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The unfriendly skies

Saí mais cedo de casa, já pensando que entre cruzar a cidade, devolver o carro alugado e despachar a mala, era possível haver imprevistos. Cheguei ao LAX com menos tempo livre do que previa, graças à demora na devolução do Nissan Versa – que foi parar na minha mão depois de o Ford Focus apresentar um problema no motor e de o Hyundai Elantra ficar sem pneu.
Procuro um ser humano no guichê do check-in da United, pronto para voar “the friendly skies”. Não há nenhum. Uma atendente se aproxima.
– Vai fazer check-in?
Não, não. É que eu gosto de visitar aeroportos e trazer minha mala pra passear.
– Sim.
– É tudo automático. Você tem que usar aquela tela ali – esclareceu ela com a cortesia típica de alguém radiante em estar trabalhando às 10h da noite de um domingo.
Coloco minha mala na balança. 56 libras. Um novo atendente se manifesta.
– O limite é 50. Você precisa tirar 6 libras.
Explico que meu ticket me permite levar 70 libras. Ele ignora. A primeira atendente retorna. Aquela, radiante em estar trabalhando às 10h da noite de um domingo.
– Qual é o problema?
– Meu voo é parte de um trajeto internacional para o Brasil, por isso posso despachar duas malas de 70 libras.
– Não, não pode. Se quiser discutir, vai falar com aquela senhora no guichê número seis.
Sigo com minha bagagem até o guichê número seis. Uma senhora de um metro e cinquenta se aproxima. Não sei dizer se era asiática, latina ou ambos. Vamos chamá-la de Nancy. Explico a situação a Nancy. Ela me olha com desdém. Ou melhor: com pena. “Esse idiota acha que vai embarcar com uma mala de 56 libras!” Ela pergunta qual o destino do meu voo.
– Filadélfia, com conexão em Houston.
– Então, “querido”, seu voo é local.
– Então, “querida”, o site de vocês informa que este trecho, por ser parte de uma viagem com origem e destino no Brasil, me permite despachar duas malas de 70 libras.
– Não, essa não é nossa política – responde ela, nada “friendly”.
Desisto de discutir e chego à conclusão de que é mais fácil transferir as 6 libras para minha bagagem de mão e encerrar o assunto.
Forço o zíper emperrado na bermuda e abro a mala no meio do saguão. Entre presentes e cuecas usadas, resgato alguns itens mais pesados, como dois potes de limpa-carpete em pó – os quais, descobriria depois, poderiam ter sido comprados com toda facilidade na cidade-destino.
Neste momento, Nancy se aproxima.
– Quando é mesmo seu voo para o Brasil?
– Semana que vem.
Eis que Nancy começa a gargalhar.
Não costumo ter pensamentos homicidas, mas Nancy soube resgatá-los.
– Do que você está rindo? – pergunto, contendo meus instintos.
Nancy ignora a pergunta e volta, sorridente, ao seu posto no guichê número seis. “Friendly”.
Respiro fundo, sento sobre a mala de mão para conseguir fechá-la e despacho a mala maior – não sem antes provar para o atendente número 2 que não, eu não precisava pagar pela mala despachada.
Corro para o controle de segurança, a essa altura já em cima do horário para o voo. Passo pelo raio-x. Um agente me chama para o canto.
– Senhor, precisamos abrir a sua mala. 
Aquela, que eu precisei sentar em cima para conseguir fechar.
Ele retira o pote de limpa-carpete em pó, é claro, e chama um novo agente, que ainda está em treinamento.
– O senhor está atrasado para o voo?
– Ainda não – respondo apanhando o relógio, o celular, o laptop, o casaco, os sapatos e a pasta de dente da esteira.
Luvas, máscaras, conta-gotas: todo um aparato é utilizado para provar que não, o limpa-carpete que deveria estar na mala despachada não é cocaína.
Enfim chego ao portão, já no meio do embarque, e, seis horas mal dormidas depois, chego ao destino. Reencontro minha mala de 50 libras na esteira e sigo ao encontro de minha irmã, que me aguarda. Já a caminho do carro, algo chama sua atenção.
– Por que sua mala tem pregos saindo pra fora?
– Que pregos? – pergunto, antes de notar a famigerada mala sem um dos pés.
– Quer voltar lá pra reclamar?
Retorno ao balcão de malas perdidas e aguardo enquanto uma funcionária explica a um passageiro do meu voo que sua mala pode estar em Nova Iorque, na Califórnia ou no Alasca.
– Posso ajudar?
– Sim. Vocês quebraram minha mala.
Ela observa o dano.
– Seu voo era nacional ou internacional?
Como é possível que uma pergunta tão banal tenha se tornado tão complexa nas últimas horas?
– Nacional – arrisco.
– Então, é que para voos nacionais a companhia não cobre danos nas rodas, nos pés o nas alças. Só na estrutura.
– Bom, na verdade, esse voo é parte de um ticket internacional…
Ela checa no computador. Pergunto qual a lógica por trás de tal política.
– It’s business – ela responde com um sorriso cúmplice. O ticket internacional é mais caro, logo, tem cobertura maior.
Ela desaparece por alguns minutos e retorna com uma mala nova em folha. Pela segunda vez em 12 horas, abro minha mala no meio do saguão e transfiro os presentes e as cuecas usadas para a mala nova. A funcionária parte com a minha, que será consertada e repassada a algum felizardo que tiver sua mala destruída em um voo “friendly”.
Chego em casa e logo acesso o site da companhia, fazendo uma reclamação formal sobre o atendimento “friendly” de Nancy e sua trupe, indignado com a falta informação de toda equipe. “Humilhado! Desrespeitado! Decepcionado!”, para destacar algumas palavras. Drama!
Uma semana depois, já de volta ao Brasil, recebo a resposta da United, com um pedido de desculpas pelo comportamento de Nancy, porém afirmando que “após uma análise cuidadosa do meu itinerário, foi constatado que a política de bagagem aplicada estava correta.”
Respondo, frustrado, encaminhando a informação dada pelo próprio site da companhia, provando que eu tinha razão. Observo minha mala nova, buscando consolo. Mas meu esforço é em vão.

Já posso ouvir Nancy gargalhando, triunfante, em frente ao guichê número seis, enquanto aguarda sua próxima vítima, que espera, inocente, voar “the friendly skies”.
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Cem anos sem solidão

Hoje minha avó faz 100 anos.
Cem. Anos.
Paremos aqui um instante. Ter 100 anos significa ter nascido antes de existirem Copas do Mundo. Antes de inventarem a televisão. Antes de existirem voos comerciais.
Significa ter vivido as duas Guerras Mundiais.
Acompanhado vinte e duas Olimpíadas.
Visto nove Papas.
Significa também que TODAS as pessoas mais velhas que conheceu já não vivem mais…
Conhecer alguém com cem anos também incita à inevitável pergunta: qual o segredo?
Minha avó nasceu na Itália e provavelmente teria sido freira, não tivesse conhecido meu avô e vindo para o Brasil – em uma época em que dizer adeus significava, mesmo, dizer adeus.
Assim, desafiando todas as expectativas de quem observa a pequena senhorinha na missa das sete, minha avó viria a ser uma das pessoas mais ousadas que já conheci.
Teve um marido, quatro filhas, dez netos e onze bisnetos. Insistiu em morar sozinha dos 66 aos 96 anos, nunca teve um celular e dizia sem pudor quando não gostava de um presente. Quer ousadia maior?
Recentemente sua mente deixou de acompanhar seu espírito e sua lucidez começou a se esvair, mas não sem antes termos esta conversa, supostamente trivial:
– Tá tudo bem com você?
– Tudo sim, Nonna.
– Tá gostando do trabalho?
– Tô sim.
– Porque se não estiver, vai pro próximo! Só não fica parado. Não tá bom? Segue em frente!
– Pode deixar, Nonninha.
– Sabe, eu posso te dizer: eu fiz tudo o que queria na vida… Não me arrependo de nada!
Demorei alguns instantes para absorver a magnitude da afirmação.
Se já são pouquíssimos os centenários no mundo, o que dizer dos que vivem um século podendo dizer o mesmo?
E então me pareceu claro que o segredo para viver mais tempo é simplesmente viver mais.
Nonninha intrigada com meu iPhone.
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A Copa do mundo é minha

Eu nunca fui muito fã de futebol.

Brincava de gol-a-gol quando era pequeno, cheguei a fazer escolinha na segunda série… mas parei por aí.

Mesmo assim, eu adoro a Copa. Sempre gostei da ideia de boa parte do mundo com os olhos voltados a um único evento – que não fosse uma guerra ou um acidente de avião.

Minha primeira Copa de verdade foi a de 94. Lembro-me de praticamente todos os jogos, a maioria deles visto com os vizinhos do prédio, com uma overdose refrigerante e amendoim japonês, seguida quase sempre de uma leve dor de barriga.

O empate com a Suécia na primeira fase, a cotovelada do Leonardo nas oitavas, o gol “cala a boca” do Branco no jogo tenso contra a Holanda… E, é claro, o inesquecível pênalti de Baggio e os gritos de “É tetra!” de Galvão Bueno. Mal sabia eu que 17 anos depois estaria naquele mesmo estádio, assistindo – veja só – a um jogo de futebol americano.

Até hoje tenho guardada a camisa do Brasil (que não era do Brasil, mas de algum banco ou empresa de tintas) com todos os nomes dos vizinhos assinados, consolidando em um pedaço de pano aquele mês tão inesquecível.

Vinte anos e um título depois, chega mais uma Copa. Surgem as legiões de fanáticos, com orgulho de serem brasileiros; surgem os pessimistas, a espera do caos aéreo, dos ingressos falsos e dos turistas assassinados. Surgem os bolões – impossíveis de acertar. E surgem também as intensas trocas de figurinha.

Como crianças na hora do recreio, de uma hora para outra, marmanjos começam a se reunir nos bares, no cafezinho, na mesa de trabalho, ávidos pelos cromos faltantes.

Comecei a colecionar o álbum quando senti que precisava de uma atividade que rompesse o ciclo computador-do-trabalho/celular/computador-de-casa. Qualquer atividade offline me pareceu atraente, e quando vi um álbum jogado na casa dos meus pais, achei que tinha encontrado a resposta.

Na produtora onde trabalho, em um andar com 300 funcionários, a máfia das figurinhas rolou solta. Bolos presos em elásticos passeavam de mesa em mesa, com homens e mulheres, de 20 a 50 anos, cada um a sua maneira, checando os números que faltavam numa folha de papel, num aplicativo ou num post-it.

Imperava o sistema de confiança. “Toma, eu peguei 6.” “Beleza, eu peguei 10. Pega mais 4 aí.” “Não precisa, depois a gente acerta.”

Sem perceber, passei a conhecer uma pessoa nova a cada dia. Passei a dar mais bom dia.

Descobri que uma colega é polonesa; trocamos dez figurinhas e conversamos sobre o jogo de vôlei entre nossas seleções, que ocorria ao vivo naquele momento (sim, existiam outros jogos rolando além da Copa.) Descobri que um colega estudou documentário na Argentina; me contou que dirigiu um curta-metragem sobre a morte e me prometeu conseguir a figurinha 34.

Outro colega procurava freneticamente a figurinha 241 – a última que faltava. Todo o andar se uniu em busca pelo derradeiro cromo. Ganhou a figurinha de presente de um funcionário a 18 baias de distância.

Dos odiadores de plantão, ouvi diversos comentários do tipo: “Que absurdo! Onde já se viu? Um monte de marmanjo trocando figurinha na hora do almoço!”

Seria melhor um monte de marmanjo isolado ao telefone?

Nos dias de jogo, a festa era certa. Mesmo com trânsito, mesmo com 7×1, dia de jogo era dia de sorriso. Era dia de encontrar os amigos, de torcer, de fazer charutinho de kafta com gorgonzola na churrasqueira e até de conhecer gente nova.

Foram 32 dias, 64 jogos: 64 chances de quebrar a rotina, de viver um dia diferente dos outros 333.

Pra mim, a Copa é isso. Seja no Brasil, na Rússia ou na Eritreia, a Copa tem pouco a ver com futebol. Tem a ver com as pessoas. Tem ver com os momentos.

Eu já costumo interagir bastante com as pessoas ao meu redor, já costumo festejar os dias mais cinzentos. 

Imagina na Copa! 


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No pain, no gain

Hoje faz seis semanas que uma dor de cabeça me acompanha. É uma dorzinha leve que começa na nuca, passa pelas têmporas e se encerra no rosto.
Enquanto passeio por médicos e faço exames para saber o que acontece, começo a lembrar de todas as dores que já senti.
A primeira vez que me lembro claramente de ter sentido dor foi aos cinco anos de idade. Estávamos em uma viagem de família na casa de uma prima, prestes a seguir para outra cidade. As malas prontas, janelas sendo fechadas. Eu aguardava no topo da escada. Minha irmã tentava fechar a porta do quarto, mas não conseguia. Ela fazia força, mas a porta não fechava. “Tem alguma coisa prendendo a porta!”
Era a minha mão.
Esmagada ao lado das dobradiças, entre a porta e o batente, minha mão impedia que a porta se fechasse. Minha irmã, de costas, não me via. Eu, em choque, não gritava. Não me lembro muito do que aconteceu depois. Lembro que eu chorava, lembro que minha mãe acariciava minha mão no táxi. Mas não me lembro da dor em si.
Alguns anos depois, correndo pelo playground do prédio, senti que tinha pisado em algo estranho. Chovia, e a água lavou o pouco de sangue que saiu da ferida. Dias depois descobri que tinha um caco de vidro alojado no pé. Tentamos a farmácia, mas um mero toque já me fazia tremer de dor. Ficou claro que eu iria precisar de anestesia. Fomos ao pediatra. “Só uma picadinha e você não vai sentir mais nada”.
Dessa dor eu me lembro muito bem.
Lembro como eu esmagava a mão da minha mãe, que devia estar em tanta dor quanto eu. Lembro também da cara das crianças da sala de espera, depois de ouvirem meu grito.
Conforme fui ficando mais velho, as dores físicas foram ficando mais comuns. Teve a luxação no braço jogando bola, teve a pedra no rim. E, talvez por isso, meu corpo tenha criado seu próprio mecanismo de defesa: o ataque de riso.
É chegar perto de uma agulha ou começar a sentir uma dor mais forte, pronto: não consigo controlar a risada. Se estou tirando sangue, a enfermeira pergunta, entretida: “Tá tudo bem?” Certa vez em uma cirurgia para a retirada de um nevo nas costas, a dermatologista ria comigo: “Se você não parar de rir eu não consigo cortar!”
Com a idade, começaram a vir também as outras dores. Aquelas que não são físicas. Aquelas que, nem de longe, provocam ataques de riso.
Tem a dor da saudade. Do prédio que você já não mora mais, da escola que foi demolida, dos lugares que você já não visita, da rotina que você gostava e já não existe mais. E principalmente das pessoas. Daqueles amigos que eram parte tão íntima da sua vida e que ficaram pra trás; daqueles que ficaram longe. Mas essa dor é mais doce, deixa um gosto bom.  É uma dor de “ah, que pena que acabou!” e pra essas não tem melhor remédio do que o tempo.
Tem a dor da espera. Do resultado de uma prova, de um exame. Lembro o dia da divulgação da lista de aprovados no vestibular. Eu sentado no computador, ouvindo dezessete vezes a mesma música, atualizando a página do UOL de 3 em 3 segundos. A espera também pode ser por uma pessoa que não chega, que não liga, que não manda mensagem. Quantas vezes ainda não ficaria grudado ao telefone, checando a tela a cada piscada? Mas essa dor, como um sabor muito salgado que é eliminado com um simples copo d´água, pode passar em menos de um segundo, com o resultado que sai, a pessoa que chega, o telefone que toca.
Tem a dor do arrependimento. Essa é azeda, vai corroendo por dentro. Faz você viver e reviver aquele dia, aquela atitude, calculando tudo que poderia ter feito diferente. Mas essa não tem muito remédio: é aceitar que o que passou, passou, o que está feito, está feito e que nenhum exercício de ficção ou universo paralelo vai alterar o que já ficou pra trás.
E tem a dor da traição. Não só dessas que tem amante no meio. Traição dessas que você se sente enganado, seja qual for a situação; dessas que destroem suas expectativas, que tiram sarro de tudo aquilo em que você acreditava, como um adolescente cruel que ri de uma criança que ainda acredita em Papai Noel. É aquela dor que te deixa revoltado com o outro, consigo, com o mundo; que te faz querer deitar na cama, abraçar o cachorro e não sair mais de lá. E você nem tem um cachorro. Essa dor é a mais amarga. Deixa um gosto difícil de eliminar. E pra ela só tem um remédio: o perdão.
Para essas dores, o meu analgésico paliativo são as comédias, que provocam aqueles ataques de riso que meu corpo ainda não aprendeu a conceder. E não é que até as comédias precisam de momentos sem risos para valorizar a piada?
Como muitas das coisas que queremos evitar, as dores têm uma função importante: fazem a gente crescer. Elas mostram como a gente é forte; como a gente sempre consegue começar de novo. Mostram uma capacidade de superação que a gente não imaginava ter.
E, acima de tudo, mostram como é importante valorizar os momentos sem dor.
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Minha vida como Walter Mitty

Outro dia decidi desbloquear meu aparelho de celular. Desde que voltei dos EUA, há mais de dois anos, meu Motorola i465 estava guardado na gaveta com todos os apetrechos que funcionavam perfeitamente: carregador de parede, de carro, cabo de dados, fone de ouvido etc.

Decidi que era hora de ele voltar a viver e levei-o a uma assistência técnica.

– Olá, vocês por acaso conseguem desbloquear este aparelho pra que ele funcione no Brasil?

Simpática, Janaína disse que precisaria fazer alguns testes e me daria um retorno no dia seguinte. Comprei uma capinha para o meu iPhone e parti.

No dia seguinte, ela me retorna:

– Conseguimos sim. Vai ficar 95 reais.

Hesitei. Não precisava daquele aparelho para nada, mas sentia que ele precisava existir e exercer sua função de conectar pessoas. Quantas mensagem já não haviam sido trocadas nele! Quantas ligações, quantos almoços combinados, cinemas agendados… Não poderia privá-lo de tantas outras aventuras que ele ainda poderia vivenciar. Aceitei.
Na semana seguinte, Janaína me recebe com o aparelho em mãos. Ela testa um chip da Oi. Não funciona.

– É, então, ele só funciona como Nextel, mesmo.
– Oi?
– Esse aparelho é só Nextel – diz ela, segura.
– Não, não é. Eu sempre usei como um aparelho normal.

Surge Gustavo, o irmão/colega/chefe/namorado/cara-que-resolve-pepino.

– Olá. Qual é a situação?
– Eu deixei esse celular pra desbloquear, mas ninguém me avisou que só seria desbloqueado para Nextel.
– Bom, mas isso era óbvio.
– Oi?
– Esse aparelho é um Nextel, não é um celular.
– Ah, não? E como é que eu usava como celular comum?
– Mas aqui no Brasil é só Nextel.
– E vocês não pensaram em me dar essa informação quando eu deixei o celular aqui e perguntei: “Dá pra desbloquear?”
– Mas isso era óbvio.

Notei que a argumentação não iria muito longe. Frustrado, decidi tentar um acordo quanto ao valor.

– Vocês me dão um desconto, já que o serviço foi incompleto, e ficamos todos felizes.

Mas isso, é claro, não era óbvio pra eles. Vencidos pelo cansaço, consegui o desconto e parti, resignado à situação.
No dia seguinte, levo o aparelho a um amigo. Ele insere seu chip Nextel. Não funciona. Tento outro chip. Nada. É óbvio…

Nesse momento, como Ben Stiller em A Vida Secreta de Walter Mitty, uma realidade paralela forma-se na minha frente. 
Me imaginei voltando à loja, revoltado, onde Janaína e Gustavo ririam da minha cara, recusando-se a refazer o serviço, dizendo: “Você deveria ter testando um chip Nextel antes de sair da loja. É óbvio.” Me imaginei roubando as capinhas de celular penduradas na parede e saindo da loja vingado. Eles viriam atrás, mas já seria tarde – meu carro já estaria disparando rua abaixo. Pelo retrovisor, eu os veria gritando revoltados enquanto eu sorriria. Na esquina seguinte, um reviravolta: policiais me alcançariam e me trariam de volta. Janaína e Gustavo me acusariam de tê-los roubado. Eu me faria de ofendido e mostraria o comprovante de débito do cartão, provando que havia pago pelas capinhas – que venderia em segredo e recuperaria o valor perdido e um pouco mais. Indignados, os pombinhos refutariam inflamados que aquele valor se referia ao desbloqueio. “É óbvio!” Nesse momento, eu sacaria o celular triunfante e mostraria ao policial: “Que desbloqueio? Meu celular está bloqueado! Não sei do que eles estão falando!” Os policiais sairiam da loja – não sem antes ralhar com o casal – e me pediriam desculpas. Eu daria um sorriso triunfante e partiria de carro, com o porta-luvas recheado de capinhas de celular.

Mas a vida às vezes é anticlimática e faz com que Gustavo peça desculpas pelo ocorrido e devolva o celular devidamente desbloqueado dias depois.

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Abraços repartidos

Em novembro de 2011, publiquei um texto sobre um projeto social desenvolvido em Los Angeles, onde dez crianças, acompanhadas individualmente por dez voluntários, encontram-se durante várias semanas para escrever um pequeno roteiro a ser encenado por atores aos familiares das crianças e a seus colegas de classe.
Em agosto deste ano, a ONG Sonhar Acordado deu início ao projeto Contando Sonhos: uma versão brasileira – e turbinada – do projeto americano. No último dia 30, sua primeira edição chegou ao fim, com uma apresentação inesquecível de 11 atores sensacionais, para uma plateia de 200 pessoas que extravasavam empolgação. Mal sabia eu que uma semente plantada há mais de dois anos renderia uma das tardes mais incríveis da minha vida; seria a fonte dos mais intensos abraços que já recebi.
Mas a verdade é que esses abraços estão longe de serem só meus. Porque, convenhamos, para que o projeto viajasse dez mil quilômetros de Los Angeles a São Paulo e aterrissasse com sucesso, foi preciso muito mais do que a vontade de um mero mortal.
Foi preciso, antes de mais nada, alguém que acreditasse no poder transformador de contar histórias e estivesse disposto a arriscar recursos com uma iniciativa ainda incerta. Esse alguém foi o Diretor da Filial de São Paulo do Sonhar Acordado, Bruno Velleca.
Mas Brunão não disse: “Sim, vai fundo!”. Ele disse: “Sim, vamos juntos!” Com isso, Contando Sonhos ganhou não só um nome e uma casa, mas ganhou raízes. Ganhou pessoas. Pessoas como Hugo Teixeira: uma fonte inesgotável de amor e energia, que ilumina qualquer ambiente. Pessoas como as crianças do Colégio Mão Amiga, que lavam as mãos antes de comer, que cumprimentam os visitantes em pé e que, aos dez anos de idade, comprometeram cinco dos seus preciosos sábados com atividades escolares. E pessoas como os dez voluntários-sonhadores-contadores, que mergulharam de cabeça no projeto, sem saber quão funda era a piscina.
Foram os valores trazidos pelo Sonhar Acordado que fizeram o Contando Sonhos caminhar firme pelos últimos quatro meses. Foi preciso PACIÊNCIA para enfrentar horas de trânsito em pleno sábado – na ida e na volta! Foi preciso CONSTÂNCIA para abdicar de amigos e família e estar pronto para dedicar-se às crianças às 9h da manhã por cinco sábados. Foi preciso PERSEVERANÇA para sentar com uma criança agitada após o almoço, enfrentar o calor e fazê-la focar por horas em uma atividade que requer um software que nem você mesmo sabe bem usar. E acima de tudo, foi preciso ESPERANÇA para acreditar que aquilo tudo daria resultado.
E deu.
No aguardado dia do grande show de encerramento, o espírito de equipe do Sonhar Acordado nunca esteve tão presente. Você pergunta: “Cesinha, como faço para reservar um ônibus?” e, horas depois, tem um ônibus reservado, o horário marcado e o telefone do motorista em mãos. Você diz: “Richard, vou te copiar nos e-mails, tudo bem?” e, quando nota, todos os assuntos do e-mail estão resolvidos antes mesmo de ele ser enviado. 
Precisa desenhar uma faixa? “Eu faço!” Precisa desenhar um programa? “Eu faço!” Alguém te liga e pergunta: “Uma amiga tem alguns Oscars em casa, você quer?” (Quem tem Oscars em casa!?) Outro alguém sorri: “Comprei rosas pra vocês, posso entregar?”
Surge uma equipe de seguranças devidamente vestidos e identificados, que acompanham as crianças a cada passo. Surge um exército para montar sanduíches, organizar bebidas, e em minutos uma sala de aula se transforma em um lounge com música ambiente e um time de animação para os convidados. Uma equipe de imprensa se estrutura em segundos: fotógrafos, jornalistas, câmeras… Meu Deus, de onde surgiu tanta gente?
Acreditando no lema “toda criança tem algo dizer, toda criança merece ser ouvida”, naquela tarde chuvosa de sábado, o amor e a dedicação de dezenas e dezenas de voluntários tornaram possível criar um dia inesquecível na vida daquelas estrelas-mirins.
E a julgar pelos sorrisos, a missão foi cumprida.
“Nós podemos mudar o mundo e torná-lo um lugar melhor. Está em suas mãos fazer a diferença.” – Nelson Mandela 
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A beleza das coisas

Há algumas semanas, após nove temporadas, a série americana “The Office” chegou ao fim.

E daí?

De fato, isso faz pouquíssima diferença na vida da vasta maioria da população humana, mas para este ponto insignificante do universo – eu – isso teve, sim, uma considerável relevância.

Explico.

Comecei a assistir a “The Office” em meados de 2009, quatro anos depois de sua estreia. Cheguei atrasado à festa. Ainda assim, logo estava enturmado e me divertindo com todos os outros.

Quem me apresentou à série foi Logan, meu colega do AFI – o mesmo que se tornaria meu melhor amigo. Não recordo bem como, mas sei que de repente tinha em mãos seus DVDs, com todas as primeiras temporadas.

Foi numa segunda-feira qualquer de setembro, deitado na cama, “The Office” na tela do laptop, que me dei conta de como estava fascinado com as pequenas coisas do meu novo dia-a-dia na ainda desconhecida cidade de Los Angeles. Olhei pra trás e percebi que o dia não havia me trazido nada de extraordinário: aula, supermercado, lavanderia, talvez um almoço com os amigos, e uma noite tranquila com Michael, Pam, Jim, Dwight e companhia.

Ali me dei conta pela primeira vez de que não precisava de muito.

Em dezembro, voltei de férias ao Brasil e “The Office” veio comigo no avião. Aquela viagem pela qual eu esperava tanto durante as primeiras semanas nos EUA já não se fazia tão necessária agora que até lavar a roupa parecia especial.

Angela, Kelly, TobyCreed me fizeram companhia naquelas semanas no Brasil; me lembravam da boa rotina que me aguardava no retorno aos EUA.

Seis meses depois, Logan e eu já éramos roommates. Assim como a daqueles personagens, minha rotina também mudava com a constante entrada e saída de novas figuras.

Assistir à “The Office” servidos de pizza, pipoca, taquitos ou qualquer que fosse o menu da noite – e com Lebowski latindo aos carros na rua – passou a ser rotineiro na nossa semana. Também passaram a ser rotineiros os jogos de tênis aos domingos, filmes no multiplex ao lado nas noites livres, comida japonesa entre uma aula e outra.

Em 2011, assim como Steve Carell, me despedi daqueles que tinham sido personagens importantes do meu dia-a-dia, da minha história. Voltei ao Brasil e algum tempo se passou até que conseguisse criar uma nova rotina e voltar a acompanhar o dia-a-dia de Oscar, Andy, ErinPhyllis – agora do meu antigo quarto, já sem pizzas do Papa John’s ou Lebowski correndo aos meus pés.

Mais um ano – e uma temporada – se passaram até que fui morar sozinho. Aos poucos, fui recuperando o fascínio daquela segunda-feira de setembro, em que cozinhar e limpar a casa transformaram-se em exemplo da mais pura felicidade.

Aí veio o último episódio de “The Office”. Era hora de vê-los na tela de forma inédita pela última vez. Não eram apenas personagens de um vídeo de YouTube, que eu conhecera três minutos antes, ou mesmo de um filme, apresentados cem minutos atrás: eram personagens que eu havia acompanhado por quatro anos, que haviam marcado momentos incríveis do meu dia-a-dia; personagens que tinham seus dias documentados como se fossem os mais importantes de suas vidas; personagens criados por pessoas que, assim como eu, um dia tiveram o sonho de dar vida a criaturas que só existiam em suas mentes.

Ao final do episódio, Pam se pergunta: Por que alguém escolheria uma empresa de papelabsolutamente comum para ser o tema de um documentário?

Era como se me perguntasse: Por que alguém escolheria as atividades mais comuns do dia-a-dia como o ponto alto de uma viagem, de uma época, de uma vida?

Na última frase de toda série, ela mesma dá a resposta:

“Existe muita beleza nas coisas mundanas. Não é mais ou menos esse o ponto?”


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Ensaio sobre a surdez

Outro dia, ouvindo um dos episódios do programa de rádio This American Life, conheci a trágica história de um médico adorado por seus pacientes que estrangulou o próprio pai.
A história é longa e complexa, mas um elemento importante é que o médico, já na cadeia, alegando problemas neurológicos, pedia insistentemente por 80 miligramas de um medicamento chamado Celexa. Anos se passaram até que ele fosse corretamente diagnosticado. 

A medicação recomendada? 80 miligramas de Celexa.
Uma das perguntas que o programa levanta é: por que ninguém o ouvia?
Em situações menos drásticas, o mesmo acontece. Você está no McDonald’s e pede um McChicken com suco de maracujá. A atendente replica:
– Qual a bebida?
– Suco de maracujá.
Ela fala o valor.
– Aceita ticket?
– Sim.
Você entrega o cartão.
– Crédito ou débito?
– É ticket.
No Cinemark, a mesma coisa. Você pede uma pipoca média com manteiga.
– Qual o tamanho?
– Média
Ela pega o saquinho.
– Manteiga?
– Sim.
Na hora de pagar você entrega o cartão.
– Crédito, por favor.
Ela apanha o cartão.
– Débito, né?
Outro dia fui ao Banco do Brasil com o médico que me vendeu seu carro. Ele precisava pagar o IPVA. Tentou no autoatendimento. Não conseguiu. Quis pegar uma senha para pagar no caixa. O funcionário implicou.
– Você precisa pegar a guia aqui no autoatendimento primeiro.
– Não dá. O carro é do Distrito Federal, preciso pagar direto no caixa.
O funcionário insiste. Ele volta ao autoatendimento. Em vão.
– É, realmente, não dá.
– Posso tentar no caixa? Eu já paguei lá um vez, tenho certeza que dá.
– Pode, mas você vai perder seu tempo, não vai conseguir.
Conseguiu.
Um mês depois, é minha vez de pagar o licenciamento do mesmo carro, no mesmo banco. Consigo chegar ao caixa sem obstáculos. Entrego o documento do veículo ao atendente.
– Bom dia, preciso pagar o licenciamento.
– Você precisa pegar a guia no autoatendimento primeiro.
– Então, na verdade, como esse carro é do Distrito Federal, é diferente. Eu sei que preciso pagar direto no caixa.
– Olha, deixa eu te explicar uma coisa: não importa o que você me disser, você não vai conseguir pagar o licenciamento sem passar no autoatendimento antes.
A atendente ao lado interfere.
– Ah, não, peraí. Quando é do Distrito Federal é diferente.
Ela aperta algumas teclas no teclado dele.
– Tem que colocar esse código.
Ele sorri sem graça para mim.
– Ah, é uma exceção, né? É que a gente já tá tão acostumado com o outro jeito…
Exato. Por isso, bastava ter ouvido.
Semanas depois, no Detran, ninguém sabe me informar, claramente, que taxas pagar. Até que uma supervisora me avisa:
– Pague a taxa como carro novo, não como carro usado. Se você pagar errado, a burocracia pra receber o reembolso é grande.
Não me convenci. Olhei na internet e vi uma informação diferente. Paguei diferente.
Resultado? Até hoje tento receber o reembolso da taxa.
Bastava ter ouvido.
Não é à toa que um dos lemas do programa social com o qual sempre estive envolvido é: “Toda criança merece ser ouvida.” Encontrar alguém que de fato ouça o que você está dizendo – e não esteja apenas esperando sua vez de falar – é cada vez mais difícil.
Com a velocidade que a informação viaja hoje em dia, a ilusão de que estamos nos comunicando é grande. Facebook, Twitter, Blog, SMS, comentários em notícias da internet: falar é fácil, mas será que alguém está ouvindo?

A julgar pela conversa entre minha irmã e minha sobrinha de 7 anos, ainda há esperanças:
– Mami, hoje eu tenho lição de casa, mas não preciso fazer.
– Por que não?
– A lição é treinar ficar quietinho enquanto o outro fala.

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E.R. – Segunda temporada

Outro dia tive que fazer uma ressonância.
Não sou do tipo que tem problemas para ir ao médico, fazer exames ou ir a hospitais. Sempre concordei com uma amiga que diz: “hospital é onde você vai pra se curar”. Com esse espírito, cheguei ao laboratório preparado para entrar no tubo barulhento e descobrir o que é que faz minha coluna doer.
Na recepção, respondo a perguntas do tipo: “Você já levou um tiro?”, “Tem algum projétil alocado no corpo?”, “Você usa prótese peniana?”. Assinalo “ainda não” em todas as perguntas, descrevo os remédios que estou tomando e sigo para a sala de exames. A enfermeira olha a minha ficha:
– Dor na coluna, né? Já tá tomando antiinflamório…
– Não, não. – interrompo.
– Ué, tá aqui: minoxidil.
– Minoxidil é um remédio pra queda de cabelo.
– Ah… Bom, pode deixar suas roupas ali no armário e se trocar naquela sala.
De camisolinha e bunda de fora, volto para a sala de exames. Ela pede para que eu me deite e aguarde. Minutos depois, ouço alguém vomitando nas proximidades. A enfermeira tenta uma conversa:
– Você tá bem? Fala comigo. O que o senhor tá sentindo?
[grunhidos]
A enfermeira volta para a sala onde estou, prepara uma seringa e sai novamente. A pergunta se repete. O grunhido se repete. Ela volta para preparar mais uma seringa.
– Vem cá, eu vou ter que tomar contraste? – pergunto.
– Ah, não… Mas isso não é por causa do contraste. É que ele tá em jejum.
Ela parte. 
“Mas eu também estou de jejum, porque me MANDARAM estar em jejum” – penso.
Antes de sair, ela solta um animador:
– Pode relaxar porque ainda vai demorar um pouquinho…
Uma médica passa pela minha sala.
– Você está em jejum?
– Sim.
– Há quanto tempo?
– Umas seis horas.
– Seis!?
Ela parte, chocada. Ouço-a comentar com outro enfermeiro:
– Leva umas bolachinhas pro outro paciente que ela tá há seis horas sem comer.
O enfermeiro entra com um Toddyinho e uma bolacha de água e sal.
– Mas eu não tinha que estar em jejum?
– Só se for tomar contraste, mas você não precisa.
E não podiam ter avisado antes?
O paciente moribundo é trazido para a sala ao lado. A médica insiste:
– Antonio, fala comigo. Como você tá se sentindo? Tá melhorando?
[grunhidos]
– Não tô entendendo. O enjoo passou, Antonio?
– Marcos…
– Hein?
– Meu nome é Marcos…
– Ah, perdão. Tá melhor, Marcos?
– Não consigo respirar…
A enfermeira decide, enfim, chamar uma ambulância:
– Boa noite. Temos um paciente aqui que fez uma ressonância e está passando mal. Parece ter febre, sudorese fria, dificuldade para respirar… Idade? 70. Não, espera! Ah, ele nasceu em 70… Ele tem 33. Não! 43.
Com a ambulância a caminho, o enfermeiro volta à minha sala.
– Só vou terminar de limpar o aparelho e já te levo.
Ele sai e conversa com a médica.
– Já vou levando ele lá e posicionando no aparelho, tá?
– Mas você sabe o que tem que fazer?
– Ué, não é só empurrar a maca?
A essa altura, toda minha tranquilidade já foi pro espaço e a confiança no serviço médico foi substituída pela certeza da morte iminente.
O enfermeiro volta.
– Vamos lá?
Será que eu preciso mesmo saber porque minhas costas doem?
– Me diz uma coisa, quanto tempo demora o exame?
– Uns 40 minutos.
– Quarenta!?
– É que são dois exames, né?
Resignado, sou levado para a sala recém-higienizada. Ele coloca a maca na posição, me indica o botão do pânico e, em poucos segundos, estou dentro de um tubo que passa a 20 centímetros da minha cara.
– Então se eu entrar em pânico é só apertar aqui?
Ele já foi.
Entro em pânico. Aperto o botão freneticamente. A voz dele surge pelo auto-falante da máquina.
– Tá tudo bem?
– Tá. Só queria ver se isso aqui tava funcionando.
– Ah, OK. Vamos começar.
O barulho ensurdecedor começa. Minutos depois, uma voz robótica sai da máquina: “Não engula”.
Era o mesmo que dizer “não pense num elefante”.
Cerca de meia hora depois, a tortura termina. Sobrevivo. Visto a roupa e pergunto à enfermeira sobre o tal do Marcos:
– Ele vai ficar bem?
– Acho que sim…
Saio do laboratório e pego um táxi, ansioso por um pouco de silêncio e uma noite tranquila. O taxista sorri:
– Tudo bem se eu ligar a TV no Cidade Alerta?

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Assim caminha a humanidade

Logo que cheguei ao AFI, em Los Angeles, Carl Smith, o responsável pelos estudantes estrangeiros, mencionou que não havia outros brasileiros na turma – nem na minha, nem na anterior – mas disse que um brasileiro havia se formado dois anos antes na disciplina de produção.

Conheci Daniel algumas semanas depois. De passagem pelo campus, Daniel me contou que já morava em Los Angeles havia algum tempo e que sua vida era lá – não pretendia voltar ao Brasil tão cedo. Conversamos brevemente sobre os projetos que ele, como todo bom produtor, tentava a todo custo tirar do papel, sem saber onde aquilo tudo iria dar.

Antes de nos despedirmos, recomendou que eu assistisse a “District 9” no Chinese Theater. “O filme é excelente e é uma ótima chance de você conhecer o Chinese Theater. A gente que mora aqui vai deixando tudo pra depois e acaba não indo”.

Daniel estava duplamente correto: o filme era excelente e foi indicado a 4 Oscars no ano seguinte. E eu fui deixando pra depois e jamais cheguei a ver um filme no Chinese Theater.

Mais de três anos depois, já de volta ao Brasil, fui convidado por meu produtor a assistir ao filme de abertura da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Acabei sentando ao lado de uma colega que não via há nove anos, mas as coincidências não parariam por ali: feitas as apresentações iniciais da Diretora da Mostra, do Prefeito e da Ministra da Cultura, uma voz conhecida subiu ao palco. 

“Eu conheço esse cara! Ele estudou no AFI!”, comentei animado com meu produtor, enquanto Daniel apresentava seu filme a uma plateia de mais de 700 pessoas que se divertiam com seus comentários bem-humorados sobre o diretor e o ator principal, que não puderam estar presentes, e sobre como um brasileiro virou o produtor de um filme chileno.

Na festa que seguiu a sessão, Daniel era a figura mais cobiçada do evento, mas tive a chance de parabenizá-lo brevemente pelo filme. “Eu conheço você,” foi a vez dele dizer, “mas não lembro de onde!” “Do AFI,” respondi.

Perguntei a ele como havia chegado até ali. Ele disse que sua experiência havia sido incrível. Que com muito trabalho o filme havia saído do papel, chegado aos festivais, sido exibido em Cannes e agora estava ali. “É um sonho…”

Nos despedimos e ele seguiu adiante para cumprimentar mais convidados, ávidos por uma palavra sua, sem saber que seu sonho estava apenas começando.

O filme de Daniel Dreifuss, “No”, estrelado por Gael García Bernal, acaba de ser indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro.

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