“Eu sou um pouco travada pra falar em público, me dá umas dicas?”, pediu uma amiga outro dia. Eu ri. Sete anos atrás isso seria uma piada.
Foto: Acervo pessoal
“Eu sou um pouco travada pra falar em público, me dá umas dicas?”, pediu uma amiga outro dia. Eu ri. Sete anos atrás isso seria uma piada.
Foto: Acervo pessoal
Quando acordei naquela manhã de sábado, não imaginava que em algumas horas estaria na sala de espera de um hospital público, trocando mensagens de texto com um policial militar, digitadas na tela estilhaçada do meu próprio celular.
Foto: Acervo pessoal
Tudo começou quando entrei na garagem do prédio. O edifício era novo, assim como seus moradores, e por isso era sempre recebido por um dos seguranças, que olhava para o cartão no meu retrovisor, com o número do apartamento, e perguntava:
— Qual é seu nome?
Eu respondia, ele checava uma planilha em uma prancheta, abria o portão com um “bom descanso” e eu entrava com um “obrigado”.
Até que um dia assisti a uma palestra sobre a dignidade, que a definia como “o valor por meio do qual reconhecemos e exercemos de maneira habitual o respeito pelas pessoas como seres únicos, com inteligência, vontade, liberdade e capacidade para amar.”.
Reconhecer como seres únicos. Como seres únicos. Como um outro eu.
Naquela noite, cheguei ao prédio como de costume e abaixei o vidro, enquanto o segurança apanhava sua prancheta com a expressão austera de sempre.
— Qual é o seu nome? — perguntou, automaticamente.
— Filipe — respondi. — E o seu?
Ele parou, espantado. Aquilo não estava no protocolo.
— Oi?
— Qual é seu nome? — insisti.
— O meu?
— Sim.
— Geraldo.
— Boa noite, Geraldo! — disse sorrindo enquanto o portão se abria.
Na noite seguinte, assim que me viu embicando na garagem, Geraldo abriu o portão, esboçou um sorriso inédito e me cumprimentou, sem tocar na prancheta:
— Boa noite, Seu Filipe, tudo bom?
Meu prédio tem 384 apartamentos. Naquele momento me perguntei quantos sabiam o nome de Geraldo. Ou de Hilda. Ou de Andrade. Ou de Júnior. Ou de tantos outros que nos cumprimentam diariamente. Quantos os reconheciam como seres únicos?
Propus-me a “exercer aquilo de maneira habitual” e, pouco depois, descobri que um dos seguranças é meu xará, e que tem um irmão de três anos, e que esqueceu o jantar na quinta passada, e que adora coxinha.
Outro dia no supermercado, passando pela quinta ou décima vez pelo mesmo atendente, um homem de uns 40 anos, notei que a tela do computador dizia “Shirley”.
— Você não tem cara de Shirley — brinquei.
— É que hoje eu vim disfarçado — ele respondeu, rindo.
— Qual é seu nome?
— Everson.
Pronto. Agora Everson começa a sorrir sempre que me vê no fim da fila, e vice-versa. Mês passado esteve de férias, foi visitar a mãe no Mato Grosso. Quando me reencontrou num domingo à tarde, confessou que achava que estaria de folga naquele dia, e recomendou que eu sempre cobrasse os pontos pela sacola reciclável.
“Qual é seu nome?” Quatro palavras, meros segundos de conversa, que tornam o dia do outro (e certamente o meu) consideravelmente mais agradável. Uma conversa em que nos reconhecemos como mais do que cliente/atendente/ morador/funcionário, mas como seres únicos, com inteligência, vontade, liberdade e capacidade para amar. E nome próprio.
* * *
No início do ano passado, conheci um grupo de pessoas em um projeto social, em Campinas. Meses depois, voltei à cidade para um evento e reencontrei um deles.
— E aí, João, tudo bom?
Ele me olhou com a inconfundível expressão de “de onde é que eu te conheço, mesmo?”. Refresquei sua memória, conversamos um pouco e logo o convidei para vir a São Paulo, com um amigo em comum, para um evento do mesmo projeto social. Ele veio. Depois veio de novo. E mais uma vez. E outras. E assim nos tornamos grandes amigos. Tempos depois, divagando sobre os primórdios da nossa amizade, perguntei por que ele havia decidido vir a São Paulo naquela primeira vez.
— Porque você me chamou pelo nome.