Cotidiano

Fale comigo

Pense na última pessoa com quem você se comunicou. A menos que ela estivesse na sua frente, é provável que você tenha mandando um e-mail, uma mensagem no WhatsApp, marcado em algo no Instagram; pode ter sido um post no Twitter para ninguém em específico, um textão no Facebook, um áudio de oito minutos ou um meme de oito palavras. Seja qual for o formato, acho fascinante observar a agilidade com que a nossa comunicação se transforma.

Há pouco tempo, meu pai, de 88 anos, gravou um vídeo para enviar à sua irmã, de 91, que mora na Itália. “Onde eu nasci não tinha luz elétrica. Não me conformo como as coisas são tão fáceis hoje…”
 
Por outro lado, como alguém que tem as palavras como parte fundamental da profissão, confesso que acho um pouco assustador como a agilidade na comunicação vai assassinando a Língua Portuguesa. É como se vírgulas fossem sempre opcionais, assim como O Uso Da caixa ALTA, e como se todos os acentos tivessem desaparecido com a “regra nova”: aquela instituída na década passada. Isso sem falar nas abreviaturas e nas trocas aleatórias de letras (pq essa diskriminassaum c/ a letra C?).
 
Outro dia minha sobrinha tirava sarro da minha irmã, que não tinha entendido uma mensagem:
 
– Como assim você não sabe o que é ttyl? Você precisa aprender a mandar mensagem de texto.
 
– E você precisa aprender Português…
 
– O que vocês estão estudando em Língua Portuguesa na escola? – perguntei.
 
– Ah, aquela coisa de adjunto adverbial, complemento nominal… Sei lá.
 
– Aprende direito o Português porque isso vai fazer muita diferença na sua vida, seja lá qual for a sua carreira – aconselhei eu.
 
– Eu vou morar fora, não faz diferença – devolveu, com a sagacidade de uma geração que já nasceu conectada. Se isso fosse uma mensagem, minha resposta seria um emoji sarcástico.
 
Mas de todas as maneiras que interagimos atualmente, a que mais me faz refletir são os áudios do WhatsApp. Graças a eles, posso almoçar acompanhado de alguém que está no Canadá ou dirigir como se houvesse alguém no banco do passageiro. Se me dissessem há cinco anos que uma das formas mais comuns de comunicação no futuro seria o equivalente a uma troca de recados na caixa postal, eu daria risada. Tudo o que nos esforçamos no passado para ser instantâneo, agora submete-se ao tempo do outro: vou ouvir o que você tem a dizer no momento que EU quiser. “Como assim fulando está me ligando?!”
 
Uma eterna discussão pode surgir acerca do efeito dessa forma de comunicação entre as pessoas, mas uma coisa me parece certa: ela está nos forçando a ouvir. Quando recebo uma mensagem de áudio, não posso interromper a fala do outro, não posso direcionar seu pensamento, não posso julgar com o olhar: só o que posso fazer é escutar, é respeitar seu ritmo de fala e pensamento para só então me posicionar.
 
E isso é indiscutivelmente um grande presente da tecnologia.
 

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família, viagem

Apertem os cintos…

Minha avó sempre fazia as coisas do seu jeito, e sempre conseguia o que queria. Uma das coisas que queria era que minha mãe fosse ao menos uma vez na vida a Jerusalém – uma viagem que ela mesma havia feito. Por isso, não me foi de grande espanto descobrir que a viagem que faria com minha mãe à Terra Santa começaria precisamente no data do seu aniversário. “Morreu, mas ainda assim consegue as coisas!” – brincamos.

Uma viagem de 17 dias, com um grupo de 40 pessoas cuja idade média era 75 anos, prometia aventuras – que começaram já no aeroporto: quarenta velhinhas na fila preferencial, atropelando-se umas as outras com seus carrinhos carregados de malas com fitinhas de santos por todos os lados. Menos de 15 horas (e incontáveis detectores de metais) depois, já estávamos cara a cara com o Papa, e com nossos celulares na cara dele. “Onde é que aperta pra filmar?”
 
Visitamos as basílicas papais, os museus do Vaticano, as ruínas romanas e, é claro, as lojinhas. Ao fim de cada dia o desafio era lembrar o que estava em qual igreja. “Onde estava o prego da cruz, mesmo?” Não, lá era o túmulo do Pio XII!”.
 
Ao mesmo tempo em que tentavam conectar-se com o divino, alguns tentavam desvendar o mistério da insônia: teria sido o tiramisù às 11h da noite? O excesso de risoto? O jet lag não foi sequer considerado. Outros indignavam-se com a rudez dos italianos. “Todo mundo grita comigo,” frustrava-se uma. “Eles gritam com todo mundo, é o jeito deles, você não é especial,” explicava a outra.
 
Cinco dias e muitos gelatos depois, cruzamos o Mediterrâneo e chegamos ao Oriente Médio em grande estilo: emperrando a porta giratória do hotel em Tel Aviv. “Este é o banheiro mais limpo de toda Europa!” clamou uma. “Estamos na Ásia,” corrigiu outra. Para a alegria da gerência, após o café da manhã mais farto de toda viagem (“ah, não tem um pãozinho de queijo?”) caímos mais uma vez na estrada no que seria o início de um ritmo enlouquecido pela Terra Santa.  
 
A cada lugar sagrado, uma aventura, dividida com turistas de todo planeta com seus próprios guias e radinhos. “Não tô ouvindo nada, ele ‘tá falando alguma coisa?” “Tem que ligar!” “Mas tá ligado!” “Então acabou a bateria… Falei pra desligar à noite!” Cruzamos fronteiras rodoviárias que nos fizeram ter saudades da Estação da Sé e viajamos oito horas pelo deserto para visitar uma das novas maravilhas do mundo (ou para ficar esperando do lado de fora do parque, dependendo do cansaço…). Testemunhamos o milagre da comunicação entre mineiros e árabes. (“Ela quer uma sacolinha. Sa-co-li-nha.”) Boiamos e nos lambuzamos com a lama do Mar Morto, e de lambuja roubamos os tênis de alguém. “Ué, não é de nenhum de vocês? Ah, agora tá longe pra devolver, deixa pra lá…”. Caminhamos pelos templos onde Jesus pregava, pela gruta onde Jesus nasceu, pelo local onde Jesus teve a última ceia, pelo mar (que não é mar) onde Jesus andou sobre as águas, pelo rio onde Jesus foi batizado, pelas pedras por onde Jesus pode ou não ter caminhado. Invadimos as ruas de Jerusalém com nossos lencinhos cor de laranja que uma guia insistia em chamar de amarelo e com um guia que parecia estar num reality show onde vence quem chega primeiro; nos acotovelamos pelas estreitas escadarias da Via Sacra, apinhamo-nos por horas como adolescentes num show de rock para visitar o Santo Sepulcro – por quatro segundos.
 
E, sobretudo, tivemos grandes debates filosóficos.
 
As oliveiras do Monte das Oliveiras podem ser consideradas as mesmas da época de Jesus? Tudo bem ler a Bíblia pelado? Maria morreu virgem? Como pode aquela moça fazer uma leitura na missa assim, com os braços de fora? Os albinos são albinos porque só têm glóbulos brancos? Acho que Jesus era magro porque andava muito…
 
Duas semanas e seis hotéis depois, estávamos de volta ao aeroporto de Roma (por oito longas horas). Alguns sem voz, outros sem energia, outros sem saúde, outros sem dinheiro, mas todos cheios de reflexões. É impossível ficar indiferente a uma viagem desse tipo. Cada um à sua forma, tentávamos ser um pouco melhor; buscávamos uma conexão com Deus revivendo um pouco da Sua passagem pela Terra.
 
Particularmente, não encontrei Deus nos templos em ruínas, nas calçadas milenares ou nas relíquias sagradas. Ao contrário, acho que Deus não estava nas coisas: estava na paciência em explicar pela quarta vez como conectar o Wi-Fi no ônibus; nas gargalhadas no quarto de hotel ao relembrar os percalços do dia; no cuidado com os mais velhos ao descer escadas ou subir no ônibus atrás de um guia em disparada. E, principalmente, sentado na poltrona 34D do avião, rindo da aeromoça que tropeça na mala que um passageiro recusa-se a tirar do corredor.

Foto: Acervo pessoal

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Cotidiano, viagem

Conexões

Diversos estudos dizem que o ser humano busca, acima de tudo, pertencer e conectar-se. Faz sentido. Conectar-se com o outro é uma das jornadas mais fascinantes do nosso passeio por este planeta. Alguns entram na nossa vida com mais intensidade, alguns ficam por mais tempo, alguns compartilham os momentos mais íntimos, outros os mais alegres, outros os mais marcantes… É como se uma parte de todos que passaram pela minha vida tivesse ficado em mim e, da mesma forma, houvesse pedaços de mim espalhados pelo mundo, em busca de novas conexões.

E essas conexões ocorrem hoje das maneiras mais distintas, intensas e inusitadas. Nosso ritmo é tão alucinante que no tempo que leva para abrir o Instagram você já está íntimo de alguém. Basta ter seu nome e sobrenome e já posso saber onde você passou as férias, com quem jantou, quando nasceu, que música ouve. A vida íntima já não é, necessariamente, privada.
 
Aceleramos os relógios, e as relações parecem seguir no mesmo fast forward. Há não muitos anos, você se interessava por alguém, pedia o telefone, ligava uns dias depois, conversava, ligava outro dia, marcava algo. Semanas, meses se passavam até que o outro fizesse parte da sua vida. A intimidade era construída sobre os pilares do tempo. Quisemos tanto comprimir esse tempo que conseguimos: criamos as mais diversas plataformas para conectar pessoas com os mesmos interesses em apenas um clique. Viramos perfis em busca de matches. Você conhece alguém num aplicativo de relacionamento e por dois, três dias, outra pessoa invade sua vida com toda sua história, dúvidas, anseios, expectativas. Em 72 horas, ela sabe mais de você do que muitos à sua volta — e vice versa. Você compartilha seu cotidiano por fotos, áudios, textos. Vocês, enfim, se encontram, compartilham o que a conexão digital não permite — o jeito, o cheiro, a presença. Mas e depois? Como manter uma intimidade que atingiu o pico em três dias sem qualquer alicerce?
 
Por outro lado, será possível manter uma intimidade de anos atrás apenas por um fiapo digital? Em 2000, fiz um amigo que encontrava praticamente todos os dias durante cinco meses. Éramos intercambistas na Austrália e, desde que nos conhecemos na conexão em Auckland, nos tornamos amigos. Morávamos no mesmo bairro, estudávamos na mesma escola, íamos às mesmas festas: após dezesseis anos vivendo no mesmo lugar, com as mesmas relações, ele era meu primeiro grande novo amigo. Terminado o programa, voltamos ao Brasil: eu a São Paulo, ele a Porto Alegre.
 
Passaram-se oito anos até que nos encontrássemos novamente.
 
Pelos dois dias que ele esteve de passagem em São Paulo, atualizamos nossas vidas e saboreamos a amizade que poderia ter sido e que não foi. Ou será que foi? Será que cinco meses de intimidade são suficientes para segurar uma amizade de Facebook por uma vida inteira?
 
Por outro lado, será que existe uma intimidade intrínseca entre pessoas que mal se conhecem? Aos cinco anos de idade, recebi a visita de familiares da Itália, entre eles um primo de 13 anos. Não fossem as fotos dessa visita, não saberia sequer que já havíamos interagido alguma vez na vida. Quase trinta anos depois, nos reencontramos em Viena, onde ele vive. Sou recebido por esse completo estranho, que me leva para comer a que ele julga ser a melhor pizza da cidade. Passamos horas atualizando nossos trinta anos de vida por países diferentes em uma conversa que termina com a promessa de um novo reencontro. Em três dias, estávamos na sua cozinha, comendo spaghetti ao molho gorgonzola, conectados com familiares em todo o mundo pelo computador, antes de eu passar a noite no sofá. Completos estranhos e, ao mesmo tempo, primos íntimos de longa data.
 
Mas sempre que penso em conexão, me lembro de um episódio de muitos anos atrás que nada tem a ver a com o que normalmente associamos com intimidade.
 
Eu estava no aeroporto. Era provavelmente uma conexão a caminho de volta a Los Angeles. À minha frente, uma mulher do alto de seus quarenta anos chorava discretamente; ao seu lado, um homem da mesma idade, provavelmente seu marido, a consolava em silêncio, segurando sua mão. Ela respirou algumas vezes e parou de chorar. Alguns instantes se passaram, e agora era ele quem chorava, e ela quem o consolava. Não era um choro desesperado, mas um choro resignado, uma tristeza profunda para qual a única solução era deixar-se entristecer. Sem saber quem era aquele suposto casal ou o que havia acontecido para deixá-los assim, me conectei com sua dor e me entristeci também.
 
Da mesma forma aleatória que entraram na minha vida, os dois saíram algumas horas depois, rumo a sabe-se lá que cidade americana, deixando em mim um pedaço da sua intimidade: uma intimidade que não exigia palavras, apenas a presença e o silêncio; uma intimidade que expunha sua dor mais íntima a um completo estranho — eu.
 

Foto: Shutterstock

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As coisas mais simples

Quando eu era criança, um dos meus programas favoritos era ir ao McDonald’s: um McChicken, uma batata média, um guaraná e um nuggets de seis com molho caipira e eu estava no céu. Se fosse seguido de um cinema, então, o dia ganhava o status de melhor dia do ano.

Lembro o dia em que um vizinho comentou, todo animado, que almoçava toda terça-feira no McDonald’s porque ficava até tarde na escola. Outro vizinho, mais velho e mais cínico, devolveu: “Eu almoço quando quiser”.
 
Eu logo virei o outro vizinho. Comer no McDonald’s passou a ser a opção C e ir ao cinema virou parte da rotina. Vieram novas experiências, novas ambições e, sem perceber, foi ficando cada vez mais trabalhoso ter a mesma satisfação que um mero fast food me trazia aos doze anos de idade.
 
Ano passado, fui ao Burger King gravar um vídeo para um cliente. Precisávamos registrar pessoas comendo, e meu chefe disse: “Podem pedir o que quiserem”. Olhei para minha colega e percebi que ela tinha nos olhos o mesmo brilho que eu. Parados em frente ao balcão, era como se eu voltasse a ser aquela criança prestes a pedir um McChicken. Nós rimos. Ambos, felizmente, podiam tranquilamente bancar aquela refeição, mas o fato de podermos escolher hambúrgueres e batatas fritas ao bel-prazer nos trouxe uma alegria tão inocente, tão simples. E como é bom alegrar-se com as coisas simples…
 
Recentemente estive em uma cidade do interior de São Paulo, junto a algumas dezenas de jovens voluntários, para uma tarefa ousada: construir uma capela em três dias. Toda comunidade se movimentou para receber e alimentar as setenta bocas famintas. A cada dia, depois de horas de trabalho sob o sol, a refeição era sempre um dos momentos mais esperados. Não havia luxo, não havia frescura: havia o carinho de pessoas que passaram dias buscando doações de alimentos e horas preparando panelas e panelas de comida para alimentar nossos corpos suados.
 
Você entra na fila, pega o seu prato, equilibra um garfo ou uma colher — e com sorte uma faca — e observa os rostos sorridentes amontoando arroz, feijão, farofa, macarrão, carne, batata, cenoura, tomate e salada a sua frente. Com a outra mão, você pega um copo de plástico com suco e um guardanapo e procura uma sombra: pode ser uma cadeira, um banco, um pedaço de madeira ou um espaço no muro onde você simplesmente possa apoiar as costas. Você tenta explicar para o cachorro vira-lata que aquela comida é só para você e usa todo o equilíbrio adquirido no alongamento da manhã para se sentar sem derrubar o suco, a salada, o garfo e o guardanapo. O prato de vidro está quente com os dois quilos de comida, então você usa o capacete no colo como apoio e se prepara para dar a primeira garfada sem derrubar um grão de arroz.
 
Essa será a melhor refeição da sua vida.
 
Você dá risada ao se lembrar da vez em que reclamou da falta de um jogo americano no restaurante; você termina de comer, alguém gentilmente aparece para retirar seu prato, repor seu suco ou oferecer uma gelatina. Você tem meia hora até voltar para a obra e não pensa duas vezes: estica as pernas ocupando toda sombra do muro de cimento, tira os sapatos, apoia a cabeça no capacete e fecha os olhos. Você está no céu. Minutos depois você acorda mais descansado do que poderia imaginar, pronto para voltar para o sol e carregar mais vigas de madeira.
 
O ritmo da minha vida — e sei que o da maioria das pessoas — é sempre muito agitado. Há sempre algum lugar para ir, algo importante a fazer, algo novo a conquistar. E não vou mentir: eu gosto disso. Gosto de ter metas, de ter ambições, de tentar ser melhor, estar melhor.
 
Mas é um privilégio, nesse ritmo louco, ter a chance de parar por um instante e lembrar que o chão de asfalto pode ser tão macio quanto um travesseiro de plumas.
 

Foto: Acervo pessoal

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Feliz dia novo

Durante mais de 20 anos da minha vida, passei a virada do ano exatamente no mesmo lugar, com as mesmas pessoas: minha família. A casa onde tios, primos e afins reuniam-se era situada em um lugar estratégico onde era impossível ver qualquer tipo de fogos, e a proximidade com uma favela sempre deixava dúvidas sobre o teor dos estouros. Foram fogos? Foram tiros?

Havia uma superstição de que os desertores sofreriam as consequências. “Vai pra praia com os amigos? Certeza que vai chover!” “Fulana foi viajar com o namorado, acredita?! Aposto que vão terminar!” A primeira vez que passei o réveillon longe da família foi em 2007, quando fui a Fortaleza com a namorada e alguns amigos. Tenho certeza que o motivo de eu ter passado as últimas horas do ano vomitando foi o excesso de comida, e não uma maldição. O namoro terminou algumas semanas depois. 
 
Particularmente, nunca dei tanto peso para a data em si, talvez porque eu tenha a sorte de passar praticamente o ano todo rodeado por pessoas que gosto e de não precisar de datas definidas para reuni-las.
 
Ou talvez porque eu reconheça a arbitrariedade dessa data.
 
Em algum ponto da história, decidimos que uma posição específica da Terra em relação ao Sol seria um marco; que uma vez que nossa bola azul cruzasse essa linha de chegada imaginária, daríamos um grande reset no jogo de seus habitantes. Aí, em 1582, o Papa Greg e sua turma perceberam que estava tudo errado e decidiram dar uma ajustadinha nessa linha, puxando-a uns dez dias para trás. “Vamos pular do dia 4 de outubro direto pro dia 15?” “Bora!”
 
Eu não teria feito aniversário em 1582…
 
Cada país resolveu adotar o calendário quando estava a fim, o que levou alguns anos. Tipo uns 350. Mas não foi só isso. Para evitar novos grandes ajustes no futuro, resolveram calcular direito essa história de ano bissexto, afinal, o ano trópico não tem EXATAMENTE 365 dias, mas 365 dias, 5 horas, 48 minutos e 46 segundos.
 
(Parênteses aqui. Uma busca rápida na internet vai mostrar que são considerados dois cálculos para a duração do ano: o ano sideral, que usa as estrelas como referência, e o ano trópico, que leva em consideração as estações do ano. E, não, eles não têm a mesma duração. VAI VENDO!)
 
Pois bem, com esse negócio de um ano ter 365 dias, mais um quarto de dia, decidiram enfiar um dia a mais em fevereiro a cada quatro anos. Só que, de novo, esse “um quarto de dia” não é EXATAMENTE um quarto de dia. E como a gente compensa esses minutinhos que a gente está colocando de brinde a cada ano? Fácil: a gente cancela o ano bissexto a cada 100 anos, nos anos múltiplos de 100!
 
“Nem vem! O ano 2000 foi bissexto que eu lembro muito bem. Teve enchente, teve Olimpíada e teve 29 de fevereiro, sim!” — você pode estar pensando.
 
É que a coisa não para por aí: a gente cancela o ano bissexto nos anos múltiplos de 100… A MENOS que eles sejam, também, múltiplos de 400.
 
Olha. Que. Simples. Tudo para manter uma linha imaginária mais ou menos no mesmo lugar todo ano.
 
Seja como for, é fascinante pensar como ciclos arbitrários têm o poder de nos inspirar, de nos fazer refletir, de criar novas metas e ressuscitar velhos sonhos. E também de nos dar uma folga. Afinal, seria excruciante andar por aí carregando décadas de decepções e escolhas erradas nas costas, sem poder encostá-las ali num cantinho de dezembro antes de seguir adiante.
 

Fico pensando como, todos os anos, mais ou menos no mesmo ponto do universo, o dia 1º de janeiro vai surgindo no horizonte, timidamente, de hora em hora por todo o planeta, trazendo logo atrás um ano carregado de sonhos, alheio ao mundo de expectativas colocadas sobre ele. 

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Cotidiano

Qualquer coisa, grita

“Eu sou um pouco travada pra falar em público, me dá umas dicas?”, pediu uma amiga outro dia. Eu ri. Sete anos atrás isso seria uma piada.

Veio-me à memória um dia durante o mestrado em que o professor, como de costume, passou um curta feito por um grupo de alunos, que em seguida foi discutido pela turma em um auditório com 120 pessoas. Eu levantei a mão para fazer um comentário, mas havia muitas mãos levantadas e acabei não sendo chamado.
 
Por que eu me lembro disso? Porque em dois anos de mestrado nos EUA, essa foi a única vez que levantei a mão.
 
Não posso dizer que eu era tímido, mas em um mundo de smartphones recém-nascidos e um Facebook que engatinhava, gritar sua opinião sobre o mundo a todo momento não era exatamente um hábito — certamente não pra mim.  
 
De volta ao Brasil, fui convidado a apresentar um festival de cinema. “Mas eu nunca fiz isso!” “Mas eu não sei falar em público!” “Mas eu não conheço as pessoas!”
 
Aceitei. Minhas tarefas se resumiam a fazer uma breve apresentação de cada palestrante e mediar dois debates — um na abertura, outro no encerramento — com uma dupla de diretores de cinema.
 
Passei manhãs inteiras estudando a vida de cada palestrante, decorando histórico acadêmico, prêmios, cargos, conquistas, títulos… tudo para uma apresentação de trinta segundos. “E se eu errar? E se me acharem incapaz?” eu pensava, com as mãos suando. “Errar o quê, meu Deus?!” diria eu hoje. A faculdade? Um prêmio? Uma data? O MUNDO TÁ ACABANDO E VOCÊ TÁ COM MEDO DE PRONUNCIAR UM SOBRENOME ERRADO?!
 
Dizem que o Senna corria melhor na chuva porque tinha medo, e por isso se preparava mais.
 
As pessoas naquela plateia eram o meu dilúvio.
 
Para os debates com os diretores, me preparei como um atleta: vi os filmes que seriam exibidos, pesquisei sobre seus trabalhos, anotei perguntas… “E se ninguém perguntar nada?” Anotei mais perguntas.
 
No dia da abertura, após o filme, subi ao palco e me sentei ao lado dos diretores, com um auditório de 700 lugares me encarando. “Que bom que está meio vazio…” Fiz uma ou duas perguntas até que um deles, sem qualquer cerimônia, soltou:
 
— Filipe, a gente não quer ouvir suas perguntas, a gente quer ouvir as deles.
 
Em um misto de “quero sumir” e “que alívio”, passei o microfone para a plateia, com as mãos suando só de pensar que estaria naquele mesmo palco quatro dias depois, com os mesmos diretores, debatendo outro filme. Mal sabia eu que seria pior, e um deles — alcoolizado — praticamente tiraria o microfone da minha mão para seguir falando.
 
Já estava aceitando meu fiasco, prestes a voltar para casa, quando uma das palestrantes sorriu pra mim e disse:
 
— Nossa, como você fala bem! Você tem uma facilidade… Quem dera ser assim.
 
Eu sorri de volta e agradeci, escondendo as mãos suadas. No fim das contas, havia sobrevivido. O preparo não havia sido em vão. Eu tinha medo que as coisas dessem errado. E deram. E tudo bem. Porque às vezes as coisas dão certo mesmo quando dão errado.
 
É irônico pensar que, anos depois, estaria à frente de um programa social com o lema “toda criança tem algo a dizer, toda criança merece ser ouvida”; que falar em público se tornaria comum, prazeroso, até. Como diria um personagem que eu mesmo havia criado anos antes, é engraçado como nossos medos se tornam tolos quando a gente os supera.
 
Ano passado me pediram para fazer um breve discurso de agradecimento. Para duas mil pessoas.
 
Eu subi na arquibancada do ginásio, apanhei o microfone, olhei para as duas mil pessoas, pensei na fala que tinha preparado e sorri.
 
Lá fora, estava chovendo.
 

Foto: Acervo pessoal

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Cotidiano

Circo da vida

Quando uma amiga me convidou para assistir a um espetáculo de dança atlética numa noite de quinta-feira, não imaginava o impacto que ele teria nos dias que viriam. O espetáculo da companhia italiana Kataklo é certamente uma das coisas mais impressionantes a que já tive o prazer de assistir (ao lado de “O”, do Cirque du Soleil, onde artistas voam pelo palco de maneiras inimagináveis).

Uma das coisas que me fascinam na música e na dança é que não consigo racionalizar o que está acontecendo: eu apenas sinto. Como roteirista, é impossível desligar totalmente o intelecto ao assistir a um filme ou série de TV;  já a música e os movimentos do corpo me surpreendem a cada nova experiência. Como pode alguém combinar sons e fazer chorar? Ou visualizar movimentos do corpo que conectados a uma determinada música geram uma determinada emoção? Não entendo: apenas sinto.

Descobri que a companhia dava aulas de atividades circenses e pensei que poderia ser divertido participar de algo parecido, despretensiosamente. Certamente haveria escolas de circo por aqui.

A primeira vez que me pendurei num trapézio, há sete meses, não consegui levantar os pés do chão. Literalmente. Vi pessoas penduradas em outras, presas por voltas em um tecido, e tive certeza de que aquilo estava muito além do que eu, mero mortal, poderia alcançar.

No começo, tudo parece impossível. Você não se acha capaz, acha que jamais daria conta, que não foi feito para aquilo; aceita que nem todo mundo precisa ser capaz de tudo, que cada um tem sua habilidade. Então pensa em desistir.

Mas você decide ir em frente, dar uma chance. Aos poucos, vai se superando. Reconhece que tem limites, mas que tudo bem: dá pra trabalhar dentro deles. Alguns você supera, outros você aceita.

Você conhece novas pessoas: pessoas que estão na mesma que você, que riem dos seus limites, que se frustram, que te incentivam, que te ensinam. Aliás, você aprende (ou reaprende) a torcer pelos outros, a vibrar genuinamente pelas conquistas alheias.

Aos poucos, aquilo ocupa sua mente – o que a deixa livre de todo o resto. A três metros do chão, de ponta-cabeça, pendurado por uma corda ou um pedaço de pano, tudo o que vem à cabeça é manter-se firme, terminar o movimento, seguir para o próximo. Você vive no momento. Onde mais você faz isso hoje em dia?

Você sua, cansa, alonga, descobre músculos novos, tira força de onde não tem: nada no seu corpo fica indiferente.

E, é claro, você sente dor.

Todo movimento inclui uma parcela de dor. Primeiro você para no caminho. “Não vai dar…”. Você tenta de novo, falha de novo. Insiste, até que você esgota a dor ao ponto de ela não ter mais efeito: não porque ela sumiu, mas porque ela não te limita mais.

E talvez justamente por isso o resultado valha tanto a pena, e seja tão bonito.

Isso vale pro circo. E vale pra vida.

Foto: Acervo pessoal

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Contos

O galpão

Ele era um homem alto. Tinha mais de um metro e noventa de altura e energia para derrubar um touro ou levantar um trem se precisasse. Mas naquele entardecer não precisava levantar um trem, nem sequer um carro ou uma caixa de papelão: simplesmente procurava por algo que não conseguia encontrar.

Tinha pressa. Entrou no galpão, certo de que o que buscava estava ali. Foi tateando as paredes em busca do interruptor, mas não o encontrou. Não fosse por uma discreta penumbra que vazava pela claraboia, estaria em uma total escuridão.
 
A sensação era de que o galpão há pouco estivera ocupado, movimentado, vivo, mas agora estava abandonado; um vazio de móveis e objetos escondidos no breu. Era possível que alguns vidros estivessem quebrados, talvez uma fina camada de pó se estivesse formando sobre os móveis, mas à medida que a noite caía e a claraboia tornava-se inútil, enxergar qualquer coisa tornava-se impossível.
 
Tateou as longas mesas, o alto das prateleiras. Nada. Agachou-se e passou a engatinhar para não topar nos móveis ou tropeçar nos desníveis do assoalho. Chegou até outra parede e encontrou uma tomada.
 
Ali certamente haveria um interruptor.
 
Apoiou-se nos tijolos e tentou levantar-se… mas já não podia mais. Por mais que tentasse, já não se equilibrava sobre os pés. Manteve-se no chão e esticou o braço o mais alto que pôde, mas não foi o suficiente. Logo ele, que sempre alcançou tudo que quis, agora se limitava a poucos centímetros de altura.
 
Se ao menos tivesse uma lanterna…
 
Moveu-se até um grande móvel, abriu a porta do armário que estava à sua altura e deparou-se com um baú de madeira e ferro. Tentou abri-lo, mas não tinha forças. Apalpou seus próprios braços com estranhamento: era possível que estivessem encolhendo?
 
Não tinha tempo para pensar naquilo. Precisava correr. Arrastou-se como pôde e puxou as gavetas que alcançava, uma após a outra. Como podiam parecer tão altas tão de repente? Uma delas caiu sobre ele, espalhando seu conteúdo pelo chão. Papéis e mais papéis… De que adiantavam os papéis se não enxergava as letras? Continuou tateando o solo até que sentiu algo que enfim lhe poderia ser útil.
 
Uma vela.
 
Precisava apenas de um fósforo para acendê-la e encontrar o que tanto buscava. Mas o que era mesmo que buscava? Seus pensamentos estavam confusos. Estava tão pequeno que qualquer um que entrasse ali – talvez até buscando o mesmo que ele – poderia pisá-lo e destruí-lo sem sequer perceber.
 
Uma dor nas costas começava a se alastrar desde a nuca até a lombar. Já não se reconhecia mais, e sentia-se feio. Enfiou-se debaixo de um gaveteiro na esperança de encontrar um fósforo, mas já tinha dúvidas se seria capaz de riscá-lo e acender a vela. Encontrou o nada.
 
Tentou seguir em frente. A essa altura queria apenas sair daquele lugar, mas percebeu que suas costas estavam presas sob a madeira áspera do móvel. Num esforço hercúleo, empurrou seu corpo diminuto para fora dali e só então percebeu as asas que se abriam atrás de seu corpo. Tentou movimentá-las, mas uma nova dor tomou conta de seu já irreconhecível corpo, dessa vez no abdômen. Olhou para baixo e notou um ponto brilhante, depois outro, e mais um, até que quase metade de seu corpo estivesse brilhando. Um verde forte, fluorescente.
 
Era um vaga-lume. 
 
E então deu dois passos e voou para fora do galpão pela fresta de um vidro quebrado, deixando atrás de si um rastro de luz.
 

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cinema, Cotidiano

Conectados

“Esqueceram de Mim” foi o primeiro filme que vi no cinema. A extinta sala 3 do cinema da Paris Filmes do Shopping Ibirapuera tinha pouco mais de 100 lugares — provavelmente uma das menores da cidade, mas eu não sabia disso. Muito menos sabia que 15 anos depois trabalharia naquela empresa que por tanto tempo estampou os ingressos dos filmes que vi na adolescência.

A sala estava lotada, e alguém sentou na poltrona à minha frente, bloqueando parte da minha visão. Migrei para a poltrona ao lado, dividindo o espaço com uma amiga. Do mesmo assento, assistimos fascinados às aventuras de Kevin McCallister, interpretado por aquele ator que não sabíamos o nome.

Era 1991 e, para um garoto de sete anos de idade, qualquer assunto que não estivesse nos livros da escola, na Barsa (onde?!) ou em alguma revista era completamente inacessível — incluindo o nome do ator que interpretava Kevin McCallister em “Esqueceram de Mim”.

Um ano inteiro se passou até que uma reportagem da revista Veja enfim revelou o grande mistério. 

Disquei do telefone vermelho para o 571-6291 e minha colega de poltrona atendeu.

— Descobri o nome dele! Adivinha! Começa com M!

O mundo mudaria muito nas décadas seguintes, conectando pessoas e espalhando informações de forma inimaginável. Levei 20 minutos para encontrar a reportagem da foto, e pareceu uma eternidade. Hoje basta um clique — literalmente — para saber que Macaulay Culkin é fã de luta livre e World of Warcraft, mede um metro e setenta e divorciou-se após dois anos de casado.

Liv Tyler da capa do meu fichário hoje está no meu Instagram, onde descobri que seus filhos estão grandes demais para pijamas de bichinhos, e onde posso acompanhá-la enquanto anda a cavalo com a família. É possível até mesmo alfinetar um presidente e receber a resposta por Twitter minutos depois.

Aqueles que até recentemente estavam tão distantes de nós agora parecem estar aqui do lado, suas vidas conectadas às nossas, nossos celulares notificados a cada passo. Mas quanto dessa conexão é real?

Há alguns anos gravei a narração para o teaser de um longa-metragem em desenvolvimento nos EUA. O produtor/editor me conheceu pessoalmente alguns meses depois.

— Cara, parece que eu te conheço há séculos, de tanto que eu já ouvi sua voz! — disse ele no primeiro aperto de mãos.

Sinto que conheço profundamente o apresentador e os convidados de um programa semanal  — “Conectados”, vejam só — que legendo há mais de um ano para uma companhia aérea. Até que nos cruzamos pelos corredores e me dou conta de que nem sabem que eu existo. Por que saberiam?

Como roteirista de vídeos corporativos, já perdi a conta de quantas vezes escrevi a frase: “O mundo está cada vez mais conectado”.

Agora só falta dizer: conectado com o quê?


Outro dia fui ao cinema com a mesma amiga — cada um em sua poltrona. Não conseguia lembrar que outro filme o ator do trailer tinha feito. Puxei o celular, abri o IMDb e conferi toda sua filmografia. Depois coloquei o aparelho no modo avião para me desconectar do mundo e enchi a mão de pipoca, aguardando o filme começar. 

Foto: Revista Veja, 15 de janeiro de 1992.

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Boyhood

Quando eu era pequeno, um dos grandes ritos de passagem era poder ir sozinho à lojinha de presentes e guloseimas que ficava literalmente a uma quadra do prédio onde eu morava. A infância era dividida entre poder/não poder ir sozinho até a Rosinha: uma distância que podia ser integralmente vigiada por pais atentos da janela da cozinha.

Fui uma criança de prédio. Brincava de pega-pega, alerta e esconde-esconde, que incluía as variações vale/não vale passar pela janelinha. Quebrei vidro, esfolei o joelho, brinquei na quadra até as luzes apagarem e alguém gritar do terraço que era hora de subir.

Outro dia tentei lembrar quando foi a última vez que brinquei de esconde-esconde. Não consegui. Em algum momento cresci, deixei de passar pela janelinha e, sem perceber, o “mãe, posso descer?” virou “mãe, tô saindo.”

A Rosinha fechou. Veio a fase do “não volta tarde”, do “não bebe muito”, do “avisa quando chegar”.

Tirei carta. Dei ré com meu Uno Mille numa Mitsubishi Station Wagon na frente de casa. “Pai, bati o carro.”

Fui morar fora. Fui morar sozinho.

E então os papéis se inverteram.

Isso ficou mais claro do que nunca quando decidi presentear minha mãe e minha tia (que somam 140 anos de idade) com ingressos para o show de um cantor italiano. Como um pai caridoso que vai atrás da meia-entrada para o filho adolescente, me vi em meio a uma odisseia que envolveu duas idas ao local do evento, um sistema fora do ar e clientes de meia-idade revoltados com o descaso.

— Mas que inferno isso! Vou processar todo mundo! — esbravejava um.

— Escuta, mas a gente não saiu de casa pra se divertir? — rebatia a esposa, tentando salvar o programa, fadado a falhar antes mesmo de começar.

No mesmo guichê, um pai comprava um ingresso de um show de rock para a filha.

— Ih, só tem lugar lá em cima. Paciência, vai esse mesmo. E ai dela se reclamar! Ainda vou ter que vir buscá-la depois do show — confidenciou ele ao senhor que ia processar todo mundo.

Horas depois, saio com um par de ingressos na mão e uma série de preocupações na cabeça. Se eu for levar, como vão voltar? Posso ficar no shopping esperando… Ah, elas voltam de táxi. Será que é perigoso? Elas não têm aplicativo… Ah, mas na porta sempre tem táxi. E se eu voltar pra buscar depois? Qualquer coisa tem minha prima. O que é Uber? Põe o cinto. Carrega o celular, hein? Liga quando chegar.

Sobreviveram. Radiantes.

Curioso pensar como o jogo vira, como o sol muda de lado. Não importa se você foi um grande líder, um grande executivo ou um grande boçal: se você tiver sorte — e esta é a grande ironia — se você tiver sorte, vai viver o suficiente para tomar um banho de humildade e perceber que você invariavelmente precisa do outro.

Hoje você dá conselhos, amanhã recebe. Hoje você cuida, amanhã é cuidado. Hoje você pode estar no alto da roda gigante, mas amanhã — se tiver sorte — ainda vai estar nela para apreciar a beleza da descida.


Outro dia cheguei à casa dos meus pais e vi uma carta da prefeitura sobre a mesa.

— Seu pai levou outra multa, mas não dá bronca nele — disse minha mãe, enquanto tricotava.

Ele desceu as escadas, veio até mim, cauteloso.

— Viu, eu tomei uma multa porque eu tava sem cinto, mas já aprendi a lição. Não faço mais, tá bom?

E foi para a cozinha.

Foto: The King Photography

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