Recentemente comecei a escrever artigos sobre o mercado publicitário, tendências de mídia e outros conteúdos que certamente vão me render palminhas no LinkedIn. É um estilo diferente do que estou habituado, mas que não deixa de ser prazeroso. E é sempre bom entender o mercado onde se atua.
A questão, porém, é que, diferentemente das crônicas que costumo escrever, esses textos precisam passar pela aprovação de um poderoso capataz: o SEO.
Confesso que não me preocupo com a “otimização em mecanismos de buscas” há muito tempo — se é que já me preocupei em algum momento. Em 2015 cheguei a fazer um curso sobre o tema, mas que nunca chegou a ser relevante no meu dia a dia. Corta para: dez anos depois. A batalha “humanos versus algoritmos” corre solta e é preciso usar todas as armas para ser visto e considerado relevante nas redes. Uma dessas armas é um farolzinho verde que indica que o texto presta — pelo menos no que diz respeito ao SEO.
Para isso, primeiro é preciso definir uma “frase-chave de foco”. Digamos, a título de exemplo, que a frase-chave de foco deste texto seja “benefícios do SEO”. Isso significa que o termo benefícios do SEO precisa aparecer algumas vezes na publicação, e de forma relevante. Portanto, não adianta apenas lançar benefícios do SEO ao vento: é preciso usar o termo benefícios do SEO dentro de um contexto. E nada de usar sinônimos de benefícios do SEO! Talvez o termo benefícios do SEO esteja te irritando ao final do texto? Talvez. Mas, paciência. O texto é sobre benefícios do SEO, então sobre benefícios do SEO falaremos.
É importante ter subtítulos
Sim, porque, como diz o título do artigo da argentina Leticia Martin, que viralizou recentemente, ninguém lê nada, logo, é preciso deixar o texto em blocos pequenos e as frases, curtas, tudo bem palatável. Esta frase que você acabou de ler, aliás, está longa demais. Para que seja aprovada pelo SEO, é preciso quebrá-la em períodos menores. Vamos tentar de novo. Um artigo da argentina Leticia Martin viralizou recentemente. O artigo chama-se ninguém lê nada. Usando esse título como inspiração, poderíamos dizer, por exemplo, que deixar o texto em blocos pequenos e as frases mais curtas facilita a leitura. (Esta última foi no limite! Mais uma única palavra e a luzinha vermelha acenderia.) Mas agora temos dois novos problemas: o uso excessivo da voz passiva e a falta de palavras de transição. Nesse caso, para corrigi-lo, seria preciso — digo, eu precisaria — voltar no texto acima e substituir alguns “é preciso” por uns “precisamos”. Outrossim, precisaria inserir alguns conectores, como “outrossim”, “nesse caso”, ou “afinal”, afinal, quem seria capaz de fazer essas conexões sozinho? Contudo, surge aí um terceiro problema: o parágrafo ficou longo demais.
Ó, céus.
A frase-chave de foco, como “benefícios do SEO”, precisa estar no subtítulo
Não apenas no subtítulo, mas também no parágrafo de introdução. Afinal, ninguém vai perder tempo lendo seu texto se não souber, já nas frases iniciais, sobre o que você está falando. Nada de suspense! Aliás, a construção “não apenas / mas também” também está com os dias contados, já que virou a queridinha das IAs — juntamente com esse aí de trás: o travessão.
Mas o SEO não está só no texto. É importante que a publicação tenha imagens. Como dizia nosso ex-presidente, tem muita coisa escrita nas publicações atuais. Um absurdo.
Esses links acima também não são por acaso: links externos são fundamentais para um bom SEO. Links internos também, então aproveita e dá uma olhada na minha página de contos.
Por fim, há também a meta descrição: aquele texto curto que aparece sob o título da página nas buscas do Google e que, é claro, precisa ter a frase-chave de foco, no caso, benefícios do SEO.
Prontinho! Agora é só escolher um título e publicar. Mas nada de um título muito longo, como “Como as regras de SEO estão matando a originalidade das publicações e transformando a internet num depósito de textos padronizados”.
Texto revisado, imagens e links inseridos, luzes verdes no SEO. Quem precisa de IA quando nós mesmos podemos escrever como máquinas?
Quando me perguntam sobre o que eu escrevo, a resposta não vem de forma rápida, muito menos óbvia. Dez anos atrás, respondia essa pergunta dizendo que escrevia sobre personagens que não querem estar onde estão, que passam por uma jornada geográfica para completar sua jornada dramática. Recentemente descobri, quase sem querer, que sempre gostei de escrever sobre o extraordinário no cotidiano, ou sobre o cotidiano no extraordinário. Mas em 2007, quando terminei o primeiro tratamento de Do outro lado da lua (que ainda se chamava Sixteen light-years away), percebi que o assunto sobre o qual escrevia era a morte. O que eu não sabia é que o filme, assim como um de seus personagens, iria morrer na praia.
Um professor meu dizia que o fato de um filme existir — qualquer filme — é praticamente um milagre: é preciso uma história que tenha um mínimo de coerência, muitas pessoas que queiram dar vida a ela e mais outras que queiram fazer aquela história chegar a ainda mais pessoas. E muito dinheiro. Cabia a mim, a princípio, a primeira parte da equação. Ao som de Bryan Adams, os tratamentos se desdobravam em três línguas, e dezenas de páginas ganhavam tração. Do outro lado da lua venceu o prêmio Ibermedia de desenvolvimento, foi selecionado para o Laboratório Novas Histórias do SESC, para o laboratório da Spcine, para o mercado de coprodução do Festival de San Sebastián e — quem diria! — do Festival de Cannes. Em 2018, depois de mais de uma década de trabalho, o projeto foi contemplado por um edital em Santa Catarina que disponibilizava mais de um milhão de reais para que o filme fosse realizado. Parecia que o milagre da Sétima Arte iria, enfim, acontecer.
As filmagens ocorreram em outubro daquele ano, no Canto Grande, na casa do diretor/produtor do filme, onde pude acompanhar os últimos dias de ensaios e os primeiros dias de gravação. Um trio de argentinos, pais e filhos na vida real, deram vida aos irmãos Luiz e Francisco e a seu pai, Jorge; a queridíssima Paula Braun fez a mãe dilacerada pela perda de um filho; a brilhante Denise Weinberg foi a avó do garoto; e a Ivo Müller, que viraria um amigo e parceiro de escrita, coube interpretar Antonio, o pai da garotinha que deu nome ao curta-metragem e à serie infantil derivados do filme: Valentina.
Ver personagens e lugares que só existiam na imaginação ganharem vida é uma experiência única. As roupas, os desenhos que o protagonista faz; alguém preparou um salmão porque o roteiro pedia. Depois tiveram os elementos que o acaso trouxe para o filme: o pequeno lago onde os peixes garra rufa faziam um tratamento de pele nos pés; a grande pedra sob a casa que virou parte do cenário. São as pequenas belezas que brotam junto ao florescer de um filme.
Mas a partir daí as flores começaram a murchar. Soube que o clima das filmagens foi degringolando e que boa parte da equipe rompeu com diretor ao término das gravações — inclusive eu. Com as relações pessoais cortadas, começou uma eterna espera por aquele que seria o primeiro corte. “Estamos editando” deu lugar a “falta dinheiro para finalizar”, que deu lugar a um silêncio sepulcral. Até que veio a pandemia e enterrou de vez o bebê que não conseguiu nascer — ou que sufocaram no parto.
A verdade é que nunca soube, de fato, o destino do filme. A cena de Francisco correndo na praia, de Antonio observando uma tempestade de raios, de Valentina mergulhando sob o barco de pesca, ficaram apenas no papel e na imaginação. E talvez perdidas em algum HD. Também é um mistério o destino do valor milionário arrecadado para a produção, que certamente exigiu uma prestação de contas ao governo — incluindo a entrega de um filme finalizado e exibido em circuito comercial.
Na minha ficção — afinal este é meu trabalho: criar realidades — Do outro lado da lua um dia será resgatado de algum arquivo público, algum HD abandonado. Veículos especializados noticiarão o ressurgimento acidental da famigerada obra perdida; técnicos conseguirão recuperar as imagens e editores-arqueólogos recriarão a história inacabada criada décadas antes.
Como disse Denise Fraga em O que só sabemos juntos: “O meu futuro imaginado, também não faz parte da minha memória? Não são as minhas lembranças do futuro que me dão hoje a saudade do que eu não vivi?”
Talvez ninguém mais se lembre, mas houve um tempo em que para ir a algum lugar de carro era preciso, de fato, saber o caminho. Google Maps, Waze e afins eram, no máximo, uma ideia futurista, e para chegar a algum lugar desconhecido era necessário checar um guia físico de ruas e seguir quadrantes ordenados por mais de trezentas páginas — como faziam os Incas.
Pouco antes de tirar minha habilitação, um pequeno trauma envolvendo uma discreta perseguição com um policial disfarçado de agente de trânsito pelas ruas de Osasco me tornou um verdadeiro ás dos guias de rua: me perder não era uma opção.
— Nossa casa está na página 248, quadrante B3. Para chegar à Av. Rebouças, siga para a página 179 — eu podia anunciar, de cor.
Já habilitado, tive de desenvolver temporariamente a habilidade de dirigir um Fiat Uno que sempre morria na mesma curva, voltando do cursinho. “É normal,” dizia meu pai. Porém, uma habilidade permanente adquirida desde os aventureiros tempos de autoescola foi a de fazer baliza. O terror da maioria dos novos motoristas sempre foi minha zona de conforto. Era ver aqueles cabos de vassoura fincados em latas de cimento e ter a certeza de que eu estava no controle. Os cabos de vassoura logo viraram faróis e para-choques, e lá estava eu colocando meu Picanto em qualquer buraco. Ah, a juventude!
Certa vez estacionei o carro em frente a uma escola onde teríamos um evento. Uma amiga chegou logo depois, um pouco tensa:
— Fi, acho que você não vai conseguir tirar seu carro. Tem dois carros esmagando você!
— Fui eu que coloquei ele lá — disse eu, com um sorriso maroto.
Anos depois, a caminho da aula de circo, encontro uma vaga perfeita em frente a uma padaria. Seguro de minhas habilidades balizadoras, emparelho meu carro ao lado de um Polo branco e engato a marcha à ré, na expectativa de encaixar meu Palio entre o Polo e uma Spin preta que já viu dias melhores. Longos minutos depois percebo que meu golpe de vista talvez tenha sido equivocado e que a vaga quiçá fosse mais apropriada a um Cinquecento… ou uma moto. Um funcionário da padaria se aproxima com o mesmo olhar preocupado da minha amiga anos antes.
— Ih, prenderam você, né? Peraí um instantinho que vou chamar o Gilmar pra—
— Não, não! — interrompo — Eu estou estacionando.
— Vixe…
Gilmar vem lá de dentro e espia enquanto eu giro o volante freneticamente. A essa altura, é melhor terminar de estacionar do que desistir, penso — nem que para isso eu precise abrir um pouco de espaço.
— Bate um pouco no da frente pra variar! — grita Gilmar, quem eu deduzo ser o dono da Spin.
Termino a empreitada com o carro ligeiramente na diagonal e desço sem encarar o grupo que se forma na padaria. Chego à aula já aquecido! Na próxima hora eu deveria focar em não despencar de um trapézio, mas minha preocupação é uma só: como é que eu vou tirar o carro dali?!
Volto para a cena do crime e a saga recomeça, movendo o carro um centímetro por vez, até que Gilmar finalmente sai da padaria, emputecido, e finalmente dá ré na sua Spin.
POR QUE ELE ESPEROU QUE EU VOLTASSE E MANOBRASSE O CARRO POR DEZESSETE MINUTOS PRA FAZER ISSO?!
Então me coloco no lugar de Gilmar: se um idiota sem noção de espaço viesse empurrar meu carro com pequenas batidinhas para estacionar o dele eu também iria querer vê-lo sofrer, torcendo até mesmo por uma direção mecânica e um ar-condicionado quebrado. Compadecido, abro o vidro na esperança de pedir desculpas e dizer que me responsabilizo por eventuais danos ao carro dele. Mas já é tarde. Gilmar já bateu a porta e voltou para a padaria, ocupado demais para ouvir minhas desculpas e entretido demais com seu mais novo hobby: me odiar.
Não tenho a menor dúvida de que quando Jean-Paul Sartre disse “o inferno são os outros” ele se referia aos seus vizinhos. Não só isso: acho bastante provável que ele tenha viajado para o futuro, morado no meu prédio e conhecido a Dona Cida, para então voltar ao passado e chegar a tal conclusão.
Mudei para o meu apartamento poucos meses depois de o edifício ser entregue. Dona Cida já estava aqui, me aguardando no piso de baixo. Passadas poucas semanas, chamei alguns amigos em casa; não tardou até que batidas no teto anunciassem o incômodo do meu evento. Inocente, no dia seguinte deixei um bilhete no andar de baixo com um pedido de desculpas, o que Dona Cida recebeu como um convite para iniciar uma interação.
Nos anos seguintes, os golpes de vassoura deram lugar a – ou foram acrescidos de – chamadas pelo interfone, que eu, na tentativa de ser um bom vizinho, atendia pacientemente. “Não, Dona Cida, o cheiro químico não é daqui. “Não, não estou arrastando móveis.” “Não, não estava pulando, são 2h da manhã, eu estava dormindo.” Um dia derrubei um talher no chão, durante o almoço. Segundos depois, o interfone tocou. Não posso dizer, porém, que sou especial: Cidoca frequentemente grita a plenos pulmões ao vizinho de baixo “que não vale nada, jogando essa fumaça fedida no meu terraço, tenho que fechar tudo, que inferno!” ou ao vizinho do lado “que fica batendo na parede do quarto toda noite, que inferno!” O que será que fazem?
Durante a pandemia, a situação se agravou, e as manifestações de Dona Cida tornaram-se mais frequentes e intensas: portas batendo, interfonadas nove, dez vezes ao dia, gritos frequentes na janela, ao ponto de vizinhos do prédio da frente retrucarem gentilmente: “cala boca, sua velha louca!” Genuinamente preocupado, escrevi para o jovem síndico, Jotapê, na esperança de que algum contato de emergência fosse informado sobre o estado psicológico da tal senhora, uma vez que ela vive só. Ele prontamente se solidarizou e me informou que a filha de Dona Cida – que mora no prédio, vejam só! – já estava ciente. Disse também que outros vizinhos já ameaçaram chamar a polícia por conta dos distúrbios que Dona Cida causa e que ele mesmo já havia recebido diversas ameaças de que ela iria pessoalmente à sua porta se ele não silenciasse os vizinhos – os 378 vizinhos. Por ora, pediu paciência e empatia. Concedi.
Até que em um grande plot twist condominial, acordo com uma notificação dos advogados do prédio na minha caixa de e-mail, dizendo que “aos 12 de outubro de 2021 por volta das 02h00min., morador (a) de vossa unidade realizou conduta infratora à norma condominial vigente, posto que produziu barulho de forma excessiva, proveniente da utilização de aparelho sonoro ou similar, produtor de ruído, em horário destinado ao descanso, de forma a causar perturbação ao sossego da Comunidade Condominial.”
O barulho em questão: minha ducha higiênica.
Escrevi para Jotapê imediatamente dizendo que minha cordialidade havia chegado ao fim: “Tolero os rompantes de loucura da Dona Cida há mais de oito anos, tentando manter uma relação cordial em nome da boa vizinhança, mas se agora passamos a nos comunicar por advertências formais, assim será!” bradei, triunfante. Ele me ligou minutos depois, pedindo desculpas, dizendo que a administração se precipitara e que eu poderia desconsiderar a advertência. Esperançoso na humanidade, sugeriu colocar-nos em contato, Cida e eu, para que resolvêssemos a situação de forma cordial. “Somos todos moradores com boa instrução, educados e que sabem conviver em coletividade. Uma conversa é sempre a melhor saída, não é mesmo?”
E foi assim que comecei a receber os melhores e-mails da minha vida; verdadeiros manifestos literários, preciosos demais para não serem compartilhados; um acesso exclusivo a uma mente fascinante, inquieta e obcecada com o horário das duas da manhã – e com o “equip. que faz barulho:” a ducha higiênica.
“Você trouxe equips. na pandemia que liga fora de horários permitidos, e nem de dia poderia, que aqui é residencial, e há meses que liga tipo furadeira e tipo arrasta móveis. Não pego no sono antes das 2 h e tenho certeza que ninguém faz barulho, porque qdo você não está maior sossego, e durmo cedo, se bem que até 0:00 h tudo bem, mas cansada ter de esperar você dormir às 2 h todas as noites.”
Numa derradeira tentativa de ser um bom vizinho, substituí a famigerada ducha higiênica e as borrachas sob as parcas cadeiras de casa. Mas o mal já estava feito.
“De um tempo para cá você liga equips tipo furadeira e arrasta móveis, e agora modera e liga mais baixo, pois um dia bati no teto, e ligou mais forte, e não consegue arrastar móvel tão pesado, que achei que fosse, e ligava tipo furadeira mais comprido, e agora barulho mais curto, mas hoje 9 h me acordou e domingo nem é permitido ligar nada tipo reforma, que mais de ano já trouxe na pandemia, esses equips. Digo isso pois a visinha me acorda 6 da manhã e deixa cachorro uivando e qdo para, você levanta e faz barulho.”
“Gostaria de parar de me tirar da sossego que de tempão pra cá trouxe esses barulhões que não consigo descansar a não ser na hora que dorme e acorda e não sou obrigada fazer seus horários, concorda? Gostaria de silêncio absoluto depois de 23 h que parece que dorme até 23 e levanta com barulhos até 2 h da manhã.”
Um ponto importante que vale ressaltar é que, quase sempre, já estou na cama ao redor da meia-noite.
Assunto: Implorando silêncio depois de meia noite e se possível já que perco horas dia seguinte segura até as 10H da manhã, pra começar barulho
Mensagem: Acho bom ficar quieto até 2 da nanhã. Deveria estar dormindo agora não fosse não me deixar pegar no sono com Barulho várias vezes só depois da meia noite. Não tenho culpa se só dorme 2 h da manhã desde que fique em silêncio absoluto e ainda tem coragem de se defender que só você vai dormir 2 h da manhã.”
Quando descobriu, pela assinatura do meu e-mail, que sou roteirista, passou a dar uma nova atribuição aos sons do meu encanamento.
“Trocou arrastação de cadeiras hiperprsadas todos os dias há meses ou até ano, por serra agora ? só pode ser ser algum equipamento, que qdo liga controla barulho. Ninguém tem força para todo dia arrastar tantas cadeiras e nem precisa varrer todos os dias embaixo. Uma vez ou outro faxina até ia. Peça você para parar p favor com essa serra, e retira esse equip de produtora até aqui é residencial. E o que derrubou agora que pareceu derrubar o meu teto ?”
“Acho bom levar esse equipamento para produtora que trabalha e tipo furadeira com certeza não era do encanamento que deve ter levado. Trabalho aqui é com computador no máximo não trazer studio pra dentro que é residencial.”
“Daria pra ficar acordado quieto ou tá difícil. Todos os dias as 9 h já levanta fazendo esse e barulhão, que só é permitido reforma depois de só 11 h , e mesmo assim nunca termina quase ou mais de ano, que trouxe esse equip de produtora que trabalha, só pode ser e aqui não é comercial.”
“SilencioooooooooooooooooooooooooooooooSilênciooooooooooooooo… Agora você vai dormir e eu levantar pra ver se tomo chá para me acalmar, e como alguma coisa , que sono alimenta e até agora acordada por sua causa remexendo em coisas. Que alívio parece que agora vai roncar parou qquer barulho.”
É difícil não se solidarizar com alguém que sofre de maneira tão constante e que, justificadamente ou não, atribui esse sofrimento a mim. Mas também é impossível não apreciar a ironia de que eu sou possivelmente o melhor vizinho que Dona Cida poderia ter: ao contrário do que a biblioteca de e-mails pode sugerir, sou extremamente cuidadoso com ruídos, quase nunca recebo visitas e odeio qualquer dispositivo com volume alto; sou bastante paciente – do tipo que atende ligação de telemarketing e ouve a oferta até o fim antes de recusar – e nos primeiros cinco ou seis anos de convívio, até atendia o interfone quando ela ligava. “Não, Cida, não estou usando uma serra elétrica.”
No e-mail mais recente, ela decidiu que “você tem de morar em casa, e principalmente não fazer studio de roteiros, essa hora, aqui no residencial, e ficar pulando no apto tempo inteiro por duas horas me entrando nos pensamentos.”
Talvez Dona Cida seja um ser superior e esteja, de fato, ouvindo os ruídos do meu “studio de roteiros:” os pensamentos que batem nas paredes do meu cérebro, saltitam e me tiram o sono; que às vezes gritam e que, quando mais preciso, ficam em silêncio.
Uma coisa que temos em comum, Cida e eu, é que entramos nos pensamentos um do outro. Toda vez que sua porta bate ou que seus gritos ecoam pelo meu chão, tento visualizar o que ocorre três metros abaixo de mim. Sua casa é uma bagunça? Ou de uma limpeza doentia? É acumuladora? Usa pantufas e penhoar quando vai até o interfone? De que cor é o seu armário?
E é então que me levanto da cama, às duas da manhã, e corro para o computador, derrubando tudo pelo caminho, na esperança de que minha caixa de e-mail revele um pouco mais sobre o fascinante mundo de Cidoca. Refresh.
Há cinco anos, quando comecei a fazer aulas de circo, não conhecia a variedade de aparelhos, e modalidades, e atividades, e estilos que fazem parte desse vasto universo. No decorrer desse período, já me pendurei em tecidos, liras, cordas; já dei mortais em camas elásticas, colchões, fossos; e já me lancei nas mãos de outros seres humanos a seis metros do chão em um trapézio de voos. Recentemente, nesta última modalidade, comecei a treinar um truque que envolve dar um balanço completo no trapézio – um swing –, virar um moral e meio no ar e entregar as pernas ao trapezista de ponta cabeça no outro trapézio – o catcher. Tudo é feito com muita segurança: há, é claro, uma rede logo abaixo e uma corda presa à minha cintura, controlada por um instrutor – o lonjeiro. Mas isso não muda o fato de que, durante o treino – feito sem o catcher –, ao terminar o movimento, estou mergulhando de cabeça em direção a rede, à mercê das habilidades do lonjeiro, em quem eu invariavelmente preciso confiar.
Todas as atividades circenses, aliás, envolvem confiar em alguém: seja no seu parceiro de truque que te segura com os pés, seja na professora que diz “pode soltar, a trava está certa” na hora de uma queda de três metros no tecido. Mas essas são pessoas em quem escolhemos confiar. Na vida fora do circo, porém, nem sempre é exatamente assim.
Há algumas semanas, vendi um carro que acompanhou minhas aventuras desde 2013. Eu sei o quanto cuidei dele e o quão sortuda seria a pessoa a tirá-lo das minhas mãos. Já Felipe, o comprador, não. É verdade que ele pode inspecionar o motor, checar os antecedentes na internet, fazer um test drive, mas em última instância ele precisa confiar que o carro não vai desmontar em suas mãos assim que ele me transferir o dinheiro. Da mesma forma, eu não conheço meu xará: posso investigá-lo na internet, checar se seus dados são reais, mas em última instância preciso confiar que o dinheiro não vai desaparecer em uma nova modalidade de golpe assim que ele puser as mãos na chave. Saindo do cartório – ele com o documento, eu com o dinheiro –, estávamos quase surpresos com o fato de que, olha só, não era um golpe, deu tudo certo!
Mas naquele mesmo dia ainda seria desafiado a confiar em mais alguns desconhecidos.
Enquanto assinava a transferência do veículo em frente ao tabelião, minha mãe assinava a internação no hospital para uma cirurgia de emergência.
— Mas essa roupa tá horrível, eu nem troquei! — indignava-se ela.
— Da próxima vez a senhora precisa se planejar melhor pra quebrar a perna — brincava o médico.
Parte de seu incômodo – juntamente com a dor de um fêmur partido ao meio – era não poder se preparar com antecedência para a cirurgia, escolher um médico conhecido, uma data menos pandêmica.
— Quando é um dia bom pra quebrar a perna, mãe?
O fato é que, de um dia para o outro, ela seria operada por alguém sobre quem nunca ouvira falar – e em quem teria de confiar.
Dr. Thiago entra no quarto radiante e afirma que a cirurgia será naquela mesma noite.
— Você parece meu primo! — diz minha mãe.
— Eu sou mais bonito — diz o Dr. Desconhecido.
Uma mulher de crocs que eu jurava ter dezenove anos se apresenta como anestesista.
— Vai ser uma picadinha aqui, outra ali, vira de lado, mais uma, e a senhora não vai sentir nada. Agora é só assinar estes papéis, e mais estes, e depois estes aqui também, por favor.
Dr. Thiago volta e anuncia:
— O plano de saúde aprovou a cirurgia! Vou operar com o Dr. Lucas.
E se fosse o Dr. Rogério? Ou o Dr. Epaminondas? Ou a Dra. Cleide? Que diferença faz, se a gente não conhece ninguém?
Às nove da noite, a enfermeira a leva para o centro cirúrgico, onde alguém vai desligá-la por algumas horas, fazer três cortes na sua perna direita, inserir uma haste, dois parafusos, costurá-la de volta e esperar que em alguns meses sua perna se movimente como antes. A nós, só resta confiar.
Todos nós temos uma rede de apoio – amigos, família, parceiros: pessoas em quem confiamos e com quem podemos contar quando a coisa aperta. Mas a verdade é que isso não basta. Não vivemos numa bolha redonda e cristalina: vivemos numa grande bagunça em que, cientes ou não, precisamos confiar no outro: que ele vai parar no sinal vermelho; que ele não vai cuspir na comida; que ele não bebeu antes da sua corrida; que ele fez a manutenção do avião; que ele vai consertar a minha mãe.
É verdade que não estamos todos no mesmo barco, mas certamente estamos todos no mesmo oceano. E sem um estranho pra te lançar uma boia de vez em quando, a gente afunda.
Uma das informações mais irrelevantes a meu respeito é o meu signo. Dentre as características aleatoriamente atribuídas a mim pela posição do planeta no dia do meu nascimento estão a indecisão, a busca por harmonia e a apreciação pelo belo. É verdade que não posso refutar nenhum desses atributos, mas convenhamos que dizer que alguém gosta do que é belo não é lá dizer muita coisa, já que dizer o oposto seria no mínimo estranho. “Que lindo esse jogo de toalhas! Jussara vai odiar.”
Talvez tenha sido justamente a busca pelo belo – consciente ou não – que me levou a aceitar o convite para um concerto de música clássica no Hollywood Bowl numa tarde ensolarada de 2010. Foi lá que conheci Paul, um vienense que estudava direção de cinema e que, descobriria depois, havia se formado em história da arte em Paris: uma informação que eu traria à tona nos anos seguintes em qualquer oportunidade de ridicularizá-lo. “Eu sei o suficiente pra parecer que sei muito mais”, dizia ele enquanto me explicava pseudo-pretensiosamente sobre alguma obra de arte moderna. Eventualmente viajamos para o Alasca e, em meio a partidas de xadrez, tentamos chegar a uma definição importante: afinal, o que é arte? “É tudo aquilo que provoca emoção”, concluímos a princípio. Mas o pôr-do-sol à meia noite por trás das montanhas nevadas dizia algo diferente: não dava para negar que aquilo provocava emoção, que aquilo arrebatava os sentidos, mas, não, aquilo não era arte. Era a natureza. Era Deus. Era Algo: mas não era arte. “Arte é tudo aquilo criado pelo Homem que provoca emoção”, foi a nova tentativa. Mas ainda não era isso. “Assassinato não é arte”, refletimos. Então “arte é tudo aquilo criado pelo Homem que provoca emoção, mas que não interfere diretamente na realidade.” Mas como dizer que a arte não interfere na realidade?
Há alguns anos, depois de muita insistência, fui convencido a assistir a uma peça de cinco horas de duração. “Eu sei, eu sei, mas você nem sente passar, eu juro!”, dizia minha irmã, entusiasmada. E ela tinha razão. Tanta razão que quando Os sete afluentes do rio Ota voltou aos palcos anos depois, lá estava eu novamente, sendo arrebatado por movimentos de luz, e som, e dança, e drama, e beleza. E como dizer que aquilo não interferia na realidade? Na minha realidade? Mal sabia eu que em poucos meses o belo deixaria de dar as caras por tanto tempo…
Em 2014 estive em Viena para visitar Paul e tive a chance de explorar a cidade sozinho enquanto ele trabalhava. Sem saber a fundo o que a capital austríaca oferecia em termos culturais, uma das minhas primeiras paradas foi o impronunciável Kunsthistorisches Museum: o museu de história da arte. Foi lá que dei de cara com a obra de arte mais impressionante que vi até hoje. Minha memória me diz que na entrada do museu há um saguão com um altíssimo pé direito e um guichê de cada lado; à frente, há um grande biombo – ou seria uma parede? – que impede que vejamos o que está do outro lado. Comprei meu ingresso e segui pela lateral do biombo, para adentrar o museu. Ali notei que as pessoas paravam por um instante, boquiabertas, observando o que estava à sua frente. Segundos depois, eu seria uma delas: à minha frente estava um lance de escada de mármore branco; no topo, entre lances de escada à esquerda e à direita que levavam ao segundo andar do museu, impunha-se a escultura de Antonio Canova: Teseu vencendo o centauro. Esculpida em mármore branco, a obra retrata Teseu inclinado sobre o centauro, com o joelho esquerdo pressionando o peito da figura mitológica, a mão esquerda apertando seu pescoço e a mão direita com um bastão pronto para atacá-lo. A criatura, metade homem, metade cavalo, tem uma expressão de horror, as patas dobradas sob o torso, a mão esquerda apoiada no chão e os dedos da mão direita fincados no braço de Teseu. Tanta vida num pedaço de pedra… A Europa ainda me tiraria o ar em outras ocasiões – o brilho dourado de O beijo, que parecia saltar da parede preta exclusiva para ele, a diminuta Mona Lisa, escondida atrás de fitas de segurança, vidros blindados e turistas orientais –, mas o impacto da primeira obra do primeiro museu que visitei na Áustria nunca foi superado.
Outro dia a internet me fez cruzar com o antigo professor de teatro da escola onde estudei. Nunca fiz aulas de teatro, mas me lembrei de imediato de uma peça montada por sua turma, a qual assisti no auditório do colégio. Sem ter nem sequer pensado naquela montagem cômica por mais de vinte anos, algumas cenas voltaram com clareza à minha mente. Uma delas, em particular, envolvia uma discussão entre uma personagem e sua irmã mais velha que, irritada, grita: “Puta que pariu, que merda!”, deixando a pequena em choque. É refrescante pensar que a arte fica na gente, que mesmo anos, décadas depois, aquilo que é belo, aquilo que é arte fica guardado em algum lugar da memória, mesmo que a gente não se lembre, para que a gente possa acessar nos momentos de escuridão, em que “puta que pariu, que merda!” não poderia definir melhor o tempo presente.
Paul e eu temos a tradição de falar pelo Skype uma vez ao mês para mantermos nossa amizade viva. No próximo encontro vou dizer a ele que já tenho uma definição: arte é tudo aquilo criado pelo Homem que provoca emoção e torna a realidade suportável.
Foto: Tabuleiro de xadrez em Kachemak Bay, por Paul Schwind.
Tendo passado a grande maioria dos meus trinta e seis anos solteiro, estar em viagens ou eventos sociais acompanhado de amigos e familiares é, para mim, completamente natural. A sociedade, porém, não parece pensar da mesma forma. Isso ficou evidente em uma viagem de três dias que fiz para um hotel no interior de São Paulo com meu amigo Jorge.
Estávamos almoçando, Jorge e eu, quando ele levantou-se para buscar mais comida. Um garoto de uns 10 anos de idade se aproximou e me encarou, curioso. Ele vestia uma camisa do São Paulo e uma chuteira colorida, e tinha um olhar que transmitia, ao mesmo tempo, inocência e sadismo. Descobriria no futuro, sem grande surpresa, que seu nome era Enzo.
— Você é o tio do futebol? — ele perguntou.
Tentei me lembrar da última vez em que eu havia tocado numa bola de futebol, possivelmente em uma brincadeira entre amigos, em 2006. A penúltima certamente havia sido em 1993.
— Não — respondi.
— O que você faz?
— Aqui ou na vida?
Ele refletiu por um instante.
— Aqui.
— Estou de férias, descansando.
— Você namora?
Quem é você? Minha mãe? Por que esse interesse na minha vida afetiva?
— Não.
— Cadê o moço que estava sentado aqui?
— Foi pegar mais comida.
Não é a primeira vez que alguém suspeita que Jorge e eu somos um casal. Não por qualquer característica em particular – apesar de Jorge já ter sido questionado sobre o tamanho de suas golas V, o comprimento de suas bermudas, a estampa de sua sunga –, mas simplesmente porque se dois homens estão juntos, e não estão bebendo, jogando futebol ou arrotando, eles só podem, é claro, estar chupando o pinto um do outro. Jorge não é gay – algo que ele faz questão de deixar claro para as mulheres solteiras ao redor. Aliás, se medíssemos a heterossexualidade de alguém pela quantidade de parceiros do sexo oposto, Jorge seria possivelmente a pessoa menos gay do meu convívio. Dito isso, não é como se ele se importasse com a questão – um dos muitos motivos pelos quais somos tão amigos.
Ser confundido com um casal não é uma novidade para mim. Certa vez, em um bar descolado, um garçom/modelo decidiu que Larissa e eu éramos o par perfeito, a ponto de perguntar para mim qual drink ela queria e nos servir água no mesmo copo. Isso acontece também de maneira ainda mais costumeira – e perturbadora – quando estou com minhas irmãs. Durante anos, fiz aulas de espanhol com uma delas, cinco anos mais velha. Um dia, renovando a matrícula, a secretária tomou coragem e se manifestou:
— Desculpa, posso fazer uma pergunta? Faz muito tempo que eu quero perguntar, mas não tinha coragem.
— Pode falar — respondi, com alguma tensão.
— Vocês são o quê?
Levamos alguns instantes para entender o que ela queria dizer.
— Vocês são casados? — ela esclareceu.
“Eu tenho dezesseis anos! E você sabe disso, porque na ficha que está na sua frente tem minha data de nascimento!”
— Não, nós somos irmãos.
— Nooooossa, eu nunca ia imaginar! Eu via o mesmo sobrenome, mas bem que achava vocês muito novinhos pra serem casados…
Com minha outra irmã – esta, treze anos mais velha – a situação é parecida. Basta entrarmos em qualquer quarto de hotel para encontrarmos uma cama de casal romanticamente decorada. “Olá, é do spa? / Gostaria de marcar duas sessões para hoje à tarde. / Não, não estamos em lua de mel. Quer dizer, espera. Tem desconto?” Agora um homem e uma mulher não podem nem fazer uma massagem esfoliante juntos sem parecerem um casal? Também acontece de estarmos com minhas sobrinhas, de idades treze a dezessete, o que automaticamente nos configura como um casal com três filhas – ou, em dias menos generosos com minha irmã, uma mãe com quatro filhos.
Já quando visito minhas sobrinhas, sua mãe anuncia ao porteiro:
— Pode deixar subir, é meu irmão – “e não meu amante”, é o que fica implícito.
No segundo dia da viagem, Enzo nos encontrou na piscina.
— Você é o tio do futebol? — perguntou, desta vez para Jorge.
— Não.
— O que você faz?
— Estou de férias, descansando.
Eu já sabia o que vinha depois.
— Você namora?
— Não.
Enfim, ele tomou coragem, apontou para nós dois e perguntou o que realmente queria saber:
— Vocês são o quê?
— Amigos — Jorge respondeu.
Não sei se ele resolveu mudar de assunto ou validar a resposta, mas a pergunta seguinte foi direcionada a mim.
— Hoje você não está usando o arquinho?
Era uma época conturbada, em que muitos homens – e mulheres – abandonaram qualquer senso estético, de forma que mullets e raízes brancas repentinamente voltaram à moda. Sendo assim, a forma mais prática de manter meus cabelos apresentáveis à sociedade era usando uma tiara, o que Enzo, suspeitava eu, considerava um artigo feminino.
— É que na piscina não precisa — respondi.
— E esse livro que você tá lendo? É Harry Potter?
Ele apontou para o livro com uma coruja na capa, apoiado sobre uma toalha na borda da piscina. “Vamos Explorar Diabetes com Corujas – ensaios, etc.” era o título, em tradução livre. Escrito por David Sedaris – um autor alcoólatra, homossexual e genial – o livro reúne histórias em primeira pessoa sobre o roubo de tartarugas-bebês, desavenças com estranhos em aeroportos e aventuras sexuais em um trem, entre diversos outros episódios.
— Não, definitivamente não é Harry Potter.
Horas depois, estávamos de volta ao restaurante, Jorge, eu e agora Renata, uma garota que viajava sozinha e a quem Jorge havia deixado claro que não era gay. “Viajando sozinha nesse hotel que só tem velho e família? Certeza que é puta!”, refletiram os pais de Enzo em algum momento. Enzo voltou, dessa vez acompanhado de dois amigos mais novos. “Vem comigo, quero mostrar uma coisa incrível pra vocês!” – ele certamente dissera minutos antes. Os três nos encaravam como quem acompanha pinguins sendo alimentados no zoológico. A equipe de animação do hotel nos olhou da mesa ao lado. Talvez estivessem com ciúmes. “O que eles têm que eu não tenho?”
— Viu, Enzo? Eu chamei ele pra jantar! — disse Renata apontando para Jorge, sugerindo que ela também havia sido vítima do interrogatório afetivo do garoto.
Depois de nos encararem por mais alguns desconfortáveis minutos, o pequeno trio partiu rumo a alguma atividade seguramente menos interessante.
— Hoje cedo ele me perguntou como vocês dormiam — confessou Renata. — “Porque nos quartos só tem uma cama de casal!”
— E você disse que no nosso quarto a cama é de solteiro e que dormimos nus, de conchinha?
Ainda veríamos Enzo mais uma vez naquela viagem. Jorge, Renata e eu conversávamos na recepção quando ele passou com os pais, que levavam as malas para fora.
— Já vai embora? — perguntou Renata.
— Já… — disse ele, decepcionado com o fim das férias.
Seus pais, por outro lado, carregavam o carro aliviados por levarem seu rebento para longe daquele antro, onde atos impronunciáveis eram praticados ao cair da noite na intimidade do quarto 238.
Foto: Thomas Couture – “Les Romains de la décadence” (Musée d’Orsay, 1847. Óleo sobre tela, 472 x 772 cm)
Recentemente, na agência onde trabalho, começamos a usar um programa de comunicação chamado Discord. Meu primeiro pensamento ao ver aquele logo com um robô feliz foi: “por que alguém daria esse nome justamente a um programa de comunicação?” Eu poderia ter investigado um pouco e resolvido esse mistério, mas não me importei o suficiente – confesso. Apelidei o famigerado de “discórdia” e segui a vida. Essa singela reflexão, porém, levou-me a outra um pouco mais profunda.
Há alguns anos, um casal de amigos veio jantar em casa (numa época em que isso era socialmente aceitável). Surgiu o assunto do sistema educacional brasileiro, sobre o qual ele, professor de Geografia, tinha fortes opiniões. Não posso dizer que as minhas opiniões eram fortes, mas eram, certamente, diferentes das dele. Porém, decidi me calar. Não nos víamos havia muito tempo, e só o que eu queria era conversar amenidades e beber um vinho. E assim foi.
Por uma grande casualidade, no dia seguinte, uma amiga em comum iria jantar na casa desse mesmo casal. E lá fui eu novamente. “Ou a gente não se vê nunca, ou se vê duas vezes no mesmo fim de semana! Que coisa, não?” Novamente, surgiu o assunto do sistema educacional brasileiro, dessa vez ainda mais inflamado do que na noite anterior. A amiga em comum – que também não os via há tempos e, portanto, poderia usar o mesmo argumento que eu – tinha uma visão distinta e resolveu expressá-la. Não foi uma briga. Não houve tensão. Ele tinha uma opinião. Ela discordava. O assunto foi debatido. Jantamos, tomamos vinho, aprendemos uns com os outros.
Foi então que eu percebi que estou desaprendendo a discordar. Não apenas eu: nós. Numa época de cancelamentos e lacrações, vamos nos tornando meros hospedeiros de ideias virais que precisam impreterivelmente contaminar o outro; polos negativos de ímãs que jamais conseguem se aproximar. Em meio a discursos inflamados de “somos todos iguais”, vamos perdendo a habilidade de lidar com o diferente.
No final de 2016, no dia seguinte à eleição em que Donald Trump venceu Hillary Clinton, a repórter Stephanie Foo entrevistou dois amigos, militares, para um breve segmento do podcastThis American Life que concluía assim:
“Sentar com esses caras logo depois dessa eleição tão pesada e segregadora foi revigorante. Não a parte sobre uma possível guerra nuclear, mas a maneira como eles falavam um com o outro. Eles discordam em tudo, mas gostam demais um do outro. Eles trabalham muito bem juntos, fazem o que precisam fazer. Muitos dos eleitores de lados opostos não conversam o suficiente para perceber que, na verdade, poderiam se dar bem. Neste momento, em que ninguém parece ouvir ninguém com um ponto de vista diferente, em que um lado despreza o outro e acredita que ele vai destruir o país, foi um alívio assistir a uma discussão decorrer dessa forma, sem qualquer julgamento, raiva ou rancor, em que uma pessoa reconhecia continuamente a humanidade da outra. Depois deste último ano, a gente precisa muito disso.”
Foi há quase quatro anos, mas poderia ter sido ontem; foi nos EUA, mas poderia ter sido em qualquer lugar do mundo; foi sobre política, mas poderia ter sido sobre qualquer assunto.
Mas voltando ao Discord. Que nome incrível para um programa de comunicação!
Há coisas na vida que aparentemente não fazem sentido. Muitas, na verdade. Uma delas — e uma nada relevante, devo adiantar — é a minha relação com o número 17. Muito antes de ser um ícone nacional de polarização política associado a figuras nefastas, o número 17 já era um símbolo internacional de mau agouro. Alguns dizem ser devido ao anagrama VIXI, do algarismo romano XVII, que em latim significa “eu vivi”, portanto, “estou morto”. Na Itália, aliás, de onde vem minha herança genética, o 17 equivale ao nosso 13: o dia de azar é a sexta-feira 17. Vixi!
Mas na adolescência eu não sabia de nada disso, e nem me importava (o que me importava na adolescência?). Aos 15, uma grande amiga completou 17 anos. Por algum motivo, aquilo me era fascinante. “Dedé, você vai fazer dezessete!” — eu repetia, incrédulo, da mesma forma como alguém talvez ficasse ao saber que um avô nasceu no século XIX, por exemplo. O fato é que eu tinha uma amiga adulta e ninguém mudaria aquilo! Dois anos depois, seria a minha vez de quebrar a barreira dos 17. Mal sabia eu que celebraria a entrada dessa era do outro lado do planeta, em plenos Jogos Olímpicos, em um novo mundo que se abria, com infinitas possibilidades, com amigos que não conhecia nos 17 anos anteriores. Alguns deles continuariam amigos por algum tempo, outros se tornariam colegas de trabalho e muitos eu jamais veria novamente.
Mas eu também não sabia de nada disso.
O não saber o que vinha depois era empolgante, e assim os 17 anos que se seguiram passaram rápido. Uma carreira imprevisível, viagens inesperadas, amizades inusitadas e — olha só — um apartamento no 17º andar de um prédio convenientemente localizado a três quadras de um trabalho que, para a minha surpresa, ainda seria meu sete anos depois.
Tantas coisas novas até o aniversário de 34! Este, também, celebrado com pessoas novas, advindas de uma atividade impensável no passado — o circo —, em um restaurante inédito.
“A vida é tão cheia de novidades!”
E de repente… não é mais. Ou não parece ser.
Aos 17, a vida toda está pela frente: um mundo de sonhos e possibilidades. Então, num piscar de olhos, os grandes marcos já ficaram para trás; alguns sonhos foram conquistados, outros não; novos sonhos vêm e vão, e o futuro deixa de ter um alvo definido. A ilusão de que tudo é possível dá lugar à realidade. O não saber o que vem depois passa a ser tão excruciante quanto saber que não há nada específico pelo que ansiar — e que tudo bem.
Aí só resta viver o presente — algo que 2020 está nos forçando a aprender.
Este ano, minha sobrinha, que até ontem era um bebê, completou 17 anos. Perguntamos o que ela queria ser no futuro.
Você diz que não quer ter filhos. Não que você não goste de crianças, não é isso. Você inclusive passa bastante tempo com crianças, você acredita que elas podem mudar o mundo, mas você nunca quis ter crianças suas, pra cuidar 24 horas por dia. Sempre te disseram que isso mudaria um dia, “Ah, na sua idade eu também não queria ter filhos, mas depois todo mundo quer.”, mas você não é todo mundo: o tempo passou e você continuou não querendo ter filhos. E tudo bem. Aí ele aparece na sua vida, numa noite que já tinha quase acabado. Marcam um encontro perto da casa dele. Você chega antes. Ele chega uns minutos depois. Você o vê de costas, dá um tapinha em seu ombro, ele vira e sorri. Vocês tomam um café. Você não tinha expectativas – o que é raro, mas quando percebe já quer prolongar aquela noite. Torce pra que ele te chame pra subir, e ele chama. Você vai embora horas depois querendo vê-lo o mais breve possível. Vocês se veem no dia seguinte, e no outro, e no outro. Você achava que ele estava de passagem, mas ele puxa uma cadeira e fica por ali. Sem querer, entra na sua vida naquele mesmo fim de semana, com escova de dente e tudo. Vocês conversam hipoteticamente sobre a vida, sobre o futuro. Ele logo diz que quer ter filhos. E logo. Você diz que não pensa muito naquilo e deixa pra refletir depois, afinal não quer ser do tipo que já pensa em filhos e casamento e almoços de domingo no primeiro encontro. Mas os almoços de domingo logo viram o assunto, e fica decidido que seriam da família. A princípio ele não tem muito a ver com você, mas aos poucos aquilo tudo começa a fazer sentido. A maneira como ele tira o celular do silencioso só pra não perder sua mensagem, a maneira como ele te liga em vez de mandar mensagem só pra ouvir sua voz. Mal se conhecem e já têm uma música. Ele muda sua maneira de passar perfume, de usar o teclado do computador, de usar o celular. Aí você começa a pensar em como será apresentá-lo aos seus amigos. Ele é mais velho, e você pensa que eles talvez tenham pouco em comum, mas você pensa que tudo bem, porque a vida muda, a gente evolui, e você sabe que os amigos mudam, é natural. De repente você se assusta com o quão rapidamente a sua vida pode mudar, mas respira fundo, empolga-se, até: na sua idade, casais vão morar junto em pouco tempo. Ele cogita ir morar na Suécia em dois ou três anos. Você pensa que aquilo nunca passou pela sua cabeça, mas por que não? Você tem amigos na Suécia, você gosta de frio, e com ele um cenário diferente faz sentido. Muita coisa com ele faz sentido. Inclusive ter filhos. Você lembra que nunca quis ter filhos, mas nunca pensou que isso poderia impedir que outro os tivesse, e com ele você começa a pensar diferente. Você também começa a pensar nas suas escolhas até aqui. “Será que eu sou o suficiente pra ele?” Você sabe que não deveria pensar assim, mas isso fica na sua cabeça e faz você querer ser uma pessoa melhor. Você passa os dias planejando os momentos em que vão estar juntos. Os dias e as noites. Vocês dormem juntos, e você dorme como nunca dormiu com ninguém, porque sabe que ele vai estar lá no dia seguinte, e com sorte nos outros também. Você quer estar com ele mais do que com seus amigos com quem ele provavelmente não vai se enturmar e aceita que uma nova fase da sua vida está começando. Uma fase em que você pode a qualquer momento ter novos amigos, uma nova casa. E até ter filhos. Vocês já criaram uma rotina, e quando você tem certeza de que está tudo bem, ele fica estranho.
Tudo bem, todo mundo fica estranho, às vezes. Um dia ruim no trabalho, talvez. Você tenta não dar muita bola, mas não consegue. Aí você pensa como puderam chegar a esse nível em pouco mais de um mês. Há quarenta dias eram estranhos, e agora temia não ter os filhos dele. Você tenta deixar os pensamentos de lado, mas uma mensagem de “Vamos conversar?” os trazem de volta. Você esperava um encontro com um jantar e muitos beijos, mas contenta-se com um café – na mesma mesa em que se conheceram. Ele já está lá quando você chega. Ele te vê e sorri, um sorriso triste. Você faz o mesmo. A garçonete vem retirar os pedidos. Seria a mesma do mês anterior? Ele está sem jeito, mas acha um jeito de dizer o quanto te acha incrível, mas que não se vê em um relacionamento com você. Diz que falta algo, que não sabe o que é, mas que precisa ir buscar. Você dá um gole no café e digere as palavras. Você sabe que ele não quer te machucar, e isso torna tudo mais difícil. Você quer pedir pra que ele fique, mas não quer mendigar o seu amor. Você quer ficar com raiva, mas a tristeza não deixa. Você decide dizer a verdade: que quer estar com ele, mas que quer estar com alguém que fale de você como você fala dele. Ele aceita a sua tristeza. Agora é ele quem bebe o café. Você diz que não resta muito a dizer e que vai tentar transformá-lo numa boa lembrança. Ele diz que vai sempre se lembrar de você com carinho. Você se levanta tentando afastar o pensamento de que nunca vai conhecer sua família, seu cachorro, sua vida. De que ele vai ter os filhos de outra pessoa. Vocês se despedem com um abraço com mais sentimentos do que muitos beijos, e você sai, sem olhar pra trás, tentando entender como pôde se envolver tanto em tão pouco tempo. Tão de repente como as coisas começaram, elas terminam, e você parte, pensando que realmente nunca quis ter filhos.