que queríamos, às vezes não. Todos podemos revisitar e mudar nossos sonhos, e por isso é difícil imaginar ter de gritar seus sonhos antigos, suas crenças equivocadas, por elas estarem eternizadas na música de maior sucesso da sua banda. 
 
Há alguns anos, em uma versão acústica de Mr. Jones, Adam Duritz achou a solução para essa questão: ele simplesmente mudou a letra. 
 
De We all wanna be big stars, but we’ve got different reasons for that para …but then we get second thoughts about that.
 
De Believe in me para You should not believe in me.
 
De When everybody loves me, I will never be lonely para …it’s just about as fucked up as you can be.
 
E termina: Can’t you hear me? Cause I’m screaming. I did not go outside yesterday. Don’t wake me cause I was dreaming, and I might just stay inside again today. Mr. Jones and me… we don’t see each other much anymore.

Foto: http://www.mtv.com.br/artistas/xw63d0/counting-crows

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Ovo

Atualmente – e já há alguns anos, na verdade – fazer uma atividade cultural em São Paulo requer um nível considerável de planejamento e, muitas vezes, uma escolha entre divertir-se ou pagar a mensalidade do plano de saúde. Quando soube que o Cirque du Soleil estaria em São Paulo novamente, não pensei duas vezes antes de ligar para minha amiga de aventuras circenses, Zandra. “Venda seu carro. Vamos ao circo.”

O valor do ingresso, como de costume, era o suficiente para alimentar uma família de refugiados por cinco dias. Tudo bem, o ser humano vive semanas sem comida, já o Cirque du Soleil vem ao Brasil uma vez a cada dois anos, quando muito.

Para economizarmos algumas centenas de reais da taxa de conveniência e podermos comprar uma pipoca mini, resolvemos adquirir os ingressos diretamente na bilheteria. O conceito da taxa de conveniência, aliás, permanece um mistério para mim. Imprima seu ingresso com seu papel e tinta e sem incomodar nossos funcionários e pague apenas alguns milhares por isso.

O ponto de venda, assim como agências bancárias e supermercados, dispõe de três vezes mais caixas fechados do que abertos, com o único objetivo de gerar uma fila e fazer você pensar: por que não paguei a taxa de conveniência?

No guichê, uma senhora de cachecol e seu marido ficam decepcionados por não haver mais ingressos para o dia 8, no setor VIP. “Pode ser o setor premium, então”, resigna-se ela. “Senhora, dia 8 está completamente esgotado. Eu tenho pro dia 26, no setor 2, lateral” diz a atendente, inabalada. A senhora vira-se para o marido. “Ih, Mário, mas acho que dia 26 o Rogerinho não pode. Liga pra ele, vê se ele já vai ter voltado.” “Não tem mesmo nada dia 8?”, insiste ela, como se a atendente pudesse ter-se enganado e olhado os ingressos do show de Sandy & Júnior no lugar.

Um jovem casal se aproxima de um atendente alto e magro, que contava os segundos para sair dali e tomar um milkshake do Bobs. “Visão parcial? Mas o que isso quer dizer exatamente?”, pergunta o rapaz, refletindo se vale a pena investir dois meses de salário em um espetáculo parcial de circo. “Há uma coluna que pode interferir parcialmente na sua visão em alguns dos números.” Deve ser uma experiência interessante: você vê um acrobata jogando outro na maca russa, e deduz – mas nunca sabe ao certo – que ele foi pego pelo acrobata do outro lado.

Uma criança chora enquanto a mãe sai da fila para comprar um Baccio di Latte; outra volta com nuggets de frango do Burger King. Enquanto cada um na fila leva 30 minutos em frente ao atendente, frustrando-se com a indisponibilidade dos lugares desejados, Zandra e eu matamos o tempo discutindo nosso futuro. “Você sabe que em breve a gente não vai mais precisar pegar filas, né?”, revelo. Somos bem conectados no mundo circo e não tardará até que tenhamos convites para espetáculos do Cirque du Soleil em Las Vegas, Montreal e na China. Ingressos VIP, obviamente. Ela continua o devaneio: “Estarei trabalhando na Emirates, então a gente dá um pulo em Dubai depois segue pra China. Te falei que você vai estar na minha lista de closest friends para descontos nas passagens?” 

Nosso futuro é interrompido pela atendente de cabelos curtos e encaracolados, que por algum motivo inexplicável parece feliz de estar ali. Zandra e eu indicamos o dia, horário, setor e assentos. “A gente é muito eficiente”, nos gabamos, enquanto no guichê ao lado alguém perguntava se era possível dar zoom na tela para ver melhor o mapa de assentos do setor 1. “Se todo mundo fosse assim…”, comenta nossa atendente-cúmplice. Zandra pergunta se eles, os atendentes, conseguem assistir ao espetáculo. Ela confirma. “A gente se reveza para ver nos lugares que sobram”. Será que três visões parciais equivalem a uma completa?

No dia do espetáculo, o carro é estacionado longe o suficiente para fugir do caos ao sair, perto o suficiente de uma portaria para não sermos sequestrados, e longe o suficiente de uma árvore que pode cair caso chova. O ginásio está cheio. A garota ao meu lado PRECISA registrar tudo o que acontece com seu iPhone e enviar as fotos em tempo real para o seu namorado, com quem troca mensagens e emojis enquanto um acrobata russo equilibra-se em apenas uma mão numa estrutura metálica de dois metros de altura. 

E ali mesmo, sentado num ginásio de esportes que faz as vezes de picadeiro, cercado de vidas e histórias, todo entorno parece desaparecer. Não existe o antes, não existe o depois: existe o agora, onde homens e mulheres de todas as partes do globo unem-se para combinar a técnica mais refinada com luzes, e cores, e sons, e texturas, em movimentos quase sobre-humanos, com um único e fundamental objetivo: arrebatar nossos sentidos com a surpreendente beleza que o ser humano ainda é capaz de gerar.

Foto: Divulgação Cirque du Soleil

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Terça-feira

É um daqueles dias em que você decide que tudo bem almoçar um Mc Donald’s em plena terça-feira, com direito a batata grande e nuggets de seis com molho caipira, como você fazia na infância. Talvez até um sorvete. Não tem nada de errado com a sua manhã, mas também nada parece muito certo. Você foi resolver uma dessas burocracias da vida adulta e caminha por ruas que não costuma caminhar, onde pessoas parecem viver vidas reais — de alguma forma, mais reais que a sua. Pelo menos é uma quebra na sua rotina, e o dia está bonito, então você decide aproveitá-lo, nem que seja comendo um Mc Donald’s naquela loja que era o refúgio do “cheeseburger a um real toda quarta” na época do cursinho. Você lembra da loja maior do que era, como de costume acontece quando voltamos aos lugares do passado. Pensa nos amigos que dividiram aquelas mesas com você: cada um hoje em um lugar da vida e do mundo. Os sanduíches não são mais tão simples como eram naquela época e você decide testar uma das novidades do cardápio, acompanhado do nuggets de seis com molho caipira em que você está pensando desde que pegou o carro e decidiu que era um daqueles dias que tudo bem bem almoçar no Mc Donald’s em plena terça-feira. Enquanto aguarda seu pedido, você observa o entra e sai da loja, a gerente que destrava um caixa, a moça da limpeza que tira o lixo com um sorriso no rosto e um headset no ouvido. Uma mãe liga para o filho e exige que ele coma alguma coisa antes de ir fazer a prova e que ele mande uma mensagem para o pai. Você ainda não se decidiu sobre o sorvete e decide decidir depois. Você apanha sua bandeja, seus guardanapos e senta-se no balcão. Mal começa a molhar a batata no ketchup quando um garotinho se aproxima. Você está num banco alto e por isso o garotinho de cabelos descoloridos parece ainda menor e mais indefeso quando pede para você comprar um lanche. Por algum motivo você já sabia que isso iria acontecer e não pensa duas vezes antes de dizer que sim. Você pergunta qual sanduíche ele quer e ele aponta para o cartaz da promoção 2 por 1. Você desce do balcão, vai com ele até o caixa e acrescenta uma batata e uma coca-cola. A atendente sorri e pergunta o seu nome para anotar no pedido. Você sorri e pergunta o nome dele.

— Irã.
 
Irã como o enorme país do Oriente Médio, como o lar das civilizações mais antigas do mundo, como a terra cheia de riquezas sob a superfície e de conflitos sobre ela. Irã.

Ele aguarda seu lanche enquanto você volta para o balcão e come um nugget. A atendente sorridente entrega a bandeja e ele senta-se na mesa à sua frente, te agradece com um joinha e abre o sanduíche. Você pensa em ir sentar-se com ele, mas pensa que talvez seja invasivo; pensa em chamá-lo para sentar-se com você, mas de repente o oceano de distância entre vocês parece intransponível. Você pensa que não saberia o que dizer ou o que fazer, pensa que alguns minutos à mesma mesa não seriam suficientes para conectar o seu continente e o dele, e decide continuar ali, comendo seu sanduíche enquanto ele come o dele. Você pensa que pode pelo menos comprar um sorvete para ele quando for comprar o seu — ele certamente não espera por isso e ficará feliz. Mas antes de você terminar suas batatas ele já terminou as dele. Ele se levanta, com o sanduíche e a coca-cola ainda em mãos, te agradece novamente e sai pela porta que entrou, desaparecendo na avenida. Você termina o sanduíche, o nugget, a batata; joga as embalagens no lixo que a moça sorridente acabou de limpar e parte. Você passa pelo caixa em direção à saída e já não quer mais tomar um sorvete. Não tem nada de errado com a sua tarde, mas também nada parece muito certo.

Foto: https://www.meioemensagem.com.br/home/ultimas-noticias/2019/01/16/mcdonalds-perde-uso-exclusivo-da-marca-big-mac-na-europa.html

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Permanente

Quando estava na terceira série, recebi a lista de materiais para o ano letivo e, em meio a réguas de acrílico, lápis-de-cor e cadernos ¼ capa dura de 48 folhas, havia um par de itens que me deixou muito empolgado: canetas. 

Minha diminuta vida acadêmica até então incluía apenas escritos com lápis HB, que ofereciam a acolhedora propriedade de poderem ser apagados a bel-prazer a qualquer risco acidental ou tigela com j. Mas agora as coisas seriam diferentes! Os erros em canetas Faber-Castell azul e verde estariam lá para sempre, talvez riscados, talvez com alguma correção tosca, mas sempre visíveis. Permanentes. 
 
À parte dos dentes de leite (“quebrou, mas tudo bem, depois nasce outro!”) não me lembro de outra situação na infância com essa divisão tão clara de “antes era mentirinha, agora tá valendo!”. Na vida adulta, então, nem se fala.
 
Na faculdade, fui uma das últimas turmas a ter aula de montagem com negativos de cinema. “A relação com as decisões é diferente”, dizia a professora. “Uma vez que você cortou o negativo, não tem volta. Você pode colar de novo, mas já não é a mesma coisa.” Hoje você vai e vem na timeline, cortando livremente, a um Ctrl+Z de qualquer conserto. Não é preciso refletir antes de agir.
 
Fico imaginando quão diferente era o processo dos escritores que datilografavam em máquinas de escrever, cada letra perpetuamente marcada na folha, fosse ela para o texto final ou para o cesto de lixo.
 
Não era diferente com as fotografias. Os passeios de escola eram acompanhados por um filme de 12 poses; um aniversário, de 24; um fim de semana na praia, de 36. Os registros tinham de ser pensados, refletidos. Havia limitações: o número de poses, o valor da revelação; e ainda era necessário esperar — algumas horas, alguns dias — para ver a imagem final: tudo muito diferente das sete opções de foto que tiramos do grupo hoje em dia, que rodam pelos grupos de WhatsApp por algumas horas e depois desaparecem num buraco negro, como diria minha mãe. Queremos tanto registrar o momento para que ele dure para sempre, mas depois raramente voltamos a ele: basta a (falsa) sensação de que ele é eterno, de que pode ser vivido depois, se eu quiser — mesmo que eu provavelmente não vá querer. 
 
Tudo hoje parece ser feito para ser reversível. O permanente assusta: seja um emprego, um relacionamento, uma moradia. “Mas eu vou ficar aqui PRA SEMPRE!? E se aparecer uma opção melhor?” Cada vez menos nos preparamos para qualquer tipo de para sempre, mas, ao mesmo tempo, o incerto e o imprevisível também não nos acolhem. Exigimos tudo: liberdade, opções, mas também algo sólido em que nos apoiar, algo que sempre esteja lá — e meras tatuagens não dão conta do recado.
 
Outro dia fui visitar uma amiga de infância que estava prestes a ter um filho — uma das poucas coisas verdadeiramente permanentes dos tempos atuais. 
 
— Como você conseguiu continuar amigo dela até hoje? — perguntou minha sobrinha adolescente. 
 
A resposta não veio imediatamente. Como, afinal, foi possível manter amizades por 20, 30 anos, grande parte deles sem Facebook, WhatsApp ou qualquer rede social que (supostamente) nos mantivesse conectados? 
 
Em termos práticos, respondi que foi me lembrando de aniversários todo ano (às vezes anotando na agenda física), ligando para dar Feliz Natal, criando eventos (reais) para reunir as pessoas. Mas por trás disso esteve sempre algo mais profundo: a vontade de manter as amizades vivas, a noção de que a quantidade de bons amigos (ao contrário do que podem dizer likes e followers) é limitada como um filme de 12 poses. Era mais difícil encontrar e reencontrar pessoas, por isso sempre foi fundamental mantê-las no nosso convívio e não descartá-las como uma foto desfocada do jantar passado.
 
Com tantas opções à disposição, nunca foi tão fácil trocar: trocar de amigo, de emprego, de país, de amante. Para que consertar a sola do sapato se eu posso comprar um novo? O para sempre deu lugar ao eterno enquanto dure; o praticar a lápis deu lugar a rabiscos direto a caneta, com um pote de liquid paper sempre a mão. E nessa longa trilha entre a segurança do permanente e a leveza do efêmero, caminhamos cautelosos (ou não), cientes (ou não) do abismo do vazio a poucos metros de cada passo.
 

Foto: Acervo pessoal

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Cotidiano, viagem

Um dia na história contemporânea

Esta semana tive de ir ao consulado italiano solicitar a emissão de um novo passaporte. Não é primeira tentativa. Ano passado estive no mesmo local, porém um registro desatualizado de endereço me fez voltar ao final da fila e aguardar por um novo agendamento – meses depois.

Sabendo que o local não permite o uso de celulares, vou munido de um livro – Sapiens – que leva o ousado (e acertado) subtítulo de Uma Breve História da Humanidade. Apanho minha senha – 78 – e tomo assento em meio a uma miríade de descendentes de italianos com suas respectivas pastinhas, sonhos e medos. 
 
― As senhas para passaporte serão chamadas por voz, em grupos de dez ― informa o segurança.
 
Ponho-me a ler sobre os Homo sapiens caçadores-coletores de 50 mil anos atrás: como se organizavam, como se alimentavam e como nossa estrutura foi se adaptando agora que não precisamos mais fugir de leões ou sentir o cheiro da chuva. 
 
― Senhas 40 a 50 ― anuncia a voz, cerca de meia hora depois.
 
Faço uma rápida conta e percebo que passaria muito mais horas ali do que o previsto. Uma senhora ao meu lado, com a senha 81, também percebe e bufa, antes de voltar para sua leitura: Abílio – Determinado, Ambicioso, Polêmico.
 
Se por um lado o Homo sapiens é um ser extremamente adaptável que conseguiu dominar outras espécies e povoar toda a Terra, por outro ainda resta adaptar-se a um ambiente fechado, sem ar-condicionado e sem acesso à tecnologia. Observar pessoas em tais condições é como participar de um experimento sociológico: um grupo de Homo sapiens do mundo atual é teletransportado para um saguão em 1994, pré-internet móvel, sem ar-condicionado, sem televisão, apenas com uma máquina de foto instantânea e uma de salgadinhos, bolachas e bebidas, que aceita exclusivamente notas de dois e cinco reais, e são forçadas a esperar. 
 
― Senhas 50 a 60!
 
Alguns dormem, outros rabiscam num envelope, outros leem, outros ousam interagir com o conterrâneo ao lado, e outros – sobretudo crianças, mas não apenas – choram. Entreter duas crianças pequenas que aguardam há horas sem poder lançar mão de uma Peppa Pig ou uma Galinha Pintadinha é um desafio para o qual o Homo sapiens não teve tempo de se preparar. 
 
Uma moça com um rabo de cavalo, que fez sua cidadania em Assis, mas que passava mais tempo na Toscana, e que agora estava no Brasil, mas talvez se mudasse para Malta em março, pergunta à atendente onde registrar seu endereço.
 
― É que ela tem uma carreira muito internacional ― explica o marido, com sotaque italiano.
 
A funcionária dá as instruções.
 
― Seu italiano é muito bom! ― diz ele.
 
― É que eu sou italiana ― diz ela.
 
― Senhas 60 a 70!
 
Mais um grupo sobe. Sinto fome, mas não posso caçar, nem coletar, nem comprar um Fandangos na maquininha porque usei minha última nota de 5 reais para comprar uma água. O consulado fecha em cinco minutos e, se sair, não posso voltar. Bebo água – dizem que inibe o apetite.
 
Volto ao livro e descubro que é difícil saber ao certo como viviam as sociedades de 40 mil anos atrás. Enquanto alguns fósseis encontrados indicam grupos que sofreram mortes violentas, outras regiões parecem revelar fósseis mais pacíficos. Começo a imaginar o quanto levaria para que esse grupo no saguão em 1994 começasse a guerrear por um assento, uma senha mais baixa, um pacote de Oreo. “O calor e o tédio podem levar o homem a loucura”, divago.
 
― Senhas 70 a 80!
 
Enfim! Subo ao segundo andar e aguardo ser chamado. Uma senhora de vestido azul suplica a um funcionário de cavanhaque: 
 
― Moço, faz vinte anos que estou tentando tirar esse documento! Não é possível que este comprovante de endereço não sirva. Ele é válido em qualquer lugar do Brasil!
 
― Mas aqui é a Itália. 
 
Um rapaz de óculos entrega os documentos de forma organizada a uma funcionária de longos cabelos loiros.
 
― Essa hora no fim do expediente é sempre melhor. Os mais atrapalhados sempre vêm cedinho ― conta ela.
 
Esboço um sorriso ao pensar na sua inocência em achar que conseguimos ESCOLHER nossos horários. Você passa dias tentando ligar para o número de agendamento. Alguém atende. Você abre um vinho para celebrar.
 
― Tenho disponível dia 25, às 10h, pode ser?
 
― Tá ótimo! É o casamento da minha irmã, mas ela vai entender. Ela arranja outro padrinho e, se der, ainda chego para a festa!
 
― Senha 78!
 
Vou até a mesa indicada e saco meus documentos com aquela tensão típica que só autoridades internacionais são capazes de elicitar.
 
― Esta foto não deveria estar colada. E esta assinatura deveria ter sido feita na minha frente ― diz o funcionário com a naturalidade de quem pede um pão de queijo na padaria.
 
― Eu tenho outras fotos! Eu tenho um formulário em branco! Eu te dou um abraço! Não me manda embora!
 
Ele diz que está tudo bem, confere os documentos, pede novas assinaturas. 
 
― Você precisa viajar nos próximos 40 dias?
 
― Infelizmente não.
 
Ele pega meu passaporte atual e coloca um carimbo de anulado em cada uma das páginas vazias. 
 
STOMP. STOMP. STOMP. STOMP. Um visto. STOMP. STOMP. STOMP.
 
“Preciso viajar mais”, penso.
 
Enfim, ele solicita o cartão para pagamento.
 
O cartão não funciona.
 
Ele tenta outra vez, duas vezes, três vezes. Nada. Entrego outro cartão.
 
O cartão não funciona.
 
Por alguns instantes, sinto uma ponta de inveja dos caçadores-coletores, que não possuíam um sistema monetário, um cartão de crédito, um passaporte. E daí que vez ou outra morriam de frio ou eram devorados por roedores gigantes?
 
Transação aprovada!
 
O rapaz organizado pergunta à funcionária loira:
 
― Como será daqui a dez anos, na renovação do passaporte? O processo será o mesmo?
 
― Olha, passaporte você não renova, você emite um novo, mas não tenho a menor ideia como serão as coisas daqui a dez anos…
 
Saio com meu protocolo em mãos e com a mesma pergunta na cabeça: como será daqui a dez anos? O que o Homo sapiens terá destruído, desenvolvido ou desvendado até lá? Será que voltarei a este mesmo consulado em 2029? Será que meu passaporte terá mais carimbos? Quantas pessoas novas vou conhecer? Com quantas perderei contato? Só uma coisa é certa. Do alto dos meus 45 anos, vou olhar para minha foto atual e dizer:
 
― Nossa, eu ainda tinha cabelo!

Foto: Acervo pessoal

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Cotidiano, viagem

Terceiro ato

O ano que acaba hoje foi para muitos um ano intenso. Se não tanto, ao menos foi difícil ficar indiferente a ele. Em meio a acontecimentos que impactaram o país e o mundo, pessoas nasceram, morreram; quase 8 bilhões viveram seus dramas, sonhos, frustrações e conquistas individuais. Além das minhas próprias, pude acompanhar as de alguns à minha volta e de outros a distância, afinal, a mesma tecnologia que nos isola dos que estão ao lado, também nos aproxima dos que estão longe. 

Uma das bilhões de pessoas que viveu seus dramas, sonhos e frustrações em 2018 foi Christin. Embora tenha nascido no Canadá, um país onde nunca pisei e para onde muitos  amigos resolveram ir este ano, conheci Christin em Los Angeles há quase uma década. Morávamos no mesmo prédio e estudávamos na mesma escola, ainda que em anos e disciplinas diferentes. Rapidamente nos tornamos amigos, compartilhamos jantares mexicanos e conversas constantes na jacuzzi, onde ela me explicou, como uma boa canadense, que não usava a vaga de deficientes pois não sentia que precisava. 
 
Christin sofria de um problema cardíaco que havia paralisado seu lado direito, o que não a impedia de produzir filmes, namorar garotas, dirigir – e viver sem medo. Terminado o mestrado, voltei para o Brasil e, salvo por poucas atividades nas redes sociais, soube pouco de Christin até ano passado, quando a mensagem Hi friend! How’s life? surgiu no meu celular. Atualizamos nossas vidas: a minha envolvia essencialmente o mesmo trabalho há anos e aulas de circo; a dela, um casamento, um filho, um divórcio. 
 
Nos meses seguintes, voltamos a acompanhar a vida um do outro com fotos, mensagens de texto e áudios. Ela me falou sobre o processo de divórcio, que envolvia discussões sobre a guarda do filho, sobre sua vida profissional, sobre uma nova namorada, com quem esteve empolgada durante meses até que terminaram. Falamos sobre como tentamos o tempo todo estar no controle das nossas vidas e sobre como isso tudo é uma grande ilusão; como não temos controle de nada e como, ao reconhecer isso, abraçamos o descontrole como parte da vida e simplesmente vivemos.
 
Recentemente Christin confessou que se sentia sozinha em Sacramento, uma cidade que não lhe oferecia muitas oportunidades de trabalho, mas onde queria ficar para estar próxima ao filho. Brinquei que aquele era o fim do segundo ato de sua vida: o momento em que tudo dá errado para, logo em seguida, uma grande virada trazer um final feliz. Ela gostou da ideia. O que será o terceiro ato da minha vida? – refletiu.
 
Não muito depois ela me escreveu, empolgada, dizendo que dirigiu três horas de Sacramento a San José, para um encontro que havia sido fenomenal. Estava radiante, mas tentando não criar expectativas.
 
Uma semana depois descobri pelo Facebook que Christin estava em San José quando caiu, bateu a cabeça e morreu.

Foto: https://www.ef.com.br/ils/destinations/united-states/los-angeles/

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