Há um ano, escrevi um texto sobre como o SEO estava matando a originalidade das publicações nas redes e transformando a internet num depósito de textos padronizados. Rá! Mal sabia eu onde iríamos chegar.
Desde que a IA generativa começou a ser usada em larga escala para a criação de textos, ler qualquer coisa na internet ficou — convenhamos — insuportável. O primeiro vilão foi este aí atrás: o travessão. Antes, as pessoas mal sabiam que ele existia, muito menos como usá-lo, e, de repente, ele estava em todo lugar. Eu, que adoro usar travessões, sofri. Se não parei de empregá-lo totalmente, tive que reduzir drasticamente seu uso.
Logo os internautas se deram conta desse excesso e ajustaram os prompts para que os textos não tivessem travessões; com menos travessões nos textos da internet, menos travessões nos textos gerados por IA. Ufa. Ficaram aqueles emojis que ninguém sabe onde encontrar, mas que ainda resistem nas postagens comerciais e mensagens de WhatsApp. Tudo bem, logo serão esquecidos.
O problema são os novos — e mais irritantes — vícios que foram surgindo. Não apenas termos, mas estruturas. Não apenas palavras, mas frases inteiras. Não apenas um conceito, mas um conceito ainda maior. Percebe?
É justamente nesse contexto que expressões como “justamente nesse contexto” ou “nesse cenário” começam a pipocar depois de qualquer parágrafo introdutório, mesmo que o cenário não tenha justamente nada a ver com o que vem a seguir.
E as frases curtas?
De impacto.
Fragmentadas.
Não é sobre conteúdo.
É sobre chamar a atenção.
E rápido.
Por quê?
A lógica é simples: frases longas cansam. Precisa pensar. Refletir. Raciocinar. E, no fim das contas, não é sobre pensar. É sobre consumir. Tem coisa mais insuportável?
Tem. Mais que insuportável, frustrante. Um problema real, assim como tudo agora. Resultado real. Impacto real. Consequências reais. Transformações reais. Antes eram o quê? De mentirinha? A proposta é clara: irritar. Real.
Aliás, muitas transformações ultimamente. O tempero que transforma comida em memórias. O produto que transforma o evento em experiência. O sei-lá-o-quê que transforma qualquer coisa em afeto. Meu Deus, como eu odeio afeto!
Na teoria, a escrita parece mais eficiente. Na prática, ela fica completamente vazia.
Ao criar padrões repetitivos na internet com construções como “ao fazer isso, ele reforça aquilo”, a IA reforça padrões repetitivos, que são sempre reforçados com três exemplos: um inútil, um vazio e um repetitivo. Socorro.
Preciso dizer que acho a inteligência artificial fascinante. Uso ferramentas de IA diariamente e sei do potencial que elas têm de tornar tarefas mais ágeis e eficientes. Mas quando se trata de geração de texto, elas precisam, urgentemente, ser usadas com inteligência — a humana.
Enquanto escritor, parte da minha experiência como leitor, para além de me informar, é apreciar o formato do texto, é me conectar com quem está por trás daquelas palavras, entender seu pensamento, conhecer seu estilo. Mas agora a sensação é de que, seja lá o que eu esteja lendo — um post, uma matéria, um anúncio —, do outro lado estão apenas máquinas, que não pensam, não expressam: só repetem padrões. São padrões que até funcionam — por isso mesmo já existiam por aí —, mas por serem repetidos à exaustão vão sendo esvaziados de significado.
Antes eu lia um texto e descobria que o estagiário não sabia concordância nominal ou usar corretamente os porquês. Hoje, quando consigo terminar a leitura, faço um bingo das expressões e estruturas que as IAs adoram. (Outro dia fiz uma cinquina de “na prática” em uma matéria sobre carros.)
Resta a nós, humanos que escrevem, resistir bravamente à pausteurização da língua e resgatar o frescor da escrita. Botar pra jogo as figuras de linguagem, ressuscitar as aliterações, brincar com as palavras, com as estruturas, porque, no fim das contas, às vezes não tem conta nenhuma no final, e o texto conclui, assim, sem conclusão.
Se quiser, posso editar o texto preservando integralmente sua voz, enxugando repetições, fortalecendo a progressão da argumentação e deixando a conclusão mais marcante.
Não, não quero.
Imagem gerada pelo ChatGPT, com o prompt: “Pode gerar uma imagem que traduza este texto, na horizontal, sem humanos?”