Cotidiano

Do outro lado da arte

Eu nunca pensei em mim como um artista. A arte sempre esteve ali, à espreita, esperando para ganhar um espacinho na minha vida, mas artista, ARTISTA, isso era outra coisa: era quem aparecia na TV, quem pintava quadros.

Aos 13 anos, lá fui eu aprender a pintar quadros. Passei a chegar na escola com as mãos cheirando a terebintina, os braços sujos de tinta e talvez até um pouco descabelado, mas ter uma maleta de madeira com tintas, solventes e pincéis importados não era suficiente para mascarar o óbvio: minha total inabilidade em pintar qualquer coisa, comprovada insistentemente pelos quadros que minha mãe insiste em deixar pendurados na sala até hoje. “Tá lindo!”.
 
Aos 19, deixei meu prazer em escrever superar meu apreço pela matemática e fui estudar cinema. “Vou ser roteirista!”. Me imaginei impactando a vida de pessoas que jamais conheceria e – muito mais importante – frequentando pré-estreias badaladas, sendo ovacionado, com diversos filmes no currículo, administrando projetos, sendo simpático toda vez que fosse interrompido durante uma refeição para uma foto ou um autógrafo. “O quê? Meu filme mudou sua vida? Que gentileza! Agora preciso ir, o carro está esperando…”. 
 
Aos 25, minha pré-estreia mais badalada havia sido como assessor de imprensa para o megassucesso “A Terra Encantada de Gaya”, uma animação alemã dublada por Sabrina Sato, cujo aniversário não consegui comparecer devido à minha incapacidade de seguir uma Grand Cherokee com meu Fiat Palio pela Serra do Mar. 
 
Aos 30, finalmente recebi aplausos no palco: não por um filme, não por uma peça, mas por ter ajudado dez crianças a encontrar o poder da sua própria voz escrevendo suas próprias histórias, interpretadas por atores escolhidos por elas, enquanto eu observava tudo a distância, ora na plateia, ora na coxia.
 
O impacto na vida de desconhecidos veio com o trabalho voluntário em cidades que jamais pensei visitar e com textos despretensiosos jogados na internet todo mês em meio a memes da Copa, discursos de ódio e vídeos de gatinhos.
 
Mais tarde veio o circo. Começou como uma mera necessidade de não ser sedentário, combinada à aversão a espelhos de academia e seus reflexos. Quando percebi, já sabia que a “fita” chama tecido, “aquele bambolê pendurado” chama lira, o trapézio chama trapézio mesmo e todos eles têm igual poder em gerar hematomas. “É a arte entrando!”. Encontrei uma parceira para dividir a lira, as gargalhadas e as frustrações. Os movimentos de força e equilíbrio foram ganhando um senso estético e aos poucos deixaram de parecer uma tentativa de salvar alguém de um afogamento. Enfim, apresentamos nosso número – sempre na expectativa de não derrubar nem chutar a cara do outro. Ao final, alguém se aproximou: “Ficou lindo! Minha amiga não parava de chorar.”
 
Eu certamente já fiz pessoas chorarem: por algo que escrevi, por algo que fiz, por algo que disse e não deveria, por algo que deixei de dizer ou fazer. Mas jamais pensei que seria capaz de fazer alguém chorar tentando manter o equilíbrio a alguns metros de altura, fazendo força para esconder a dor, manter as pernas esticadas e não derrubar ninguém no chão. 
Acho que isso é arte.

Foto: Acervo pessoal

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Circo da vida

Quando uma amiga me convidou para assistir a um espetáculo de dança atlética numa noite de quinta-feira, não imaginava o impacto que ele teria nos dias que viriam. O espetáculo da companhia italiana Kataklo é certamente uma das coisas mais impressionantes a que já tive o prazer de assistir (ao lado de “O”, do Cirque du Soleil, onde artistas voam pelo palco de maneiras inimagináveis).

Uma das coisas que me fascinam na música e na dança é que não consigo racionalizar o que está acontecendo: eu apenas sinto. Como roteirista, é impossível desligar totalmente o intelecto ao assistir a um filme ou série de TV;  já a música e os movimentos do corpo me surpreendem a cada nova experiência. Como pode alguém combinar sons e fazer chorar? Ou visualizar movimentos do corpo que conectados a uma determinada música geram uma determinada emoção? Não entendo: apenas sinto.

Descobri que a companhia dava aulas de atividades circenses e pensei que poderia ser divertido participar de algo parecido, despretensiosamente. Certamente haveria escolas de circo por aqui.

A primeira vez que me pendurei num trapézio, há sete meses, não consegui levantar os pés do chão. Literalmente. Vi pessoas penduradas em outras, presas por voltas em um tecido, e tive certeza de que aquilo estava muito além do que eu, mero mortal, poderia alcançar.

No começo, tudo parece impossível. Você não se acha capaz, acha que jamais daria conta, que não foi feito para aquilo; aceita que nem todo mundo precisa ser capaz de tudo, que cada um tem sua habilidade. Então pensa em desistir.

Mas você decide ir em frente, dar uma chance. Aos poucos, vai se superando. Reconhece que tem limites, mas que tudo bem: dá pra trabalhar dentro deles. Alguns você supera, outros você aceita.

Você conhece novas pessoas: pessoas que estão na mesma que você, que riem dos seus limites, que se frustram, que te incentivam, que te ensinam. Aliás, você aprende (ou reaprende) a torcer pelos outros, a vibrar genuinamente pelas conquistas alheias.

Aos poucos, aquilo ocupa sua mente – o que a deixa livre de todo o resto. A três metros do chão, de ponta-cabeça, pendurado por uma corda ou um pedaço de pano, tudo o que vem à cabeça é manter-se firme, terminar o movimento, seguir para o próximo. Você vive no momento. Onde mais você faz isso hoje em dia?

Você sua, cansa, alonga, descobre músculos novos, tira força de onde não tem: nada no seu corpo fica indiferente.

E, é claro, você sente dor.

Todo movimento inclui uma parcela de dor. Primeiro você para no caminho. “Não vai dar…”. Você tenta de novo, falha de novo. Insiste, até que você esgota a dor ao ponto de ela não ter mais efeito: não porque ela sumiu, mas porque ela não te limita mais.

E talvez justamente por isso o resultado valha tanto a pena, e seja tão bonito.

Isso vale pro circo. E vale pra vida.

Foto: Acervo pessoal

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