cinema, Cotidiano

Conectados

“Esqueceram de Mim” foi o primeiro filme que vi no cinema. A extinta sala 3 do cinema da Paris Filmes do Shopping Ibirapuera tinha pouco mais de 100 lugares — provavelmente uma das menores da cidade, mas eu não sabia disso. Muito menos sabia que 15 anos depois trabalharia naquela empresa que por tanto tempo estampou os ingressos dos filmes que vi na adolescência.

A sala estava lotada, e alguém sentou na poltrona à minha frente, bloqueando parte da minha visão. Migrei para a poltrona ao lado, dividindo o espaço com uma amiga. Do mesmo assento, assistimos fascinados às aventuras de Kevin McCallister, interpretado por aquele ator que não sabíamos o nome.

Era 1991 e, para um garoto de sete anos de idade, qualquer assunto que não estivesse nos livros da escola, na Barsa (onde?!) ou em alguma revista era completamente inacessível — incluindo o nome do ator que interpretava Kevin McCallister em “Esqueceram de Mim”.

Um ano inteiro se passou até que uma reportagem da revista Veja enfim revelou o grande mistério. 

Disquei do telefone vermelho para o 571-6291 e minha colega de poltrona atendeu.

— Descobri o nome dele! Adivinha! Começa com M!

O mundo mudaria muito nas décadas seguintes, conectando pessoas e espalhando informações de forma inimaginável. Levei 20 minutos para encontrar a reportagem da foto, e pareceu uma eternidade. Hoje basta um clique — literalmente — para saber que Macaulay Culkin é fã de luta livre e World of Warcraft, mede um metro e setenta e divorciou-se após dois anos de casado.

Liv Tyler da capa do meu fichário hoje está no meu Instagram, onde descobri que seus filhos estão grandes demais para pijamas de bichinhos, e onde posso acompanhá-la enquanto anda a cavalo com a família. É possível até mesmo alfinetar um presidente e receber a resposta por Twitter minutos depois.

Aqueles que até recentemente estavam tão distantes de nós agora parecem estar aqui do lado, suas vidas conectadas às nossas, nossos celulares notificados a cada passo. Mas quanto dessa conexão é real?

Há alguns anos gravei a narração para o teaser de um longa-metragem em desenvolvimento nos EUA. O produtor/editor me conheceu pessoalmente alguns meses depois.

— Cara, parece que eu te conheço há séculos, de tanto que eu já ouvi sua voz! — disse ele no primeiro aperto de mãos.

Sinto que conheço profundamente o apresentador e os convidados de um programa semanal  — “Conectados”, vejam só — que legendo há mais de um ano para uma companhia aérea. Até que nos cruzamos pelos corredores e me dou conta de que nem sabem que eu existo. Por que saberiam?

Como roteirista de vídeos corporativos, já perdi a conta de quantas vezes escrevi a frase: “O mundo está cada vez mais conectado”.

Agora só falta dizer: conectado com o quê?


Outro dia fui ao cinema com a mesma amiga — cada um em sua poltrona. Não conseguia lembrar que outro filme o ator do trailer tinha feito. Puxei o celular, abri o IMDb e conferi toda sua filmografia. Depois coloquei o aparelho no modo avião para me desconectar do mundo e enchi a mão de pipoca, aguardando o filme começar. 

Foto: Revista Veja, 15 de janeiro de 1992.

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O primeiro dia

(Aviso: sei onde este texto começa, mas não sei bem onde vai acabar.)

Nos últimos meses tenho pensado muito no “primeiro dia”: o primeiro dia de aula, o primeiro dia de trabalho, o primeiro dia de viagem.
Quando era pequeno adorava o primeiro dia de aula. Abrir os livros novos, conhecer os professores, os colegas de classe… Lembro que na sétima série fiz uma viagem com família em fevereiro e fiquei extremamente desapontado por perder o primeiro dia de aula – para estar em alto mar.

Já mais velho, os “primeiros dias” começaram a vir acompanhados de uma certa tensão. O primeiro dia de trabalho trouxe um “será que eu vou conseguir dar conta? “Será que eu vou gostar daqui?” “Será que vão me chamar pra almoçar?”

O “primeiro dia” também me faz lembrar das “primeiras vezes”. A primeira vez que vi alguém, que visitei um lugar, que fiz alguma coisa.
A primeira vez que fui ao cinema foi para assistir a “Esqueceram de Mim.” A extinta Sala 3 do Shopping Ibirapuera era pequena e estava lotada. Alguém alto sentou na minha frente e tive de mudar para a poltrona ao lado e dividi-la com uma amiga para poder enxergar Kevin McCallister enganando os ladrões. Lembro bem dos logos da Paris Filmes que dominavam aquele cinema. Mal sabia eu que mais de duas décadas depois estaria trabalhando naquela empresa.

Aquele primeiro dia de trabalho também foi inesquecível. Minha chefe, grávida e hilária, me mandou assistir à cabine de “Boa Noite e Boa Sorte” e depois separar clippings, enquanto ela respondia e-mails, agendava entrevistas e marcava um doppler com o ginecologista.

Nunca mais esqueci os títulos dos filmes que distribuímos, nem o cheiro daquela sala de reunião, nem as pessoas que trabalharam comigo durante três anos e meio e que hoje são grandes amigos.

Muita gente entra e sai da minha vida sem hora marcada, mas alguns primeiros encontros não saem da memória.

Foi numa primeira conversa sobre a P-0 nos corredores do Anglo que Bob começou a se tornar meu melhor amigo, há mais de dez anos. Gritos exaltados em uma FestECA marcaram um primeiro encontro com outro grande amigo; uma conversa sobre um quase-acidente na estrada para Ubatuba e um convite para um almoço naquele-restaurante-que-parece-o-Subway na Hollywood Boulevard marcaram outros: todas histórias com um começo bem definido, mas sem data para acabar.
Na minha primeira semana nos EUA – uma integração em Boulder, Colorado – conheci a primeira brasileira. Ela estudaria Biologia em Austin (cidade que conheceria quase dois anos depois). Foi também por lá que tomei minha primeira cerveja no país – com uma paquistanesa que estudaria Jornalismo. O primeiro sushi foi para atender os desejos de uma psicóloga dominicana, que acabou pedindo o sushi errado e não conseguiu terminá-lo.
A brasileira continua em Austin, a paquistanesa voltou para o Paquistão e a dominicana casou-se e teve um filho. Em comum, temos aquela a semana em Boulder, o status de Fulbright Alumni e o fato de nunca mais termos nos visto.

Também foi nos EUA – já em Los Angeles, na casa de uma colega – que usei uma máquina de lavar roupa pela primeira vez. Como se diz amaciante em inglês, mesmo? Lembro do seu espanto e do seu riso ao saber que “nunca tinha feito aquilo antes”; da sua fascinação em perceber que aquele dia tão trivial ficaria marcado na minha vida –e talvez na dela.

E assim fui me dando conta de que cada dia que começa traz a chance de fazer algo pela primeira vez; de que cada dia que começa tem o potencial de ser o primeiro dia de uma nova história que está começando e eu nem percebi.


(E acabou que este texto acabou no primeiro dia do ano.)

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