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Na natureza selvagem

“Alasca!? Mas você vai fazer o que no Alasca?” – foi a pergunta que mais ouvi ao revelar que passaria onze dias com um amigo no inóspito 49º estado americano.  Foi a mesma reação de quatro anos atrás, quando passei três semanas viajando sozinho pelo sul da Patagônia.
Há tempos tenho uma estranha atração por lugares isolados, frios, com pouca interferência humana. Chegar aonde poucos chegam exerce uma grande fascinação sobre mim, e por isso o Alasca esteve sempre na minha lista de destinos: nada me parecia mais incrível do que cruzar o Círculo Ártico pela famigerada Dalton Highway.
Mas ao chegar ao Alasca, minha imagem romântica foi aos poucos contrastando-se com temperaturas acima de 20ºC e ausência de neve. O fascínio deixou de ser o frio e o branco nas montanhas, mas o céu que jamais escurece; os dandaleões que voam contra o vidro do carro como flocos de neve; o albergue que não possui chaves pois nunca é preciso trancar as portas.
Após dez horas de estrada entre Anchorage a Fairbanks, acompanhado de sanduíches de brie de cabra, abacate com mostarda e Alaskan White Ale, seguir até o Círculo Polar me pareceu desnecessário. Durante meses só pensava naquelas quatorze horas de estrada não-asfaltada e na foto com placa que marca a latitude 66º33’, mas no momento em que de fato poderia embarcar naquela jornada, achei que já havia cumprido minha missão naquela região específica do estado.
Aí veio o arrependimento. Como pude não querer aquilo que queria tanto havia poucas semanas?

Mas aos poucos fui compreendendo que, como em um roteiro, a cena que me inspirou a escrever todo o filme às vezes não cabe mais na história. Talvez ela caiba em algum outro filme, daqui a alguns anos, quem sabe em algum outro ponto do distante paralelo 66º33’, mas por ora sua função é apenas permitir que o resto da história exista.
No filme deste verão entraram outras cenas: a águia sobrevoando o caiaque na Baía de Kachemak; a noite na Universidade de Fairbanks com a vista espetacular da montanha mais alta da América do Norte; o acampamento sob a chuva a 2ºC em Denali; os alces e ursos atravessando a estrada em Seward; os jogos de xadrez sob o sol da meia-noite. Entraram também personagens marcantes: a hilária atendente mal-humorada do albergue em Anchorage; a dona da lojinha de beira-de-estrada em Joy, que tem dezenove filhos adotados, vindos de famílias que os rejeitaram; a assistente social que cuida de jovens problemáticos em Barrow, onde o sol não nasce por 82 dias; o construtor de barco que passou cinco anos construindo o barco errado.
Nenhuma dessas cenas ou desses personagens estavam no roteiro que criei na minha cabeça, mas todos chegaram ao corte final, graças à cena que me levou até lá – mas não existiu. 
Não sabia, de fato, o que encontraria no Alasca, mas estava disposto a descobrir.
Como bem coloca Nilton Bonder em A Alma Imoral, de nada adianta sentar-se e esperar que o mar se abra para que sigamos em frente: é preciso primeiro marchar para então encontrar o caminho. E por isso sigo sempre em frente…
Não posso dizer que sei aonde estou indo, mas sei que estou no meu caminho.
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