Cotidiano

Ovo

Atualmente – e já há alguns anos, na verdade – fazer uma atividade cultural em São Paulo requer um nível considerável de planejamento e, muitas vezes, uma escolha entre divertir-se ou pagar a mensalidade do plano de saúde. Quando soube que o Cirque du Soleil estaria em São Paulo novamente, não pensei duas vezes antes de ligar para minha amiga de aventuras circenses, Zandra. “Venda seu carro. Vamos ao circo.”

O valor do ingresso, como de costume, era o suficiente para alimentar uma família de refugiados por cinco dias. Tudo bem, o ser humano vive semanas sem comida, já o Cirque du Soleil vem ao Brasil uma vez a cada dois anos, quando muito.

Para economizarmos algumas centenas de reais da taxa de conveniência e podermos comprar uma pipoca mini, resolvemos adquirir os ingressos diretamente na bilheteria. O conceito da taxa de conveniência, aliás, permanece um mistério para mim. Imprima seu ingresso com seu papel e tinta e sem incomodar nossos funcionários e pague apenas alguns milhares por isso.

O ponto de venda, assim como agências bancárias e supermercados, dispõe de três vezes mais caixas fechados do que abertos, com o único objetivo de gerar uma fila e fazer você pensar: por que não paguei a taxa de conveniência?

No guichê, uma senhora de cachecol e seu marido ficam decepcionados por não haver mais ingressos para o dia 8, no setor VIP. “Pode ser o setor premium, então”, resigna-se ela. “Senhora, dia 8 está completamente esgotado. Eu tenho pro dia 26, no setor 2, lateral” diz a atendente, inabalada. A senhora vira-se para o marido. “Ih, Mário, mas acho que dia 26 o Rogerinho não pode. Liga pra ele, vê se ele já vai ter voltado.” “Não tem mesmo nada dia 8?”, insiste ela, como se a atendente pudesse ter-se enganado e olhado os ingressos do show de Sandy & Júnior no lugar.

Um jovem casal se aproxima de um atendente alto e magro, que contava os segundos para sair dali e tomar um milkshake do Bobs. “Visão parcial? Mas o que isso quer dizer exatamente?”, pergunta o rapaz, refletindo se vale a pena investir dois meses de salário em um espetáculo parcial de circo. “Há uma coluna que pode interferir parcialmente na sua visão em alguns dos números.” Deve ser uma experiência interessante: você vê um acrobata jogando outro na maca russa, e deduz – mas nunca sabe ao certo – que ele foi pego pelo acrobata do outro lado.

Uma criança chora enquanto a mãe sai da fila para comprar um Baccio di Latte; outra volta com nuggets de frango do Burger King. Enquanto cada um na fila leva 30 minutos em frente ao atendente, frustrando-se com a indisponibilidade dos lugares desejados, Zandra e eu matamos o tempo discutindo nosso futuro. “Você sabe que em breve a gente não vai mais precisar pegar filas, né?”, revelo. Somos bem conectados no mundo circo e não tardará até que tenhamos convites para espetáculos do Cirque du Soleil em Las Vegas, Montreal e na China. Ingressos VIP, obviamente. Ela continua o devaneio: “Estarei trabalhando na Emirates, então a gente dá um pulo em Dubai depois segue pra China. Te falei que você vai estar na minha lista de closest friends para descontos nas passagens?” 

Nosso futuro é interrompido pela atendente de cabelos curtos e encaracolados, que por algum motivo inexplicável parece feliz de estar ali. Zandra e eu indicamos o dia, horário, setor e assentos. “A gente é muito eficiente”, nos gabamos, enquanto no guichê ao lado alguém perguntava se era possível dar zoom na tela para ver melhor o mapa de assentos do setor 1. “Se todo mundo fosse assim…”, comenta nossa atendente-cúmplice. Zandra pergunta se eles, os atendentes, conseguem assistir ao espetáculo. Ela confirma. “A gente se reveza para ver nos lugares que sobram”. Será que três visões parciais equivalem a uma completa?

No dia do espetáculo, o carro é estacionado longe o suficiente para fugir do caos ao sair, perto o suficiente de uma portaria para não sermos sequestrados, e longe o suficiente de uma árvore que pode cair caso chova. O ginásio está cheio. A garota ao meu lado PRECISA registrar tudo o que acontece com seu iPhone e enviar as fotos em tempo real para o seu namorado, com quem troca mensagens e emojis enquanto um acrobata russo equilibra-se em apenas uma mão numa estrutura metálica de dois metros de altura. 

E ali mesmo, sentado num ginásio de esportes que faz as vezes de picadeiro, cercado de vidas e histórias, todo entorno parece desaparecer. Não existe o antes, não existe o depois: existe o agora, onde homens e mulheres de todas as partes do globo unem-se para combinar a técnica mais refinada com luzes, e cores, e sons, e texturas, em movimentos quase sobre-humanos, com um único e fundamental objetivo: arrebatar nossos sentidos com a surpreendente beleza que o ser humano ainda é capaz de gerar.

Foto: Divulgação Cirque du Soleil

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Cotidiano

Terça-feira

É um daqueles dias em que você decide que tudo bem almoçar um Mc Donald’s em plena terça-feira, com direito a batata grande e nuggets de seis com molho caipira, como você fazia na infância. Talvez até um sorvete. Não tem nada de errado com a sua manhã, mas também nada parece muito certo. Você foi resolver uma dessas burocracias da vida adulta e caminha por ruas que não costuma caminhar, onde pessoas parecem viver vidas reais — de alguma forma, mais reais que a sua. Pelo menos é uma quebra na sua rotina, e o dia está bonito, então você decide aproveitá-lo, nem que seja comendo um Mc Donald’s naquela loja que era o refúgio do “cheeseburger a um real toda quarta” na época do cursinho. Você lembra da loja maior do que era, como de costume acontece quando voltamos aos lugares do passado. Pensa nos amigos que dividiram aquelas mesas com você: cada um hoje em um lugar da vida e do mundo. Os sanduíches não são mais tão simples como eram naquela época e você decide testar uma das novidades do cardápio, acompanhado do nuggets de seis com molho caipira em que você está pensando desde que pegou o carro e decidiu que era um daqueles dias que tudo bem bem almoçar no Mc Donald’s em plena terça-feira. Enquanto aguarda seu pedido, você observa o entra e sai da loja, a gerente que destrava um caixa, a moça da limpeza que tira o lixo com um sorriso no rosto e um headset no ouvido. Uma mãe liga para o filho e exige que ele coma alguma coisa antes de ir fazer a prova e que ele mande uma mensagem para o pai. Você ainda não se decidiu sobre o sorvete e decide decidir depois. Você apanha sua bandeja, seus guardanapos e senta-se no balcão. Mal começa a molhar a batata no ketchup quando um garotinho se aproxima. Você está num banco alto e por isso o garotinho de cabelos descoloridos parece ainda menor e mais indefeso quando pede para você comprar um lanche. Por algum motivo você já sabia que isso iria acontecer e não pensa duas vezes antes de dizer que sim. Você pergunta qual sanduíche ele quer e ele aponta para o cartaz da promoção 2 por 1. Você desce do balcão, vai com ele até o caixa e acrescenta uma batata e uma coca-cola. A atendente sorri e pergunta o seu nome para anotar no pedido. Você sorri e pergunta o nome dele.

— Irã.
 
Irã como o enorme país do Oriente Médio, como o lar das civilizações mais antigas do mundo, como a terra cheia de riquezas sob a superfície e de conflitos sobre ela. Irã.

Ele aguarda seu lanche enquanto você volta para o balcão e come um nugget. A atendente sorridente entrega a bandeja e ele senta-se na mesa à sua frente, te agradece com um joinha e abre o sanduíche. Você pensa em ir sentar-se com ele, mas pensa que talvez seja invasivo; pensa em chamá-lo para sentar-se com você, mas de repente o oceano de distância entre vocês parece intransponível. Você pensa que não saberia o que dizer ou o que fazer, pensa que alguns minutos à mesma mesa não seriam suficientes para conectar o seu continente e o dele, e decide continuar ali, comendo seu sanduíche enquanto ele come o dele. Você pensa que pode pelo menos comprar um sorvete para ele quando for comprar o seu — ele certamente não espera por isso e ficará feliz. Mas antes de você terminar suas batatas ele já terminou as dele. Ele se levanta, com o sanduíche e a coca-cola ainda em mãos, te agradece novamente e sai pela porta que entrou, desaparecendo na avenida. Você termina o sanduíche, o nugget, a batata; joga as embalagens no lixo que a moça sorridente acabou de limpar e parte. Você passa pelo caixa em direção à saída e já não quer mais tomar um sorvete. Não tem nada de errado com a sua tarde, mas também nada parece muito certo.

Foto: https://www.meioemensagem.com.br/home/ultimas-noticias/2019/01/16/mcdonalds-perde-uso-exclusivo-da-marca-big-mac-na-europa.html

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Cotidiano

Permanente

Quando estava na terceira série, recebi a lista de materiais para o ano letivo e, em meio a réguas de acrílico, lápis-de-cor e cadernos ¼ capa dura de 48 folhas, havia um par de itens que me deixou muito empolgado: canetas. 

Minha diminuta vida acadêmica até então incluía apenas escritos com lápis HB, que ofereciam a acolhedora propriedade de poderem ser apagados a bel-prazer a qualquer risco acidental ou tigela com j. Mas agora as coisas seriam diferentes! Os erros em canetas Faber-Castell azul e verde estariam lá para sempre, talvez riscados, talvez com alguma correção tosca, mas sempre visíveis. Permanentes. 
 
À parte dos dentes de leite (“quebrou, mas tudo bem, depois nasce outro!”) não me lembro de outra situação na infância com essa divisão tão clara de “antes era mentirinha, agora tá valendo!”. Na vida adulta, então, nem se fala.
 
Na faculdade, fui uma das últimas turmas a ter aula de montagem com negativos de cinema. “A relação com as decisões é diferente”, dizia a professora. “Uma vez que você cortou o negativo, não tem volta. Você pode colar de novo, mas já não é a mesma coisa.” Hoje você vai e vem na timeline, cortando livremente, a um Ctrl+Z de qualquer conserto. Não é preciso refletir antes de agir.
 
Fico imaginando quão diferente era o processo dos escritores que datilografavam em máquinas de escrever, cada letra perpetuamente marcada na folha, fosse ela para o texto final ou para o cesto de lixo.
 
Não era diferente com as fotografias. Os passeios de escola eram acompanhados por um filme de 12 poses; um aniversário, de 24; um fim de semana na praia, de 36. Os registros tinham de ser pensados, refletidos. Havia limitações: o número de poses, o valor da revelação; e ainda era necessário esperar — algumas horas, alguns dias — para ver a imagem final: tudo muito diferente das sete opções de foto que tiramos do grupo hoje em dia, que rodam pelos grupos de WhatsApp por algumas horas e depois desaparecem num buraco negro, como diria minha mãe. Queremos tanto registrar o momento para que ele dure para sempre, mas depois raramente voltamos a ele: basta a (falsa) sensação de que ele é eterno, de que pode ser vivido depois, se eu quiser — mesmo que eu provavelmente não vá querer. 
 
Tudo hoje parece ser feito para ser reversível. O permanente assusta: seja um emprego, um relacionamento, uma moradia. “Mas eu vou ficar aqui PRA SEMPRE!? E se aparecer uma opção melhor?” Cada vez menos nos preparamos para qualquer tipo de para sempre, mas, ao mesmo tempo, o incerto e o imprevisível também não nos acolhem. Exigimos tudo: liberdade, opções, mas também algo sólido em que nos apoiar, algo que sempre esteja lá — e meras tatuagens não dão conta do recado.
 
Outro dia fui visitar uma amiga de infância que estava prestes a ter um filho — uma das poucas coisas verdadeiramente permanentes dos tempos atuais. 
 
— Como você conseguiu continuar amigo dela até hoje? — perguntou minha sobrinha adolescente. 
 
A resposta não veio imediatamente. Como, afinal, foi possível manter amizades por 20, 30 anos, grande parte deles sem Facebook, WhatsApp ou qualquer rede social que (supostamente) nos mantivesse conectados? 
 
Em termos práticos, respondi que foi me lembrando de aniversários todo ano (às vezes anotando na agenda física), ligando para dar Feliz Natal, criando eventos (reais) para reunir as pessoas. Mas por trás disso esteve sempre algo mais profundo: a vontade de manter as amizades vivas, a noção de que a quantidade de bons amigos (ao contrário do que podem dizer likes e followers) é limitada como um filme de 12 poses. Era mais difícil encontrar e reencontrar pessoas, por isso sempre foi fundamental mantê-las no nosso convívio e não descartá-las como uma foto desfocada do jantar passado.
 
Com tantas opções à disposição, nunca foi tão fácil trocar: trocar de amigo, de emprego, de país, de amante. Para que consertar a sola do sapato se eu posso comprar um novo? O para sempre deu lugar ao eterno enquanto dure; o praticar a lápis deu lugar a rabiscos direto a caneta, com um pote de liquid paper sempre a mão. E nessa longa trilha entre a segurança do permanente e a leveza do efêmero, caminhamos cautelosos (ou não), cientes (ou não) do abismo do vazio a poucos metros de cada passo.
 

Foto: Acervo pessoal

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Cotidiano, viagem

Um dia na história contemporânea

Esta semana tive de ir ao consulado italiano solicitar a emissão de um novo passaporte. Não é primeira tentativa. Ano passado estive no mesmo local, porém um registro desatualizado de endereço me fez voltar ao final da fila e aguardar por um novo agendamento – meses depois.

Sabendo que o local não permite o uso de celulares, vou munido de um livro – Sapiens – que leva o ousado (e acertado) subtítulo de Uma Breve História da Humanidade. Apanho minha senha – 78 – e tomo assento em meio a uma miríade de descendentes de italianos com suas respectivas pastinhas, sonhos e medos. 
 
― As senhas para passaporte serão chamadas por voz, em grupos de dez ― informa o segurança.
 
Ponho-me a ler sobre os Homo sapiens caçadores-coletores de 50 mil anos atrás: como se organizavam, como se alimentavam e como nossa estrutura foi se adaptando agora que não precisamos mais fugir de leões ou sentir o cheiro da chuva. 
 
― Senhas 40 a 50 ― anuncia a voz, cerca de meia hora depois.
 
Faço uma rápida conta e percebo que passaria muito mais horas ali do que o previsto. Uma senhora ao meu lado, com a senha 81, também percebe e bufa, antes de voltar para sua leitura: Abílio – Determinado, Ambicioso, Polêmico.
 
Se por um lado o Homo sapiens é um ser extremamente adaptável que conseguiu dominar outras espécies e povoar toda a Terra, por outro ainda resta adaptar-se a um ambiente fechado, sem ar-condicionado e sem acesso à tecnologia. Observar pessoas em tais condições é como participar de um experimento sociológico: um grupo de Homo sapiens do mundo atual é teletransportado para um saguão em 1994, pré-internet móvel, sem ar-condicionado, sem televisão, apenas com uma máquina de foto instantânea e uma de salgadinhos, bolachas e bebidas, que aceita exclusivamente notas de dois e cinco reais, e são forçadas a esperar. 
 
― Senhas 50 a 60!
 
Alguns dormem, outros rabiscam num envelope, outros leem, outros ousam interagir com o conterrâneo ao lado, e outros – sobretudo crianças, mas não apenas – choram. Entreter duas crianças pequenas que aguardam há horas sem poder lançar mão de uma Peppa Pig ou uma Galinha Pintadinha é um desafio para o qual o Homo sapiens não teve tempo de se preparar. 
 
Uma moça com um rabo de cavalo, que fez sua cidadania em Assis, mas que passava mais tempo na Toscana, e que agora estava no Brasil, mas talvez se mudasse para Malta em março, pergunta à atendente onde registrar seu endereço.
 
― É que ela tem uma carreira muito internacional ― explica o marido, com sotaque italiano.
 
A funcionária dá as instruções.
 
― Seu italiano é muito bom! ― diz ele.
 
― É que eu sou italiana ― diz ela.
 
― Senhas 60 a 70!
 
Mais um grupo sobe. Sinto fome, mas não posso caçar, nem coletar, nem comprar um Fandangos na maquininha porque usei minha última nota de 5 reais para comprar uma água. O consulado fecha em cinco minutos e, se sair, não posso voltar. Bebo água – dizem que inibe o apetite.
 
Volto ao livro e descubro que é difícil saber ao certo como viviam as sociedades de 40 mil anos atrás. Enquanto alguns fósseis encontrados indicam grupos que sofreram mortes violentas, outras regiões parecem revelar fósseis mais pacíficos. Começo a imaginar o quanto levaria para que esse grupo no saguão em 1994 começasse a guerrear por um assento, uma senha mais baixa, um pacote de Oreo. “O calor e o tédio podem levar o homem a loucura”, divago.
 
― Senhas 70 a 80!
 
Enfim! Subo ao segundo andar e aguardo ser chamado. Uma senhora de vestido azul suplica a um funcionário de cavanhaque: 
 
― Moço, faz vinte anos que estou tentando tirar esse documento! Não é possível que este comprovante de endereço não sirva. Ele é válido em qualquer lugar do Brasil!
 
― Mas aqui é a Itália. 
 
Um rapaz de óculos entrega os documentos de forma organizada a uma funcionária de longos cabelos loiros.
 
― Essa hora no fim do expediente é sempre melhor. Os mais atrapalhados sempre vêm cedinho ― conta ela.
 
Esboço um sorriso ao pensar na sua inocência em achar que conseguimos ESCOLHER nossos horários. Você passa dias tentando ligar para o número de agendamento. Alguém atende. Você abre um vinho para celebrar.
 
― Tenho disponível dia 25, às 10h, pode ser?
 
― Tá ótimo! É o casamento da minha irmã, mas ela vai entender. Ela arranja outro padrinho e, se der, ainda chego para a festa!
 
― Senha 78!
 
Vou até a mesa indicada e saco meus documentos com aquela tensão típica que só autoridades internacionais são capazes de elicitar.
 
― Esta foto não deveria estar colada. E esta assinatura deveria ter sido feita na minha frente ― diz o funcionário com a naturalidade de quem pede um pão de queijo na padaria.
 
― Eu tenho outras fotos! Eu tenho um formulário em branco! Eu te dou um abraço! Não me manda embora!
 
Ele diz que está tudo bem, confere os documentos, pede novas assinaturas. 
 
― Você precisa viajar nos próximos 40 dias?
 
― Infelizmente não.
 
Ele pega meu passaporte atual e coloca um carimbo de anulado em cada uma das páginas vazias. 
 
STOMP. STOMP. STOMP. STOMP. Um visto. STOMP. STOMP. STOMP.
 
“Preciso viajar mais”, penso.
 
Enfim, ele solicita o cartão para pagamento.
 
O cartão não funciona.
 
Ele tenta outra vez, duas vezes, três vezes. Nada. Entrego outro cartão.
 
O cartão não funciona.
 
Por alguns instantes, sinto uma ponta de inveja dos caçadores-coletores, que não possuíam um sistema monetário, um cartão de crédito, um passaporte. E daí que vez ou outra morriam de frio ou eram devorados por roedores gigantes?
 
Transação aprovada!
 
O rapaz organizado pergunta à funcionária loira:
 
― Como será daqui a dez anos, na renovação do passaporte? O processo será o mesmo?
 
― Olha, passaporte você não renova, você emite um novo, mas não tenho a menor ideia como serão as coisas daqui a dez anos…
 
Saio com meu protocolo em mãos e com a mesma pergunta na cabeça: como será daqui a dez anos? O que o Homo sapiens terá destruído, desenvolvido ou desvendado até lá? Será que voltarei a este mesmo consulado em 2029? Será que meu passaporte terá mais carimbos? Quantas pessoas novas vou conhecer? Com quantas perderei contato? Só uma coisa é certa. Do alto dos meus 45 anos, vou olhar para minha foto atual e dizer:
 
― Nossa, eu ainda tinha cabelo!

Foto: Acervo pessoal

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Cotidiano, viagem

Terceiro ato

O ano que acaba hoje foi para muitos um ano intenso. Se não tanto, ao menos foi difícil ficar indiferente a ele. Em meio a acontecimentos que impactaram o país e o mundo, pessoas nasceram, morreram; quase 8 bilhões viveram seus dramas, sonhos, frustrações e conquistas individuais. Além das minhas próprias, pude acompanhar as de alguns à minha volta e de outros a distância, afinal, a mesma tecnologia que nos isola dos que estão ao lado, também nos aproxima dos que estão longe. 

Uma das bilhões de pessoas que viveu seus dramas, sonhos e frustrações em 2018 foi Christin. Embora tenha nascido no Canadá, um país onde nunca pisei e para onde muitos  amigos resolveram ir este ano, conheci Christin em Los Angeles há quase uma década. Morávamos no mesmo prédio e estudávamos na mesma escola, ainda que em anos e disciplinas diferentes. Rapidamente nos tornamos amigos, compartilhamos jantares mexicanos e conversas constantes na jacuzzi, onde ela me explicou, como uma boa canadense, que não usava a vaga de deficientes pois não sentia que precisava. 
 
Christin sofria de um problema cardíaco que havia paralisado seu lado direito, o que não a impedia de produzir filmes, namorar garotas, dirigir – e viver sem medo. Terminado o mestrado, voltei para o Brasil e, salvo por poucas atividades nas redes sociais, soube pouco de Christin até ano passado, quando a mensagem Hi friend! How’s life? surgiu no meu celular. Atualizamos nossas vidas: a minha envolvia essencialmente o mesmo trabalho há anos e aulas de circo; a dela, um casamento, um filho, um divórcio. 
 
Nos meses seguintes, voltamos a acompanhar a vida um do outro com fotos, mensagens de texto e áudios. Ela me falou sobre o processo de divórcio, que envolvia discussões sobre a guarda do filho, sobre sua vida profissional, sobre uma nova namorada, com quem esteve empolgada durante meses até que terminaram. Falamos sobre como tentamos o tempo todo estar no controle das nossas vidas e sobre como isso tudo é uma grande ilusão; como não temos controle de nada e como, ao reconhecer isso, abraçamos o descontrole como parte da vida e simplesmente vivemos.
 
Recentemente Christin confessou que se sentia sozinha em Sacramento, uma cidade que não lhe oferecia muitas oportunidades de trabalho, mas onde queria ficar para estar próxima ao filho. Brinquei que aquele era o fim do segundo ato de sua vida: o momento em que tudo dá errado para, logo em seguida, uma grande virada trazer um final feliz. Ela gostou da ideia. O que será o terceiro ato da minha vida? – refletiu.
 
Não muito depois ela me escreveu, empolgada, dizendo que dirigiu três horas de Sacramento a San José, para um encontro que havia sido fenomenal. Estava radiante, mas tentando não criar expectativas.
 
Uma semana depois descobri pelo Facebook que Christin estava em San José quando caiu, bateu a cabeça e morreu.

Foto: https://www.ef.com.br/ils/destinations/united-states/los-angeles/

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cinema

Personal Statement

“Nós escolhemos você!”, dizia a voz do outro lado da linha. 

Era novembro de 2008 – uma década atrás –, estava no trabalho e, menos de duas horas antes, estava em uma sala a 20 km dali, sendo entrevistado por seis pessoas que sentavam em semicírculo a minha volta e me bombardeavam com perguntas em inglês para a primeira edição da bolsa de MFA in Screenwriting oferecida pela CAPES/Fulbright.
 
Para chegar àquela sala, foram necessários uma infinidade de documentos e materiais, produzidos ao longo de algumas poucas semanas. Entre eles, meu Personal Statement  um texto que basicamente responde à pergunta: quem é esse cara?
 
Já estava seguro do brilhantismo da minha primeira versão – que para mim, ingenuamente, era a versão final – quando pedi alguns feedbacks, apenas para constatar a perfeição da mesma. Recebi o seguinte retorno: “Está correto, está tudo aqui, mas não acho que está dizendo quem você realmente é… Por que você não tenta ser mais honesto?” 
 
Então eu fui.
 
Eu morro de medo de ir ao cinema. Não, não estou falando de filmes de terror. Estou falando de filmes em geral.
 
Esse era eu, uns 12 anos atrás. Não tenho a menor ideia de onde esse medo sem noção possa ter surgido, mas por muitos anos ir ao cinema era sempre uma experiência aterrorizante. Até que Titanic chegou aos cinemas e eu não queria ser “o cara que não viu Titanic”. Então lá fui eu enfrentar meu terror por três horas seguidas… e não é que eu gostei? Na semana seguinte, me forcei a ir ao cinema de novo. E de novo. Até que de repente eu era um aficionado por filmes, vendo quatro por semana, com um quarto lotado de pôsteres.
 
Eu não posso dizer, porém, que James Cameron é o responsável pela minha paixão por filmes. Desde muito pequeno eu gostava de contar histórias  é só perguntar para qualquer vizinho que recebia meus livrinhos caseiros aos cinco anos de idade. Eu também não mandava mal na escola, e até ganhei alguns concursos de redação que me deram uma bolsa de estudos na oitava série, mas ainda não via nada demais nisso. Eu gostava de números. Meu negócio era a Matemática. 
 
Aos 16 anos, uma vontade repentina de conhecer outras culturas me levou à Austrália, onde passei seis meses do Ensino Médio. Não é de se surpreender que o inglês foi apenas uma das coisas (talvez até a menor delas) que eu aprendi. Além das experiências incríveis que eu trouxe para casa após viver sozinho em um país desconhecido, havia também um diário que me forcei a escrever todos os dias: mais uma vez, contar histórias era parte da minha rotina e eu nem tinha percebido.
 
Ao voltar, já era hora de decidir “o que você vai ser quando crescer”. Meu amor por números me puxava para a ciência, mas eu nunca me esquecia daquela sensação mágica que eu tinha ao ver um filme que eu gostava. Aquela sensação de “eu quero fazer parte disso”, de “como é possível alguém fazer uma sacola plástica parecer engraçada e poética”?  Então eu percebi que a minha decisão já havia sido feita há muito tempo: eu queria ser um contador de histórias. Eu queria ser um cineasta.
 
Uma ajudinha de uma boa escola de cinema não cairia mal, então dediquei um ano inteiro aos estudos para entrar na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo. E em 5 de fevereiro de 2003, meu nome estava entre os 35 futuros cineastas.
 
Ao chegar lá, uma sensação de “é só isso?!” tomou conta de mim. Talvez fosse a alta expectativa, mas a faculdade não foi exatamente o que eu esperava. Não que eu não tenha aproveitado  eu certamente aprendi muito durante as produções acadêmicas, aulas de história e trocas com os colegas  mas logo percebi que ainda havia um longo caminho até alcançar aquela sensação de preenchimento que eu tanto buscava. Foquei meus estudos em Roteiro, e embora eu tenha explorado outros campos, fazendo algumas eletivas em Astronomia e Estatística, a ciência agora tinha um papel secundário na minha vida.
 
Terminada a faculdade, com meu primeiro roteiro de longa em mãos, cheguei à Paris Filmes. Trabalhar numa empresa de distribuição logo após a faculdade foi uma experiência interessante  pra dizer o mínimo. Aprendi, de uma vez por todas, que fazer filmes é fazer parte de uma cadeia econômica: pode ser arte, pode ser transgressão, mas se você quer que seu filme seja visto por milhares de pessoas, ele eventualmente vai fazer parte dessa cadeia, onde valores como bom e ruim são definitivamente diferentes daqueles que a gente aprende na faculdade.
 
Ali eu aprendi muito sobre o mercado de cinema. Ainda estou aprendendo. Aprendi, por exemplo, que o número de brasileiros que assistem a filmes nacionais está caindo, basicamente porque não temos um número suficiente de bons contadores de histórias. Então percebi que se eu queria mudar isso, eu precisava continuar estudando. Foi aí que apareceu a UCLA Extension. Foi durante esses 18 meses de aulas online que me dei conta de quão profunda era a toca do coelho. Também foi lá que terminei meu segundo roteiro e que aprendi que é necessária uma dose gigante de humildade para sobreviver no mundo da escrita, já que seu trabalho vai estar sempre sujeito a críticas. Vi anos e anos de estudo por trás dos filmes mais simples. Vi um método, e isso me fascinou ainda mais. Contar histórias não era apenas uma arte: era uma ciência.
 
Olhando para trás, percebo que ainda há muito que não sei, mas o que sei é que quero continuar aprendendo; quero conhecer o mundo para ter o que escrever; sair do Kansas nem que seja para descobrir  de novo  que “there’s no place like home”. Sei que escrever me faz sentir livre; me torna quem eu quiser, onde eu quiser, quando eu quiser. Também sei que as histórias têm o poder de tocar as pessoas, de influenciá-las; que o contador de histórias tem o poder de dominar, e que seu público são apenas pessoas que se permitem dominar. 
 
E pensando assim, como é possível que alguém não tenha medo de cinema?
 

Foto: http://www.theodysseyonline.com/things-people-who-get-scarred-by-scary-movies-know-to-be-true

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cinema

Efeito borboleta

Há pouco mais de seis anos, estive no Alasca com meu amigo Paul, e um dos lugares mais fascinantes que visitamos – entre tantos – foi uma baía chamada Sadie Cove. Naquele cenário praticamente deserto e eternamente iluminado, povoado apenas por animais silvestres e pouquíssimas cabanas como a que estávamos, decidimos nos aventurar em dois caiaques até o final da baía. Enquanto Paul aproveitava seu tempo tirando fotos das águias no céu e dos ursos a distância, eu seguia firme no meu propósito de chegar ao outro lado. Em certo momento, Paul deu-se por satisfeito com o passeio e decidiu voltar; eu segui: cheguei ao meu destino e decidi não descer do caiaque, mesmo com vontade de fazer xixi, em parte porque descer do caiaque sobre a água congelante exigia uma logística além do que estava disposto a enfrentar, em parte por medo de ser atacado por ursos que pudessem aparecer por ali. Ao me virar parar voltar, vejo Paul como um pequeno ponto já próximo à cabana. E uma enorme nuvem negra vindo em minha direção. Começo a remar e percebo que praticamente não saio do lugar… Não há o que fazer senão controlar a bexiga, lutar contra a cãibra e continuar a remar para chegar à cabana antes da tempestade. “Estou vivendo uma grande aventura ou entrando em pânico?”

Foram cerca de 40 minutos para ir e mais de duas horas para voltar. 
 
Paul me recebeu aliviado, mas também um pouco irritado. “Por que você não voltou antes?! Você e essa sua mania de fazer as coisas até o fim!” 
 
Eu e essa minha mania de fazer as coisas até o fim… Eu nunca tinha pensado em mim dessa forma, como alguém que “sempre faz as coisas até o fim”. Se tivesse, porém, teria levado isso como um elogio. É excelente terminar projetos, concluir planos, tirar tudo da gaveta para arrumar o quarto e, de fato, colocar tudo de volta. Mas o ponto é que as coisas mais importantes talvez sejam justamente as que não podemos fazer até o fim, as que não podemos ter controle.
 
Temos planos para a nossa vida, aí seguimos por ela e vemos que ela tem planos diferentes para a gente. Temos planos para os nossos filhos, aí seguimos e vemos que eles também têm seus próprios. Todos começamos uma jornada, direcionamos nossos caiaques, mas nem sempre cabe a nós concluir a viagem. É como o fenômeno fascinante do ciclo migratório das borboletas monarcas: borboletas que viajam milhares de quilômetros, de norte a sul dos EUA, fugindo das baixas temperaturas e buscando alimento. Não seria nada extraordinário, não fosse um pequeno detalhe: elas nunca completam o ciclo. Como sua expectativa de vida é baixa, são necessárias várias gerações de borboletas para chegar ao destino, de forma que nenhuma delas irá percorrer todo o trajeto. Algumas começam a jornada, outras terminam.
 
Recentemente as filmagens do meu primeiro longa-metragem foram concluídas. A jornada começou há mais de dez anos, em um computador que não existe mais, num quarto que não é mais meu. Lá começaram a surgir personagens, cenários, conflitos. Por muito tempo a jornada foi solitária: eu e eles. Passaram-se alguns anos, surgiu um diretor/produtor para dar um sopro de vida à história, dar um endereço e um coração aos personagens. Mais alguns anos se passaram, mais artistas entraram na jornada, deram cor, luz, som; atores literalmente deram vida às famílias que existiam apenas em forma de palavras. 

E ali a jornada deixou de ser minha. 

Uma nova geração de borboletas fez a história nascer em forma de filme e coube a mim apenas testemunhar o espetáculo. Em alguns meses, essa nova geração também termina sua jornada, e uma outra vai assistir a essa história e levá-la adiante para as gerações futuras, em uma jornada que eu jamais saberei como irá acabar. 
 
E tudo bem, porque às vezes na vida a magia está justamente em começar uma jornada para que outros a terminem.
 

Foto: Making of “Do Outro Lado da Lua” por Santi Asef

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cinema

Academy Award Nominee, Tom Rickman

Desde pequeno, sempre tive grande apreço por professores: pessoas que dedicam a vida a ensinar o que sabem ao outro e que, muitas vezes, não são valorizados como deveriam. 

É verdade que tal pensamento não foi exatamente um instigador de popularidade durante o Ensino Fundamental, mas felizmente tal apreço passou a pegar bem na vida adulta e me fez estar sempre atento àqueles que dedicavam seu tempo a me tornar uma pessoa melhor, seja qual fosse o âmbito.
 
Professores picaretas abundam, é verdade, e quando falamos em professores de roteiro — ou de arte em geral — não me espantaria se o índice bom/picareta tendesse a zero. Ainda assim, em mais de dez anos de estudos, tive a sorte de passar ileso pela picaretagem e ter sido mentorado por professores que, cada um à sua maneira, me tornaram um escritor melhor, entre eles, Tom Rickman. 
 
Tom tinha a capacidade de enxergar as gemas nos roteiros dos alunos e trazê-las para a superfície; sabia lapidá-las e devolvê-las como se fôssemos nós os responsáveis por tudo aquilo. Sabia também exigir o máximo de nós a cada encontro. “Hoje eu acordei às 3h30 da manhã, li as páginas de vocês, escrevi um pouco, fiz exercício, tomei café da manhã e vim pra cá. E eu tenho câncer. Qual a sua desculpa?” — disse ele, com uma gentileza inexplicável, a uma aluna que não havia trazido suas páginas.
 
— Você já foi indicado ao Oscar, não foi, Tom? — perguntei um dia. Ele deu um sorriso tímido. — Sim, por quê? — Pedi, então, que contasse como aquilo havia afetado sua carreira.
 
— No ano em que eu fui indicado, adiaram a data da cerimônia pro dia seguinte porque tentaram matar o Ronald Reagan. Eu lembro que eu pensei: “mas que droga, bem no meu Oscar!” Nós rimos e ele continuou: — Logo depois surgiram várias propostas de trabalho, mas o tempo vai passando, vem uma nova geração e ninguém mais se lembra de você, se você foi indicado, se você ganhou. Eu deixo as pessoas se confundirem, mesmo…
 
Uma vez saímos para tomar café e falar sobre o meu roteiro — e sobre a vida. Foi ali que ele me disse algo que transformaria para sempre minha maneira de ver a profissão: — Se tiver uma única cena no filme que está exatamente como eu escrevi, eu já fico feliz. O meu prazer está em escrever, em criar a história, os personagens, não em ver o filme pronto. Eu nem gosto de ver os meus filmes… 
 
Alguns meses depois Tom teve de ser internado. Fomos visitá-lo e descobrimos que Elizabeth Taylor estava internada no quarto ao lado. “Who cares?! I’m here to see Academy Award Nominee, Tom Rickman!”, brincou meu amigo. Liz Taylor jamais sairia daquele hospital; Tom Rickman ainda impactaria a vida de muitos por mais sete anos antes de partir.
 
Tom certamente não ficou conhecido como Liz. Muitos sequer ouviram seu nome. Já não tenho como saber o que ele pensava sobre isso, se no fundo sonhava ser reconhecido na rua, receber prêmios, fazer mais filmes do que fez, ou se não estava nem aí pra isso. Como escritor, imagino que parte de suas aspirações envolvia conectar-se com os outros através das suas palavras, dizer algo às pessoas, inspirá-las, instigá-las; tornar o mundo um pouco melhor através da arte. 
 
Eu espero que ele saiba que conseguiu. 

Foto: Tom Rickman (08/02/40 – 03/09/18) por Getty Images

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viagem

Carros

A relação das pessoas com carros costuma dizer muito sobre elas. Meu sobrinho, por exemplo, é fanático por eles — sejam reais, sejam personagens do filme da Disney. Ele acha a Itália incrível porque é a terra dos Cinquecentos e sabe dizer a marca de praticamente todos os carros que passam na rua — desde os três anos de idade. “Pai, por que nas Olimpíadas aparece o símbolo da Audi em todo lugar?”

Já meu pai, que também acha a Itália incrível e é fiel à Fiat há mais de vinte anos, tem zero apreço por seu veículo — ou “depósito de jornal”, segundo minha mãe — e o encara com a mesma filosofia que encara um rolo de papel higiênico: use até acabar. “Essa fumaça preta é completamente normal, não tem nada a ver com aquele barulho, não se preocupe.” 
 
Eu sempre gostei de dirigir, mas nunca dei muita bola para carro, e o principal comentário de quem entra no meu costuma ser: “que limpo!” Existe, porém, uma relação muito pontual que costuma abalar minha tranquilidade automobilística e me deixar em constante estado de atenção: a com o carro alugado. 
 
O carro alugado em uma viagem pode resolver grandes problemas — e depois criar outros ainda maiores.

Você chega no estande da locadora, uma mulher sorridente encontra a sua reserva.

— O senhor não quer fazer um upgrade por apenas doze dólares por dia?
 
Você recusa a gentileza e ela, na maior cara de pau, continua: 
 
— Você está com sorte, estou vendo aqui que você ganhou um upgrade grátis! Aqui está seu Mustang.
 
— Senhora, eu reservei um Ford Ka.
 
— Ah, mas o Mustang é muito melhor, muito mais bonito, muito mais potente.
 
Você, que só queria um Ford Ka, sai resignado com seu carro esportivo que ficará estacionado na rua, à mercê de vândalos, pelos próximos dias e sua exorbitante autonomia de três quilômetros por litro. 
 
Outro grande momento do aluguel de carro é quando perguntam: “vai querer o seguro?”. 
 
Na última vez que precisei alugar um carro, há algumas semanas, já cheguei preparado, com uma reserva usando o cartão de crédito que já me oferecia um seguro como benefício. A atendente, sem tirar o sorriso do rosto, começa seu joguinho terrorista.
 
— Perfeito, senhor, mas o senhor sabe que o seguro do cartão só cobre a primeira ocorrência, né? Cada risco em partes diferentes do carro são ocorrências separadas. Mil euros cada uma.
 
Eu respondo um “sei, sim” como se o que ela está dizendo fizesse total sentido e aí, apesar de todo o planejamento, começo a me duvidar. De um lado, meu eu racional sabe que está tudo sob controle; de outro, um diabinho debocha: “Vai, bobo, recusa o seguro! É só uma viagem de três horas, à noite, numa estrada desconhecida e em obras, onde o celular não pega, com seus pais idosos no carro. É claro que você vai conseguir falar com a Visa no Brasil se precisar! O que pode dar errado?”
 
CORTA PARA:
 
EUA, 2014. Estou no país para o casamento de um amigo, em Santa Bárbara. Alugo um carro no aeroporto de Los Angeles — “O seguro aqui é obrigatório, senhor, não importa se o senhor tem AAA, vai querer ir contra a lei?!” Vou retirar meu terno na loja. Ao sair, um bilhete no retrovisor: uma multa. Descubro que não era permitido estacionar do lado ímpar às terças-feiras após o pôr-do-sol. Entro num posto de gasolina para manobrar, ouço um grande estalo. Percebo que dei ré em um cabo de aço preso do teto ao chão. Momentos de tensão. Desço do carro. Nenhum estrago aparente. Volto a respirar e decido comemorar minha vitória com alguns amigos num restaurante. Saio do restaurante, aceno para o Joaquin Phoenix — ou seria um morador de rua? — e entro no carro. Uma luz misteriosa está acesa no painel. “Que exclamação é essa, meu Deus?”. Abro o manual. Não é o óleo, não é o fluído de freio: é a pressão do pneu. Desço do carro e noto que o pneu traseiro está no chão. Penso em chamar Joaquin Phoenix para ajudar, mas ele já se foi, assim como meus amigos. Procuro o estepe: não tem. Descubro um kit reparador de pneus e recorro a toda minha destreza para usá-lo. Chego à locadora, levo uma bronca por ter reparado o pneu em vez de chamá-los e recebo um novo carro. Cem metros depois, a luz de “cheque seu motor” se acende. Volto à locadora. Recebo um carro pela terceira vez e, enfim, parto por 150 km em direção ao casamento. “Eu peguei o terno?!”
 
VOLTA PARA:
 
Itália, 2018. Estou só, no carro, a caminho do aeroporto de Catânia, após vinte dias intensos de viagem. O trajeto de três horas sob um sol de 40 graus está perto do fim quando uma luz familiar acende no painel: “pressão baixa no pneu”. Momentos de tensão. Paro no primeiro posto e desço do carro, com medo de olhar. Checo cada pneu — chuto, aperto, inspeciono: tudo parece normal. Procuro uma bomba de ar, não encontro; procuro um atendente, não encontro. “Faltam apenas 50 km, vai dar certo.” Ligo o som, me lanço de volta à estrada. Seja o que Deus quiser! Enfim, chego ao aeroporto, entrego a chave ao atendente, ele some no pátio, volta minutos depois. 
 
— Tudo certo, seu depósito caução está liberado, boa viagem!
 
Respiro aliviado e sigo para o check-in. “Seguro? Pra que seguro? Melhor comprar uma AirFryer.” 

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Cotidiano

A pele que habito

Minha família se divide em dois grupos: os que evitam os médicos ao máximo e só vão a um consultório quando estão tossindo há três semanas e os que à primeira dorzinha vão correndo para a lista de médicos conveniados, buscando o reumatologista mais próximo.

Eu sou o presidente do segundo grupo. 
 
Minha jornada de saúde envolve exames de tomografia, ressonância, audiometria, laringoscopia, ureteroscopia, além de passagens por gastros, uros, físios, oftalmos, neuros, otorrinos e, principalmente, dermatologistas. 
 
Minha primeira dermatologista era a esposa do meu meu pediatra. Era minha primeira incursão no mundo das tetraciclinas, isotretinoínas e ácidos salicílicos. Passei grande parte da adolescência lutando contra espinhas em um 7 a 1 diário, com cremes, antibióticos, limpezas e peelings ácidos, até que resolvi usar outras armas e consultei outra dermatologista que, sob os protestos da minha mãe, me receitou a mãe de todas as drogas, aquela que acabaria de vez com a acne (e talvez com o meu fígado, e com a minha capacidade de amar), e traria de volta ao meu rosto a pele de bunda de neném: o Roacutan. 
 
“Depressivo fica quem tem espinha, não quem está tratando!”, assegurava a médica, enquanto rebatia os efeitos colaterais do seu herói. “Precisa ver essas pintas também, hein? E protetor solar, ‘tá usando? Tem que usar!” 
 
Após um ano de exames de sangue bimestrais, secura nos olhos, nariz e boca, e protetor solar, a batalha parecia, enfim, vencida. Até que, uma década depois,  conforme devidamente informado na bula, elas voltaram: não tão agressivas, mas sorrateiras, à espreita, sempre prestes a aparecer na véspera de um casamento. E não voltaram sozinhas! Vieram acompanhadas de um clássico dos homens que deixam a tenra idade para trás: a queda de cabelo.
 
Meu novo dermatologista atacou todos os problemas em consultas de 13 minutos e com medicamentos manipulados: uso oral, uso tópico, uso utópico.
 
“Problema pra transar tem quem é careca, não quem está tratando!”, assegurou ele, tentando me tranquilizar quanto aos 2% de chance de impotência com o uso de Finasterida. “Fica tranquilo, seu nível de testosterona é muito alto, por isso as espinhas e a queda de cabelo.” Saí do consultório cheio de receitas, amostras grátis e virilidade. “E filtro solar, tá usando? Toma aqui mais uma receita.”
 
Mudei de plano, mudei de médico e mudei minha visão de mundo ao perceber que, pela primeira vez, meu médico era mais novo do que eu. Eu podia estar salvando vidas, tirando pintas, curando doenças, mas não: fico aí, escrevendo historinhas e vendo séries…
 
Foi com essa bagagem médica que cheguei ao consultório da minha mais nova consultora dermatológica, Dra. Patrícia. Relevei o fato de que havia-se formado na escola no mesmo ano em que terminei o mestrado e, como um aluno aplicado em dia de prova, cheguei disposto a impressionar. Anos de experiência na área não haveriam de ter sido em vão!
 
— Conta pra mim, Antoniô, o que te trouxe aqui hoje?” 
 
Só médicos e professores em primeiro dia de aula me chamam de “Antoniô”, logo, tudo seguia no caminho certo. 
 
— São duas coisas. A primeira é a acne que deu uma piorada. Já usei tetraciclina, isotretinoína, agora estou com adapaleno e peróxido de benzoíla, mas não sei se de repente tem algo novo — disse eu, como um médico em um congresso que discute as novas drogas do mercado.
 
— Não, está ótimo! É isso mesmo. Está usando filtro solar? Tem que usar!
 
— Tentei de tudo, até manipulado: todos me dão espinha. Recentemente achei um que parece funcionar.
 
Ela abriu a gaveta e me deu um pot-pourri de mini-protetores.
 
— Tente esses, são todos ótimos — disse entregando meus velhos inimigos de guerra.
 
— Bom, além disso tem as pintas.
 
Saquei nerdemente minha pastinha e mostrei minha dermatoscopia: um exame com fotos de todas as pintas (oficialmente, “nevos”) do meu corpo.  
 
— Uau, muito bom! E, conta para mim, Antoniô, por que você fez esse exame? Tem algum caso de câncer de pele na família?
 
— Tem sim. Eu mesmo.
 
Seus olhos brilharam. Aproveitei sua fascinação e continuei:
 
— Em 2005, extraí um nevo no dorso e o resultado do exame acusou um melanoma. Fui ao oncologista e ele pediu para refazer o exame e concluiu que não chegava a ser um melanoma, mas um nevo melanocítico de alta atipia, então ele fez uma extração com ampliação. Depois disso tirei mais umas 15 pintas. Agora eu só acompanho. 
 
“Que homem! Que case!”
 
— E você sabe me dizer porque ele mandou repetir o exame?
 
“Eu sei! Eu sei!”
 
— É que no primeiro exame deu que havia tido regressão, então eu ia precisar fazer o exame de sentinela, que tem que tomar anestesia geral e tal. Como esse era o único indicador alterado, ele pediu pra refazer. Aí veio o novo resultado.
 
Nota 10!
 
Pati apanhou os exames. Seus olhos brilharam novamente como quem segura uma camiseta usada por um ídolo.
 
— Foi o Professor Bonifácio que fez a ampliação?! Digo… Doutor Bonifácio. É que eu chamo ele de professor porque faço pós em Onco e tenho aula com ele. Ele é incrível! Se ele decidiu que apenas a ampliação era o suficiente, eu tenho certeza que esse era o melhor caminho. Porque, assim, ele… é uma referência no assunto. Mesmo!
 
Naquele momento, me senti levemente superior: ela poderia ser a melhor aluna da sala, poderia um dia dividir um consultório com ele, tê-lo como mentor a vida toda, mas foi o meu quase-câncer no dorso que doutor-professor-estrela Bonifácio extraiu com perfeição numa manhã de segunda-feira: isso ela jamais teria!
 
— Vamos dar ali dar uma olhada nas pintas, então.
 
Agora com o status de sub-celebridade, tirei a camisa, a calça, a cueca: não eram nem 9h da manhã e uma estranha já escrutinava meu corpo nu. 
 
— Tá tudo certo, pode se vestir. É só continuar acompanhando. Vou te dar um gel secante pras espinhas e um pedido pra uma nova dermatoscopia. Daqui uns meses você volta aqui, hein? Quero te ver de novo! 
 
Não consegui me lembrar da última vez em que me haviam dito “Quero te ver de novo!” com tanto entusiasmo enquanto eu vestia a roupa. Achei que o mínimo que poderia fazer era deixar Doutora Patrícia orgulhosa. Apanhei as receitas, prometi que voltaria, e parti, rumo à farmácia, pronto para fazer a lição de casa e dar uma última chance para minha relação mais conturbada: a com o filtro solar. 

Foto: Acervo pessoal

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