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#tks

De acordo com o Facebook, tenho hoje 1.402 amigos. Arrisco dizer que conheço ao menos 95% deles pessoalmente: alguns desde sempre, alguns há poucos dias, alguns que fizeram parte do meu dia a dia por um tempo e hoje não fazem mais. Como anteontem foi meu aniversário, muitos deles se manifestaram.

Costumo dividir o mundo entre os que adoram mensagens de parabéns no Facebook e os que as acham mais vazias que o metrô de Los Angeles. (Também costumo dividir o mundo entre os que gostam de bacon e os que estão errados, mas isso é outra história.) Em ambos os casos, faço parte do primeiro grupo.

Brinco com meus amigos que existe a seguinte hierarquia nas mensagens de parabéns: mensagem no grupo do WhatsApp < post no Facebook < mensagem no Facebook < e-mail < mensagem direta no WhatsApp < ligação telefônica < ao vivo. Seja como for, gosto muito dessa atenção, ainda que breve, de pessoas que muitas vezes tenho contato apenas duas vezes por ano – no meu aniversário e no dela, ou de pessoas que “eu mal conheço, mas já considero pacas”.

Minha avó, quando nos presenteava com algo singelo, costumava dizer: “não é um presente, é um pensamento.” Mensagens no Facebook (ou no WhatsApp, ou no Instagram, ou…) são exatamente isso: um pensamento. São um olhá só, é aniversário dele, como será que ele tá? tchô dar um oi, aqui.
     
Um amigo que não vejo há quatro anos mandou um “!!”, que na verdade significava: Cara! Quanto tempo! Saudades daquele festival em que a gente se conheceu… Espero que você esteja bem. Feliz aniversário! Respondi: Nossa, saudades, mesmo! Tudo certo por aqui. Obrigado pela lembrança! Abração! – traduzido em um único emoji.

Tem mensagem xingando ou tirando sarro, no melhor estilo “bullying é amor”; tem desejo de tudo de bom, tem mensagem que faz chorar, tem parabéns pra você pelo Skype, tem abraço apertado, tem chocolate, tem ficar acordado até de madrugada pra jantar junto, tem convite pra almoçar, tem convite inesperado pra ser padrinho de casamento.

Cada interação (ao vivo, a distância, a cores ou em preto e branco) é um pensamento, uma lembrança de alguém querido, de uma época, de um momento engraçado, e é um presente delicioso receber 200 desses num único dia. É também uma lembrança de como é importante tentar manter quem a gente gosta por perto, ainda que “perto” possa ser a milhares de quilômetros de distância.

O que todos esses parabéns têm em comum é um sentimento de gratidão, explícito ou não. Muitos agradeceram por algo que eu disse, que eu fiz, que eu sou; a todos, agradeci pela lembrança, pela presença na minha vida e, acima de tudo, por me lembrarem de sempre agradecer – ou, pelo menos, dizer #tks. 



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Celebrações

Eu estava de terno, com um copo na mão, em meio a alguns amigos e muitos desconhecidos. Quem estava prestes a entrar era apenas uma amiga, mas eu estava ansioso. Um a um, os formandos eram anunciados, seus nomes apareciam em grandes letras no telão e os convidados explodiam em aplausos. Éramos centenas, celebrando as conquistas de outra centena. “Quão especiais aquelas pessoas estariam se sentindo”, pensei.
E pensei também em quantas pessoas jamais sentiriam aquilo. Jamais teriam um dia – qualquer dia – voltado para elas, dedicado a elas, pensado para elas; naqueles que não se formam, ou não se casam, ou sequer celebram seus aniversários; que não têm um dia só para eles. Naqueles que jamais recebem aplausos.
Por um lado, pensei como é fundamental celebrar o outro, fazê-lo reconhecer a dignidade que lhe é própria e que ninguém tira.
Por outro, pensei como por vezes celebramos as coisas erradas. Likes, views, shares, promoções, prêmios… “O mais …!” “O maior …!” “O melhor …!”
Com quem estamos competindo? Por que estamos competindo? Estamos sempre correndo… em direção aonde? Onde queremos chegar?
Recentemente, duas pessoas chegaram ao fim da linha. Desta linha.
Uma, aos 100 anos, celebrou e celebrou tudo o que tinha a celebrar. Viveu num mundo sem Facebook, sem seguidores no Instagram, sem bônus no fim do ano, mas cheio de celebrações. Jogou scopa, briscola e buraco com os netos, comemorou Natal e Ano Novo com a família, foi à missa aos domingos, foi à terra natal quando teve vontade. Até que, enfim, descansou.
O outro, aos 30, viveu no país das oportunidades, num mundo onde tudo é possível, onde tudo está ao alcance. Mas não alcançou o que buscava. Até que, enfim, cansou de buscar e decidiu que não tinha mais o que celebrar.
Drasticamente diferentes, os dois episódios me fizeram refletir sobre a celebração do fim da nossa jornada por aqui. “Você não iria querer ver todas as pessoas que você ama reunidas na tristeza, chorando por você”, disse o padre durante o velório. “Vamos celebrar o agora, vamos nos alegrar com esta nova etapa que começa, não chorar pela que acaba.”
Cada uma a sua maneira, com uma visão clara ou com lentes turvas, essas duas vidas encararam o fim desta etapa como uma grande celebração, como uma mãe que dá à luz um filho: não choraram pela grávida que deixa de ser, mas celebraram, por escolha ou destino, a nova vida que agora é. 

“O Pequeno Príncipe” – Antoine de Saint-Exupéry

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O homem que não estava lá

Outro dia alguns amigos me convidaram para visitar o Leo. Na verdade, fomos passar um fim de semana com ele e seus irmãos. Sua casa precisava de alguns reparos e decidimos dar uma força.
Não conhecia o Leo até então e conversamos pela primeira vez na hora do almoço. Descobri que se mudara para aquela casa havia poucos meses; seu filho de quatro anos morava com a mãe; seu pai havia falecido alguns anos antes; sua mãe morava no interior e viria visitá-lo em duas semanas.
Passamos uma tarde agradável, demos risada lixando e pintando paredes. Leo poderia ser um amigo como tantos outros que fui conquistando pela vida, mas Leo não é exatamente como os outros.
Leo tem 16 anos. Teve seu filho aos 12, no mesmo ano em que perdeu seu pai e que começou a usar drogas. Apesar de morar com a mãe, passava a maior parte do tempo na rua, onde roubava para sustentar o vício. Foi preso cinco vezes, mas nunca passou mais de dois dias na cadeia. Seu irmão está preso. Seus tios e primos, à exceção de um, estão todos envolvidos com drogas.

Apesar disso, Leo estava ali, sentado ao meu lado, dividindo nuggets de frango e suco de maracujá.
Leo está naquela casa, assim como seus “irmãos”, para um programa de nove meses de recuperação de dependentes químicos. Conseguiu quebrar o ciclo asfixiante em que vivia e agora dá um passo em direção a esse desconhecido mundo onde viver com dignidade parece possível.
A primeira coisa que pensei foi: “Nossa, como esse universo é distante do meu.” Mas logo percebi o quanto estava errado.
Leo, de fato, não é um garoto que faz parte do meu círculo social. Não sai comigo para jantar, não vai comigo ao cinema, não está nos meus churrascos com amigos. Leo é o garoto que pede dinheiro quando eu estaciono o carro, quando eu paro no farol; é o garoto que me faz atravessar a rua se vem em minha direção às 2h da manhã.
É o garoto que a gente vê sendo preso na TV e pensa: ”bem feito”.
Mês passado, quando fui assaltado, desejei que os dois rapazes sobre a moto fossem encontrados, que fossem presos, que aprendessem uma lição. E confesso que naquele instante não teria me incomodado se sua moto tivesse sido atingida por um caminhão.
Mas depois que passei dois dias com Leo e seus irmãos, pensei melhor. Pensei em quantas pessoas já não desejaram mal àquele garoto que pintava de azul o rodapé de sua casa; em quantas pessoas não desejaram que ele apanhasse na cadeia pra aprender a não roubar o iPhone dos outros. E desejei que não tivesse sido assim.
Recentemente ouvi sobre um projeto em Richmond, na Califórnia, em que os principais criminosos da cidade recebem um tratamento especial – que inclui acompanhamento individual, ajuda psicológica e financeira – desde que se comprometam a não cometer mais crimes.
Apesar do sucesso, o projeto é compreensivelmente controverso. “E aqueles que também vêm de uma realidade difícil, mas não estão cometendo crimes. Por que não estão recebendo toda essa ajuda?” – reclamam alguns.
Um dos funcionários do projeto – que foi recuperado pelo mesmo projeto anos antes – responde de forma bastante pragmática:
“Eu entendo perfeitamente. Eu já fui preso. A sociedade achava que eu não merecia nada, e eu consegui tirar um diploma. As pessoas têm problemas com isso. Mas no final das contas, eu vou voltar pra casa. E quem você quer morando do seu lado? Um cara que passou anos jogando dominó e puxando ferro, ou um cara que conseguiu se recuperar e fazer uma faculdade?”
Seria ingenuidade minha querer encerrar um assunto tão complexo nestas poucas linhas, mas o fato é que Leo e seus irmãos fizeram péssimas escolhas. Talvez seus vizinhos tenham saído da mesma realidade e conseguido terminar o Ensino Médio, conseguido um emprego e conquistado uma vida minimamente digna sem roubar um celular. Mas Leo e seus irmãos, não.
Ainda assim, eles existem.
Eles, como tantos outros, estão aí, gente como a gente, vivendo suas vidas o melhor que conseguem, às vezes cruzando nosso caminho, para o bem ou para o mal. E querer jogá-los no lixo não vai resolver os nossos problemas. Muito menos os deles.
Outro dia, no supermercado, um morador de rua, certamente sob o efeito de drogas, se aproximou de mim com um caderno, uma caixa de lápis-de-cor e um estojo de canetas. Pediu, educadamente, para que eu os comprasse. No caixa, ele não queria tocar o caderno com as mãos, pois estavam sujas. Perguntou ao atendente quanto custava a sacolinha plástica.
— Não custa nada — respondeu com um sorriso, enquanto lhe ajudava a colocar o material na sacola.
O rapaz voltou-se para mim:
— Se eu fosse dono desse supermercado, eu passaria em todas as filiais dando parabéns pros funcionários. Eles são de ouro. Sempre me tratam bem.
Naquele fim de semana na casa de Leo, fizemos coisas simples: pintamos algumas paredes, dividimos refeições, trocamos experiências. Mas o que pesou foi aquilo que não fizemos: não os tratamos com indiferença, não os discriminamos por suas escolhas, não decidimos que eles não merecem algo melhor. Não quisemos que eles não existissem.
Parece pouco, parece fácil. Mas não é, e não é.

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Sorte ou revés?

Uma das coisas que torna minha rotina em São Paulo suportável é o fato de eu morar a 600 metros do trabalho, que se traduzem em oito minutos de caminhada por trecho: oito minutos para ir, oito minutos para voltar, fora o almoço.
Apesar da pouca distância, há algumas diferentes opções de caminhos que posso escolher. Em um deles há uma casa com dois cachorros: um Golden Retriever e um outro, cuja raça desconhecia até recentemente. Tendo vivido com um Golden Retrieverpor um bom tempo e me aficionado pela raça, sempre que passava por ali detia-me por alguns instantes para acariciá-lo. Seu companheiro latia, talvez enciumado, talvez enfurecido. Como não conhecia a raça  que se assemelhava a um Pit Bull  optava por ignorá-lo, evitando, assim, que meu braço fosse arrancado.

Até que na sexta-feira passada, durante meus oito minutos de caminhada em direção ao trabalho, encontrei uma mulher caminhando com aquele que parecia ser o temido companheiro do meu amigo Golden Retriever.
— Bom dia! Desculpe incomodá-la, mas é você que mora na casa ali da esquina, onde tem também um Golden Retriever?
— Não, não.
Um pouco surpreso e desapontado, decidi que ela, ainda sim, poderia esclarecer a dúvida que me afligia diariamente.
— Ah… É que tem um cachorro igualzinho ali naquela casa e eu nunca sei se ele é bravo ou não. Que raça é?
— É um Bull Terrier. Ele não é bravo, não. Depende do dono, claro, mas em geral ele é manso — respondeu sorrindo, enquanto seu Bull Terrier procurava o local ideal na grama para deixar sua marca.
Agradeci, satisfeito com a resposta, já ansiando pelos oito minutos da tarde, quando poderia, enfim, dar a devida atenção ao amigo do meu amigo.

Saí do trabalho às cinco da tarde com um fone no ouvido e fui direto em direção àquela casa. Os dois cachorros logo se espicharam ao me verem. Aproximei-me do portão para cumprimentá-los e logo ouvi alguém me chamando na rua. Tirei o fone de ouvido para ouvir o que os rapazes da moto diziam.

Foi então que notei a arma apontada pra mim.

Não foi preciso muito para entender que pediam a carteira e o celular.
Entreguei a carteira, da qual tiraram apenas o dinheiro, e em seguida o celular, que sobrevivera três anos e meio sem sequer um arranhão. Jogaram a carteira com os documentos e os cartões no chão e desapareceram, tão subitamente quanto haviam surgido.
Olhei para os cachorros, que me olhavam de volta sem entender o que acontecia, e finalmente acariciei o Bull Terrier que tanto temia — e que agora rolava no chão alegremente.
Guardei os fones de ouvido no bolso e continuei a caminhada de volta para casa, pensando em qual seria minha nova senha de e-mail e no meu recém-adquirido laptop, que permanecia intocado na mochila que carregava nas costas.

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Qual é seu nome?

Tudo começou quando entrei na garagem do prédio. O edifício era novo, assim como seus moradores, e por isso era sempre recebido por um dos seguranças, que olhava para o cartão no meu retrovisor, com o número do apartamento, e perguntava:
— Qual é seu nome?
Eu respondia, ele checava uma planilha em uma prancheta, abria o portão com um “bom descanso” e eu entrava com um “obrigado”.
Até que um dia assisti a uma palestra sobre a dignidade, que a definia como “o valor por meio do qual reconhecemos e exercemos de maneira habitual o respeito pelas pessoas como seres únicos, com inteligência, vontade, liberdade e capacidade para amar.”.
Reconhecer como seres únicos.
Como seres únicos.
Como um outro eu.
Naquela noite, cheguei ao prédio como de costume e abaixei o vidro, enquanto o segurança apanhava sua prancheta com a expressão austera de sempre.
— Qual é o seu nome?  — perguntou, automaticamente.
— Filipe — respondi. — E o seu?
Ele parou, espantado. 
Aquilo não estava no protocolo.
— Oi?
— Qual é seu nome? — insisti.
— O meu?
— Sim.
— Geraldo.
— Boa noite, Geraldo! — disse sorrindo enquanto o portão se abria.
Na noite seguinte, assim que me viu embicando na garagem, Geraldo abriu o portão, esboçou um sorriso inédito e me cumprimentou, sem tocar na prancheta:
— Boa noite, Seu Filipe, tudo bom?
Meu prédio tem 384 apartamentos. Naquele momento me perguntei quantos sabiam o nome de Geraldo. Ou de Hilda. Ou de Andrade. Ou de Júnior. Ou de tantos outros que nos cumprimentam diariamente. Quantos os reconheciam como seres únicos?
Propus-me a “exercer aquilo de maneira habitual” e, pouco depois, descobri que um dos seguranças é meu xará, e que tem um irmão de três anos, e que esqueceu o jantar na quinta passada, e que adora coxinha.
Outro dia no supermercado, passando pela quinta ou décima vez pelo mesmo atendente, notei que a tela do computador dizia “Shirley”.
— Você não tem cara de Shirley — brinquei.
— É que hoje eu vim disfarçado — ele respondeu, rindo.
— Qual é seu nome?
— Everson.
Pronto. Agora Everson começa a sorrir sempre que me vê no fim da fila, e vice-versa. Mês passado esteve de férias, foi visitar a mãe no Mato Grosso. Quando me reencontrou num domingo à tarde, confessou que achava que estaria de folga naquele dia, e recomendou que eu sempre cobrasse os pontos pela sacola reciclável.
“Qual é seu nome?” Quatro palavras, meros segundos de conversa, que tornam o dia do outro (e certamente o meu) consideravelmente mais agradável. Uma conversa em que nos reconhecemos como mais do que cliente/atendente/ morador/funcionário, mas como seres únicos, com inteligência, vontade, liberdade e capacidade para amar. E nome próprio.
No início do ano passado, conheci um grupo de pessoas em um projeto social, em Campinas. Meses depois, voltei à cidade para um evento e reencontrei um deles.
— E aí, João, tudo bom?
Ele me olhou com a inconfundível expressão de “de onde é que eu te conheço, mesmo?”. Refresquei sua memória, conversamos um pouco e logo o convidei para vir a São Paulo, com um amigo em comum, para um evento do mesmo projeto social. Ele veio. Depois veio de novo. E mais uma vez. E outras. E assim nos tornamos grandes amigos. Tempos depois, divagando sobre os primórdios da nossa amizade, perguntei por que ele havia decidido vir a São Paulo naquela primeira vez.
— Porque você me chamou pelo nome.

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Campanha do desarmamento

São Paulo precisa urgentemente se desarmar. Não apenas São Paulo, mas todo o Brasil. Não só o Brasil, mas todo o planeta.
Dificilmente passo um dia sem encontrar alguém armado. Outro dia, ainda na garagem do prédio, uma motorista apressada assustou-se com meu carro vindo à sua esquerda. Buzinou, xingou, gritou. Não eram sete da manhã e já estava armada.
No supermercado, um senhor aguardava com a esposa na fila única para os caixas-rápido.
— Próximo! — gritou uma atendente.
Ficaram sem saber para qual caixa se dirigir.
— “PRÓXIMO!” — ela insistiu.
Identificaram a voz vinda do caixa dezenove. Ele logo sacou sua arma e atirou:
— Isso é jeito de chamar? Fala ‘caixa dezenove’. Não sou obrigado a saber qual caixa está livre!
 A moça se defendeu. Ele engatilhou novamente enquanto a esposa guardava o Danoninho:
— Ah, você é a dona do supermercado agora? Era só o que me faltava: discutir com paraíba!
Terminou de guardar as compras e partiu, levando consigo a sacola reciclável e a metralhadora.
No banco, uma senhora de sessenta anos e meio aguardava impaciente na fila do caixa com uma senha preferencial. Ao seu lado, um motoboy, igualmente impaciente, aguardava com uma senha comum: a próxima. Quatro senhas preferenciais foram chamadas. O motoboy bufava a cada uma delas. Enfim, chamaram a sua. Ele rapidamente dirigiu-se ao caixa, mas a senhora interveio com a senha em mãos:
— Ei, mocinha! Eu sou a próxima! Eu sou preferencial!
— …E eu ‘tô na fila há horas! Já passaram dez velhinhos na frente! — reagiu o rapaz.
Apontaram-se as armas, prontos para disparar.
— Senhora, aguarde um instante e nós já vamos chamá-la.
Ela voltou ao seu lugar, atirando para o alto.
— Absurdo isso! Ter que ficar esperando… Falta de respeito!
O motoboy pagou sua conta em dois minutos e partiu, não sem antes fuzilar a senhora com o olhar.
Também já saí armado muitas vezes, admito, mas muito mudou quando resolvi me desarmar.
Era setembro. As aulas do mestrado mal haviam começado e nossa equipe, que produziria um curta-metragem em algumas semanas, já estava em guerra: produtora e diretor mal se falavam, editora e fotógrafo haviam se distanciado, e balas perdidas sobravam pra mim. Nas minhas reuniões com o diretor – um venezuelano de opiniões fortes – nossos objetivos eram idênticos: discordar do outro, provar que o outro estava errado. O resultado eram noites mal dormidas e um filme que prometia não sair. Até que decidi deixar minhas armas em casa. Cheguei à reunião desarmado e decidi que iria, de fato, escutá-lo. Conversamos sobre o roteiro página a página, entendi suas frustrações, expus as minhas e, ali mesmo, nossa relação mudou. Viramos amigos. Jantamos em Beverly Hills, assistimos a uma revoada de sandpipersabandonar a praia de Santa Monica ao anoitecer e até hoje nos lembramos daquele dia tão marcante do qual não tiramos sequer uma foto.
As armas também são sacadas por insegurança. Numa tarde dessas típicas paulistanas, roubaram meu carro. Fui à delegacia fazer o B.O. e encontrei um policial armado até os dentes.
— Isso aqui vai demorar um tempão. Melhor voltar outra hora.
— Não tem problema, eu espero — respondi, paciente, já que resolver a questão do meu carro roubado me pareceu uma prioridade naquele momento.
Horas depois, contrariado, o policial sentou-se à máquina de escrever e começou a colher meus dados. Cada pergunta, um tiro. Até que comecei a reparar que digitava com extrema dificuldade. Não tardou para acabarem suas balas.
— Desculpa, é que o escrivão não veio hoje e eu não sei mexer aqui muito bem, tá? — confessou enquanto procurava a letra F.
Saí de lá minutos depois com o B.O. em mãos e os sinceros pedidos de desculpas pela demora do policial, que agora trazia um sorriso no rosto. Um sorriso, aliás, que se provou o melhor colete à prova de balas.

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A Copa do mundo é minha

Eu nunca fui muito fã de futebol.

Brincava de gol-a-gol quando era pequeno, cheguei a fazer escolinha na segunda série… mas parei por aí.

Mesmo assim, eu adoro a Copa. Sempre gostei da ideia de boa parte do mundo com os olhos voltados a um único evento – que não fosse uma guerra ou um acidente de avião.

Minha primeira Copa de verdade foi a de 94. Lembro-me de praticamente todos os jogos, a maioria deles visto com os vizinhos do prédio, com uma overdose refrigerante e amendoim japonês, seguida quase sempre de uma leve dor de barriga.

O empate com a Suécia na primeira fase, a cotovelada do Leonardo nas oitavas, o gol “cala a boca” do Branco no jogo tenso contra a Holanda… E, é claro, o inesquecível pênalti de Baggio e os gritos de “É tetra!” de Galvão Bueno. Mal sabia eu que 17 anos depois estaria naquele mesmo estádio, assistindo – veja só – a um jogo de futebol americano.

Até hoje tenho guardada a camisa do Brasil (que não era do Brasil, mas de algum banco ou empresa de tintas) com todos os nomes dos vizinhos assinados, consolidando em um pedaço de pano aquele mês tão inesquecível.

Vinte anos e um título depois, chega mais uma Copa. Surgem as legiões de fanáticos, com orgulho de serem brasileiros; surgem os pessimistas, a espera do caos aéreo, dos ingressos falsos e dos turistas assassinados. Surgem os bolões – impossíveis de acertar. E surgem também as intensas trocas de figurinha.

Como crianças na hora do recreio, de uma hora para outra, marmanjos começam a se reunir nos bares, no cafezinho, na mesa de trabalho, ávidos pelos cromos faltantes.

Comecei a colecionar o álbum quando senti que precisava de uma atividade que rompesse o ciclo computador-do-trabalho/celular/computador-de-casa. Qualquer atividade offline me pareceu atraente, e quando vi um álbum jogado na casa dos meus pais, achei que tinha encontrado a resposta.

Na produtora onde trabalho, em um andar com 300 funcionários, a máfia das figurinhas rolou solta. Bolos presos em elásticos passeavam de mesa em mesa, com homens e mulheres, de 20 a 50 anos, cada um a sua maneira, checando os números que faltavam numa folha de papel, num aplicativo ou num post-it.

Imperava o sistema de confiança. “Toma, eu peguei 6.” “Beleza, eu peguei 10. Pega mais 4 aí.” “Não precisa, depois a gente acerta.”

Sem perceber, passei a conhecer uma pessoa nova a cada dia. Passei a dar mais bom dia.

Descobri que uma colega é polonesa; trocamos dez figurinhas e conversamos sobre o jogo de vôlei entre nossas seleções, que ocorria ao vivo naquele momento (sim, existiam outros jogos rolando além da Copa.) Descobri que um colega estudou documentário na Argentina; me contou que dirigiu um curta-metragem sobre a morte e me prometeu conseguir a figurinha 34.

Outro colega procurava freneticamente a figurinha 241 – a última que faltava. Todo o andar se uniu em busca pelo derradeiro cromo. Ganhou a figurinha de presente de um funcionário a 18 baias de distância.

Dos odiadores de plantão, ouvi diversos comentários do tipo: “Que absurdo! Onde já se viu? Um monte de marmanjo trocando figurinha na hora do almoço!”

Seria melhor um monte de marmanjo isolado ao telefone?

Nos dias de jogo, a festa era certa. Mesmo com trânsito, mesmo com 7×1, dia de jogo era dia de sorriso. Era dia de encontrar os amigos, de torcer, de fazer charutinho de kafta com gorgonzola na churrasqueira e até de conhecer gente nova.

Foram 32 dias, 64 jogos: 64 chances de quebrar a rotina, de viver um dia diferente dos outros 333.

Pra mim, a Copa é isso. Seja no Brasil, na Rússia ou na Eritreia, a Copa tem pouco a ver com futebol. Tem a ver com as pessoas. Tem ver com os momentos.

Eu já costumo interagir bastante com as pessoas ao meu redor, já costumo festejar os dias mais cinzentos. 

Imagina na Copa! 


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No pain, no gain

Hoje faz seis semanas que uma dor de cabeça me acompanha. É uma dorzinha leve que começa na nuca, passa pelas têmporas e se encerra no rosto.
Enquanto passeio por médicos e faço exames para saber o que acontece, começo a lembrar de todas as dores que já senti.
A primeira vez que me lembro claramente de ter sentido dor foi aos cinco anos de idade. Estávamos em uma viagem de família na casa de uma prima, prestes a seguir para outra cidade. As malas prontas, janelas sendo fechadas. Eu aguardava no topo da escada. Minha irmã tentava fechar a porta do quarto, mas não conseguia. Ela fazia força, mas a porta não fechava. “Tem alguma coisa prendendo a porta!”
Era a minha mão.
Esmagada ao lado das dobradiças, entre a porta e o batente, minha mão impedia que a porta se fechasse. Minha irmã, de costas, não me via. Eu, em choque, não gritava. Não me lembro muito do que aconteceu depois. Lembro que eu chorava, lembro que minha mãe acariciava minha mão no táxi. Mas não me lembro da dor em si.
Alguns anos depois, correndo pelo playground do prédio, senti que tinha pisado em algo estranho. Chovia, e a água lavou o pouco de sangue que saiu da ferida. Dias depois descobri que tinha um caco de vidro alojado no pé. Tentamos a farmácia, mas um mero toque já me fazia tremer de dor. Ficou claro que eu iria precisar de anestesia. Fomos ao pediatra. “Só uma picadinha e você não vai sentir mais nada”.
Dessa dor eu me lembro muito bem.
Lembro como eu esmagava a mão da minha mãe, que devia estar em tanta dor quanto eu. Lembro também da cara das crianças da sala de espera, depois de ouvirem meu grito.
Conforme fui ficando mais velho, as dores físicas foram ficando mais comuns. Teve a luxação no braço jogando bola, teve a pedra no rim. E, talvez por isso, meu corpo tenha criado seu próprio mecanismo de defesa: o ataque de riso.
É chegar perto de uma agulha ou começar a sentir uma dor mais forte, pronto: não consigo controlar a risada. Se estou tirando sangue, a enfermeira pergunta, entretida: “Tá tudo bem?” Certa vez em uma cirurgia para a retirada de um nevo nas costas, a dermatologista ria comigo: “Se você não parar de rir eu não consigo cortar!”
Com a idade, começaram a vir também as outras dores. Aquelas que não são físicas. Aquelas que, nem de longe, provocam ataques de riso.
Tem a dor da saudade. Do prédio que você já não mora mais, da escola que foi demolida, dos lugares que você já não visita, da rotina que você gostava e já não existe mais. E principalmente das pessoas. Daqueles amigos que eram parte tão íntima da sua vida e que ficaram pra trás; daqueles que ficaram longe. Mas essa dor é mais doce, deixa um gosto bom.  É uma dor de “ah, que pena que acabou!” e pra essas não tem melhor remédio do que o tempo.
Tem a dor da espera. Do resultado de uma prova, de um exame. Lembro o dia da divulgação da lista de aprovados no vestibular. Eu sentado no computador, ouvindo dezessete vezes a mesma música, atualizando a página do UOL de 3 em 3 segundos. A espera também pode ser por uma pessoa que não chega, que não liga, que não manda mensagem. Quantas vezes ainda não ficaria grudado ao telefone, checando a tela a cada piscada? Mas essa dor, como um sabor muito salgado que é eliminado com um simples copo d´água, pode passar em menos de um segundo, com o resultado que sai, a pessoa que chega, o telefone que toca.
Tem a dor do arrependimento. Essa é azeda, vai corroendo por dentro. Faz você viver e reviver aquele dia, aquela atitude, calculando tudo que poderia ter feito diferente. Mas essa não tem muito remédio: é aceitar que o que passou, passou, o que está feito, está feito e que nenhum exercício de ficção ou universo paralelo vai alterar o que já ficou pra trás.
E tem a dor da traição. Não só dessas que tem amante no meio. Traição dessas que você se sente enganado, seja qual for a situação; dessas que destroem suas expectativas, que tiram sarro de tudo aquilo em que você acreditava, como um adolescente cruel que ri de uma criança que ainda acredita em Papai Noel. É aquela dor que te deixa revoltado com o outro, consigo, com o mundo; que te faz querer deitar na cama, abraçar o cachorro e não sair mais de lá. E você nem tem um cachorro. Essa dor é a mais amarga. Deixa um gosto difícil de eliminar. E pra ela só tem um remédio: o perdão.
Para essas dores, o meu analgésico paliativo são as comédias, que provocam aqueles ataques de riso que meu corpo ainda não aprendeu a conceder. E não é que até as comédias precisam de momentos sem risos para valorizar a piada?
Como muitas das coisas que queremos evitar, as dores têm uma função importante: fazem a gente crescer. Elas mostram como a gente é forte; como a gente sempre consegue começar de novo. Mostram uma capacidade de superação que a gente não imaginava ter.
E, acima de tudo, mostram como é importante valorizar os momentos sem dor.
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Minha vida como Walter Mitty

Outro dia decidi desbloquear meu aparelho de celular. Desde que voltei dos EUA, há mais de dois anos, meu Motorola i465 estava guardado na gaveta com todos os apetrechos que funcionavam perfeitamente: carregador de parede, de carro, cabo de dados, fone de ouvido etc.

Decidi que era hora de ele voltar a viver e levei-o a uma assistência técnica.

– Olá, vocês por acaso conseguem desbloquear este aparelho pra que ele funcione no Brasil?

Simpática, Janaína disse que precisaria fazer alguns testes e me daria um retorno no dia seguinte. Comprei uma capinha para o meu iPhone e parti.

No dia seguinte, ela me retorna:

– Conseguimos sim. Vai ficar 95 reais.

Hesitei. Não precisava daquele aparelho para nada, mas sentia que ele precisava existir e exercer sua função de conectar pessoas. Quantas mensagem já não haviam sido trocadas nele! Quantas ligações, quantos almoços combinados, cinemas agendados… Não poderia privá-lo de tantas outras aventuras que ele ainda poderia vivenciar. Aceitei.
Na semana seguinte, Janaína me recebe com o aparelho em mãos. Ela testa um chip da Oi. Não funciona.

– É, então, ele só funciona como Nextel, mesmo.
– Oi?
– Esse aparelho é só Nextel – diz ela, segura.
– Não, não é. Eu sempre usei como um aparelho normal.

Surge Gustavo, o irmão/colega/chefe/namorado/cara-que-resolve-pepino.

– Olá. Qual é a situação?
– Eu deixei esse celular pra desbloquear, mas ninguém me avisou que só seria desbloqueado para Nextel.
– Bom, mas isso era óbvio.
– Oi?
– Esse aparelho é um Nextel, não é um celular.
– Ah, não? E como é que eu usava como celular comum?
– Mas aqui no Brasil é só Nextel.
– E vocês não pensaram em me dar essa informação quando eu deixei o celular aqui e perguntei: “Dá pra desbloquear?”
– Mas isso era óbvio.

Notei que a argumentação não iria muito longe. Frustrado, decidi tentar um acordo quanto ao valor.

– Vocês me dão um desconto, já que o serviço foi incompleto, e ficamos todos felizes.

Mas isso, é claro, não era óbvio pra eles. Vencidos pelo cansaço, consegui o desconto e parti, resignado à situação.
No dia seguinte, levo o aparelho a um amigo. Ele insere seu chip Nextel. Não funciona. Tento outro chip. Nada. É óbvio…

Nesse momento, como Ben Stiller em A Vida Secreta de Walter Mitty, uma realidade paralela forma-se na minha frente. 
Me imaginei voltando à loja, revoltado, onde Janaína e Gustavo ririam da minha cara, recusando-se a refazer o serviço, dizendo: “Você deveria ter testando um chip Nextel antes de sair da loja. É óbvio.” Me imaginei roubando as capinhas de celular penduradas na parede e saindo da loja vingado. Eles viriam atrás, mas já seria tarde – meu carro já estaria disparando rua abaixo. Pelo retrovisor, eu os veria gritando revoltados enquanto eu sorriria. Na esquina seguinte, um reviravolta: policiais me alcançariam e me trariam de volta. Janaína e Gustavo me acusariam de tê-los roubado. Eu me faria de ofendido e mostraria o comprovante de débito do cartão, provando que havia pago pelas capinhas – que venderia em segredo e recuperaria o valor perdido e um pouco mais. Indignados, os pombinhos refutariam inflamados que aquele valor se referia ao desbloqueio. “É óbvio!” Nesse momento, eu sacaria o celular triunfante e mostraria ao policial: “Que desbloqueio? Meu celular está bloqueado! Não sei do que eles estão falando!” Os policiais sairiam da loja – não sem antes ralhar com o casal – e me pediriam desculpas. Eu daria um sorriso triunfante e partiria de carro, com o porta-luvas recheado de capinhas de celular.

Mas a vida às vezes é anticlimática e faz com que Gustavo peça desculpas pelo ocorrido e devolva o celular devidamente desbloqueado dias depois.

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A beleza das coisas

Há algumas semanas, após nove temporadas, a série americana “The Office” chegou ao fim.

E daí?

De fato, isso faz pouquíssima diferença na vida da vasta maioria da população humana, mas para este ponto insignificante do universo – eu – isso teve, sim, uma considerável relevância.

Explico.

Comecei a assistir a “The Office” em meados de 2009, quatro anos depois de sua estreia. Cheguei atrasado à festa. Ainda assim, logo estava enturmado e me divertindo com todos os outros.

Quem me apresentou à série foi Logan, meu colega do AFI – o mesmo que se tornaria meu melhor amigo. Não recordo bem como, mas sei que de repente tinha em mãos seus DVDs, com todas as primeiras temporadas.

Foi numa segunda-feira qualquer de setembro, deitado na cama, “The Office” na tela do laptop, que me dei conta de como estava fascinado com as pequenas coisas do meu novo dia-a-dia na ainda desconhecida cidade de Los Angeles. Olhei pra trás e percebi que o dia não havia me trazido nada de extraordinário: aula, supermercado, lavanderia, talvez um almoço com os amigos, e uma noite tranquila com Michael, Pam, Jim, Dwight e companhia.

Ali me dei conta pela primeira vez de que não precisava de muito.

Em dezembro, voltei de férias ao Brasil e “The Office” veio comigo no avião. Aquela viagem pela qual eu esperava tanto durante as primeiras semanas nos EUA já não se fazia tão necessária agora que até lavar a roupa parecia especial.

Angela, Kelly, TobyCreed me fizeram companhia naquelas semanas no Brasil; me lembravam da boa rotina que me aguardava no retorno aos EUA.

Seis meses depois, Logan e eu já éramos roommates. Assim como a daqueles personagens, minha rotina também mudava com a constante entrada e saída de novas figuras.

Assistir à “The Office” servidos de pizza, pipoca, taquitos ou qualquer que fosse o menu da noite – e com Lebowski latindo aos carros na rua – passou a ser rotineiro na nossa semana. Também passaram a ser rotineiros os jogos de tênis aos domingos, filmes no multiplex ao lado nas noites livres, comida japonesa entre uma aula e outra.

Em 2011, assim como Steve Carell, me despedi daqueles que tinham sido personagens importantes do meu dia-a-dia, da minha história. Voltei ao Brasil e algum tempo se passou até que conseguisse criar uma nova rotina e voltar a acompanhar o dia-a-dia de Oscar, Andy, ErinPhyllis – agora do meu antigo quarto, já sem pizzas do Papa John’s ou Lebowski correndo aos meus pés.

Mais um ano – e uma temporada – se passaram até que fui morar sozinho. Aos poucos, fui recuperando o fascínio daquela segunda-feira de setembro, em que cozinhar e limpar a casa transformaram-se em exemplo da mais pura felicidade.

Aí veio o último episódio de “The Office”. Era hora de vê-los na tela de forma inédita pela última vez. Não eram apenas personagens de um vídeo de YouTube, que eu conhecera três minutos antes, ou mesmo de um filme, apresentados cem minutos atrás: eram personagens que eu havia acompanhado por quatro anos, que haviam marcado momentos incríveis do meu dia-a-dia; personagens que tinham seus dias documentados como se fossem os mais importantes de suas vidas; personagens criados por pessoas que, assim como eu, um dia tiveram o sonho de dar vida a criaturas que só existiam em suas mentes.

Ao final do episódio, Pam se pergunta: Por que alguém escolheria uma empresa de papelabsolutamente comum para ser o tema de um documentário?

Era como se me perguntasse: Por que alguém escolheria as atividades mais comuns do dia-a-dia como o ponto alto de uma viagem, de uma época, de uma vida?

Na última frase de toda série, ela mesma dá a resposta:

“Existe muita beleza nas coisas mundanas. Não é mais ou menos esse o ponto?”


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