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No pain, no gain

Hoje faz seis semanas que uma dor de cabeça me acompanha. É uma dorzinha leve que começa na nuca, passa pelas têmporas e se encerra no rosto.
Enquanto passeio por médicos e faço exames para saber o que acontece, começo a lembrar de todas as dores que já senti.
A primeira vez que me lembro claramente de ter sentido dor foi aos cinco anos de idade. Estávamos em uma viagem de família na casa de uma prima, prestes a seguir para outra cidade. As malas prontas, janelas sendo fechadas. Eu aguardava no topo da escada. Minha irmã tentava fechar a porta do quarto, mas não conseguia. Ela fazia força, mas a porta não fechava. “Tem alguma coisa prendendo a porta!”
Era a minha mão.
Esmagada ao lado das dobradiças, entre a porta e o batente, minha mão impedia que a porta se fechasse. Minha irmã, de costas, não me via. Eu, em choque, não gritava. Não me lembro muito do que aconteceu depois. Lembro que eu chorava, lembro que minha mãe acariciava minha mão no táxi. Mas não me lembro da dor em si.
Alguns anos depois, correndo pelo playground do prédio, senti que tinha pisado em algo estranho. Chovia, e a água lavou o pouco de sangue que saiu da ferida. Dias depois descobri que tinha um caco de vidro alojado no pé. Tentamos a farmácia, mas um mero toque já me fazia tremer de dor. Ficou claro que eu iria precisar de anestesia. Fomos ao pediatra. “Só uma picadinha e você não vai sentir mais nada”.
Dessa dor eu me lembro muito bem.
Lembro como eu esmagava a mão da minha mãe, que devia estar em tanta dor quanto eu. Lembro também da cara das crianças da sala de espera, depois de ouvirem meu grito.
Conforme fui ficando mais velho, as dores físicas foram ficando mais comuns. Teve a luxação no braço jogando bola, teve a pedra no rim. E, talvez por isso, meu corpo tenha criado seu próprio mecanismo de defesa: o ataque de riso.
É chegar perto de uma agulha ou começar a sentir uma dor mais forte, pronto: não consigo controlar a risada. Se estou tirando sangue, a enfermeira pergunta, entretida: “Tá tudo bem?” Certa vez em uma cirurgia para a retirada de um nevo nas costas, a dermatologista ria comigo: “Se você não parar de rir eu não consigo cortar!”
Com a idade, começaram a vir também as outras dores. Aquelas que não são físicas. Aquelas que, nem de longe, provocam ataques de riso.
Tem a dor da saudade. Do prédio que você já não mora mais, da escola que foi demolida, dos lugares que você já não visita, da rotina que você gostava e já não existe mais. E principalmente das pessoas. Daqueles amigos que eram parte tão íntima da sua vida e que ficaram pra trás; daqueles que ficaram longe. Mas essa dor é mais doce, deixa um gosto bom.  É uma dor de “ah, que pena que acabou!” e pra essas não tem melhor remédio do que o tempo.
Tem a dor da espera. Do resultado de uma prova, de um exame. Lembro o dia da divulgação da lista de aprovados no vestibular. Eu sentado no computador, ouvindo dezessete vezes a mesma música, atualizando a página do UOL de 3 em 3 segundos. A espera também pode ser por uma pessoa que não chega, que não liga, que não manda mensagem. Quantas vezes ainda não ficaria grudado ao telefone, checando a tela a cada piscada? Mas essa dor, como um sabor muito salgado que é eliminado com um simples copo d´água, pode passar em menos de um segundo, com o resultado que sai, a pessoa que chega, o telefone que toca.
Tem a dor do arrependimento. Essa é azeda, vai corroendo por dentro. Faz você viver e reviver aquele dia, aquela atitude, calculando tudo que poderia ter feito diferente. Mas essa não tem muito remédio: é aceitar que o que passou, passou, o que está feito, está feito e que nenhum exercício de ficção ou universo paralelo vai alterar o que já ficou pra trás.
E tem a dor da traição. Não só dessas que tem amante no meio. Traição dessas que você se sente enganado, seja qual for a situação; dessas que destroem suas expectativas, que tiram sarro de tudo aquilo em que você acreditava, como um adolescente cruel que ri de uma criança que ainda acredita em Papai Noel. É aquela dor que te deixa revoltado com o outro, consigo, com o mundo; que te faz querer deitar na cama, abraçar o cachorro e não sair mais de lá. E você nem tem um cachorro. Essa dor é a mais amarga. Deixa um gosto difícil de eliminar. E pra ela só tem um remédio: o perdão.
Para essas dores, o meu analgésico paliativo são as comédias, que provocam aqueles ataques de riso que meu corpo ainda não aprendeu a conceder. E não é que até as comédias precisam de momentos sem risos para valorizar a piada?
Como muitas das coisas que queremos evitar, as dores têm uma função importante: fazem a gente crescer. Elas mostram como a gente é forte; como a gente sempre consegue começar de novo. Mostram uma capacidade de superação que a gente não imaginava ter.
E, acima de tudo, mostram como é importante valorizar os momentos sem dor.
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Minha vida como Walter Mitty

Outro dia decidi desbloquear meu aparelho de celular. Desde que voltei dos EUA, há mais de dois anos, meu Motorola i465 estava guardado na gaveta com todos os apetrechos que funcionavam perfeitamente: carregador de parede, de carro, cabo de dados, fone de ouvido etc.

Decidi que era hora de ele voltar a viver e levei-o a uma assistência técnica.

– Olá, vocês por acaso conseguem desbloquear este aparelho pra que ele funcione no Brasil?

Simpática, Janaína disse que precisaria fazer alguns testes e me daria um retorno no dia seguinte. Comprei uma capinha para o meu iPhone e parti.

No dia seguinte, ela me retorna:

– Conseguimos sim. Vai ficar 95 reais.

Hesitei. Não precisava daquele aparelho para nada, mas sentia que ele precisava existir e exercer sua função de conectar pessoas. Quantas mensagem já não haviam sido trocadas nele! Quantas ligações, quantos almoços combinados, cinemas agendados… Não poderia privá-lo de tantas outras aventuras que ele ainda poderia vivenciar. Aceitei.
Na semana seguinte, Janaína me recebe com o aparelho em mãos. Ela testa um chip da Oi. Não funciona.

– É, então, ele só funciona como Nextel, mesmo.
– Oi?
– Esse aparelho é só Nextel – diz ela, segura.
– Não, não é. Eu sempre usei como um aparelho normal.

Surge Gustavo, o irmão/colega/chefe/namorado/cara-que-resolve-pepino.

– Olá. Qual é a situação?
– Eu deixei esse celular pra desbloquear, mas ninguém me avisou que só seria desbloqueado para Nextel.
– Bom, mas isso era óbvio.
– Oi?
– Esse aparelho é um Nextel, não é um celular.
– Ah, não? E como é que eu usava como celular comum?
– Mas aqui no Brasil é só Nextel.
– E vocês não pensaram em me dar essa informação quando eu deixei o celular aqui e perguntei: “Dá pra desbloquear?”
– Mas isso era óbvio.

Notei que a argumentação não iria muito longe. Frustrado, decidi tentar um acordo quanto ao valor.

– Vocês me dão um desconto, já que o serviço foi incompleto, e ficamos todos felizes.

Mas isso, é claro, não era óbvio pra eles. Vencidos pelo cansaço, consegui o desconto e parti, resignado à situação.
No dia seguinte, levo o aparelho a um amigo. Ele insere seu chip Nextel. Não funciona. Tento outro chip. Nada. É óbvio…

Nesse momento, como Ben Stiller em A Vida Secreta de Walter Mitty, uma realidade paralela forma-se na minha frente. 
Me imaginei voltando à loja, revoltado, onde Janaína e Gustavo ririam da minha cara, recusando-se a refazer o serviço, dizendo: “Você deveria ter testando um chip Nextel antes de sair da loja. É óbvio.” Me imaginei roubando as capinhas de celular penduradas na parede e saindo da loja vingado. Eles viriam atrás, mas já seria tarde – meu carro já estaria disparando rua abaixo. Pelo retrovisor, eu os veria gritando revoltados enquanto eu sorriria. Na esquina seguinte, um reviravolta: policiais me alcançariam e me trariam de volta. Janaína e Gustavo me acusariam de tê-los roubado. Eu me faria de ofendido e mostraria o comprovante de débito do cartão, provando que havia pago pelas capinhas – que venderia em segredo e recuperaria o valor perdido e um pouco mais. Indignados, os pombinhos refutariam inflamados que aquele valor se referia ao desbloqueio. “É óbvio!” Nesse momento, eu sacaria o celular triunfante e mostraria ao policial: “Que desbloqueio? Meu celular está bloqueado! Não sei do que eles estão falando!” Os policiais sairiam da loja – não sem antes ralhar com o casal – e me pediriam desculpas. Eu daria um sorriso triunfante e partiria de carro, com o porta-luvas recheado de capinhas de celular.

Mas a vida às vezes é anticlimática e faz com que Gustavo peça desculpas pelo ocorrido e devolva o celular devidamente desbloqueado dias depois.

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A beleza das coisas

Há algumas semanas, após nove temporadas, a série americana “The Office” chegou ao fim.

E daí?

De fato, isso faz pouquíssima diferença na vida da vasta maioria da população humana, mas para este ponto insignificante do universo – eu – isso teve, sim, uma considerável relevância.

Explico.

Comecei a assistir a “The Office” em meados de 2009, quatro anos depois de sua estreia. Cheguei atrasado à festa. Ainda assim, logo estava enturmado e me divertindo com todos os outros.

Quem me apresentou à série foi Logan, meu colega do AFI – o mesmo que se tornaria meu melhor amigo. Não recordo bem como, mas sei que de repente tinha em mãos seus DVDs, com todas as primeiras temporadas.

Foi numa segunda-feira qualquer de setembro, deitado na cama, “The Office” na tela do laptop, que me dei conta de como estava fascinado com as pequenas coisas do meu novo dia-a-dia na ainda desconhecida cidade de Los Angeles. Olhei pra trás e percebi que o dia não havia me trazido nada de extraordinário: aula, supermercado, lavanderia, talvez um almoço com os amigos, e uma noite tranquila com Michael, Pam, Jim, Dwight e companhia.

Ali me dei conta pela primeira vez de que não precisava de muito.

Em dezembro, voltei de férias ao Brasil e “The Office” veio comigo no avião. Aquela viagem pela qual eu esperava tanto durante as primeiras semanas nos EUA já não se fazia tão necessária agora que até lavar a roupa parecia especial.

Angela, Kelly, TobyCreed me fizeram companhia naquelas semanas no Brasil; me lembravam da boa rotina que me aguardava no retorno aos EUA.

Seis meses depois, Logan e eu já éramos roommates. Assim como a daqueles personagens, minha rotina também mudava com a constante entrada e saída de novas figuras.

Assistir à “The Office” servidos de pizza, pipoca, taquitos ou qualquer que fosse o menu da noite – e com Lebowski latindo aos carros na rua – passou a ser rotineiro na nossa semana. Também passaram a ser rotineiros os jogos de tênis aos domingos, filmes no multiplex ao lado nas noites livres, comida japonesa entre uma aula e outra.

Em 2011, assim como Steve Carell, me despedi daqueles que tinham sido personagens importantes do meu dia-a-dia, da minha história. Voltei ao Brasil e algum tempo se passou até que conseguisse criar uma nova rotina e voltar a acompanhar o dia-a-dia de Oscar, Andy, ErinPhyllis – agora do meu antigo quarto, já sem pizzas do Papa John’s ou Lebowski correndo aos meus pés.

Mais um ano – e uma temporada – se passaram até que fui morar sozinho. Aos poucos, fui recuperando o fascínio daquela segunda-feira de setembro, em que cozinhar e limpar a casa transformaram-se em exemplo da mais pura felicidade.

Aí veio o último episódio de “The Office”. Era hora de vê-los na tela de forma inédita pela última vez. Não eram apenas personagens de um vídeo de YouTube, que eu conhecera três minutos antes, ou mesmo de um filme, apresentados cem minutos atrás: eram personagens que eu havia acompanhado por quatro anos, que haviam marcado momentos incríveis do meu dia-a-dia; personagens que tinham seus dias documentados como se fossem os mais importantes de suas vidas; personagens criados por pessoas que, assim como eu, um dia tiveram o sonho de dar vida a criaturas que só existiam em suas mentes.

Ao final do episódio, Pam se pergunta: Por que alguém escolheria uma empresa de papelabsolutamente comum para ser o tema de um documentário?

Era como se me perguntasse: Por que alguém escolheria as atividades mais comuns do dia-a-dia como o ponto alto de uma viagem, de uma época, de uma vida?

Na última frase de toda série, ela mesma dá a resposta:

“Existe muita beleza nas coisas mundanas. Não é mais ou menos esse o ponto?”


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Ensaio sobre a surdez

Outro dia, ouvindo um dos episódios do programa de rádio This American Life, conheci a trágica história de um médico adorado por seus pacientes que estrangulou o próprio pai.
A história é longa e complexa, mas um elemento importante é que o médico, já na cadeia, alegando problemas neurológicos, pedia insistentemente por 80 miligramas de um medicamento chamado Celexa. Anos se passaram até que ele fosse corretamente diagnosticado. 

A medicação recomendada? 80 miligramas de Celexa.
Uma das perguntas que o programa levanta é: por que ninguém o ouvia?
Em situações menos drásticas, o mesmo acontece. Você está no McDonald’s e pede um McChicken com suco de maracujá. A atendente replica:
– Qual a bebida?
– Suco de maracujá.
Ela fala o valor.
– Aceita ticket?
– Sim.
Você entrega o cartão.
– Crédito ou débito?
– É ticket.
No Cinemark, a mesma coisa. Você pede uma pipoca média com manteiga.
– Qual o tamanho?
– Média
Ela pega o saquinho.
– Manteiga?
– Sim.
Na hora de pagar você entrega o cartão.
– Crédito, por favor.
Ela apanha o cartão.
– Débito, né?
Outro dia fui ao Banco do Brasil com o médico que me vendeu seu carro. Ele precisava pagar o IPVA. Tentou no autoatendimento. Não conseguiu. Quis pegar uma senha para pagar no caixa. O funcionário implicou.
– Você precisa pegar a guia aqui no autoatendimento primeiro.
– Não dá. O carro é do Distrito Federal, preciso pagar direto no caixa.
O funcionário insiste. Ele volta ao autoatendimento. Em vão.
– É, realmente, não dá.
– Posso tentar no caixa? Eu já paguei lá um vez, tenho certeza que dá.
– Pode, mas você vai perder seu tempo, não vai conseguir.
Conseguiu.
Um mês depois, é minha vez de pagar o licenciamento do mesmo carro, no mesmo banco. Consigo chegar ao caixa sem obstáculos. Entrego o documento do veículo ao atendente.
– Bom dia, preciso pagar o licenciamento.
– Você precisa pegar a guia no autoatendimento primeiro.
– Então, na verdade, como esse carro é do Distrito Federal, é diferente. Eu sei que preciso pagar direto no caixa.
– Olha, deixa eu te explicar uma coisa: não importa o que você me disser, você não vai conseguir pagar o licenciamento sem passar no autoatendimento antes.
A atendente ao lado interfere.
– Ah, não, peraí. Quando é do Distrito Federal é diferente.
Ela aperta algumas teclas no teclado dele.
– Tem que colocar esse código.
Ele sorri sem graça para mim.
– Ah, é uma exceção, né? É que a gente já tá tão acostumado com o outro jeito…
Exato. Por isso, bastava ter ouvido.
Semanas depois, no Detran, ninguém sabe me informar, claramente, que taxas pagar. Até que uma supervisora me avisa:
– Pague a taxa como carro novo, não como carro usado. Se você pagar errado, a burocracia pra receber o reembolso é grande.
Não me convenci. Olhei na internet e vi uma informação diferente. Paguei diferente.
Resultado? Até hoje tento receber o reembolso da taxa.
Bastava ter ouvido.
Não é à toa que um dos lemas do programa social com o qual sempre estive envolvido é: “Toda criança merece ser ouvida.” Encontrar alguém que de fato ouça o que você está dizendo – e não esteja apenas esperando sua vez de falar – é cada vez mais difícil.
Com a velocidade que a informação viaja hoje em dia, a ilusão de que estamos nos comunicando é grande. Facebook, Twitter, Blog, SMS, comentários em notícias da internet: falar é fácil, mas será que alguém está ouvindo?

A julgar pela conversa entre minha irmã e minha sobrinha de 7 anos, ainda há esperanças:
– Mami, hoje eu tenho lição de casa, mas não preciso fazer.
– Por que não?
– A lição é treinar ficar quietinho enquanto o outro fala.

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E.R. – Segunda temporada

Outro dia tive que fazer uma ressonância.
Não sou do tipo que tem problemas para ir ao médico, fazer exames ou ir a hospitais. Sempre concordei com uma amiga que diz: “hospital é onde você vai pra se curar”. Com esse espírito, cheguei ao laboratório preparado para entrar no tubo barulhento e descobrir o que é que faz minha coluna doer.
Na recepção, respondo a perguntas do tipo: “Você já levou um tiro?”, “Tem algum projétil alocado no corpo?”, “Você usa prótese peniana?”. Assinalo “ainda não” em todas as perguntas, descrevo os remédios que estou tomando e sigo para a sala de exames. A enfermeira olha a minha ficha:
– Dor na coluna, né? Já tá tomando antiinflamório…
– Não, não. – interrompo.
– Ué, tá aqui: minoxidil.
– Minoxidil é um remédio pra queda de cabelo.
– Ah… Bom, pode deixar suas roupas ali no armário e se trocar naquela sala.
De camisolinha e bunda de fora, volto para a sala de exames. Ela pede para que eu me deite e aguarde. Minutos depois, ouço alguém vomitando nas proximidades. A enfermeira tenta uma conversa:
– Você tá bem? Fala comigo. O que o senhor tá sentindo?
[grunhidos]
A enfermeira volta para a sala onde estou, prepara uma seringa e sai novamente. A pergunta se repete. O grunhido se repete. Ela volta para preparar mais uma seringa.
– Vem cá, eu vou ter que tomar contraste? – pergunto.
– Ah, não… Mas isso não é por causa do contraste. É que ele tá em jejum.
Ela parte. 
“Mas eu também estou de jejum, porque me MANDARAM estar em jejum” – penso.
Antes de sair, ela solta um animador:
– Pode relaxar porque ainda vai demorar um pouquinho…
Uma médica passa pela minha sala.
– Você está em jejum?
– Sim.
– Há quanto tempo?
– Umas seis horas.
– Seis!?
Ela parte, chocada. Ouço-a comentar com outro enfermeiro:
– Leva umas bolachinhas pro outro paciente que ela tá há seis horas sem comer.
O enfermeiro entra com um Toddyinho e uma bolacha de água e sal.
– Mas eu não tinha que estar em jejum?
– Só se for tomar contraste, mas você não precisa.
E não podiam ter avisado antes?
O paciente moribundo é trazido para a sala ao lado. A médica insiste:
– Antonio, fala comigo. Como você tá se sentindo? Tá melhorando?
[grunhidos]
– Não tô entendendo. O enjoo passou, Antonio?
– Marcos…
– Hein?
– Meu nome é Marcos…
– Ah, perdão. Tá melhor, Marcos?
– Não consigo respirar…
A enfermeira decide, enfim, chamar uma ambulância:
– Boa noite. Temos um paciente aqui que fez uma ressonância e está passando mal. Parece ter febre, sudorese fria, dificuldade para respirar… Idade? 70. Não, espera! Ah, ele nasceu em 70… Ele tem 33. Não! 43.
Com a ambulância a caminho, o enfermeiro volta à minha sala.
– Só vou terminar de limpar o aparelho e já te levo.
Ele sai e conversa com a médica.
– Já vou levando ele lá e posicionando no aparelho, tá?
– Mas você sabe o que tem que fazer?
– Ué, não é só empurrar a maca?
A essa altura, toda minha tranquilidade já foi pro espaço e a confiança no serviço médico foi substituída pela certeza da morte iminente.
O enfermeiro volta.
– Vamos lá?
Será que eu preciso mesmo saber porque minhas costas doem?
– Me diz uma coisa, quanto tempo demora o exame?
– Uns 40 minutos.
– Quarenta!?
– É que são dois exames, né?
Resignado, sou levado para a sala recém-higienizada. Ele coloca a maca na posição, me indica o botão do pânico e, em poucos segundos, estou dentro de um tubo que passa a 20 centímetros da minha cara.
– Então se eu entrar em pânico é só apertar aqui?
Ele já foi.
Entro em pânico. Aperto o botão freneticamente. A voz dele surge pelo auto-falante da máquina.
– Tá tudo bem?
– Tá. Só queria ver se isso aqui tava funcionando.
– Ah, OK. Vamos começar.
O barulho ensurdecedor começa. Minutos depois, uma voz robótica sai da máquina: “Não engula”.
Era o mesmo que dizer “não pense num elefante”.
Cerca de meia hora depois, a tortura termina. Sobrevivo. Visto a roupa e pergunto à enfermeira sobre o tal do Marcos:
– Ele vai ficar bem?
– Acho que sim…
Saio do laboratório e pego um táxi, ansioso por um pouco de silêncio e uma noite tranquila. O taxista sorri:
– Tudo bem se eu ligar a TV no Cidade Alerta?

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Assim caminha a humanidade

Logo que cheguei ao AFI, em Los Angeles, Carl Smith, o responsável pelos estudantes estrangeiros, mencionou que não havia outros brasileiros na turma – nem na minha, nem na anterior – mas disse que um brasileiro havia se formado dois anos antes na disciplina de produção.

Conheci Daniel algumas semanas depois. De passagem pelo campus, Daniel me contou que já morava em Los Angeles havia algum tempo e que sua vida era lá – não pretendia voltar ao Brasil tão cedo. Conversamos brevemente sobre os projetos que ele, como todo bom produtor, tentava a todo custo tirar do papel, sem saber onde aquilo tudo iria dar.

Antes de nos despedirmos, recomendou que eu assistisse a “District 9” no Chinese Theater. “O filme é excelente e é uma ótima chance de você conhecer o Chinese Theater. A gente que mora aqui vai deixando tudo pra depois e acaba não indo”.

Daniel estava duplamente correto: o filme era excelente e foi indicado a 4 Oscars no ano seguinte. E eu fui deixando pra depois e jamais cheguei a ver um filme no Chinese Theater.

Mais de três anos depois, já de volta ao Brasil, fui convidado por meu produtor a assistir ao filme de abertura da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Acabei sentando ao lado de uma colega que não via há nove anos, mas as coincidências não parariam por ali: feitas as apresentações iniciais da Diretora da Mostra, do Prefeito e da Ministra da Cultura, uma voz conhecida subiu ao palco. 

“Eu conheço esse cara! Ele estudou no AFI!”, comentei animado com meu produtor, enquanto Daniel apresentava seu filme a uma plateia de mais de 700 pessoas que se divertiam com seus comentários bem-humorados sobre o diretor e o ator principal, que não puderam estar presentes, e sobre como um brasileiro virou o produtor de um filme chileno.

Na festa que seguiu a sessão, Daniel era a figura mais cobiçada do evento, mas tive a chance de parabenizá-lo brevemente pelo filme. “Eu conheço você,” foi a vez dele dizer, “mas não lembro de onde!” “Do AFI,” respondi.

Perguntei a ele como havia chegado até ali. Ele disse que sua experiência havia sido incrível. Que com muito trabalho o filme havia saído do papel, chegado aos festivais, sido exibido em Cannes e agora estava ali. “É um sonho…”

Nos despedimos e ele seguiu adiante para cumprimentar mais convidados, ávidos por uma palavra sua, sem saber que seu sonho estava apenas começando.

O filme de Daniel Dreifuss, “No”, estrelado por Gael García Bernal, acaba de ser indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro.

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O primeiro dia

(Aviso: sei onde este texto começa, mas não sei bem onde vai acabar.)

Nos últimos meses tenho pensado muito no “primeiro dia”: o primeiro dia de aula, o primeiro dia de trabalho, o primeiro dia de viagem.
Quando era pequeno adorava o primeiro dia de aula. Abrir os livros novos, conhecer os professores, os colegas de classe… Lembro que na sétima série fiz uma viagem com família em fevereiro e fiquei extremamente desapontado por perder o primeiro dia de aula – para estar em alto mar.

Já mais velho, os “primeiros dias” começaram a vir acompanhados de uma certa tensão. O primeiro dia de trabalho trouxe um “será que eu vou conseguir dar conta? “Será que eu vou gostar daqui?” “Será que vão me chamar pra almoçar?”

O “primeiro dia” também me faz lembrar das “primeiras vezes”. A primeira vez que vi alguém, que visitei um lugar, que fiz alguma coisa.
A primeira vez que fui ao cinema foi para assistir a “Esqueceram de Mim.” A extinta Sala 3 do Shopping Ibirapuera era pequena e estava lotada. Alguém alto sentou na minha frente e tive de mudar para a poltrona ao lado e dividi-la com uma amiga para poder enxergar Kevin McCallister enganando os ladrões. Lembro bem dos logos da Paris Filmes que dominavam aquele cinema. Mal sabia eu que mais de duas décadas depois estaria trabalhando naquela empresa.

Aquele primeiro dia de trabalho também foi inesquecível. Minha chefe, grávida e hilária, me mandou assistir à cabine de “Boa Noite e Boa Sorte” e depois separar clippings, enquanto ela respondia e-mails, agendava entrevistas e marcava um doppler com o ginecologista.

Nunca mais esqueci os títulos dos filmes que distribuímos, nem o cheiro daquela sala de reunião, nem as pessoas que trabalharam comigo durante três anos e meio e que hoje são grandes amigos.

Muita gente entra e sai da minha vida sem hora marcada, mas alguns primeiros encontros não saem da memória.

Foi numa primeira conversa sobre a P-0 nos corredores do Anglo que Bob começou a se tornar meu melhor amigo, há mais de dez anos. Gritos exaltados em uma FestECA marcaram um primeiro encontro com outro grande amigo; uma conversa sobre um quase-acidente na estrada para Ubatuba e um convite para um almoço naquele-restaurante-que-parece-o-Subway na Hollywood Boulevard marcaram outros: todas histórias com um começo bem definido, mas sem data para acabar.
Na minha primeira semana nos EUA – uma integração em Boulder, Colorado – conheci a primeira brasileira. Ela estudaria Biologia em Austin (cidade que conheceria quase dois anos depois). Foi também por lá que tomei minha primeira cerveja no país – com uma paquistanesa que estudaria Jornalismo. O primeiro sushi foi para atender os desejos de uma psicóloga dominicana, que acabou pedindo o sushi errado e não conseguiu terminá-lo.
A brasileira continua em Austin, a paquistanesa voltou para o Paquistão e a dominicana casou-se e teve um filho. Em comum, temos aquela a semana em Boulder, o status de Fulbright Alumni e o fato de nunca mais termos nos visto.

Também foi nos EUA – já em Los Angeles, na casa de uma colega – que usei uma máquina de lavar roupa pela primeira vez. Como se diz amaciante em inglês, mesmo? Lembro do seu espanto e do seu riso ao saber que “nunca tinha feito aquilo antes”; da sua fascinação em perceber que aquele dia tão trivial ficaria marcado na minha vida –e talvez na dela.

E assim fui me dando conta de que cada dia que começa traz a chance de fazer algo pela primeira vez; de que cada dia que começa tem o potencial de ser o primeiro dia de uma nova história que está começando e eu nem percebi.


(E acabou que este texto acabou no primeiro dia do ano.)

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Diálogos que a gente não inventa

Quando as pessoas descobrem a minha profissão, é comum dizerem: “nossa, você precisa ser muito criativo, né?”

Sim, é.

Mas uma das maiores qualidades que um roteirista pode ter, mais do que saber “inventar” coisas, é saber observar o mundo à sua volta; é saber ouvir.

Crianças são particularmente férteis no que diz respeito a conversas incríveis que uma mente isolada do mundo jamais poderia inventar.

O que segue são episódios, fragmentos, comentários, envolvendo adultos, crianças, familiares, desconhecidos: histórias que um ouvido desatento deixaria passar, mas que um roteirista sempre guarda – mesmo sem perceber – em algum lugar do seu arquivo mental.

* * *
PROFISSÕES
Vicky, 6 anos de idade:
– Tio Filipe, você trabalha onde?
– Num escritório.
– Não, mas assim, você trabalha de quê?
– Eu sou escritor.
– Mas você trabalha de quê? Por exemplo, o papito trabalha de contas. Você trabalha de quê?
– Então, Vicky, eu escrevo. Sabe esses livrinhos que você lê?
– Ahã.
– Então, tem uma pessoa que escreve esses livrinhos. Eu escrevo coisas também, mas em vez de livro, é o que passa na TV.
– Ah, tipo porcaria?
SOZINHA NO CINEMA
– Desculpa, tudo bom? Nós dois temos lugares separados, e como tem um lugar vazio à sua direita e um à sua esquerda, seria que você poderia pular uma cadeira pra gente poder sentar junto?
– Ai, desculpa… Não. É que eu gosto de sentar BEM no meio.
DICIONÁRIO
– Mãe, eu não consigo segurar a faca com essa mão. Eu não sou castanha!
– É “canhota”, Vicky.
TENDÊNCIAS
– Tio Filipe, sua privada é ridícula.
– Por que, Vicky?
– Porque ela é preta!
– E qual é o problema?
– E tem um livro do lado! Que ridículo.
A irmã de 8 anos intervém:
– Para de falar isso, Vicky! Você nem sabe o que é “ridículo”.
– Claro que eu sei! Ridículo é o que tá na moda.
FÉRIAS FRUSTRADAS
No aeroporto, a funcionária faz o check-in de um senhor de idade:
– Aqui estão os cartões de embarque. O voo é às 15h. Já podem ir pro portão porque o embarque abriu às 13h30.
O senhor vira para a esposa:
– Já perdemos o avião da uma e meia. Agora tem que esperar passar o das três.
PÉ NA BUNDA
– Tio Filipe, e aquela moça que vinha aqui em casa às vezes?
– Era minha namorada, mas a gente não namora mais.
– E por que você não quis mais ela?
SOLUÇÃO
– Tio Filipe, por que você não casa com a Tia Sicilia?
* * *
No fim das contas, as histórias já estão todas contadas. Basta encontrá-las.

As personagens principais

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Tudo pelo poder

Em época de eleição – e em qualquer época, convenhamos – falar mal dos políticos não é particularmente difícil. Mas recentemente uma outra categoria superou os políticos na competição pela minha revolta.

Este ano, depois de estar ausente por duas eleições, decidi exercer minha cidadania e acessei as sabatinas Folha/UOL na esperança de saber mais sobre os candidatos. Tudo o que consegui foi me revoltar contra os jornalistas.

Ainda nos primeiros segundos de transmissão, o mediador – repórter especial da Folha – após apresentar a candidata Soninha, anuncia: “…E os entrevistados de hoje são…”, para em seguida enunciar os entrevistadores.

Durante a sabatina, perguntas do tipo “Qual é o propósito da sua candidatura, já que você não vai se eleger?” davam o tom da conversa.

Na entrevista com Russomano, ouvia-se perguntas como: “A sua empresa produtora de vídeos será beneficiada se o senhor for eleito?” Aí eu me pergunto: sejam lá quais forem suas intenções, o que esperam que ele responda?

É como no formulário do visto americano: “Você está viajando aos EUA para aliciar prostitutas?” Sim, claro. Por que, não pode? Ah.

Mas antes fossem apenas as perguntas óbvias.

Imperava também a falta de organização, dados incorretos, e jornalistas que se interrompiam constantemente, levando os candidatos a implorarem por uma chance de concluir suas respostas. Até Faustão se sairia melhor.

E quando Barbara Gancia elogiou o sistema de transporte de Los Angeles? Achei que assistia a um programa de humor.

Depois, esgotadas as tentativas de associar todo e qualquer candidato ao Maluf, restava apelar para o sarcasmo:

– Candidato, o senhor é o novo Collor?

– O senhor pinta o cabelo?

Mas meu momento favorito foi quando Barbara perguntou a José Serra: “Dizem que o senhor é arrogante, que pede a cabeça de seus funcionários… você acha que isso é porque o senhor é filho único?”

É compreensível que, diante de um político, um jornalista – como qualquer ser humano – queira extravasar sua frustração e até mesmo fazê-lo passar por ridículo. O problema é que políticos conhecem o jogo melhor do que ninguém e, ao atacá-los com sarcasmo, jornalistas que se pretendem sérios ferem a si mesmos e conseguem uma grande façanha: fazer com que os políticos pareçam melhores do que são.

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O jantar

Fazia anos que não saíam para jantar.
Naquela noite, ele quase se esqueceu das reservas que ganhara de aniversário. Já estava na cozinha, prestes a assar uma batata quando ela veio relembrá-lo.
Chegaram ao restaurante assim que abriu, às oito em ponto. Quem sabe não voltariam a tempo da novela? Sentaram-se no mezanino, a uma distância segura do piano. Aceitaram o couvert enquanto olhavam o cardápio.
– Tire o chapéu. É feio usar chapéu na mesa.
Ele olha ao redor, despreocupado.
– Não tem quase ninguém aqui.
Ele volta-se para o cardápio.
– Acho que vou pedir uma salada caprese de entrada.
– Não come tanto pão! Depois não aguenta a comida e fica empurrando pra mim – ela replica, enquanto ele espalha mais ricota temperada no pão integral.
Ela decide pedir uma taça de vinho.
– É suave? – ele pergunta ao garçom.
– Esse que ela pediu é mais seco.
Ele não gosta. Ela não liga.
– Não importa, o vinho é pra mim, pode trazer.
Chega o vinho, chega a salada. Ele encara com bom-humor os quatro tomates pelados e o manjericão frito.
– …E isso custa trinta reais? Ainda bem que eu não tô pagando.
– Mas precisa sempre falar do preço da comida?
– Eu tô brincando!
Ele põe um quarto do tomate no prato dela; ela come, contrariada. Ele continua a investigar os elementos perdidos em sua salada.
– Ah, isso é uma mussarela de búfala. Achei que era um ovo de codorna.
– E você não sabe o que é “caprese”? O risoto que você pediu é a mesma coisa: tomate, mussarela e manjericão.
– Ah… Não vejo a hora de poder comer carne de novo.
Ele coloca mais tomate no prato dela.
– Eu não quero.
Ele come o pão. E ela come o tomate. O garçom se aproxima com duas xícaras.
– Nós não pedimos isso – ela informa.
– É creme de legumes. Presente do chefe.
– Ah, então tudo bem – anima-se ele, antes de queimar a língua com a sopa quente.
Discretamente, ele tenta molhar o pão na xícara.
– Isso é feio. Nem ouse!
Ele ousa.
A luz diminui, o piano começa a tocar, os garçons começam a cantar.
– Você gosta desse tipo de música? Porque eu não vejo muita graça – revela ele, como que se desculpasse. Ela aplaude, animada.
Chega o risoto dele; chega o torteloni dela. Eles comem em silêncio, tentando identificar a comida sob a meia-luz.
Ele coloca uma garfada de risoto no prato dela.
– Eu não quero. Falei pra não comer tanto pão.
– É só pra experimentar.
Ela cede.
– É bom.
O garçom traz um novo cesto de pão. Os olhos dele brilham. Ela se esforça para terminar o último tortelonni.
– Não quer experimentar? É uma delicia.
– Não, não, já estou cheio – responde ele, enquanto engole o ultimo pedaço de pão.
Ele empurra o prato de risoto em direção a ela, em uma derradeira tentativa de evitar o desperdício. Ela o empurra de volta:
– Já falei que eu não quero, mas que coisa! Mania de querer empurrar tudo pros outros!
O garçom retira os pratos e traz o cardápio de sobremesas. Eles demoram a se decidir. 
– Eu não aguento mais nada! – diz ele.
O garçom retorna:
– Decidiram?
– Sim – diz ela. – Vou querer um crème brulée.
– Sim, senhora.
– …Com duas colheres, por favor.
Após quarenta anos de casado, ele já não se surpreende.
– Falei pra não comer tanto pão…

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