Arquivo do autor:Filipe Domiano
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Os amadores

!kbhit()
Um das coisas que pude observar com clareza durante minha temporada nos EUA foi a diferença no conceito de amizade que existe entre aqui e lá.
Certa tarde em um evento em Los Angeles, durante uma conversa despretensiosa, uma mulher me perguntou:
– Quantos amigos você tem?
Parei. Pensei. – Ah, não sei, muitos.
– Não, mas assim, amigos próximos…
– Sei lá, pelo menos uns vinte.
– Não, você não entendeu. Me refiro a amigos, assim, que você confia mesmo, que você conversa com frequência, com quem você pode contar.
– Acho que foi você quem não entendeu – respondi sorrindo, antes de repetir. – Pelo menos vinte.
Muitos dos meus amigos são amigos há uma, duas décadas. Tem os amigos do prédio onde eu nasci, que são amigos, literalmente, desde que nasci. Tem os amigos do Jardim II, os da 1ª série, os da 3ª, os da 7ª e os do 1º colegial. Surpreendentemente, tem os grandes amigos do cursinho – quem faz amigos no cursinho?
E tem também o !kbhit().
Conheci os primeiros membros do !kbhit() no melhor estilo “amigo-da-namorada-do-primo-da-vizinha-da-minha-vó.” Depois de uma viagem despretensiosa, percebi que tinha muito mais em comum com aquele grupo de engenheiros do interior que faziam paródias musicais do que com o mundo do qual fazia parte naquele momento. E assim o !kbhit() passou a ser composto por “dez engenheiros e o Coxa”.
Sem nunca ter assistido a uma aula daquela universidade, frequentei jogos universitários, fui batizado como membro honorário de uma república; fui a churrascos, formaturas; gritei o hino da faculdade como se tivesse feito parte daquele universo. E de certa forma, fiz.
Aos poucos, passei a ser apresentado como “amigo da faculdade” – era mais fácil assim.
Aos poucos, fui confirmando minha teoria de que amizade requer manutenção; que se deixada guardada como uma caixa de ferramentas que só sai do armário quando necessário, ela enferruja.
Aos poucos, fui percebendo que às vezes é difícil explicar porque se é amigo: às vezes simplesmente se é.
Do outro lado da lua
Em abril de 2007, em minha primeira aula do curso de extensão em roteiro da UCLA, Scott Kraft sugeriu que elaborássemos duas perguntas no formato “E se…?” A ideia era que uma delas viesse a ser a base da história que desenvolveríamos durante os próximos meses.
Para algumas pessoas as ideias vêm aos montes. Para essas, falta apenas tempo para sentar e desenvolver tantas e tantas possíveis histórias que sem dúvida se tornariam grandes sucessos de bilheteria. Se há tempo, então recai sobre elas a árdua tarefa de decidir qual história desenvolver primeiro.
Eu não sou uma dessas pessoas.
Ideias geniais me vêm a cada ano bissexto. No resto dos dias, preciso lapidar histórias de blocos de mármore; enfrentar diariamente – e sozinho – a intimidadora página em branco.
Com seu processo – que, é claro, vai além das duas simples perguntas – Scott Kraft tornou a página em branco menos assustadora e, em algumas semanas, comecei a escrever “Sixteen Light-Years Away”, um roteiro sobre um adolescente de Ushuaia, na Argentina, que perde o irmão mais novo e é forçado a viver com a avó numa pequena cidade praiana nos EUA, onde desenvolve uma inesperada amizade com a vizinha de dez anos que lhe ensina a ver o mundo com outros olhos.
Cerca de um ano depois, após muitas noites solitárias enfrentando a sempre imponente página em branco, a primeira versão do roteiro estava pronta. Resolvi adaptar a história para enviá-la a um concurso de desenvolvimento de roteiro aqui no Brasil. A pequena cidade nos EUA virou uma pequena cidade no nordeste; Johnny virou Francisco, Annie virou Valentina, e assim como os personagens, o roteiro também ganhou um novo nome em português: Do Outro Lado da Lua.
O concurso premiava 10 projetos entre cerca de 900 inscritos. “Do Outro Lado da Lua” foi o 12º.
Francisco voltou a ser Johnny, Valentina voltou a ser Annie e “Sixteen Light-Years Away” chegou às mãos de Barney Lichtenstein, o mentor da UCLA que faria as últimas considerações sobre o roteiro antes do término do curso. Barney não apenas foi incrível em seus comentários, mas também escreveu uma carta de recomendação que acabou sendo decisiva na minha seleção para a bolsa CAPES/Fulbright que receberia meses depois.
Sem saber do futuro que me aguardava, fui de férias a Ushuaia e pude ver com meus próprios olhos, pela primeira vez, aqueles lugares que já pareciam vívidos na descrição das páginas do meu roteiro.

As primeiras páginas do segundo tratamento de “Sixteen Light-Years Away” foram lidas por Dan Vining, um dos professores e membros da comissão de seleção do American Film Institute. Foi ele que, durante minha entrevista, disse ter ficado bastante intrigado com o roteiro e com vontade de continuar a lê-lo. Assim, “Sixteen Light-Years Away” me abriu as portas do AFI – e de um mundo de aprendizagem do qual eu faria parte nos dois anos seguintes.
“Sixteen Light-Years Away” ficou adormecido enquanto o AFI me forçava a lapidar mais e mais blocos de mármore. No dia de Ação de Graças – haveria um dia melhor? – conheci Barney Lichtenstein pessoalmente. Durante um agradável almoço no Mimi’s Café que ele insistiu em pagar, agradeci por tudo que havia feito por mim e contei a ele toda a saga do roteiro que havia me levado até ali, com a promessa de mantê-lo informado sobre os futuros acontecimentos.
Foi então que “Sixteen Light-Years Away” caiu nas mãos do meu amigo e produtor André Gevaerd. André, quem eu havia conhecido na Austrália aos 16 anos e quem havia reencontrado poucos anos antes, abraçou o projeto e se disse decidido a filmá-lo na sua cidade natal, em Santa Catarina.
Novamente, Johnny virou Francisco, Annie virou Valentina, e agora a pequena cidade do nordeste virou a praia de Canto Grande, em Bombinhas. Personagens deixaram de existir, novas locações surgiram e “Do Outro Lado da Lua” ganhou mais uma versão.
No início deste mês, André, a essa altura tão envolvido no projeto quanto eu, me levou a Canto Grande para que eu conhecesse aquele lugarejo que ele insistia ser perfeito para o filmar o roteiro.



Quase cinco anos se passaram desde que a história de Johnny/Francisco e Annie/Valentina começou a surgir. O roteiro já foi lido por muitos, mentorado por vários, abraçado por alguns e me abriu portas que eu jamais pensei pudessem ser abertas. Enfim, cumpriu seu papel de roteiro.
Agora, pouco a pouco, “Do Outro Lado da Lua” deixa de ser uma empreitada individual e solitária e começa a ganhar o apoio de pessoas que acreditam no projeto e querem dar vida àquelas pessoas e lugares que só existem no papel.
Pouco a pouco, “Do Outro Lado da Lua” deixa de ser um roteiro e começa a ser um filme.
Fotos: arquivo pessoal
Histórias que poderiam ter sido
Com meus planos escorrendo pelo ralo, tive de encontrar novos roommates às pressas e fui morar com dois completos desconhecidos – um deles dormindo na sala. Durante todo o primeiro (e mais difícil) mês em L.A., só pensava em como tudo seria mais fácil se tivesse saído como planejado. Como eu queria que aquela história tivesse sido…
(Bob casou-se hoje com a mulher de sua vida e está de mudança para os EUA. Vai viver a história que tinha de ser.)
The Young Storytellers
Quando o co-criador do seriado “Glee”, Brad Falchuk, veio ao AFI e mencionou, quase sem querer, a fundação que havia criado — The Young Storytellers Foundation —, eu não imaginava que em breve me envolveria com um de seus projetos. E muito menos que ele se tornaria uma das coisas mas sensacionais de que já fiz parte.
A fundação foi criada em 2003 com o objetivo de “desenvolver a alfabetização através da arte de contar histórias.” Diversos programas são oferecidos, entre eles o que foca em alunos do 5º ano.
A ideia é bastante descomplicada: um head mentor, dez crianças e dez mentores (um para cada criança) que se encontram em oito reuniões semanais para escrever um pequeno de roteiro de cinco páginas, a ser encenado na nona semana no auditório da escola. Simples, não?
Agora adicione à formula a amizade e o companheirismo que surge entre os mentores; o maravilhamento das crianças a cada palavra que escrevem; e o prazer de ver atores de Hollywood improvisando despretensiosamente no auditório de uma escola pública. E eis que surge algo mágico.
Mal sabem as crianças que aprendemos tanto quanto elas. O ego fica na porta, assim como os palavrões, os pensamentos negativos, as palavras de desencorajamento. Cada um de nós assume uma nova identidade — Bowling Brian, Jovial Jon, Mystical Mary e assim por diante. Os atrasados dançam a “chicken dance” e ninguém se importa em parecer ridículo diante de vinte crianças — sim, vinte, porque ali todos viram criança — que se divertem às suas custas.
A cada semana — em meio a brincadeiras de integração e breves apresentações de conteúdo — um pedacinho da história era construído, sem qualquer censura. Príncipes que se unem a ratos para combater uma bruxa; super-heróis que saem do mundo dos quadrinhos para salvar a humanidade; anoréxicas que se unem a vítimas de câncer e encontram a felicidade: tudo é válido, desde que não haja violência.
Mas sem dúvida o grande valor de tudo isso não é o resultado, e sim o processo. Ao expor suas ideias, cada criança expõe um pouco de si mesma, se abre para o mundo e, talvez pela primeira vez, sente que tem uma voz. Mais do que isso: sente que alguém quer ouvi-la.
“Hawaiian” Ailani, a menina por quem fui responsável no segundo semestre que participei do programa, era provavelmente a garota mais tímida do grupo. Raramente respondia às perguntas em meio aos colegas e jamais olhava alguém nos olhos. Ao decorrer daquelas semanas, enquanto criava sua história sobre o poder da amizade, Ailani começou a conversar mais, começou a falar mais de si; começou a sorrir.
Em nossa última sessão, nosso head mentor informou às crianças como seria o “Big Show” (como é chamada a apresentação final): contou que receberiam um crachá VIP, que entrariam em um tapete vermelho, que tiraríamos fotos, que atores de Hollywood se apresentariam individualmente para que cada uma delas escolhesse seu elenco, e que em seguida sua história seria apresentada para todo o 5º ano e seus convidados.
Foi então que Ailani me olhou nos olhos pela primeira vez e, sem conseguir conter a empolgação, perguntou:
— É verdade?!
— O quê?
— Que a gente entra num tapete vermelho e tiram foto da gente?

Era.
Fotos: Flying Filipe e Hawaiian Ailani no Big Show / Hawaiian Ailani no tapete vermelho







