viagem

Você quer brincar na neve?

Era primavera. Eu caminhava por uma trilha deserta rumo a uma estação de esqui que já havia encerrado a temporada de inverno, mas o parque ao redor ainda não estava aberto para as visitas de verão. Ao meu lado estava Henning, um engenheiro alemão que, assim como eu, estava em Ushuaia para estudar espanhol. Em certo momento, após uma curva, avistei uma mancha branca e marrom alguns metros adiante.

— Aquilo é neve? — perguntei, empolgado.

Henning deu risada.

— Aquilo é um resto de neve suja que está derretendo.

Tomei aquilo como um “sim” e corri, completamente fascinado, até aquele metro quadrado branco, sujo de terra. Henning, acostumado com neve tanto quanto eu estou acostumado com trânsito, gargalhava, enquanto tirava uma foto minha. Seguimos pela trilha até que ela desapareceu em meio a uma floresta de árvores secas… e entendi porque Henning ria: quilômetros e quilômetros de neve branca e fofa cobriam a montanha até a altura dos joelhos. 

Éramos nós, o silêncio e nenhum outro ser.

Henning estava quase sem voz, tomando antibióticos por uma infecção na garganta e grandes goles de conhaque com mel “que ajudavam a esquentar e a melhorar”.  Entre uma palavra e outra que buscava no pequeno dicionário em sua mochila, Henning me contava sobre sua vida em Köln, sobre sua deficiência na mão esquerda e sobre seu pai, cujo nome traduzia-se como João Joaquim Cozinheiro. 

Foram horas e horas de conversa até percebermos que estávamos perdidos.

Começava a anoitecer, e as indicações da trilha, já escassas devido à neve, agora desapareciam por completo. Escolhemos não entrar em desespero. Com as meias molhadas e os pés congelando — “ahhh, nieve en los zapatos!” — guiamo-nos pela direção da neve derretida que corria rumo às luzes das casas ao pé da montanha.

Passaram-se nove horas desde a partida até a chegada. 

Ficamos muito amigos, Henning e eu. Seguimos viagem, junto a outros novos amigos, rumo ao Norte do país, passando pela Patagônia chilena e pelas paisagens nevadas mais incríveis que já vi. 

Dias depois, dissemos adeus. Nunca mais nos vimos.

É uma coisa engraçada, a neve. Nada mais é do que água, que bebemos, usamos, desperdiçamos todos os dias, mas basta mudar seu estado e mudamos nosso olhar. Há quem ache a coisa mais fascinante do mundo — “tudo branquinho, que lindo!” — há quem prefira a morte — “já teve que tirar a neve do carro pra ir trabalhar às sete da manhã?”; seja como for, o sentimento é passageiro: a neve derrete, e ficam as memórias, tenras ou traumáticas, de um momento que passou.


Onze anos depois viajei com uma amiga que via neve pela primeira vez.

— Aquilo é neve? — ela perguntou de dentro do carro, apontando para uma área branca ao pé da montanha.

Eu segurei a risada.

— Aquilo é um resto de neve suja que está derretendo.

Ela tomou aquilo como um “sim”. Paramos o carro e ela correu, completamente fascinada, até aquele metro quadrado branco, sujo de terra, sem saber que logo estaria em meio a quilômetros e quilômetros de neve branca e fofa que cobriam a montanha até a altura dos joelhos, criando um cenário fascinante que, assim como aquela viagem, duraria apenas mais alguns dias.

Foto: Acervo pessoal

Padrão

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s