Cotidiano, viagem

Um dia na história contemporânea

Esta semana tive de ir ao consulado italiano solicitar a emissão de um novo passaporte. Não é primeira tentativa. Ano passado estive no mesmo local, porém um registro desatualizado de endereço me fez voltar ao final da fila e aguardar por um novo agendamento – meses depois.

Sabendo que o local não permite o uso de celulares, vou munido de um livro – Sapiens – que leva o ousado (e acertado) subtítulo de Uma Breve História da Humanidade. Apanho minha senha – 78 – e tomo assento em meio a uma miríade de descendentes de italianos com suas respectivas pastinhas, sonhos e medos. 
 
― As senhas para passaporte serão chamadas por voz, em grupos de dez ― informa o segurança.
 
Ponho-me a ler sobre os Homo sapiens caçadores-coletores de 50 mil anos atrás: como se organizavam, como se alimentavam e como nossa estrutura foi se adaptando agora que não precisamos mais fugir de leões ou sentir o cheiro da chuva. 
 
― Senhas 40 a 50 ― anuncia a voz, cerca de meia hora depois.
 
Faço uma rápida conta e percebo que passaria muito mais horas ali do que o previsto. Uma senhora ao meu lado, com a senha 81, também percebe e bufa, antes de voltar para sua leitura: Abílio – Determinado, Ambicioso, Polêmico.
 
Se por um lado o Homo sapiens é um ser extremamente adaptável que conseguiu dominar outras espécies e povoar toda a Terra, por outro ainda resta adaptar-se a um ambiente fechado, sem ar-condicionado e sem acesso à tecnologia. Observar pessoas em tais condições é como participar de um experimento sociológico: um grupo de Homo sapiens do mundo atual é teletransportado para um saguão em 1994, pré-internet móvel, sem ar-condicionado, sem televisão, apenas com uma máquina de foto instantânea e uma de salgadinhos, bolachas e bebidas, que aceita exclusivamente notas de dois e cinco reais, e são forçadas a esperar. 
 
― Senhas 50 a 60!
 
Alguns dormem, outros rabiscam num envelope, outros leem, outros ousam interagir com o conterrâneo ao lado, e outros – sobretudo crianças, mas não apenas – choram. Entreter duas crianças pequenas que aguardam há horas sem poder lançar mão de uma Peppa Pig ou uma Galinha Pintadinha é um desafio para o qual o Homo sapiens não teve tempo de se preparar. 
 
Uma moça com um rabo de cavalo, que fez sua cidadania em Assis, mas que passava mais tempo na Toscana, e que agora estava no Brasil, mas talvez se mudasse para Malta em março, pergunta à atendente onde registrar seu endereço.
 
― É que ela tem uma carreira muito internacional ― explica o marido, com sotaque italiano.
 
A funcionária dá as instruções.
 
― Seu italiano é muito bom! ― diz ele.
 
― É que eu sou italiana ― diz ela.
 
― Senhas 60 a 70!
 
Mais um grupo sobe. Sinto fome, mas não posso caçar, nem coletar, nem comprar um Fandangos na maquininha porque usei minha última nota de 5 reais para comprar uma água. O consulado fecha em cinco minutos e, se sair, não posso voltar. Bebo água – dizem que inibe o apetite.
 
Volto ao livro e descubro que é difícil saber ao certo como viviam as sociedades de 40 mil anos atrás. Enquanto alguns fósseis encontrados indicam grupos que sofreram mortes violentas, outras regiões parecem revelar fósseis mais pacíficos. Começo a imaginar o quanto levaria para que esse grupo no saguão em 1994 começasse a guerrear por um assento, uma senha mais baixa, um pacote de Oreo. “O calor e o tédio podem levar o homem a loucura”, divago.
 
― Senhas 70 a 80!
 
Enfim! Subo ao segundo andar e aguardo ser chamado. Uma senhora de vestido azul suplica a um funcionário de cavanhaque: 
 
― Moço, faz vinte anos que estou tentando tirar esse documento! Não é possível que este comprovante de endereço não sirva. Ele é válido em qualquer lugar do Brasil!
 
― Mas aqui é a Itália. 
 
Um rapaz de óculos entrega os documentos de forma organizada a uma funcionária de longos cabelos loiros.
 
― Essa hora no fim do expediente é sempre melhor. Os mais atrapalhados sempre vêm cedinho ― conta ela.
 
Esboço um sorriso ao pensar na sua inocência em achar que conseguimos ESCOLHER nossos horários. Você passa dias tentando ligar para o número de agendamento. Alguém atende. Você abre um vinho para celebrar.
 
― Tenho disponível dia 25, às 10h, pode ser?
 
― Tá ótimo! É o casamento da minha irmã, mas ela vai entender. Ela arranja outro padrinho e, se der, ainda chego para a festa!
 
― Senha 78!
 
Vou até a mesa indicada e saco meus documentos com aquela tensão típica que só autoridades internacionais são capazes de elicitar.
 
― Esta foto não deveria estar colada. E esta assinatura deveria ter sido feita na minha frente ― diz o funcionário com a naturalidade de quem pede um pão de queijo na padaria.
 
― Eu tenho outras fotos! Eu tenho um formulário em branco! Eu te dou um abraço! Não me manda embora!
 
Ele diz que está tudo bem, confere os documentos, pede novas assinaturas. 
 
― Você precisa viajar nos próximos 40 dias?
 
― Infelizmente não.
 
Ele pega meu passaporte atual e coloca um carimbo de anulado em cada uma das páginas vazias. 
 
STOMP. STOMP. STOMP. STOMP. Um visto. STOMP. STOMP. STOMP.
 
“Preciso viajar mais”, penso.
 
Enfim, ele solicita o cartão para pagamento.
 
O cartão não funciona.
 
Ele tenta outra vez, duas vezes, três vezes. Nada. Entrego outro cartão.
 
O cartão não funciona.
 
Por alguns instantes, sinto uma ponta de inveja dos caçadores-coletores, que não possuíam um sistema monetário, um cartão de crédito, um passaporte. E daí que vez ou outra morriam de frio ou eram devorados por roedores gigantes?
 
Transação aprovada!
 
O rapaz organizado pergunta à funcionária loira:
 
― Como será daqui a dez anos, na renovação do passaporte? O processo será o mesmo?
 
― Olha, passaporte você não renova, você emite um novo, mas não tenho a menor ideia como serão as coisas daqui a dez anos…
 
Saio com meu protocolo em mãos e com a mesma pergunta na cabeça: como será daqui a dez anos? O que o Homo sapiens terá destruído, desenvolvido ou desvendado até lá? Será que voltarei a este mesmo consulado em 2029? Será que meu passaporte terá mais carimbos? Quantas pessoas novas vou conhecer? Com quantas perderei contato? Só uma coisa é certa. Do alto dos meus 45 anos, vou olhar para minha foto atual e dizer:
 
― Nossa, eu ainda tinha cabelo!

Foto: Acervo pessoal

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