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A beleza das coisas

Há algumas semanas, após nove temporadas, a série americana “The Office” chegou ao fim.

E daí?

De fato, isso faz pouquíssima diferença na vida da vasta maioria da população humana, mas para este ponto insignificante do universo – eu – isso teve, sim, uma considerável relevância.

Explico.

Comecei a assistir a “The Office” em meados de 2009, quatro anos depois de sua estreia. Cheguei atrasado à festa. Ainda assim, logo estava enturmado e me divertindo com todos os outros.

Quem me apresentou à série foi Logan, meu colega do AFI – o mesmo que se tornaria meu melhor amigo. Não recordo bem como, mas sei que de repente tinha em mãos seus DVDs, com todas as primeiras temporadas.

Foi numa segunda-feira qualquer de setembro, deitado na cama, “The Office” na tela do laptop, que me dei conta de como estava fascinado com as pequenas coisas do meu novo dia-a-dia na ainda desconhecida cidade de Los Angeles. Olhei pra trás e percebi que o dia não havia me trazido nada de extraordinário: aula, supermercado, lavanderia, talvez um almoço com os amigos, e uma noite tranquila com Michael, Pam, Jim, Dwight e companhia.

Ali me dei conta pela primeira vez de que não precisava de muito.

Em dezembro, voltei de férias ao Brasil e “The Office” veio comigo no avião. Aquela viagem pela qual eu esperava tanto durante as primeiras semanas nos EUA já não se fazia tão necessária agora que até lavar a roupa parecia especial.

Angela, Kelly, TobyCreed me fizeram companhia naquelas semanas no Brasil; me lembravam da boa rotina que me aguardava no retorno aos EUA.

Seis meses depois, Logan e eu já éramos roommates. Assim como a daqueles personagens, minha rotina também mudava com a constante entrada e saída de novas figuras.

Assistir à “The Office” servidos de pizza, pipoca, taquitos ou qualquer que fosse o menu da noite – e com Lebowski latindo aos carros na rua – passou a ser rotineiro na nossa semana. Também passaram a ser rotineiros os jogos de tênis aos domingos, filmes no multiplex ao lado nas noites livres, comida japonesa entre uma aula e outra.

Em 2011, assim como Steve Carell, me despedi daqueles que tinham sido personagens importantes do meu dia-a-dia, da minha história. Voltei ao Brasil e algum tempo se passou até que conseguisse criar uma nova rotina e voltar a acompanhar o dia-a-dia de Oscar, Andy, ErinPhyllis – agora do meu antigo quarto, já sem pizzas do Papa John’s ou Lebowski correndo aos meus pés.

Mais um ano – e uma temporada – se passaram até que fui morar sozinho. Aos poucos, fui recuperando o fascínio daquela segunda-feira de setembro, em que cozinhar e limpar a casa transformaram-se em exemplo da mais pura felicidade.

Aí veio o último episódio de “The Office”. Era hora de vê-los na tela de forma inédita pela última vez. Não eram apenas personagens de um vídeo de YouTube, que eu conhecera três minutos antes, ou mesmo de um filme, apresentados cem minutos atrás: eram personagens que eu havia acompanhado por quatro anos, que haviam marcado momentos incríveis do meu dia-a-dia; personagens que tinham seus dias documentados como se fossem os mais importantes de suas vidas; personagens criados por pessoas que, assim como eu, um dia tiveram o sonho de dar vida a criaturas que só existiam em suas mentes.

Ao final do episódio, Pam se pergunta: Por que alguém escolheria uma empresa de papelabsolutamente comum para ser o tema de um documentário?

Era como se me perguntasse: Por que alguém escolheria as atividades mais comuns do dia-a-dia como o ponto alto de uma viagem, de uma época, de uma vida?

Na última frase de toda série, ela mesma dá a resposta:

“Existe muita beleza nas coisas mundanas. Não é mais ou menos esse o ponto?”


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Ensaio sobre a surdez

Outro dia, ouvindo um dos episódios do programa de rádio This American Life, conheci a trágica história de um médico adorado por seus pacientes que estrangulou o próprio pai.
A história é longa e complexa, mas um elemento importante é que o médico, já na cadeia, alegando problemas neurológicos, pedia insistentemente por 80 miligramas de um medicamento chamado Celexa. Anos se passaram até que ele fosse corretamente diagnosticado. 

A medicação recomendada? 80 miligramas de Celexa.
Uma das perguntas que o programa levanta é: por que ninguém o ouvia?
Em situações menos drásticas, o mesmo acontece. Você está no McDonald’s e pede um McChicken com suco de maracujá. A atendente replica:
– Qual a bebida?
– Suco de maracujá.
Ela fala o valor.
– Aceita ticket?
– Sim.
Você entrega o cartão.
– Crédito ou débito?
– É ticket.
No Cinemark, a mesma coisa. Você pede uma pipoca média com manteiga.
– Qual o tamanho?
– Média
Ela pega o saquinho.
– Manteiga?
– Sim.
Na hora de pagar você entrega o cartão.
– Crédito, por favor.
Ela apanha o cartão.
– Débito, né?
Outro dia fui ao Banco do Brasil com o médico que me vendeu seu carro. Ele precisava pagar o IPVA. Tentou no autoatendimento. Não conseguiu. Quis pegar uma senha para pagar no caixa. O funcionário implicou.
– Você precisa pegar a guia aqui no autoatendimento primeiro.
– Não dá. O carro é do Distrito Federal, preciso pagar direto no caixa.
O funcionário insiste. Ele volta ao autoatendimento. Em vão.
– É, realmente, não dá.
– Posso tentar no caixa? Eu já paguei lá um vez, tenho certeza que dá.
– Pode, mas você vai perder seu tempo, não vai conseguir.
Conseguiu.
Um mês depois, é minha vez de pagar o licenciamento do mesmo carro, no mesmo banco. Consigo chegar ao caixa sem obstáculos. Entrego o documento do veículo ao atendente.
– Bom dia, preciso pagar o licenciamento.
– Você precisa pegar a guia no autoatendimento primeiro.
– Então, na verdade, como esse carro é do Distrito Federal, é diferente. Eu sei que preciso pagar direto no caixa.
– Olha, deixa eu te explicar uma coisa: não importa o que você me disser, você não vai conseguir pagar o licenciamento sem passar no autoatendimento antes.
A atendente ao lado interfere.
– Ah, não, peraí. Quando é do Distrito Federal é diferente.
Ela aperta algumas teclas no teclado dele.
– Tem que colocar esse código.
Ele sorri sem graça para mim.
– Ah, é uma exceção, né? É que a gente já tá tão acostumado com o outro jeito…
Exato. Por isso, bastava ter ouvido.
Semanas depois, no Detran, ninguém sabe me informar, claramente, que taxas pagar. Até que uma supervisora me avisa:
– Pague a taxa como carro novo, não como carro usado. Se você pagar errado, a burocracia pra receber o reembolso é grande.
Não me convenci. Olhei na internet e vi uma informação diferente. Paguei diferente.
Resultado? Até hoje tento receber o reembolso da taxa.
Bastava ter ouvido.
Não é à toa que um dos lemas do programa social com o qual sempre estive envolvido é: “Toda criança merece ser ouvida.” Encontrar alguém que de fato ouça o que você está dizendo – e não esteja apenas esperando sua vez de falar – é cada vez mais difícil.
Com a velocidade que a informação viaja hoje em dia, a ilusão de que estamos nos comunicando é grande. Facebook, Twitter, Blog, SMS, comentários em notícias da internet: falar é fácil, mas será que alguém está ouvindo?

A julgar pela conversa entre minha irmã e minha sobrinha de 7 anos, ainda há esperanças:
– Mami, hoje eu tenho lição de casa, mas não preciso fazer.
– Por que não?
– A lição é treinar ficar quietinho enquanto o outro fala.

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E.R. – Segunda temporada

Outro dia tive que fazer uma ressonância.
Não sou do tipo que tem problemas para ir ao médico, fazer exames ou ir a hospitais. Sempre concordei com uma amiga que diz: “hospital é onde você vai pra se curar”. Com esse espírito, cheguei ao laboratório preparado para entrar no tubo barulhento e descobrir o que é que faz minha coluna doer.
Na recepção, respondo a perguntas do tipo: “Você já levou um tiro?”, “Tem algum projétil alocado no corpo?”, “Você usa prótese peniana?”. Assinalo “ainda não” em todas as perguntas, descrevo os remédios que estou tomando e sigo para a sala de exames. A enfermeira olha a minha ficha:
– Dor na coluna, né? Já tá tomando antiinflamório…
– Não, não. – interrompo.
– Ué, tá aqui: minoxidil.
– Minoxidil é um remédio pra queda de cabelo.
– Ah… Bom, pode deixar suas roupas ali no armário e se trocar naquela sala.
De camisolinha e bunda de fora, volto para a sala de exames. Ela pede para que eu me deite e aguarde. Minutos depois, ouço alguém vomitando nas proximidades. A enfermeira tenta uma conversa:
– Você tá bem? Fala comigo. O que o senhor tá sentindo?
[grunhidos]
A enfermeira volta para a sala onde estou, prepara uma seringa e sai novamente. A pergunta se repete. O grunhido se repete. Ela volta para preparar mais uma seringa.
– Vem cá, eu vou ter que tomar contraste? – pergunto.
– Ah, não… Mas isso não é por causa do contraste. É que ele tá em jejum.
Ela parte. 
“Mas eu também estou de jejum, porque me MANDARAM estar em jejum” – penso.
Antes de sair, ela solta um animador:
– Pode relaxar porque ainda vai demorar um pouquinho…
Uma médica passa pela minha sala.
– Você está em jejum?
– Sim.
– Há quanto tempo?
– Umas seis horas.
– Seis!?
Ela parte, chocada. Ouço-a comentar com outro enfermeiro:
– Leva umas bolachinhas pro outro paciente que ela tá há seis horas sem comer.
O enfermeiro entra com um Toddyinho e uma bolacha de água e sal.
– Mas eu não tinha que estar em jejum?
– Só se for tomar contraste, mas você não precisa.
E não podiam ter avisado antes?
O paciente moribundo é trazido para a sala ao lado. A médica insiste:
– Antonio, fala comigo. Como você tá se sentindo? Tá melhorando?
[grunhidos]
– Não tô entendendo. O enjoo passou, Antonio?
– Marcos…
– Hein?
– Meu nome é Marcos…
– Ah, perdão. Tá melhor, Marcos?
– Não consigo respirar…
A enfermeira decide, enfim, chamar uma ambulância:
– Boa noite. Temos um paciente aqui que fez uma ressonância e está passando mal. Parece ter febre, sudorese fria, dificuldade para respirar… Idade? 70. Não, espera! Ah, ele nasceu em 70… Ele tem 33. Não! 43.
Com a ambulância a caminho, o enfermeiro volta à minha sala.
– Só vou terminar de limpar o aparelho e já te levo.
Ele sai e conversa com a médica.
– Já vou levando ele lá e posicionando no aparelho, tá?
– Mas você sabe o que tem que fazer?
– Ué, não é só empurrar a maca?
A essa altura, toda minha tranquilidade já foi pro espaço e a confiança no serviço médico foi substituída pela certeza da morte iminente.
O enfermeiro volta.
– Vamos lá?
Será que eu preciso mesmo saber porque minhas costas doem?
– Me diz uma coisa, quanto tempo demora o exame?
– Uns 40 minutos.
– Quarenta!?
– É que são dois exames, né?
Resignado, sou levado para a sala recém-higienizada. Ele coloca a maca na posição, me indica o botão do pânico e, em poucos segundos, estou dentro de um tubo que passa a 20 centímetros da minha cara.
– Então se eu entrar em pânico é só apertar aqui?
Ele já foi.
Entro em pânico. Aperto o botão freneticamente. A voz dele surge pelo auto-falante da máquina.
– Tá tudo bem?
– Tá. Só queria ver se isso aqui tava funcionando.
– Ah, OK. Vamos começar.
O barulho ensurdecedor começa. Minutos depois, uma voz robótica sai da máquina: “Não engula”.
Era o mesmo que dizer “não pense num elefante”.
Cerca de meia hora depois, a tortura termina. Sobrevivo. Visto a roupa e pergunto à enfermeira sobre o tal do Marcos:
– Ele vai ficar bem?
– Acho que sim…
Saio do laboratório e pego um táxi, ansioso por um pouco de silêncio e uma noite tranquila. O taxista sorri:
– Tudo bem se eu ligar a TV no Cidade Alerta?

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Assim caminha a humanidade

Logo que cheguei ao AFI, em Los Angeles, Carl Smith, o responsável pelos estudantes estrangeiros, mencionou que não havia outros brasileiros na turma – nem na minha, nem na anterior – mas disse que um brasileiro havia se formado dois anos antes na disciplina de produção.

Conheci Daniel algumas semanas depois. De passagem pelo campus, Daniel me contou que já morava em Los Angeles havia algum tempo e que sua vida era lá – não pretendia voltar ao Brasil tão cedo. Conversamos brevemente sobre os projetos que ele, como todo bom produtor, tentava a todo custo tirar do papel, sem saber onde aquilo tudo iria dar.

Antes de nos despedirmos, recomendou que eu assistisse a “District 9” no Chinese Theater. “O filme é excelente e é uma ótima chance de você conhecer o Chinese Theater. A gente que mora aqui vai deixando tudo pra depois e acaba não indo”.

Daniel estava duplamente correto: o filme era excelente e foi indicado a 4 Oscars no ano seguinte. E eu fui deixando pra depois e jamais cheguei a ver um filme no Chinese Theater.

Mais de três anos depois, já de volta ao Brasil, fui convidado por meu produtor a assistir ao filme de abertura da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Acabei sentando ao lado de uma colega que não via há nove anos, mas as coincidências não parariam por ali: feitas as apresentações iniciais da Diretora da Mostra, do Prefeito e da Ministra da Cultura, uma voz conhecida subiu ao palco. 

“Eu conheço esse cara! Ele estudou no AFI!”, comentei animado com meu produtor, enquanto Daniel apresentava seu filme a uma plateia de mais de 700 pessoas que se divertiam com seus comentários bem-humorados sobre o diretor e o ator principal, que não puderam estar presentes, e sobre como um brasileiro virou o produtor de um filme chileno.

Na festa que seguiu a sessão, Daniel era a figura mais cobiçada do evento, mas tive a chance de parabenizá-lo brevemente pelo filme. “Eu conheço você,” foi a vez dele dizer, “mas não lembro de onde!” “Do AFI,” respondi.

Perguntei a ele como havia chegado até ali. Ele disse que sua experiência havia sido incrível. Que com muito trabalho o filme havia saído do papel, chegado aos festivais, sido exibido em Cannes e agora estava ali. “É um sonho…”

Nos despedimos e ele seguiu adiante para cumprimentar mais convidados, ávidos por uma palavra sua, sem saber que seu sonho estava apenas começando.

O filme de Daniel Dreifuss, “No”, estrelado por Gael García Bernal, acaba de ser indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro.

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O primeiro dia

(Aviso: sei onde este texto começa, mas não sei bem onde vai acabar.)

Nos últimos meses tenho pensado muito no “primeiro dia”: o primeiro dia de aula, o primeiro dia de trabalho, o primeiro dia de viagem.
Quando era pequeno adorava o primeiro dia de aula. Abrir os livros novos, conhecer os professores, os colegas de classe… Lembro que na sétima série fiz uma viagem com família em fevereiro e fiquei extremamente desapontado por perder o primeiro dia de aula – para estar em alto mar.

Já mais velho, os “primeiros dias” começaram a vir acompanhados de uma certa tensão. O primeiro dia de trabalho trouxe um “será que eu vou conseguir dar conta? “Será que eu vou gostar daqui?” “Será que vão me chamar pra almoçar?”

O “primeiro dia” também me faz lembrar das “primeiras vezes”. A primeira vez que vi alguém, que visitei um lugar, que fiz alguma coisa.
A primeira vez que fui ao cinema foi para assistir a “Esqueceram de Mim.” A extinta Sala 3 do Shopping Ibirapuera era pequena e estava lotada. Alguém alto sentou na minha frente e tive de mudar para a poltrona ao lado e dividi-la com uma amiga para poder enxergar Kevin McCallister enganando os ladrões. Lembro bem dos logos da Paris Filmes que dominavam aquele cinema. Mal sabia eu que mais de duas décadas depois estaria trabalhando naquela empresa.

Aquele primeiro dia de trabalho também foi inesquecível. Minha chefe, grávida e hilária, me mandou assistir à cabine de “Boa Noite e Boa Sorte” e depois separar clippings, enquanto ela respondia e-mails, agendava entrevistas e marcava um doppler com o ginecologista.

Nunca mais esqueci os títulos dos filmes que distribuímos, nem o cheiro daquela sala de reunião, nem as pessoas que trabalharam comigo durante três anos e meio e que hoje são grandes amigos.

Muita gente entra e sai da minha vida sem hora marcada, mas alguns primeiros encontros não saem da memória.

Foi numa primeira conversa sobre a P-0 nos corredores do Anglo que Bob começou a se tornar meu melhor amigo, há mais de dez anos. Gritos exaltados em uma FestECA marcaram um primeiro encontro com outro grande amigo; uma conversa sobre um quase-acidente na estrada para Ubatuba e um convite para um almoço naquele-restaurante-que-parece-o-Subway na Hollywood Boulevard marcaram outros: todas histórias com um começo bem definido, mas sem data para acabar.
Na minha primeira semana nos EUA – uma integração em Boulder, Colorado – conheci a primeira brasileira. Ela estudaria Biologia em Austin (cidade que conheceria quase dois anos depois). Foi também por lá que tomei minha primeira cerveja no país – com uma paquistanesa que estudaria Jornalismo. O primeiro sushi foi para atender os desejos de uma psicóloga dominicana, que acabou pedindo o sushi errado e não conseguiu terminá-lo.
A brasileira continua em Austin, a paquistanesa voltou para o Paquistão e a dominicana casou-se e teve um filho. Em comum, temos aquela a semana em Boulder, o status de Fulbright Alumni e o fato de nunca mais termos nos visto.

Também foi nos EUA – já em Los Angeles, na casa de uma colega – que usei uma máquina de lavar roupa pela primeira vez. Como se diz amaciante em inglês, mesmo? Lembro do seu espanto e do seu riso ao saber que “nunca tinha feito aquilo antes”; da sua fascinação em perceber que aquele dia tão trivial ficaria marcado na minha vida –e talvez na dela.

E assim fui me dando conta de que cada dia que começa traz a chance de fazer algo pela primeira vez; de que cada dia que começa tem o potencial de ser o primeiro dia de uma nova história que está começando e eu nem percebi.


(E acabou que este texto acabou no primeiro dia do ano.)

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Diálogos que a gente não inventa

Quando as pessoas descobrem a minha profissão, é comum dizerem: “nossa, você precisa ser muito criativo, né?”

Sim, é.

Mas uma das maiores qualidades que um roteirista pode ter, mais do que saber “inventar” coisas, é saber observar o mundo à sua volta; é saber ouvir.

Crianças são particularmente férteis no que diz respeito a conversas incríveis que uma mente isolada do mundo jamais poderia inventar.

O que segue são episódios, fragmentos, comentários, envolvendo adultos, crianças, familiares, desconhecidos: histórias que um ouvido desatento deixaria passar, mas que um roteirista sempre guarda – mesmo sem perceber – em algum lugar do seu arquivo mental.

* * *
PROFISSÕES
Vicky, 6 anos de idade:
– Tio Filipe, você trabalha onde?
– Num escritório.
– Não, mas assim, você trabalha de quê?
– Eu sou escritor.
– Mas você trabalha de quê? Por exemplo, o papito trabalha de contas. Você trabalha de quê?
– Então, Vicky, eu escrevo. Sabe esses livrinhos que você lê?
– Ahã.
– Então, tem uma pessoa que escreve esses livrinhos. Eu escrevo coisas também, mas em vez de livro, é o que passa na TV.
– Ah, tipo porcaria?
SOZINHA NO CINEMA
– Desculpa, tudo bom? Nós dois temos lugares separados, e como tem um lugar vazio à sua direita e um à sua esquerda, seria que você poderia pular uma cadeira pra gente poder sentar junto?
– Ai, desculpa… Não. É que eu gosto de sentar BEM no meio.
DICIONÁRIO
– Mãe, eu não consigo segurar a faca com essa mão. Eu não sou castanha!
– É “canhota”, Vicky.
TENDÊNCIAS
– Tio Filipe, sua privada é ridícula.
– Por que, Vicky?
– Porque ela é preta!
– E qual é o problema?
– E tem um livro do lado! Que ridículo.
A irmã de 8 anos intervém:
– Para de falar isso, Vicky! Você nem sabe o que é “ridículo”.
– Claro que eu sei! Ridículo é o que tá na moda.
FÉRIAS FRUSTRADAS
No aeroporto, a funcionária faz o check-in de um senhor de idade:
– Aqui estão os cartões de embarque. O voo é às 15h. Já podem ir pro portão porque o embarque abriu às 13h30.
O senhor vira para a esposa:
– Já perdemos o avião da uma e meia. Agora tem que esperar passar o das três.
PÉ NA BUNDA
– Tio Filipe, e aquela moça que vinha aqui em casa às vezes?
– Era minha namorada, mas a gente não namora mais.
– E por que você não quis mais ela?
SOLUÇÃO
– Tio Filipe, por que você não casa com a Tia Sicilia?
* * *
No fim das contas, as histórias já estão todas contadas. Basta encontrá-las.

As personagens principais

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O jantar

Fazia anos que não saíam para jantar.
Naquela noite, ele quase se esqueceu das reservas que ganhara de aniversário. Já estava na cozinha, prestes a assar uma batata quando ela veio relembrá-lo.
Chegaram ao restaurante assim que abriu, às oito em ponto. Quem sabe não voltariam a tempo da novela? Sentaram-se no mezanino, a uma distância segura do piano. Aceitaram o couvert enquanto olhavam o cardápio.
– Tire o chapéu. É feio usar chapéu na mesa.
Ele olha ao redor, despreocupado.
– Não tem quase ninguém aqui.
Ele volta-se para o cardápio.
– Acho que vou pedir uma salada caprese de entrada.
– Não come tanto pão! Depois não aguenta a comida e fica empurrando pra mim – ela replica, enquanto ele espalha mais ricota temperada no pão integral.
Ela decide pedir uma taça de vinho.
– É suave? – ele pergunta ao garçom.
– Esse que ela pediu é mais seco.
Ele não gosta. Ela não liga.
– Não importa, o vinho é pra mim, pode trazer.
Chega o vinho, chega a salada. Ele encara com bom-humor os quatro tomates pelados e o manjericão frito.
– …E isso custa trinta reais? Ainda bem que eu não tô pagando.
– Mas precisa sempre falar do preço da comida?
– Eu tô brincando!
Ele põe um quarto do tomate no prato dela; ela come, contrariada. Ele continua a investigar os elementos perdidos em sua salada.
– Ah, isso é uma mussarela de búfala. Achei que era um ovo de codorna.
– E você não sabe o que é “caprese”? O risoto que você pediu é a mesma coisa: tomate, mussarela e manjericão.
– Ah… Não vejo a hora de poder comer carne de novo.
Ele coloca mais tomate no prato dela.
– Eu não quero.
Ele come o pão. E ela come o tomate. O garçom se aproxima com duas xícaras.
– Nós não pedimos isso – ela informa.
– É creme de legumes. Presente do chefe.
– Ah, então tudo bem – anima-se ele, antes de queimar a língua com a sopa quente.
Discretamente, ele tenta molhar o pão na xícara.
– Isso é feio. Nem ouse!
Ele ousa.
A luz diminui, o piano começa a tocar, os garçons começam a cantar.
– Você gosta desse tipo de música? Porque eu não vejo muita graça – revela ele, como que se desculpasse. Ela aplaude, animada.
Chega o risoto dele; chega o torteloni dela. Eles comem em silêncio, tentando identificar a comida sob a meia-luz.
Ele coloca uma garfada de risoto no prato dela.
– Eu não quero. Falei pra não comer tanto pão.
– É só pra experimentar.
Ela cede.
– É bom.
O garçom traz um novo cesto de pão. Os olhos dele brilham. Ela se esforça para terminar o último tortelonni.
– Não quer experimentar? É uma delicia.
– Não, não, já estou cheio – responde ele, enquanto engole o ultimo pedaço de pão.
Ele empurra o prato de risoto em direção a ela, em uma derradeira tentativa de evitar o desperdício. Ela o empurra de volta:
– Já falei que eu não quero, mas que coisa! Mania de querer empurrar tudo pros outros!
O garçom retira os pratos e traz o cardápio de sobremesas. Eles demoram a se decidir. 
– Eu não aguento mais nada! – diz ele.
O garçom retorna:
– Decidiram?
– Sim – diz ela. – Vou querer um crème brulée.
– Sim, senhora.
– …Com duas colheres, por favor.
Após quarenta anos de casado, ele já não se surpreende.
– Falei pra não comer tanto pão…

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Na natureza selvagem

“Alasca!? Mas você vai fazer o que no Alasca?” – foi a pergunta que mais ouvi ao revelar que passaria onze dias com um amigo no inóspito 49º estado americano.  Foi a mesma reação de quatro anos atrás, quando passei três semanas viajando sozinho pelo sul da Patagônia.
Há tempos tenho uma estranha atração por lugares isolados, frios, com pouca interferência humana. Chegar aonde poucos chegam exerce uma grande fascinação sobre mim, e por isso o Alasca esteve sempre na minha lista de destinos: nada me parecia mais incrível do que cruzar o Círculo Ártico pela famigerada Dalton Highway.
Mas ao chegar ao Alasca, minha imagem romântica foi aos poucos contrastando-se com temperaturas acima de 20ºC e ausência de neve. O fascínio deixou de ser o frio e o branco nas montanhas, mas o céu que jamais escurece; os dandaleões que voam contra o vidro do carro como flocos de neve; o albergue que não possui chaves pois nunca é preciso trancar as portas.
Após dez horas de estrada entre Anchorage a Fairbanks, acompanhado de sanduíches de brie de cabra, abacate com mostarda e Alaskan White Ale, seguir até o Círculo Polar me pareceu desnecessário. Durante meses só pensava naquelas quatorze horas de estrada não-asfaltada e na foto com placa que marca a latitude 66º33’, mas no momento em que de fato poderia embarcar naquela jornada, achei que já havia cumprido minha missão naquela região específica do estado.
Aí veio o arrependimento. Como pude não querer aquilo que queria tanto havia poucas semanas?

Mas aos poucos fui compreendendo que, como em um roteiro, a cena que me inspirou a escrever todo o filme às vezes não cabe mais na história. Talvez ela caiba em algum outro filme, daqui a alguns anos, quem sabe em algum outro ponto do distante paralelo 66º33’, mas por ora sua função é apenas permitir que o resto da história exista.
No filme deste verão entraram outras cenas: a águia sobrevoando o caiaque na Baía de Kachemak; a noite na Universidade de Fairbanks com a vista espetacular da montanha mais alta da América do Norte; o acampamento sob a chuva a 2ºC em Denali; os alces e ursos atravessando a estrada em Seward; os jogos de xadrez sob o sol da meia-noite. Entraram também personagens marcantes: a hilária atendente mal-humorada do albergue em Anchorage; a dona da lojinha de beira-de-estrada em Joy, que tem dezenove filhos adotados, vindos de famílias que os rejeitaram; a assistente social que cuida de jovens problemáticos em Barrow, onde o sol não nasce por 82 dias; o construtor de barco que passou cinco anos construindo o barco errado.
Nenhuma dessas cenas ou desses personagens estavam no roteiro que criei na minha cabeça, mas todos chegaram ao corte final, graças à cena que me levou até lá – mas não existiu. 
Não sabia, de fato, o que encontraria no Alasca, mas estava disposto a descobrir.
Como bem coloca Nilton Bonder em A Alma Imoral, de nada adianta sentar-se e esperar que o mar se abra para que sigamos em frente: é preciso primeiro marchar para então encontrar o caminho. E por isso sigo sempre em frente…
Não posso dizer que sei aonde estou indo, mas sei que estou no meu caminho.
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Reprise

Há cerca de um ano, ao sair da minha casa em Burbank para passear com Lebowski, o cachorro, deparei-me com uma moeda de um centavo no asfalto. Depois outra. E mais uma. Quando notei, já havia apanhado cerca de trinta moedas que, pelo estado em que se encontravam, estavam caídas ali já havia algum tempo.

*  *  *
Na semana passada, após oito meses no Brasil, voltei aos EUA para realizar algumas reuniões de trabalho, reencontrar os amigos e, é claro, rever o cachorro. Há meses ansiava por essa viagem: não via a hora de rever as pessoas, visitar os mesmos lugares, comer as mesmas comidas. Esperava, de verdade, que as coisas estivessem como antes para que eu pudesse, ainda que por algumas semanas, reviver um pouco daqueles anos tão incríveis.
Como das outras vezes, o voo da American Airlines fez conexão em Dallas. Ao chegar ao LAX, corri para a mesma esteira e esperei até que minha bagagem surgisse, enquanto espiava do lado de fora procurando pelo carro de Logan, meu anitgo roommate, que viria me buscar – como das outras vezes. Lebowski estava no carro e chorou ao me ver. Dormiu no meu colo em todo trajeto pela rodovia 405 – que continua em obras.
Fiquei hospedado na mesma casa em Burbank, onde meus roommates ainda vivem, e encontrei tudo como antes – exceto os tapetes, que já não existem mais. Até mesmo o muro que separa a rua sem saída da rodovia continua em construção.
Na escola que frequentei por dois anos, os novos alunos estão de férias e as cadeiras estão vazias. As salas agora têm ar condicionado; os banheiros foram reformados e o retrato da minha turma agora está pendurado na parede ao lado dos grandes talentos que passaram pelo AFI. Mas apesar das mudanças superficiais, os mesmos largatos continuam a cruzar o campus; Mark ainda trabalha na sala de informática; Bart ainda cuida da segurança e Angela ainda abre um sorriso quando me vê na biblioteca.
O Chicken Bellagio ainda está no menu de Lunch Specials do Cheesecake Factory e continua uma delícia – embora um dólar mais caro; o Niko Niko Sushi ainda tem o combinado de três itens por $11,99; meu cartão do supermercado ainda está ativo e meu computador conecta automaticamente à internet, seja em casa, no AFI ou no Starbucks.
Passados poucos dias, sinto-me como se nunca tivesse saído daqui.
Mas isso significa também que alguns pequenos hábitos de Logan ainda me incomodam; que como em São Paulo o trânsito de Los Angeles também faz parte da minha rotina. E como eu tinha me esquecido da individualidade dos americanos?
Aí reparo que os fios aparentes da TV de casa que precisavam ser ajeitados continuam ali – aparentes; a caixinha do home theater que se soltou da parede continua no chão e a lâmpada da escada continua queimada. O livro que deixei sobre a mesa da TV continua ali, intacto. Meus vidros de tempero ainda estão na dispensa; meu amaciante ainda está no prateleira da lavanderia e minha maionese venceu na geladeira.
Tudo. Exatamente. Igual.
Era como eu esperava… só que havia me esquecido de que não sou mais o mesmo.
Então lembro que estar aqui inclui ter saudades de casa; inclui querer contar tudo aos amigos quando voltar e ver suas caras ao abrir os presentes. Inclui saber de fato que o dia é único e precisa ser aproveitado porque tudo aquilo que torna aquele momento especial tem dia e hora pra acabar.
…E aí percebo que mais do que tomar o sorvete de café do Trader Joe’s, era disso que eu sentia falta.
Ontem, ao sair da minha casa em Burbank para passear com Lebowski, deparei-me com uma moeda de um centavo no asfalto. Depois outra. E mais uma. Pelo estado em que se encontravam, estavam caídas ali já havia algum tempo.
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A rotina tem seu encanto

Certo dia, sentado à mesa do almoço, meu pai me olha com certa admiração e diz: “A vantagem da sua profissão é que você só trabalha quando está inspirado, né?” “Sim,” respondi. “E o segredo é estar inspirado todo dia às 9h da manhã…”

*  *  *

Adaptar-me à vida errática de roteirista não foi nada fácil. Sempre fui extremamente organizado. Acostumado a ter tudo planejado e sob controle, quando me perguntam: “Filipêêê! Você tem um grampeador?” a resposta é: “Sim, na segunda gaveta, entre a calculadora e a caixa de grampos.”

Mas quando chegar ao trabalho às 9h e executar tarefas até às 18h deixou de ser a minha realidade, comecei a ter de enfrentar novas decisões a cada manhã: em que projeto trabalhar hoje? Quando fazer comentários naquele outro roteiro? Que horas sentar para terminar de ler o livro?

Quando você vai ver são cinco da tarde, você assistiu a cinco episódios de Modern Family, não fez supermercado e não escreveu uma palavra.

Percebi que precisava de uma rotina, nem que fosse apenas para fugir dela. A liberdade total com a qual me deparava todas as manhãs, contrariando todas as expectativas, matava minha produtividade… até que Marta Kauffman acendeu a luz no fim do túnel.

Durante uma de suas aulas de Roteiro de TV, entre exibições de pilotos desconhecidos e histórias sobre como Friends surgiu, Marta perguntou sobre os processos de escrita de cada um: “Vocês escrevem até cansarem e depois param? Escrevem até atingirem um número de páginas? Escrevem só quando estão afim?”

Demos nossas respostas, provando que ninguém tinha, de fato, um processo. Foi então que ela revelou: “Eu faço pausas programadas. Escrevo por X horas, depois paro por Y minutos, vou brincar com o cachorro, resolver o que tiver para resolver, depois volto a escrever por mais X horas e por aí vai.”

E foi assim, numa típica terça-feira de sol na sala 102 do Warner Building, que encontrei meu caminho. 

Com a capacidade de atenção de uma criança de 8 anos, a ideia de sentar para escrever por quatro horas seguidas sempre me foi inconcebível. Já em doses homeopáticas… Lembrei que durante mais de uma década fui capaz de me concentrar em aulas de 50 minutos e resolvi usar esse número mágico: passei a escrever por 50 minutos sem qualquer distração com pausas de 10 minutos para resolver qualquer outro assunto (leia-se: checar e-mails e redes sociais); coloquei um bloco de papel ao lado do teclado para tirar da cabeça qualquer pensamento intruso que invadisse minha mente naqueles 50 sagrados minutos; fiz um cronograma de tudo que precisava entregar até o fim do semestre e percebi que com apenas quatro “slots” diários de 50 minutos poderia cumprir todos os prazos.

Sem saber, Marta Kauffman havia me resgatado do poço da ausência de rotina.

De volta ao Brasil, sem emprego formal ou qualquer prazo real de entrega de projetos, criar uma rotina foi a melhor única maneira de sobreviver na profissão. E não só na profissão: foi assim, com uma rotina de exercícios físicos diários, que perdi em cinco meses o dobro do peso que ganhei em dois anos nos EUA; foi com cotas de leitura diárias que consegui terminar os livros que iam ficando de lado. 

E foi com slots de 50 minutos que consegui continuar a escrever – ainda que “escrever” signifique, muitas vezes, olhar para a tela em branco do computador enquanto as vozes da minha cabeça tentam se entender.
É comum querermos sempre fugir da rotina, mas não tê-la é tão difícil quanto estar preso a ela. E entre a apatia de desperdiçar um dia livre e a insanidade de estar atrasado para um compromisso que só existe na minha cabeça, prefiro ser louco.

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