Sem categoria

Na natureza selvagem

“Alasca!? Mas você vai fazer o que no Alasca?” – foi a pergunta que mais ouvi ao revelar que passaria onze dias com um amigo no inóspito 49º estado americano.  Foi a mesma reação de quatro anos atrás, quando passei três semanas viajando sozinho pelo sul da Patagônia.
Há tempos tenho uma estranha atração por lugares isolados, frios, com pouca interferência humana. Chegar aonde poucos chegam exerce uma grande fascinação sobre mim, e por isso o Alasca esteve sempre na minha lista de destinos: nada me parecia mais incrível do que cruzar o Círculo Ártico pela famigerada Dalton Highway.
Mas ao chegar ao Alasca, minha imagem romântica foi aos poucos contrastando-se com temperaturas acima de 20ºC e ausência de neve. O fascínio deixou de ser o frio e o branco nas montanhas, mas o céu que jamais escurece; os dandaleões que voam contra o vidro do carro como flocos de neve; o albergue que não possui chaves pois nunca é preciso trancar as portas.
Após dez horas de estrada entre Anchorage a Fairbanks, acompanhado de sanduíches de brie de cabra, abacate com mostarda e Alaskan White Ale, seguir até o Círculo Polar me pareceu desnecessário. Durante meses só pensava naquelas quatorze horas de estrada não-asfaltada e na foto com placa que marca a latitude 66º33’, mas no momento em que de fato poderia embarcar naquela jornada, achei que já havia cumprido minha missão naquela região específica do estado.
Aí veio o arrependimento. Como pude não querer aquilo que queria tanto havia poucas semanas?

Mas aos poucos fui compreendendo que, como em um roteiro, a cena que me inspirou a escrever todo o filme às vezes não cabe mais na história. Talvez ela caiba em algum outro filme, daqui a alguns anos, quem sabe em algum outro ponto do distante paralelo 66º33’, mas por ora sua função é apenas permitir que o resto da história exista.
No filme deste verão entraram outras cenas: a águia sobrevoando o caiaque na Baía de Kachemak; a noite na Universidade de Fairbanks com a vista espetacular da montanha mais alta da América do Norte; o acampamento sob a chuva a 2ºC em Denali; os alces e ursos atravessando a estrada em Seward; os jogos de xadrez sob o sol da meia-noite. Entraram também personagens marcantes: a hilária atendente mal-humorada do albergue em Anchorage; a dona da lojinha de beira-de-estrada em Joy, que tem dezenove filhos adotados, vindos de famílias que os rejeitaram; a assistente social que cuida de jovens problemáticos em Barrow, onde o sol não nasce por 82 dias; o construtor de barco que passou cinco anos construindo o barco errado.
Nenhuma dessas cenas ou desses personagens estavam no roteiro que criei na minha cabeça, mas todos chegaram ao corte final, graças à cena que me levou até lá – mas não existiu. 
Não sabia, de fato, o que encontraria no Alasca, mas estava disposto a descobrir.
Como bem coloca Nilton Bonder em A Alma Imoral, de nada adianta sentar-se e esperar que o mar se abra para que sigamos em frente: é preciso primeiro marchar para então encontrar o caminho. E por isso sigo sempre em frente…
Não posso dizer que sei aonde estou indo, mas sei que estou no meu caminho.
Padrão
Sem categoria

Reprise

Há cerca de um ano, ao sair da minha casa em Burbank para passear com Lebowski, o cachorro, deparei-me com uma moeda de um centavo no asfalto. Depois outra. E mais uma. Quando notei, já havia apanhado cerca de trinta moedas que, pelo estado em que se encontravam, estavam caídas ali já havia algum tempo.

*  *  *
Na semana passada, após oito meses no Brasil, voltei aos EUA para realizar algumas reuniões de trabalho, reencontrar os amigos e, é claro, rever o cachorro. Há meses ansiava por essa viagem: não via a hora de rever as pessoas, visitar os mesmos lugares, comer as mesmas comidas. Esperava, de verdade, que as coisas estivessem como antes para que eu pudesse, ainda que por algumas semanas, reviver um pouco daqueles anos tão incríveis.
Como das outras vezes, o voo da American Airlines fez conexão em Dallas. Ao chegar ao LAX, corri para a mesma esteira e esperei até que minha bagagem surgisse, enquanto espiava do lado de fora procurando pelo carro de Logan, meu anitgo roommate, que viria me buscar – como das outras vezes. Lebowski estava no carro e chorou ao me ver. Dormiu no meu colo em todo trajeto pela rodovia 405 – que continua em obras.
Fiquei hospedado na mesma casa em Burbank, onde meus roommates ainda vivem, e encontrei tudo como antes – exceto os tapetes, que já não existem mais. Até mesmo o muro que separa a rua sem saída da rodovia continua em construção.
Na escola que frequentei por dois anos, os novos alunos estão de férias e as cadeiras estão vazias. As salas agora têm ar condicionado; os banheiros foram reformados e o retrato da minha turma agora está pendurado na parede ao lado dos grandes talentos que passaram pelo AFI. Mas apesar das mudanças superficiais, os mesmos largatos continuam a cruzar o campus; Mark ainda trabalha na sala de informática; Bart ainda cuida da segurança e Angela ainda abre um sorriso quando me vê na biblioteca.
O Chicken Bellagio ainda está no menu de Lunch Specials do Cheesecake Factory e continua uma delícia – embora um dólar mais caro; o Niko Niko Sushi ainda tem o combinado de três itens por $11,99; meu cartão do supermercado ainda está ativo e meu computador conecta automaticamente à internet, seja em casa, no AFI ou no Starbucks.
Passados poucos dias, sinto-me como se nunca tivesse saído daqui.
Mas isso significa também que alguns pequenos hábitos de Logan ainda me incomodam; que como em São Paulo o trânsito de Los Angeles também faz parte da minha rotina. E como eu tinha me esquecido da individualidade dos americanos?
Aí reparo que os fios aparentes da TV de casa que precisavam ser ajeitados continuam ali – aparentes; a caixinha do home theater que se soltou da parede continua no chão e a lâmpada da escada continua queimada. O livro que deixei sobre a mesa da TV continua ali, intacto. Meus vidros de tempero ainda estão na dispensa; meu amaciante ainda está no prateleira da lavanderia e minha maionese venceu na geladeira.
Tudo. Exatamente. Igual.
Era como eu esperava… só que havia me esquecido de que não sou mais o mesmo.
Então lembro que estar aqui inclui ter saudades de casa; inclui querer contar tudo aos amigos quando voltar e ver suas caras ao abrir os presentes. Inclui saber de fato que o dia é único e precisa ser aproveitado porque tudo aquilo que torna aquele momento especial tem dia e hora pra acabar.
…E aí percebo que mais do que tomar o sorvete de café do Trader Joe’s, era disso que eu sentia falta.
Ontem, ao sair da minha casa em Burbank para passear com Lebowski, deparei-me com uma moeda de um centavo no asfalto. Depois outra. E mais uma. Pelo estado em que se encontravam, estavam caídas ali já havia algum tempo.
Padrão
Sem categoria

A rotina tem seu encanto

Certo dia, sentado à mesa do almoço, meu pai me olha com certa admiração e diz: “A vantagem da sua profissão é que você só trabalha quando está inspirado, né?” “Sim,” respondi. “E o segredo é estar inspirado todo dia às 9h da manhã…”

*  *  *

Adaptar-me à vida errática de roteirista não foi nada fácil. Sempre fui extremamente organizado. Acostumado a ter tudo planejado e sob controle, quando me perguntam: “Filipêêê! Você tem um grampeador?” a resposta é: “Sim, na segunda gaveta, entre a calculadora e a caixa de grampos.”

Mas quando chegar ao trabalho às 9h e executar tarefas até às 18h deixou de ser a minha realidade, comecei a ter de enfrentar novas decisões a cada manhã: em que projeto trabalhar hoje? Quando fazer comentários naquele outro roteiro? Que horas sentar para terminar de ler o livro?

Quando você vai ver são cinco da tarde, você assistiu a cinco episódios de Modern Family, não fez supermercado e não escreveu uma palavra.

Percebi que precisava de uma rotina, nem que fosse apenas para fugir dela. A liberdade total com a qual me deparava todas as manhãs, contrariando todas as expectativas, matava minha produtividade… até que Marta Kauffman acendeu a luz no fim do túnel.

Durante uma de suas aulas de Roteiro de TV, entre exibições de pilotos desconhecidos e histórias sobre como Friends surgiu, Marta perguntou sobre os processos de escrita de cada um: “Vocês escrevem até cansarem e depois param? Escrevem até atingirem um número de páginas? Escrevem só quando estão afim?”

Demos nossas respostas, provando que ninguém tinha, de fato, um processo. Foi então que ela revelou: “Eu faço pausas programadas. Escrevo por X horas, depois paro por Y minutos, vou brincar com o cachorro, resolver o que tiver para resolver, depois volto a escrever por mais X horas e por aí vai.”

E foi assim, numa típica terça-feira de sol na sala 102 do Warner Building, que encontrei meu caminho. 

Com a capacidade de atenção de uma criança de 8 anos, a ideia de sentar para escrever por quatro horas seguidas sempre me foi inconcebível. Já em doses homeopáticas… Lembrei que durante mais de uma década fui capaz de me concentrar em aulas de 50 minutos e resolvi usar esse número mágico: passei a escrever por 50 minutos sem qualquer distração com pausas de 10 minutos para resolver qualquer outro assunto (leia-se: checar e-mails e redes sociais); coloquei um bloco de papel ao lado do teclado para tirar da cabeça qualquer pensamento intruso que invadisse minha mente naqueles 50 sagrados minutos; fiz um cronograma de tudo que precisava entregar até o fim do semestre e percebi que com apenas quatro “slots” diários de 50 minutos poderia cumprir todos os prazos.

Sem saber, Marta Kauffman havia me resgatado do poço da ausência de rotina.

De volta ao Brasil, sem emprego formal ou qualquer prazo real de entrega de projetos, criar uma rotina foi a melhor única maneira de sobreviver na profissão. E não só na profissão: foi assim, com uma rotina de exercícios físicos diários, que perdi em cinco meses o dobro do peso que ganhei em dois anos nos EUA; foi com cotas de leitura diárias que consegui terminar os livros que iam ficando de lado. 

E foi com slots de 50 minutos que consegui continuar a escrever – ainda que “escrever” signifique, muitas vezes, olhar para a tela em branco do computador enquanto as vozes da minha cabeça tentam se entender.
É comum querermos sempre fugir da rotina, mas não tê-la é tão difícil quanto estar preso a ela. E entre a apatia de desperdiçar um dia livre e a insanidade de estar atrasado para um compromisso que só existe na minha cabeça, prefiro ser louco.

Padrão
Sem categoria

Os amadores

Na semana passada estive pela segunda vez na vida em um festival de cinema
A primeira vez havia sido cinco meses antes, na primeira edição do mesmo festival. 
Em meio aos altamente capacitados membros da equipe – com passagens pelos festivais de Cannes, Berlim, Veneza e afins – tive uma súbita sensação, comum (creio) entre aqueles ligados a alguma atividade artística.
Não foi a sensação de “sou o centro do mundo…”
Também não foi a sensação de “o universo é melhor porque eu existo…” 
Nem a de “como ninguém viu o quão brilhante eu sou?”
Foi a sensação de que não sei nada.
Neste ano tive a honra de ser convidado para ensinar algo que ainda nem bem sei se sei: escrever. Tom Rickman, uma das mentes mais geniais que tive a chance de conhecer, confessou-me certa vez que preferia ensinar algo mais concreto… como história da arte.
(Você percebe que roteiro é algo abstrato quando história da arte vira algo concreto em comparação.)
Ansioso a ponto de gesticular enquanto penso, e assombrado pelas palavras de Frank Pierson – “Não se aprende a escrever roteiros. É preciso reaprender a escrever a cada roteiro.” – passei semanas preparando o material a ser utilizado nos supostos dois ou três dias de curso. Soterrado em apostilas, livros e DVDs, tentei condensar em algumas páginas tudo aquilo que poderia ser relevante àqueles interessados em ingressar no controverso mundo da escrita audiovisual.
(Você percebe que roteiro é algo concreto quando vê o número de publicações técnicas sobre o assunto.)
Eu sabia que só estaria satisfeito com a perfeição. Os trechos dos filmes tinham de ser extraídos com a minutagem exata; os ítens relevantes tinham de estar na ordem correta, a bibliografia tinha de ser citada de acordo com os padrões internacionais, o espaçamento do texto tinha de ser o mais agradável aos olhos. E eu tinha de fazer a barba antes de viajar.
Aí fiquei de cama por dois dias e tive de me adaptar ao imperfeito.
A oficina teve de ser alterada por motivos técnicos; os três dias viraram um, e semanas de preparo e tensão se dissiparam em quatro horas. Foi tudo diferente do que eu esperava.
Mas quem disse que não era pra ser assim?
Os dias seguintes foram de imersão total no mundo do cinema: filmes, palestras, encontros, reencontros; muita conversa e pouco sono. E de novo a sensação de que não sei nada.
É tanto livro que não li filme que não vi música que não ouvi peça a que não assisti pintor que não conheci para!
Como é possível manter-se atualizado (e são) em um universo onde a cada mês, a cada semana, a cada dia, novas obras surgem? Onde uma interminável prateleira de livros imperdíveis e filmes clássicos espera para ser devorada? Como querer que minha mente ansiosa relaxe sabendo que há tanto que não sei, que há tanto a fazer e que ainda nem passei fio dental?
Respirei.
Lembrei-me de um dos palestrantes, que parafraseou Samuel Beckett: “Erre. Erre mais. Erre melhor.”
Ao agradecer a equipe do festival por todo esforço, nosso directeur général referiu-se a nós como amadores, querendo na verdade dizer “aqueles que amam”. Rimos discretamente desse pequeno equívoco, mas os equivocados éramos nós. Ele tinha razão.
Somos todos amadores: amamos o que fazemos e não sabemos de nada.
E quem disse que não é pra ser assim?
Padrão
Sem categoria

!kbhit()

Um das coisas que pude observar com clareza durante minha temporada nos EUA foi a diferença no conceito de amizade que existe entre aqui e lá.

Certa tarde em um evento em Los Angeles, durante uma conversa despretensiosa, uma mulher me perguntou:

– Quantos amigos você tem?

Parei. Pensei. – Ah, não sei, muitos.

– Não, mas assim, amigos próximos…

– Sei lá, pelo menos uns vinte.

– Não, você não entendeu. Me refiro a amigos, assim, que você confia mesmo, que você conversa com frequência, com quem você pode contar.

– Acho que foi você quem não entendeu – respondi sorrindo, antes de repetir. – Pelo menos vinte.

Muitos dos meus amigos são amigos há uma, duas décadas. Tem os amigos do prédio onde eu nasci, que são amigos, literalmente, desde que nasci. Tem os amigos do Jardim II, os da 1ª série, os da 3ª, os da 7ª e os do 1º colegial. Surpreendentemente, tem os grandes amigos do cursinho – quem faz amigos no cursinho?

E tem também o !kbhit().

Conheci os primeiros membros do !kbhit() no melhor estilo “amigo-da-namorada-do-primo-da-vizinha-da-minha-vó.” Depois de uma viagem despretensiosa, percebi que tinha muito mais em comum com aquele grupo de engenheiros do interior que faziam paródias musicais do que com o mundo do qual fazia parte naquele momento. E assim o !kbhit() passou a ser composto por “dez engenheiros e o Coxa”.

Sem nunca ter assistido a uma aula daquela universidade, frequentei jogos universitários, fui batizado como membro honorário de uma república; fui a churrascos, formaturas; gritei o hino da faculdade como se tivesse feito parte daquele universo. E de certa forma, fiz.

Aos poucos, passei a ser apresentado como “amigo da faculdade” – era mais fácil assim.

Aos poucos, fui confirmando minha teoria de que amizade requer manutenção; que se deixada guardada como uma caixa de ferramentas que só sai do armário quando necessário, ela enferruja.

Aos poucos, fui percebendo que às vezes é difícil explicar porque se é amigo: às vezes simplesmente se é.

Um dia, Logan, meu roommate, notou um banner na parede de meu quarto com fotos do !kbhit() que ganhei de presente antes de sair do Brasil. No topo, uma frase dizia: “Todo bom jogador tem uma torcida fiel” – !kbhit(). E então veio a pergunta:
– O que significa “quei-bi-rráit”?
– É “ca-be-rrit” – disse rindo, corrigindo sua pronúncia, enquanto pensava em uma resposta.
Talvez o mais correto fosse dizer que !kbhit() é uma função utilizada em linguagem de programação.
Mas eu poderia dizer que !kbhit() é um grupo de e-mail em que você será xingado dia sim, dia não, e que você vai se sentir especial por isso. Ou que é um grupo do qual você pode ser excluído se não der sinal de vida – ainda que seja xingando alguém – porque xingar ou ser xingado simplesmente significa que você se importa.
Eu poderia dizer que !kbhit() é um banco de paródias musicais, criadas nas horas mais surpreendentes, reveladas a seus homenageados nas horas mais inesperadas, e tão contagiantes que torna impossível cantar a letra original outra vez.
Eu poderia dizer que !kbhit() é o organizador de um evento musical anual, onde membros divididos entre “os que sabem tocar alguma coisa” e “os que não sabem” formam duplas e são avaliados em critérios rigorosos definidos em um documento impresso, disputando um troféu a ser entregue pelo júri – composto por suas namoradas.
…Ou que ser !kbhit() é dar carona para alguém que está em outra cidade, afinal “é um desvio de duas horinhas, nem isso!” É fazer um bate-volta a uma cidade a 300 km – só pra dar um oi a alguém que você não vê há algumas semanas – e voltar para trabalhar às 6 da manhã do dia seguinte.
…Ou que ser !kbhit() é entender de verdade o significado de compaixão. É viajar para passar um carnaval inteiro na sala de espera de um hospital, enquanto seu amigo passa o carnaval inteiro na UTI, em coma, no mesmo hospital. 
…Ou que ser !kbhit() é lembrar constantemente que “viver continua sendo sensacional”. É ter sempre uma torcida fiel, não importa qual seja o seu jogo.
Mas olhei para Logan observando aquele banner coberto de fotos, mensagens e assinaturas, e, utilizando o melhor eufemismo que pude encontrar, respondi:
– É um grupo de amigos.

Padrão
Sem categoria

Histórias que poderiam ter sido

Certa tarde, há muitos anos, estava com meu amigo Bob na biblioteca da faculdade de veterinária procurando um livro sobre a reprodução dos avestruzes para uma amiga quando uma garota sentou-se na mesa ao lado. Três segundos depois, Bob estava apaixonado – sem sequer haver trocado olhares com ela. Após alguns minutos de discussão, Bob decidiu que seria prudente não informá-la sobre os filhos que teriam juntos, nem sobre o nome que dariam ao cachorro, nem sobre o tamanho de sua futura casa – ou de certas partes de seu corpo.
Minutos depois, a garota se foi – sem saber que destruíra um lar imaginário – e Bob, parafraseando Manuel Bandeira, suspirou: “Ah, histórias que poderiam ter sido…
E esse virou nosso jargão: quantas “histórias poderiam ter sido” se tivéssemos tomado uma decisão diferente, se tivéssemos agido, se tivéssemos virado à esquerda, se tivéssemos ido àquela viagem. Quantas histórias poderiam ter sido se decisões tomadas por quem sequer conhecemos tivessem sido diferentes.
Durante meu intercâmbio para Austrália no Ensino Médio, conheci uma garota suíça com quem conversava vez ou outra. Às vezes nos encontrávamos no ônibus, às vezes nos víamos no intervalo das aulas da extinta Beacon Hill Technology High School enquanto tomávamos o cremoso leite com chocolate de caixinha que só a escola oferecia. Sempre senti que havia algo ali, mas o auge dos meus dezesseis anos e de minha bananisse me impediram de tomar qualquer atitude. Um dia antes de voltar ao Brasil esbarrei com ela na escola e disse que estava de partida. Desapontada, ela anotou seu endereço em um pedaço de papel. “Agora é minha chance!”, pensei…
…Só pensei.
Nos abraçamos, nos despedimos, e nunca mais nos vimos. Nunca mais nos falamos.
Já no avião, notei o papelzinho ainda no bolso da calça… e nele havia algo mais que o endereço; algo que me fez acreditar que aquela história, de fato, poderia ter sido…
*  *  *
Meses antes de me mudar para os EUA para estudar no AFI, conheci meus futuros colegas pela internet, entre eles um americano chamado Andrew. Após nos certificarmos (na medida do possível) de que não éramos serial-killers e/ou fazíamos parte de uma seita macabra, decidimos que seríamos roommates. Durante os meses seguintes conversamos várias vezes por semana, descobrimos interesses em comum, planejamos viagens para o Alasca, decidimos que ficaríamos em um albergue assim que chegássemos e procuraríamos um apartamento perto da escola. Enfim, nos tornamos amigos.
Uma semana antes de sair do Brasil, recebi um longo e-mail de Andrew me dando a triste notícia que ele não poderia mais ir ao AFI.

Com meus planos escorrendo pelo ralo, tive de encontrar novos roommates às pressas e fui morar com dois completos desconhecidos – um deles dormindo na sala. Durante todo o primeiro (e mais difícil) mês em L.A., só pensava em como tudo seria mais fácil se tivesse saído como planejado. Como eu queria que aquela história tivesse sido…

Mas o que eu não sabia é que se aquela história tivesse sido, meses depois eu não teria feito uma inesquecível road trip de 5.000 quilômetros ao redor do Grand Canyon com meus inesperados amigos; não teria conhecido o Texas, nem a família de Logan, nem teria vivido com seu fiel escudeiro Lebowski.
Só fui conhecer Andrew pessoalmente um ano depois, de passagem por sua cidade por algumas horas. Durante um almoço corrido em uma tarde incrivelmente quente, contei apressadamente as histórias do AFI – histórias que, pra ele, poderiam ter sido. Em contrapartida, Andrew me contou sobre sua vida fora do AFI, que incluía, entre outras aventuras, uma fascinante viagem à Antártica – a história que, pra ele, foi.
Inevitavelmente, cada pessoa que conheço, cada nova amizade que se forma, me faz pensar nas histórias que poderiam ter sido. Como teria sido conhecer aquela pessoa anos antes? Ter ido à sua formatura? Àquela festa de aniversário? E como teria sido não conhecê-la? Não ter ido àquela viagem?
Inevitavelmente, cada pessoa que conheço, cada nova amizade que se forma, também me leva à assustadora conclusão de que há pessoas no mundo que eu jamais vou conhecer; de que há amizades que jamais vão se formar: são histórias que eu nem sequer sei que poderiam ter sido.
E é durante esse devaneio sobre as pessoas que não vou conhecer, os lugares que não vou visitar e as experiências que não vou ter que tudo surpreendentemente volta a fazer sentido: é quando me lembro de que sou escritor, e de que o escritor vive em Pasárgada. É quando me lembro de que a cela do meu mundo real tem uma janela para o infinito.
É quando me lembro de que, no meu mundo, todas as histórias podem ser.

(Bob casou-se hoje com a mulher de sua vida e está de mudança para os EUA. Vai viver a história que tinha de ser.)

Padrão
Sem categoria

O grande Lebowski

Eu nunca gostei muito de cachorro. Minha mãe sempre teve um pouco de medo de cães e por isso sempre tivemos gato em casa. Sempre defendi os gatos: são independentes, tomam banho sozinhos e desde que tenham livre acesso à rua fazem suas necessidades sem qualquer auxílio.
Quando mudei de um apartamento nas proximidades de Hollywood para uma casa no subúrbio, Logan, meu roommate, sugeriu adotar um dos filhotes de sua Golden Retriever que daria cria em breve em sua cidade natal. Resolvi dar uma chance ao suposto melhor amigo do homem e algumas semanas depois fui apresentado a Lebowski, uma bola de pelos de apenas quarenta dias. Impossível não se apaixonar por aquele ser com patinhas quase do tamanho da cabeça que não conseguia descer escadas.

Já no primeiro mês com meu novo roommate canino, Logan foi viajar e tive que cuidar de Lebowski por um fim de semana. Foi naquele fim de semana que ele teve diarreia juntamente com uma crise de vômito. Às três da manhã. Como se retribuísse meus cuidados, algumas semanas depois, quando passei por uma cirurgia que me deixou de molho por algum tempo, Lebowski começou a correr para o meu quarto todas as manhãs, logo que acordava, para me dar bom dia.

No início deste ano, Lebowski foi castrado – como exige a lei em Los Angeles –, ficou com um hemotama gigante e precisou de cuidados especiais. Quando vi aquele bichinho indefeso cheio de curativos e com aquele protetor em volta do pescoço decidi que deixá-lo dormir na minha cama não seria assim o fim do mundo. Era minha vez de retribuir.

Os meses foram passando, Lebowski foi crescendo, aprendendo novos truques, destruindo todos os seus brinquedos e pulando freneticamente em cada pessoa nova que aparecia em casa para uma visita. À essa altura, Lebowski já era um grande amigo que tirava sonecas no chão fresquinho do meu banheiro nas posições mais bizarras; um amigo cujos pelos na minha colcha já não incomodavam mais. Um amigo que me fez achar os gatos um tanto quanto monótonos.

Na semana passada, após me despedir das centenas de amigos que fiz nos últimos dois anos, tive que dar o “até logo” mais difícil àquele companheiro que não sabia que aquela era a última vez que me via – pelo menos por um tempo.

Lebowski ainda corre para o meu quarto todas as manhãs. Mas eu já não estou mais lá.


Padrão
Sem categoria

Nine eleven

“Meu deus, já faz 10 anos!” foi a primeira coisa que me veio à cabeça quando me lembrei de que hoje é dia 11 de setembro. Com você também foi assim? Uma década! Loucura, não?
Depois me lembrei de uma garota que fazia boxe comigo e que fazia aniversário dia 11 de setembro. “Mancada, estragaram seu aniversário!” Tá certo, é uma p*** falta de sensibilidade pensar assim, mas… poxa, é seu aniversário. Todo ano! Não podiam ter esperado um dia a mais? Agora você vai sempre se sentir culpada por estar feliz no seu dia, fazer o quê!
Aí comecei a pensar que praticamente todo mundo se lembra do que estava fazendo quando ficou sabendo do atentado. Interessante pensar que existe um dia na linha do tempo em que gente do mundo todo se lembra do que estava fazendo. Não lembro o que fiz no dia 9, no dia 10, ou no dia 23, mas me lembro muito bem do dia 11. E assim como eu, todo mundo tem a sua história do 11 do setembro.
A minha começou na aula de biologia do 3º colegial. Em um mundo pré-smartphones, alguém recebeu uma ligação dizendo que “parece que um avião bateu num prédio nos EUA.” Algumas horas depois estava em casa, assistindo pela primeira vez àquelas imagens que veria 387 vezes mais no ainda inexistente YouTube. Era realmente como assistir a um filme de Hollywood. No dia seguinte, na escola, todos expressavam suas teorias, calcadas em nossos profundos 17 anos de experiência de vida, sem saber os efeitos que aquele evento realmente teria no mundo (e naquela viagem de American Airlines pra Disney.)
Passados meses, anos, muito ainda se ouvia sobre aquele que muitos ainda chamam de “o evento mais trágico do últimos tempos.” Aí, assim como eu, muitos começaram a ficar um pouco irritados. “Tem gente morrendo o tempo todo! Vocês, americanos, provavelmente estão matando muito mais gente em algum lugar do mundo por um pouquinho de petróleo ou algo assim. Algum povo africano está sendo dizimado e ninguém tá sabendo, ninguém tá vendo na TV, e ninguém vai lembrar o que fez naquele dia. Precisa falar do “nine eleven” o tempo todo?”
Até que em dezembro passado fui a Nova York pela primeira vez, e só então comecei a entender o peso daquele evento.
Ground Zero
O skyline de Manhattan é um dos cartões postais da cidade e, portanto, simplesmente olhar para aqueles prédios era uma atração turística… que agora não existe. No passeio de barco que fiz ao redor da ilha, o guia descrevia a cada curva onde estariam as torres, deprimindo todos a bordo. Um dia, saindo do metrô, ouvi alguém comentando: “Sem as torres, nunca sei direito pra que lado tenho que ir”.
Teria sido diferente se houvessem destruído uma escola térrea com 5.000 crianças inocentes. Seria terrível, sem dúvida, mas o turista passeando pelo Hudson River não se lembraria disso na sua rápida visita pela cidade; o executivo saindo do metrô não se lembraria disso ao procurar uma rua; o casal de namorados não se lembraria disso ao assistir qualquer um dos milhares de filmes que se passam em Nova York, e provavelmente não se depararia com imagens e vídeos do ataque na internet, vistos de 47 ângulos diferentes.
Era praticamente impossível não ver as torres gêmeas em Manhattan. Agora, é praticamente impossível não ver a sua ausência. É como se os americanos acordassem todas as manhãs e fossem atingidos pela mesma tragédia ao olhar pela janela. E nesse sentido, consigo entender como o 11 de setembro pode ser visto como o evento mais trágico dos últimos tempos.

Padrão
Sem categoria

A maçã do amor

Com meu retorno ao Brasil se aproximando, em meio a gritos de “menino, não seja bobo, fique aí que isso aqui tá terrível!”, “vem logo que o cinema aqui tá bombando e eu tô com saudade!”, e “pelamordideus me traz um iPad!”, começam as incertezas e inquietações sobre o meu futuro.  Dentre elas, a dramática indecisão em relação ao que trazer de volta, o que vender, o que doar, o que comprar. Uma verdadeira escolha de Sofia.
Assim que cheguei aos EUA em 2009, fui convencido a comprar um MacBook ao invés de um PC. “Mac users become Mac pushers”, disse uma amiga… E a maldição estava lançada. Passado o primeiro mês de “por que ca&%#! eu fui comprar um computador que eu não sei usar!?”, estava completamente vendido. Passava na frente da loja da Apple, branquinha (e sempre lotada!) e ficava admirando aqueles produtos que a humanidade de alguma forma conseguiu viver sem nos últimos milhares de anos.
Dois anos depois, enquanto reviso algumas páginas de roteiro e levo meu roommate canino para passear, decido que vou comprar um iMac. “Já que eu tô aqui, né?” Comprar um iMac por aqui, porém, significa ter de transportá-lo juntamente com toda minha mudança, o que posa alguns problemas dignos de “classe média sofre”.
Começo, então, a checar qual companhia aérea tem a melhor política de bagagens. Verifico as restrições de tamanho e peso, meço a tela do computador, meço a caixa, confiro novamente os valores pra ver se vale mesmo a pena. Checo as especificações técnicas, vou a outra loja, meço a caixa de novo e, enfim, chego a uma conclusão bombástica: eu não preciso de um computador novo.
Meu MacBook (esse mesmo que você tá vendo de pano de fundo!) funciona perfeitamente, e se quero uma tela um pouco maior já que passo o dia na frente de uma, basta ligá-lo à minha sub-utilizada TV e voilá! Ao invés de um computador novo, compro um teclado, um trackpad (ah, o trackpad…), atualizo o software, expando a memória e, por menos de um quinto do preço, tenho o desktop que eu precisava queria, sem a encheção de ter que ficar sincronizando arquivos de computadores diferentes e, é claro, sem ter que trazer o trambolho no avião.
Foi então que percebi quantas coisas eu não preciso. Estando em um país em que roupas, eletrônicos e afins são relativamente baratos e “só você não tem um iPhone”, é fácil cair na cilada do “já que eu tô aqui…”

Com 31 camisetas e 9 calças jeans no armário, eu não preciso de mais roupa, mesmo que seja um pacote de 3 por 19,90. Eu também não preciso um iPad. (Por mais que possa garimpar utilidades pra ele, não há viv’alma que me convença de que aquilo é essencial pra alguma coisa. Pode ser “muito louco”, “irado”, “da hora, velho”, mas essencial, não é.)

Praticar o desapego não é nada fácil, mas nada melhor do que uma mudança transcontinental e taxas de três dígitos para cada mala extra pra te dar uma forcinha. O problema é que do outro lado da balança tem uma loja da Apple, novinha, com lançamentos disfarçados de produtos de necessidade básica implorando para serem comprados.  Não é à toa que o símbolo deles é uma maçã.
Padrão
Sem categoria

Animal kingdom

Desde que me mudei para uma casa no subúrbio de Los Angeles minha relação com animais de toda sorte tem sido bastante intensa.

O mais proeminente deles é Lebowski, o cão.  Sua presença é sempre notável por seus movimentos bruscos, sua cara de pidão e, acima de tudo, pela quantidade absurda de pêlos espalhados pela casa.  Há também os esquilos, que correm do lado de fora da casa, e que enlouquecem Lebowski.  E há ainda uma série de animais menores, menos companheiros e bem menos agradáveis.

Comecemos pelas baratas.  Nas primeiras semanas na casa, éramos recebidos na garagem por uma família de três, quatro, às vezes oito baratinhas, ansiosas por companhia.  Alguns dias e algumas latas de veneno depois, desapareceram.  Esporadicamente um membro da família volta para uma visita… mas não sobrevive.

Tem também as formigas.  Essas vêm em fases.  Ficam meses sem dar as caras, mas quanto voltam, voltam em bando, pra passar umas férias.  Um dia invadiram o lavabo, com ovinhos e tudo.  Tiveram de ser aniquiladas – um verdadeiro genocídio.  Em uma outra ocasião, invadiram a lava-louças.  Nada grave, exceto pelo fato de que alguém teve a genial ideia de matá-las com um spray anti-inseto.  Resultado?  Cinco ciclos de lavagem até que os pratos perdessem o sabor de veneno.  Recentemente invadiram a dispensa.  Venenos em spray e “ant-traps” surtiram um efeito semi-satisfatório.  O próximo passo será adquirir um tamanduá.

Há ainda as moscas.  Como todas as janelas têm uma tela de proteção e a casa está sempre fechada devido ao ar condicionado, elas raramente entram.  Mas também, quando entram, raramente saem.  As moscas gostam de companhia, tadinhas.  Têm a casa toda para explorar, mas quando escapam da fúria das patinhas de Lebowski, ficam por ali, rondando o computador, clamando por atenção.  Recentemente desenvolvi uma técnica bastante eficiente para eliminá-las.  Abro a janela, e espero até que pousem na tela.  Em seguida, num movimento ágil, fecho a janela, prendendo o indefeso animal entre o vidro e a tela.  Dois dias depois, ela se junta às suas colegas de vala.  Para obter o resultado desejado, é preciso manter a janela fechada por dois dias – um preço pequeno a pagar pela vitória.

Mas as minhas favoritas são elas: as aranhas!  Aranha aqui é o que não falta.  Nos primeiros dias foi difícil de me adaptar.  Já entrava no quarto dando “oi” enquanto elas saíam de trás do quadro, do pôster, do relógio, loucas para me cumprimentar.  Ao voltar de viagem, elas me esperavam em lugares mais aconchegantes: a pia, a banheira, a privada.  Totalmente “Aracnofobia”.

Aos poucos, fomos aprendendo a conviver.  Elas migraram para fora de casa e raramente se aventuram pelos espaços internos.  Uma vez no jardim, ah, como se proliferam!  Dominam o território de uma forma que desafia as leis da física.  Quaisquer duas hastes, desde que não movimentadas por mais de 24 horas, estarão fatalmente conectadas por uma teia de aranha.

Outro dia deixei minhas luvas de boxe sobre a mesa do jardim… por dois dias inteirinhos!  Que erro primário…  Devo admitir que não fiquei surpreso ao encontrá-las conectadas por uma suntuosa teia que abrigava sua anfitriã.  Limpei tudo com um papel… mas cadê a coragem pra enfiar a mão ali dentro?  Traz o aspirador, aspira dentro da luva por vários minutos, respira fundo, e vai!  Sucesso.

Certa noite, Logan, meu colega de quarto, avista uma aranha em uma teia que vai da churrasqueira até a parede.

– Cara, é uma viúva negra.  É melhor matar, vai que ela pica o Lebowski!

Concordei.  Chamem-me de cruel, mas sou sempre a favor de matar aranhas, sobretudo dessas que matam a gente. 

Preparamos a emboscada.  Eu seguro a lanterna e ele a ataca com um spray em uma mão, e uma raquete em outra, só por segurança.  Não sei se ela morreu envenenada ou afogada, mas o fato é que ela morreu.

– Melhor tirar ela daqui, vai que o Lebowski come!

Enquanto Logan apanha um copo descartável para recolher o cadáver, noto algo altamente perturbador: a um metro de distância, em uma outra teia, uma OUTRA viúva negra nos observa, à espreita.  Seria a irmã?  A prima?  Não importa.  Ambas têm o mesmo destino fatal e terminam a noite – e a vida – em um copo usado do Starbucks.

Mal sabia eu que meu contato mais íntimo com um animal peçonhento dar-se-ia algumas semanas depois, a 2.000 km dali, em Canyon Lake, Texas.  Foi lá que passei o Spring Break, na casa de veraneio recém-construída da família de Logan.  Durante a construção, Logan frequentemente contava sobre os animais encontrados: cobras, aranhas, centopéias venenosas e muitos, muitos escorpiões.  Uma verdadeira casa dos sonhos.

Ao chegar na casa e conhecer sua família (e a família de Lebowski!), os animais peçonhentos da região tornaram-se assuntos constantes.

– Vocês encontram muito escorpião aqui na casa? – pergunto ao pai de Logan.

– Ah, toda hora!  De vez em quando aparecem umas centopeias também.  Dessas que queimam, sabe?

– Ah…

– Minha neta de 7 anos foi picada por um escorpião há uns meses.  Apoiou a mão em cima de um…

– E teve que ir pro hospital?!

– Magina!  Passei uma pomadinha e ficou tudo bem.  Outro dia achei um no travesseiro da minha cama, mas não fala pra minha mulher, senão ela fica assustada!

Mas esse povo se assusta com qualquer coisa, não?

A semana passa, as malas estão prontas para o voo de volta do dia seguinte, e nenhum visitante maligno aparece.  Despeço-me dos pais de Logan que partem um dia antes, e vou ao banheiro.  Ao levantar a tampa do vaso, sinto algo queimando meu dedo.  Em um reflexo, chacoalho a mão e vejo que algo cai dentro do vaso.  Avalio meu dedo, que agora arde intensamente.  Nenhuma marca.  “Deve ter sido a tal da centopeia que queima”, penso.  E eis que ao olhar dentro do vaso, lá está ele, nadando por sua vida: um escorpião.

Bato na porta de Logan.

– Cara, você não vai acreditar, mas eu acabei de ser picado por um escorpião.

– Tá me tirando, né?

– Juro.

Ele ri.  – Peraí que eu vou ligar pro meu pai. (…) Ele falou pra passar essa pomada aqui.  Eu vou dar uma cochilada, se você se sentir mal, me avisa.

– Tá… Não tranca a porta!

Passo a tal da pomada, volto pra Los Angeles, e no dia seguinte, nem sinal do ocorrido.  Fica a história pra contar, e a foto (fora de foco) do animalzinho, nos seus últimos segundos de vida.

Semana passada, Logan me mostra a foto de uma tarântula, que caminha pela porta de entrada daquela mesma casa.

– E aí, vocês mataram?!

– Não, não.  Elas comem os escorpiões!

Ah, então tá.

Padrão