cinema

Academy Award Nominee, Tom Rickman

Desde pequeno, sempre tive grande apreço por professores: pessoas que dedicam a vida a ensinar o que sabem ao outro e que, muitas vezes, não são valorizados como deveriam. 

É verdade que tal pensamento não foi exatamente um instigador de popularidade durante o Ensino Fundamental, mas felizmente tal apreço passou a pegar bem na vida adulta e me fez estar sempre atento àqueles que dedicavam seu tempo a me tornar uma pessoa melhor, seja qual fosse o âmbito.
 
Professores picaretas abundam, é verdade, e quando falamos em professores de roteiro — ou de arte em geral — não me espantaria se o índice bom/picareta tendesse a zero. Ainda assim, em mais de dez anos de estudos, tive a sorte de passar ileso pela picaretagem e ter sido mentorado por professores que, cada um à sua maneira, me tornaram um escritor melhor, entre eles, Tom Rickman. 
 
Tom tinha a capacidade de enxergar as gemas nos roteiros dos alunos e trazê-las para a superfície; sabia lapidá-las e devolvê-las como se fôssemos nós os responsáveis por tudo aquilo. Sabia também exigir o máximo de nós a cada encontro. “Hoje eu acordei às 3h30 da manhã, li as páginas de vocês, escrevi um pouco, fiz exercício, tomei café da manhã e vim pra cá. E eu tenho câncer. Qual a sua desculpa?” — disse ele, com uma gentileza inexplicável, a uma aluna que não havia trazido suas páginas.
 
— Você já foi indicado ao Oscar, não foi, Tom? — perguntei um dia. Ele deu um sorriso tímido. — Sim, por quê? — Pedi, então, que contasse como aquilo havia afetado sua carreira.
 
— No ano em que eu fui indicado, adiaram a data da cerimônia pro dia seguinte porque tentaram matar o Ronald Reagan. Eu lembro que eu pensei: “mas que droga, bem no meu Oscar!” Nós rimos e ele continuou: — Logo depois surgiram várias propostas de trabalho, mas o tempo vai passando, vem uma nova geração e ninguém mais se lembra de você, se você foi indicado, se você ganhou. Eu deixo as pessoas se confundirem, mesmo…
 
Uma vez saímos para tomar café e falar sobre o meu roteiro — e sobre a vida. Foi ali que ele me disse algo que transformaria para sempre minha maneira de ver a profissão: — Se tiver uma única cena no filme que está exatamente como eu escrevi, eu já fico feliz. O meu prazer está em escrever, em criar a história, os personagens, não em ver o filme pronto. Eu nem gosto de ver os meus filmes… 
 
Alguns meses depois Tom teve de ser internado. Fomos visitá-lo e descobrimos que Elizabeth Taylor estava internada no quarto ao lado. “Who cares?! I’m here to see Academy Award Nominee, Tom Rickman!”, brincou meu amigo. Liz Taylor jamais sairia daquele hospital; Tom Rickman ainda impactaria a vida de muitos por mais sete anos antes de partir.
 
Tom certamente não ficou conhecido como Liz. Muitos sequer ouviram seu nome. Já não tenho como saber o que ele pensava sobre isso, se no fundo sonhava ser reconhecido na rua, receber prêmios, fazer mais filmes do que fez, ou se não estava nem aí pra isso. Como escritor, imagino que parte de suas aspirações envolvia conectar-se com os outros através das suas palavras, dizer algo às pessoas, inspirá-las, instigá-las; tornar o mundo um pouco melhor através da arte. 
 
Eu espero que ele saiba que conseguiu. 

Foto: Tom Rickman (08/02/40 – 03/09/18) por Getty Images

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Os amadores

Na semana passada estive pela segunda vez na vida em um festival de cinema
A primeira vez havia sido cinco meses antes, na primeira edição do mesmo festival. 
Em meio aos altamente capacitados membros da equipe – com passagens pelos festivais de Cannes, Berlim, Veneza e afins – tive uma súbita sensação, comum (creio) entre aqueles ligados a alguma atividade artística.
Não foi a sensação de “sou o centro do mundo…”
Também não foi a sensação de “o universo é melhor porque eu existo…” 
Nem a de “como ninguém viu o quão brilhante eu sou?”
Foi a sensação de que não sei nada.
Neste ano tive a honra de ser convidado para ensinar algo que ainda nem bem sei se sei: escrever. Tom Rickman, uma das mentes mais geniais que tive a chance de conhecer, confessou-me certa vez que preferia ensinar algo mais concreto… como história da arte.
(Você percebe que roteiro é algo abstrato quando história da arte vira algo concreto em comparação.)
Ansioso a ponto de gesticular enquanto penso, e assombrado pelas palavras de Frank Pierson – “Não se aprende a escrever roteiros. É preciso reaprender a escrever a cada roteiro.” – passei semanas preparando o material a ser utilizado nos supostos dois ou três dias de curso. Soterrado em apostilas, livros e DVDs, tentei condensar em algumas páginas tudo aquilo que poderia ser relevante àqueles interessados em ingressar no controverso mundo da escrita audiovisual.
(Você percebe que roteiro é algo concreto quando vê o número de publicações técnicas sobre o assunto.)
Eu sabia que só estaria satisfeito com a perfeição. Os trechos dos filmes tinham de ser extraídos com a minutagem exata; os ítens relevantes tinham de estar na ordem correta, a bibliografia tinha de ser citada de acordo com os padrões internacionais, o espaçamento do texto tinha de ser o mais agradável aos olhos. E eu tinha de fazer a barba antes de viajar.
Aí fiquei de cama por dois dias e tive de me adaptar ao imperfeito.
A oficina teve de ser alterada por motivos técnicos; os três dias viraram um, e semanas de preparo e tensão se dissiparam em quatro horas. Foi tudo diferente do que eu esperava.
Mas quem disse que não era pra ser assim?
Os dias seguintes foram de imersão total no mundo do cinema: filmes, palestras, encontros, reencontros; muita conversa e pouco sono. E de novo a sensação de que não sei nada.
É tanto livro que não li filme que não vi música que não ouvi peça a que não assisti pintor que não conheci para!
Como é possível manter-se atualizado (e são) em um universo onde a cada mês, a cada semana, a cada dia, novas obras surgem? Onde uma interminável prateleira de livros imperdíveis e filmes clássicos espera para ser devorada? Como querer que minha mente ansiosa relaxe sabendo que há tanto que não sei, que há tanto a fazer e que ainda nem passei fio dental?
Respirei.
Lembrei-me de um dos palestrantes, que parafraseou Samuel Beckett: “Erre. Erre mais. Erre melhor.”
Ao agradecer a equipe do festival por todo esforço, nosso directeur général referiu-se a nós como amadores, querendo na verdade dizer “aqueles que amam”. Rimos discretamente desse pequeno equívoco, mas os equivocados éramos nós. Ele tinha razão.
Somos todos amadores: amamos o que fazemos e não sabemos de nada.
E quem disse que não é pra ser assim?
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