Contos

O que você vê?

Luiza chegou vinte minutos antes do combinado. Estava ansiosa. Havia trabalhado meses naquela apresentação e repetia seu discurso mentalmente enquanto aguardava o rapaz que viria abrir o auditório.

Otávio chegou apressado, atrasado, com um molho de chaves na mão. Luiza sorriu, aliviada. “Chegou atrasado, mas chegou.”

— Bom dia! Você é o Otávio?

— Isso. Vamo’ entrando que o portão não pode ficar aberto.

Luiza apanhou sua mochila, suas pastas e entrou. Otávio fechou o portão logo em seguida e começou um rápido tour pelo local:

— O banheiro é ali no fundo, a luz do palco acende aqui e se precisar usar a copa é ali do lado. Mas é bom não ficar entrando e saindo muito. E deixa tudo arrumado depois que sair.

— Pode ficar tranquilo! – disse Luiza apoiando seu material sobre a mesa do computador.

— Vai usar o computador?

— Vou sim. E o projetor, também.

— Ah. É que não avisaram. Agora vou ter que ir lá em cima ligar. Onde vai ficar?

— Não sei, acho que aqui mesmo. Qualquer coisa eu levo a mesinha pro outro lado. Tem rodinha, não tem?

— Mas não pode ficar mexendo. Escolhe um lugar e eu vou prender o cabo no chão com fita crepe.

Não fazia nem três minutos que Luiza havia entrado no auditório e sua cabeça já estava repleta de decisões a serem tomadas: como se apresentar à plateia, como movimentar as mãos, para onde olhar durante a apresentação, fazer ou não fazer aquela piada no slide 17…  E agora também precisava decidir em que quadrante do palco ficaria a mesa de rodinhas com o computador.

— Pode ficar aqui mesmo, então.

Otávio imediatamente conectou os cabos e prendeu-os no chão.

— Pronto. Não pode mexer mais. E cuidado com os fios.

— Sem problemas! Eu também precisava de quatro cadeiras aqui no palco. Posso pegar ali?

— Quatro!? Me falaram que eram só três.

Luiza olhou para a pilha de 20 cadeiras empilhadas ao fundo do auditório.

— Mas não pode ser quatro?

Otávio bufou.

— Tá, pode pegar lá, mas sem arrastar. E depois tem que devolver no lugar.

— Claro, eu devolvo.

Luiza levou as cadeiras até o palco e testou algumas posições antes de se decidir pela primeira. Mas ainda não estava satisfeita.

— Otávio, por favor, como eu faço pra fechar essa cortina aqui do fundo?

— Tem que puxar a cordinha. Não vai puxar direto na mão, hein!? Senão ela sai do trilho.

— OK.

Luiza puxou a cordinha. A cortina não se mexeu.

— Otávio, desculpa, mas não tá indo.

— Ó, lá, falei que não era pra puxar com a mão! Agora saiu do trilho.

“Mas eu não puxei!”, pensou Luiza, enquanto Otávio subia no palco e fechava a cortina — puxando com a mão.

— Agora não mexe mais, senão pode cair. Vou ligar o projetor. Qualquer coisa, tô lá em cima. E não arrasta a cadeira!

— Pode deixar.

Luiza abriu a apresentação no computador, revisou os slides, ensaiou o discurso em voz alta e decidiu manter a piada do slide 17.

As pessoas começaram a chegar. A plateia encheu. A ansiedade aumentou.

Silêncio.

Todos prontos.

Luiza aproximou-se do microfone. “Bom dia!”. Mas sua voz não saiu pelas caixas de som.

Luiza bateu no microfone. “Bom dia!” “Alô?” Nada. Olhou tensa para Otávio, operando o projetor da cabine ao fundo da plateia. Ele correu até o palco.

— Não falei pra tomar cuidado com o fio?!

Otávio desligou e religou e microfone. Testou. Tudo certo. Correu de volta para a cabine.

A apresentação começou, continuou, terminou; a plateia sorriu, aplaudiu, partiu.

E Luiza suspirou aliviada. Desligou o computador, recolheu suas coisas, empilhou as cadeiras sem arrastá-las e colocou-as de volta no lugar. Mas antes de sair, Luiza tomou uma última decisão: decidiu que precisava dizer uma coisa para Otávio.

Aproximou-se da cabine enquanto ele desligava as luzes do auditório. Respirou fundo e disse:

— Obrigada!

Otávio sorriu.

— Foi nada.

— Tava tão ansiosa que nem te agradeci.

— Magina! Quando precisar, tamo sempre aí — respondeu.

E partiram.

Imagem: “My wife and my mother-in-law”, de W. E. Hill

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