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#tks

De acordo com o Facebook, tenho hoje 1.402 amigos. Arrisco dizer que conheço ao menos 95% deles pessoalmente: alguns desde sempre, alguns há poucos dias, alguns que fizeram parte do meu dia a dia por um tempo e hoje não fazem mais. Como anteontem foi meu aniversário, muitos deles se manifestaram.

Costumo dividir o mundo entre os que adoram mensagens de parabéns no Facebook e os que as acham mais vazias que o metrô de Los Angeles. (Também costumo dividir o mundo entre os que gostam de bacon e os que estão errados, mas isso é outra história.) Em ambos os casos, faço parte do primeiro grupo.

Brinco com meus amigos que existe a seguinte hierarquia nas mensagens de parabéns: mensagem no grupo do WhatsApp < post no Facebook < mensagem no Facebook < e-mail < mensagem direta no WhatsApp < ligação telefônica < ao vivo. Seja como for, gosto muito dessa atenção, ainda que breve, de pessoas que muitas vezes tenho contato apenas duas vezes por ano – no meu aniversário e no dela, ou de pessoas que “eu mal conheço, mas já considero pacas”.

Minha avó, quando nos presenteava com algo singelo, costumava dizer: “não é um presente, é um pensamento.” Mensagens no Facebook (ou no WhatsApp, ou no Instagram, ou…) são exatamente isso: um pensamento. São um olhá só, é aniversário dele, como será que ele tá? tchô dar um oi, aqui.
     
Um amigo que não vejo há quatro anos mandou um “!!”, que na verdade significava: Cara! Quanto tempo! Saudades daquele festival em que a gente se conheceu… Espero que você esteja bem. Feliz aniversário! Respondi: Nossa, saudades, mesmo! Tudo certo por aqui. Obrigado pela lembrança! Abração! – traduzido em um único emoji.

Tem mensagem xingando ou tirando sarro, no melhor estilo “bullying é amor”; tem desejo de tudo de bom, tem mensagem que faz chorar, tem parabéns pra você pelo Skype, tem abraço apertado, tem chocolate, tem ficar acordado até de madrugada pra jantar junto, tem convite pra almoçar, tem convite inesperado pra ser padrinho de casamento.

Cada interação (ao vivo, a distância, a cores ou em preto e branco) é um pensamento, uma lembrança de alguém querido, de uma época, de um momento engraçado, e é um presente delicioso receber 200 desses num único dia. É também uma lembrança de como é importante tentar manter quem a gente gosta por perto, ainda que “perto” possa ser a milhares de quilômetros de distância.

O que todos esses parabéns têm em comum é um sentimento de gratidão, explícito ou não. Muitos agradeceram por algo que eu disse, que eu fiz, que eu sou; a todos, agradeci pela lembrança, pela presença na minha vida e, acima de tudo, por me lembrarem de sempre agradecer – ou, pelo menos, dizer #tks. 



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O que você vê?

Luiza chegou vinte minutos antes do combinado. Estava ansiosa. Havia trabalhado meses naquela apresentação e repetia seu discurso mentalmente enquanto aguardava o rapaz que viria abrir o auditório.
Otávio chegou apressado, atrasado, com um molho de chaves na mão. Luiza sorriu, aliviada. “Chegou atrasado, mas chegou.”
— Bom dia! Você é o Otávio?
— Isso. Vamo’ entrando que o portão não pode ficar aberto.
Luiza apanhou sua mochila, suas pastas e entrou. Otávio fechou o portão logo em seguida e começou um rápido tour pelo local:
— O banheiro é ali no fundo, a luz do palco acende aqui e se precisar usar a copa, é ali do lado. Mas é bom não ficar entrando e saindo muito. E deixa tudo arrumado depois que sair.
— Pode ficar tranquilo! – disse Luiza apoiando seu material sobre a mesa do computador.
— Vai usar o computador?
— Vou sim. E o projetor, também.
— Ah. É que não avisaram. Agora vou ter que ir lá em cima ligar. Onde vai ficar?
— Não sei, acho que aqui mesmo. Qualquer coisa eu levo a mesinha pro outro lado. Tem rodinha, não tem?
— Mas não pode ficar mexendo. Escolhe um lugar e eu vou prender o cabo no chão com fita crepe.

Não fazia nem três minutos que Luiza havia entrado no auditório e sua cabeça já estava repleta de decisões a serem tomadas: como se apresentar à plateia, como movimentar as mãos, para onde olhar durante a apresentação, fazer ou não fazer aquela piada no slide 17…  E agora também precisava decidir em que quadrante do palco ficaria a mesa de rodinhas com o computador.
— Pode ficar aqui mesmo, então…
Otávio imediatamente conectou os cabos e prendeu-os no chão.
— Pronto. Não pode mexer mais. E cuidado com os fios.
— Sem problemas! Eu também precisava de quatro cadeiras aqui no palco. Posso pegar ali?
— Quatro!? Me falaram que eram só três.
Luiza olhou para a pilha de 20 cadeiras empilhadas ao fundo do auditório.
— Mas não pode ser quatro?
Otávio bufou.
— Tá, pode pegar lá, mas sem arrastar. E depois tem que devolver no lugar.
— Claro, eu devolvo.
Luiza levou as cadeiras até o palco e testou algumas posições antes de se decidir pela primeira. Mas ainda não estava satisfeita.
— Otávio, por favor, como eu faço pra fechar essa cortina aqui do fundo?
— Tem que puxar a cordinha. Não vai puxar direto na mão, hein!? Senão ela sai do trilho.
— OK.
Luiza puxou a cordinha. A cortina não se mexeu.
— Otávio, desculpa, mas não tá indo.
— Ó, lá, falei que não era pra puxar com a mão! Agora saiu do trilho.
“Mas eu não puxei!”, pensou Luiza, enquanto Otávio subia no palco e fechava a cortina – puxando com a mão.
— Agora não mexe mais, senão pode cair. Vou ligar o projetor. Qualquer coisa, tô lá em cima. E não arrasta a cadeira!
— Pode deixar.
Luiza abriu a apresentação no computador, revisou os slides, ensaiou o discurso em voz alta e decidiu manter a piada do slide 17.

As pessoas começaram a chegar. A plateia encheu. A ansiedade aumentou.
Silêncio.
Todos prontos.
Luiza aproximou-se do microfone. “Bom dia!”. Mas sua voz não saiu pelas caixas de som.
Luiza bateu no microfone. “Bom dia!” “Alô?”. Nada. Olhou tensa para Otávio, operando o projetor da cabine ao fundo da plateia. Ele correu até o palco.
— Não falei pra tomar cuidado com o fio!?
Otávio desligou e religou e microfone. Testou. Tudo certo. Correu de volta para a cabine.

A apresentação começou, continuou, terminou; a plateia sorriu, aplaudiu, partiu.

E Luiza suspirou aliviada. Desligou o computador, recolheu suas coisas, empilhou as cadeiras sem arrastá-las e colocou-as de volta no lugar. Mas antes de sair, Luiza tomou uma última decisão: decidiu que precisava dizer uma coisa para Otávio.
Aproximou-se da cabine enquanto ele desligava as luzes do auditório. Respirou fundo e disse:
— Obrigada!
Otávio sorriu.
— Foi nada.
— Tava tão ansiosa que nem te agradeci.
— Magina! Quando precisar, tamo sempre aí – respondeu.
E partiram.
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