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Diálogos que a gente não inventa

Quando as pessoas descobrem a minha profissão, é comum dizerem: “nossa, você precisa ser muito criativo, né?”

Sim, é.

Mas uma das maiores qualidades que um roteirista pode ter, mais do que saber “inventar” coisas, é saber observar o mundo à sua volta; é saber ouvir.

Crianças são particularmente férteis no que diz respeito a conversas incríveis que uma mente isolada do mundo jamais poderia inventar.

O que segue são episódios, fragmentos, comentários, envolvendo adultos, crianças, familiares, desconhecidos: histórias que um ouvido desatento deixaria passar, mas que um roteirista sempre guarda – mesmo sem perceber – em algum lugar do seu arquivo mental.

* * *
PROFISSÕES
Vicky, 6 anos de idade:
– Tio Filipe, você trabalha onde?
– Num escritório.
– Não, mas assim, você trabalha de quê?
– Eu sou escritor.
– Mas você trabalha de quê? Por exemplo, o papito trabalha de contas. Você trabalha de quê?
– Então, Vicky, eu escrevo. Sabe esses livrinhos que você lê?
– Ahã.
– Então, tem uma pessoa que escreve esses livrinhos. Eu escrevo coisas também, mas em vez de livro, é o que passa na TV.
– Ah, tipo porcaria?
SOZINHA NO CINEMA
– Desculpa, tudo bom? Nós dois temos lugares separados, e como tem um lugar vazio à sua direita e um à sua esquerda, seria que você poderia pular uma cadeira pra gente poder sentar junto?
– Ai, desculpa… Não. É que eu gosto de sentar BEM no meio.
DICIONÁRIO
– Mãe, eu não consigo segurar a faca com essa mão. Eu não sou castanha!
– É “canhota”, Vicky.
TENDÊNCIAS
– Tio Filipe, sua privada é ridícula.
– Por que, Vicky?
– Porque ela é preta!
– E qual é o problema?
– E tem um livro do lado! Que ridículo.
A irmã de 8 anos intervém:
– Para de falar isso, Vicky! Você nem sabe o que é “ridículo”.
– Claro que eu sei! Ridículo é o que tá na moda.
FÉRIAS FRUSTRADAS
No aeroporto, a funcionária faz o check-in de um senhor de idade:
– Aqui estão os cartões de embarque. O voo é às 15h. Já podem ir pro portão porque o embarque abriu às 13h30.
O senhor vira para a esposa:
– Já perdemos o avião da uma e meia. Agora tem que esperar passar o das três.
PÉ NA BUNDA
– Tio Filipe, e aquela moça que vinha aqui em casa às vezes?
– Era minha namorada, mas a gente não namora mais.
– E por que você não quis mais ela?
SOLUÇÃO
– Tio Filipe, por que você não casa com a Tia Sicilia?
* * *
No fim das contas, as histórias já estão todas contadas. Basta encontrá-las.

As personagens principais

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Tudo pelo poder

Em época de eleição – e em qualquer época, convenhamos – falar mal dos políticos não é particularmente difícil. Mas recentemente uma outra categoria superou os políticos na competição pela minha revolta.

Este ano, depois de estar ausente por duas eleições, decidi exercer minha cidadania e acessei as sabatinas Folha/UOL na esperança de saber mais sobre os candidatos. Tudo o que consegui foi me revoltar contra os jornalistas.

Ainda nos primeiros segundos de transmissão, o mediador – repórter especial da Folha – após apresentar a candidata Soninha, anuncia: “…E os entrevistados de hoje são…”, para em seguida enunciar os entrevistadores.

Durante a sabatina, perguntas do tipo “Qual é o propósito da sua candidatura, já que você não vai se eleger?” davam o tom da conversa.

Na entrevista com Russomano, ouvia-se perguntas como: “A sua empresa produtora de vídeos será beneficiada se o senhor for eleito?” Aí eu me pergunto: sejam lá quais forem suas intenções, o que esperam que ele responda?

É como no formulário do visto americano: “Você está viajando aos EUA para aliciar prostitutas?” Sim, claro. Por que, não pode? Ah.

Mas antes fossem apenas as perguntas óbvias.

Imperava também a falta de organização, dados incorretos, e jornalistas que se interrompiam constantemente, levando os candidatos a implorarem por uma chance de concluir suas respostas. Até Faustão se sairia melhor.

E quando Barbara Gancia elogiou o sistema de transporte de Los Angeles? Achei que assistia a um programa de humor.

Depois, esgotadas as tentativas de associar todo e qualquer candidato ao Maluf, restava apelar para o sarcasmo:

– Candidato, o senhor é o novo Collor?

– O senhor pinta o cabelo?

Mas meu momento favorito foi quando Barbara perguntou a José Serra: “Dizem que o senhor é arrogante, que pede a cabeça de seus funcionários… você acha que isso é porque o senhor é filho único?”

É compreensível que, diante de um político, um jornalista – como qualquer ser humano – queira extravasar sua frustração e até mesmo fazê-lo passar por ridículo. O problema é que políticos conhecem o jogo melhor do que ninguém e, ao atacá-los com sarcasmo, jornalistas que se pretendem sérios ferem a si mesmos e conseguem uma grande façanha: fazer com que os políticos pareçam melhores do que são.

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O jantar

Fazia anos que não saíam para jantar.
Naquela noite, ele quase se esqueceu das reservas que ganhara de aniversário. Já estava na cozinha, prestes a assar uma batata quando ela veio relembrá-lo.
Chegaram ao restaurante assim que abriu, às oito em ponto. Quem sabe não voltariam a tempo da novela? Sentaram-se no mezanino, a uma distância segura do piano. Aceitaram o couvert enquanto olhavam o cardápio.
– Tire o chapéu. É feio usar chapéu na mesa.
Ele olha ao redor, despreocupado.
– Não tem quase ninguém aqui.
Ele volta-se para o cardápio.
– Acho que vou pedir uma salada caprese de entrada.
– Não come tanto pão! Depois não aguenta a comida e fica empurrando pra mim – ela replica, enquanto ele espalha mais ricota temperada no pão integral.
Ela decide pedir uma taça de vinho.
– É suave? – ele pergunta ao garçom.
– Esse que ela pediu é mais seco.
Ele não gosta. Ela não liga.
– Não importa, o vinho é pra mim, pode trazer.
Chega o vinho, chega a salada. Ele encara com bom-humor os quatro tomates pelados e o manjericão frito.
– …E isso custa trinta reais? Ainda bem que eu não tô pagando.
– Mas precisa sempre falar do preço da comida?
– Eu tô brincando!
Ele põe um quarto do tomate no prato dela; ela come, contrariada. Ele continua a investigar os elementos perdidos em sua salada.
– Ah, isso é uma mussarela de búfala. Achei que era um ovo de codorna.
– E você não sabe o que é “caprese”? O risoto que você pediu é a mesma coisa: tomate, mussarela e manjericão.
– Ah… Não vejo a hora de poder comer carne de novo.
Ele coloca mais tomate no prato dela.
– Eu não quero.
Ele come o pão. E ela come o tomate. O garçom se aproxima com duas xícaras.
– Nós não pedimos isso – ela informa.
– É creme de legumes. Presente do chefe.
– Ah, então tudo bem – anima-se ele, antes de queimar a língua com a sopa quente.
Discretamente, ele tenta molhar o pão na xícara.
– Isso é feio. Nem ouse!
Ele ousa.
A luz diminui, o piano começa a tocar, os garçons começam a cantar.
– Você gosta desse tipo de música? Porque eu não vejo muita graça – revela ele, como que se desculpasse. Ela aplaude, animada.
Chega o risoto dele; chega o torteloni dela. Eles comem em silêncio, tentando identificar a comida sob a meia-luz.
Ele coloca uma garfada de risoto no prato dela.
– Eu não quero. Falei pra não comer tanto pão.
– É só pra experimentar.
Ela cede.
– É bom.
O garçom traz um novo cesto de pão. Os olhos dele brilham. Ela se esforça para terminar o último tortelonni.
– Não quer experimentar? É uma delicia.
– Não, não, já estou cheio – responde ele, enquanto engole o ultimo pedaço de pão.
Ele empurra o prato de risoto em direção a ela, em uma derradeira tentativa de evitar o desperdício. Ela o empurra de volta:
– Já falei que eu não quero, mas que coisa! Mania de querer empurrar tudo pros outros!
O garçom retira os pratos e traz o cardápio de sobremesas. Eles demoram a se decidir. 
– Eu não aguento mais nada! – diz ele.
O garçom retorna:
– Decidiram?
– Sim – diz ela. – Vou querer um crème brulée.
– Sim, senhora.
– …Com duas colheres, por favor.
Após quarenta anos de casado, ele já não se surpreende.
– Falei pra não comer tanto pão…

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Na natureza selvagem

“Alasca!? Mas você vai fazer o que no Alasca?” – foi a pergunta que mais ouvi ao revelar que passaria onze dias com um amigo no inóspito 49º estado americano.  Foi a mesma reação de quatro anos atrás, quando passei três semanas viajando sozinho pelo sul da Patagônia.
Há tempos tenho uma estranha atração por lugares isolados, frios, com pouca interferência humana. Chegar aonde poucos chegam exerce uma grande fascinação sobre mim, e por isso o Alasca esteve sempre na minha lista de destinos: nada me parecia mais incrível do que cruzar o Círculo Ártico pela famigerada Dalton Highway.
Mas ao chegar ao Alasca, minha imagem romântica foi aos poucos contrastando-se com temperaturas acima de 20ºC e ausência de neve. O fascínio deixou de ser o frio e o branco nas montanhas, mas o céu que jamais escurece; os dandaleões que voam contra o vidro do carro como flocos de neve; o albergue que não possui chaves pois nunca é preciso trancar as portas.
Após dez horas de estrada entre Anchorage a Fairbanks, acompanhado de sanduíches de brie de cabra, abacate com mostarda e Alaskan White Ale, seguir até o Círculo Polar me pareceu desnecessário. Durante meses só pensava naquelas quatorze horas de estrada não-asfaltada e na foto com placa que marca a latitude 66º33’, mas no momento em que de fato poderia embarcar naquela jornada, achei que já havia cumprido minha missão naquela região específica do estado.
Aí veio o arrependimento. Como pude não querer aquilo que queria tanto havia poucas semanas?

Mas aos poucos fui compreendendo que, como em um roteiro, a cena que me inspirou a escrever todo o filme às vezes não cabe mais na história. Talvez ela caiba em algum outro filme, daqui a alguns anos, quem sabe em algum outro ponto do distante paralelo 66º33’, mas por ora sua função é apenas permitir que o resto da história exista.
No filme deste verão entraram outras cenas: a águia sobrevoando o caiaque na Baía de Kachemak; a noite na Universidade de Fairbanks com a vista espetacular da montanha mais alta da América do Norte; o acampamento sob a chuva a 2ºC em Denali; os alces e ursos atravessando a estrada em Seward; os jogos de xadrez sob o sol da meia-noite. Entraram também personagens marcantes: a hilária atendente mal-humorada do albergue em Anchorage; a dona da lojinha de beira-de-estrada em Joy, que tem dezenove filhos adotados, vindos de famílias que os rejeitaram; a assistente social que cuida de jovens problemáticos em Barrow, onde o sol não nasce por 82 dias; o construtor de barco que passou cinco anos construindo o barco errado.
Nenhuma dessas cenas ou desses personagens estavam no roteiro que criei na minha cabeça, mas todos chegaram ao corte final, graças à cena que me levou até lá – mas não existiu. 
Não sabia, de fato, o que encontraria no Alasca, mas estava disposto a descobrir.
Como bem coloca Nilton Bonder em A Alma Imoral, de nada adianta sentar-se e esperar que o mar se abra para que sigamos em frente: é preciso primeiro marchar para então encontrar o caminho. E por isso sigo sempre em frente…
Não posso dizer que sei aonde estou indo, mas sei que estou no meu caminho.
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Reprise

Há cerca de um ano, ao sair da minha casa em Burbank para passear com Lebowski, o cachorro, deparei-me com uma moeda de um centavo no asfalto. Depois outra. E mais uma. Quando notei, já havia apanhado cerca de trinta moedas que, pelo estado em que se encontravam, estavam caídas ali já havia algum tempo.

*  *  *
Na semana passada, após oito meses no Brasil, voltei aos EUA para realizar algumas reuniões de trabalho, reencontrar os amigos e, é claro, rever o cachorro. Há meses ansiava por essa viagem: não via a hora de rever as pessoas, visitar os mesmos lugares, comer as mesmas comidas. Esperava, de verdade, que as coisas estivessem como antes para que eu pudesse, ainda que por algumas semanas, reviver um pouco daqueles anos tão incríveis.
Como das outras vezes, o voo da American Airlines fez conexão em Dallas. Ao chegar ao LAX, corri para a mesma esteira e esperei até que minha bagagem surgisse, enquanto espiava do lado de fora procurando pelo carro de Logan, meu anitgo roommate, que viria me buscar – como das outras vezes. Lebowski estava no carro e chorou ao me ver. Dormiu no meu colo em todo trajeto pela rodovia 405 – que continua em obras.
Fiquei hospedado na mesma casa em Burbank, onde meus roommates ainda vivem, e encontrei tudo como antes – exceto os tapetes, que já não existem mais. Até mesmo o muro que separa a rua sem saída da rodovia continua em construção.
Na escola que frequentei por dois anos, os novos alunos estão de férias e as cadeiras estão vazias. As salas agora têm ar condicionado; os banheiros foram reformados e o retrato da minha turma agora está pendurado na parede ao lado dos grandes talentos que passaram pelo AFI. Mas apesar das mudanças superficiais, os mesmos largatos continuam a cruzar o campus; Mark ainda trabalha na sala de informática; Bart ainda cuida da segurança e Angela ainda abre um sorriso quando me vê na biblioteca.
O Chicken Bellagio ainda está no menu de Lunch Specials do Cheesecake Factory e continua uma delícia – embora um dólar mais caro; o Niko Niko Sushi ainda tem o combinado de três itens por $11,99; meu cartão do supermercado ainda está ativo e meu computador conecta automaticamente à internet, seja em casa, no AFI ou no Starbucks.
Passados poucos dias, sinto-me como se nunca tivesse saído daqui.
Mas isso significa também que alguns pequenos hábitos de Logan ainda me incomodam; que como em São Paulo o trânsito de Los Angeles também faz parte da minha rotina. E como eu tinha me esquecido da individualidade dos americanos?
Aí reparo que os fios aparentes da TV de casa que precisavam ser ajeitados continuam ali – aparentes; a caixinha do home theater que se soltou da parede continua no chão e a lâmpada da escada continua queimada. O livro que deixei sobre a mesa da TV continua ali, intacto. Meus vidros de tempero ainda estão na dispensa; meu amaciante ainda está no prateleira da lavanderia e minha maionese venceu na geladeira.
Tudo. Exatamente. Igual.
Era como eu esperava… só que havia me esquecido de que não sou mais o mesmo.
Então lembro que estar aqui inclui ter saudades de casa; inclui querer contar tudo aos amigos quando voltar e ver suas caras ao abrir os presentes. Inclui saber de fato que o dia é único e precisa ser aproveitado porque tudo aquilo que torna aquele momento especial tem dia e hora pra acabar.
…E aí percebo que mais do que tomar o sorvete de café do Trader Joe’s, era disso que eu sentia falta.
Ontem, ao sair da minha casa em Burbank para passear com Lebowski, deparei-me com uma moeda de um centavo no asfalto. Depois outra. E mais uma. Pelo estado em que se encontravam, estavam caídas ali já havia algum tempo.
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A rotina tem seu encanto

Certo dia, sentado à mesa do almoço, meu pai me olha com certa admiração e diz: “A vantagem da sua profissão é que você só trabalha quando está inspirado, né?” “Sim,” respondi. “E o segredo é estar inspirado todo dia às 9h da manhã…”

*  *  *

Adaptar-me à vida errática de roteirista não foi nada fácil. Sempre fui extremamente organizado. Acostumado a ter tudo planejado e sob controle, quando me perguntam: “Filipêêê! Você tem um grampeador?” a resposta é: “Sim, na segunda gaveta, entre a calculadora e a caixa de grampos.”

Mas quando chegar ao trabalho às 9h e executar tarefas até às 18h deixou de ser a minha realidade, comecei a ter de enfrentar novas decisões a cada manhã: em que projeto trabalhar hoje? Quando fazer comentários naquele outro roteiro? Que horas sentar para terminar de ler o livro?

Quando você vai ver são cinco da tarde, você assistiu a cinco episódios de Modern Family, não fez supermercado e não escreveu uma palavra.

Percebi que precisava de uma rotina, nem que fosse apenas para fugir dela. A liberdade total com a qual me deparava todas as manhãs, contrariando todas as expectativas, matava minha produtividade… até que Marta Kauffman acendeu a luz no fim do túnel.

Durante uma de suas aulas de Roteiro de TV, entre exibições de pilotos desconhecidos e histórias sobre como Friends surgiu, Marta perguntou sobre os processos de escrita de cada um: “Vocês escrevem até cansarem e depois param? Escrevem até atingirem um número de páginas? Escrevem só quando estão afim?”

Demos nossas respostas, provando que ninguém tinha, de fato, um processo. Foi então que ela revelou: “Eu faço pausas programadas. Escrevo por X horas, depois paro por Y minutos, vou brincar com o cachorro, resolver o que tiver para resolver, depois volto a escrever por mais X horas e por aí vai.”

E foi assim, numa típica terça-feira de sol na sala 102 do Warner Building, que encontrei meu caminho. 

Com a capacidade de atenção de uma criança de 8 anos, a ideia de sentar para escrever por quatro horas seguidas sempre me foi inconcebível. Já em doses homeopáticas… Lembrei que durante mais de uma década fui capaz de me concentrar em aulas de 50 minutos e resolvi usar esse número mágico: passei a escrever por 50 minutos sem qualquer distração com pausas de 10 minutos para resolver qualquer outro assunto (leia-se: checar e-mails e redes sociais); coloquei um bloco de papel ao lado do teclado para tirar da cabeça qualquer pensamento intruso que invadisse minha mente naqueles 50 sagrados minutos; fiz um cronograma de tudo que precisava entregar até o fim do semestre e percebi que com apenas quatro “slots” diários de 50 minutos poderia cumprir todos os prazos.

Sem saber, Marta Kauffman havia me resgatado do poço da ausência de rotina.

De volta ao Brasil, sem emprego formal ou qualquer prazo real de entrega de projetos, criar uma rotina foi a melhor única maneira de sobreviver na profissão. E não só na profissão: foi assim, com uma rotina de exercícios físicos diários, que perdi em cinco meses o dobro do peso que ganhei em dois anos nos EUA; foi com cotas de leitura diárias que consegui terminar os livros que iam ficando de lado. 

E foi com slots de 50 minutos que consegui continuar a escrever – ainda que “escrever” signifique, muitas vezes, olhar para a tela em branco do computador enquanto as vozes da minha cabeça tentam se entender.
É comum querermos sempre fugir da rotina, mas não tê-la é tão difícil quanto estar preso a ela. E entre a apatia de desperdiçar um dia livre e a insanidade de estar atrasado para um compromisso que só existe na minha cabeça, prefiro ser louco.

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Os amadores

Na semana passada estive pela segunda vez na vida em um festival de cinema
A primeira vez havia sido cinco meses antes, na primeira edição do mesmo festival. 
Em meio aos altamente capacitados membros da equipe – com passagens pelos festivais de Cannes, Berlim, Veneza e afins – tive uma súbita sensação, comum (creio) entre aqueles ligados a alguma atividade artística.
Não foi a sensação de “sou o centro do mundo…”
Também não foi a sensação de “o universo é melhor porque eu existo…” 
Nem a de “como ninguém viu o quão brilhante eu sou?”
Foi a sensação de que não sei nada.
Neste ano tive a honra de ser convidado para ensinar algo que ainda nem bem sei se sei: escrever. Tom Rickman, uma das mentes mais geniais que tive a chance de conhecer, confessou-me certa vez que preferia ensinar algo mais concreto… como história da arte.
(Você percebe que roteiro é algo abstrato quando história da arte vira algo concreto em comparação.)
Ansioso a ponto de gesticular enquanto penso, e assombrado pelas palavras de Frank Pierson – “Não se aprende a escrever roteiros. É preciso reaprender a escrever a cada roteiro.” – passei semanas preparando o material a ser utilizado nos supostos dois ou três dias de curso. Soterrado em apostilas, livros e DVDs, tentei condensar em algumas páginas tudo aquilo que poderia ser relevante àqueles interessados em ingressar no controverso mundo da escrita audiovisual.
(Você percebe que roteiro é algo concreto quando vê o número de publicações técnicas sobre o assunto.)
Eu sabia que só estaria satisfeito com a perfeição. Os trechos dos filmes tinham de ser extraídos com a minutagem exata; os ítens relevantes tinham de estar na ordem correta, a bibliografia tinha de ser citada de acordo com os padrões internacionais, o espaçamento do texto tinha de ser o mais agradável aos olhos. E eu tinha de fazer a barba antes de viajar.
Aí fiquei de cama por dois dias e tive de me adaptar ao imperfeito.
A oficina teve de ser alterada por motivos técnicos; os três dias viraram um, e semanas de preparo e tensão se dissiparam em quatro horas. Foi tudo diferente do que eu esperava.
Mas quem disse que não era pra ser assim?
Os dias seguintes foram de imersão total no mundo do cinema: filmes, palestras, encontros, reencontros; muita conversa e pouco sono. E de novo a sensação de que não sei nada.
É tanto livro que não li filme que não vi música que não ouvi peça a que não assisti pintor que não conheci para!
Como é possível manter-se atualizado (e são) em um universo onde a cada mês, a cada semana, a cada dia, novas obras surgem? Onde uma interminável prateleira de livros imperdíveis e filmes clássicos espera para ser devorada? Como querer que minha mente ansiosa relaxe sabendo que há tanto que não sei, que há tanto a fazer e que ainda nem passei fio dental?
Respirei.
Lembrei-me de um dos palestrantes, que parafraseou Samuel Beckett: “Erre. Erre mais. Erre melhor.”
Ao agradecer a equipe do festival por todo esforço, nosso directeur général referiu-se a nós como amadores, querendo na verdade dizer “aqueles que amam”. Rimos discretamente desse pequeno equívoco, mas os equivocados éramos nós. Ele tinha razão.
Somos todos amadores: amamos o que fazemos e não sabemos de nada.
E quem disse que não é pra ser assim?
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!kbhit()

Um das coisas que pude observar com clareza durante minha temporada nos EUA foi a diferença no conceito de amizade que existe entre aqui e lá.

Certa tarde em um evento em Los Angeles, durante uma conversa despretensiosa, uma mulher me perguntou:

– Quantos amigos você tem?

Parei. Pensei. – Ah, não sei, muitos.

– Não, mas assim, amigos próximos…

– Sei lá, pelo menos uns vinte.

– Não, você não entendeu. Me refiro a amigos, assim, que você confia mesmo, que você conversa com frequência, com quem você pode contar.

– Acho que foi você quem não entendeu – respondi sorrindo, antes de repetir. – Pelo menos vinte.

Muitos dos meus amigos são amigos há uma, duas décadas. Tem os amigos do prédio onde eu nasci, que são amigos, literalmente, desde que nasci. Tem os amigos do Jardim II, os da 1ª série, os da 3ª, os da 7ª e os do 1º colegial. Surpreendentemente, tem os grandes amigos do cursinho – quem faz amigos no cursinho?

E tem também o !kbhit().

Conheci os primeiros membros do !kbhit() no melhor estilo “amigo-da-namorada-do-primo-da-vizinha-da-minha-vó.” Depois de uma viagem despretensiosa, percebi que tinha muito mais em comum com aquele grupo de engenheiros do interior que faziam paródias musicais do que com o mundo do qual fazia parte naquele momento. E assim o !kbhit() passou a ser composto por “dez engenheiros e o Coxa”.

Sem nunca ter assistido a uma aula daquela universidade, frequentei jogos universitários, fui batizado como membro honorário de uma república; fui a churrascos, formaturas; gritei o hino da faculdade como se tivesse feito parte daquele universo. E de certa forma, fiz.

Aos poucos, passei a ser apresentado como “amigo da faculdade” – era mais fácil assim.

Aos poucos, fui confirmando minha teoria de que amizade requer manutenção; que se deixada guardada como uma caixa de ferramentas que só sai do armário quando necessário, ela enferruja.

Aos poucos, fui percebendo que às vezes é difícil explicar porque se é amigo: às vezes simplesmente se é.

Um dia, Logan, meu roommate, notou um banner na parede de meu quarto com fotos do !kbhit() que ganhei de presente antes de sair do Brasil. No topo, uma frase dizia: “Todo bom jogador tem uma torcida fiel” – !kbhit(). E então veio a pergunta:
– O que significa “quei-bi-rráit”?
– É “ca-be-rrit” – disse rindo, corrigindo sua pronúncia, enquanto pensava em uma resposta.
Talvez o mais correto fosse dizer que !kbhit() é uma função utilizada em linguagem de programação.
Mas eu poderia dizer que !kbhit() é um grupo de e-mail em que você será xingado dia sim, dia não, e que você vai se sentir especial por isso. Ou que é um grupo do qual você pode ser excluído se não der sinal de vida – ainda que seja xingando alguém – porque xingar ou ser xingado simplesmente significa que você se importa.
Eu poderia dizer que !kbhit() é um banco de paródias musicais, criadas nas horas mais surpreendentes, reveladas a seus homenageados nas horas mais inesperadas, e tão contagiantes que torna impossível cantar a letra original outra vez.
Eu poderia dizer que !kbhit() é o organizador de um evento musical anual, onde membros divididos entre “os que sabem tocar alguma coisa” e “os que não sabem” formam duplas e são avaliados em critérios rigorosos definidos em um documento impresso, disputando um troféu a ser entregue pelo júri – composto por suas namoradas.
…Ou que ser !kbhit() é dar carona para alguém que está em outra cidade, afinal “é um desvio de duas horinhas, nem isso!” É fazer um bate-volta a uma cidade a 300 km – só pra dar um oi a alguém que você não vê há algumas semanas – e voltar para trabalhar às 6 da manhã do dia seguinte.
…Ou que ser !kbhit() é entender de verdade o significado de compaixão. É viajar para passar um carnaval inteiro na sala de espera de um hospital, enquanto seu amigo passa o carnaval inteiro na UTI, em coma, no mesmo hospital. 
…Ou que ser !kbhit() é lembrar constantemente que “viver continua sendo sensacional”. É ter sempre uma torcida fiel, não importa qual seja o seu jogo.
Mas olhei para Logan observando aquele banner coberto de fotos, mensagens e assinaturas, e, utilizando o melhor eufemismo que pude encontrar, respondi:
– É um grupo de amigos.

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Histórias que poderiam ter sido

Certa tarde, há muitos anos, estava com meu amigo Bob na biblioteca da faculdade de veterinária procurando um livro sobre a reprodução dos avestruzes para uma amiga quando uma garota sentou-se na mesa ao lado. Três segundos depois, Bob estava apaixonado – sem sequer haver trocado olhares com ela. Após alguns minutos de discussão, Bob decidiu que seria prudente não informá-la sobre os filhos que teriam juntos, nem sobre o nome que dariam ao cachorro, nem sobre o tamanho de sua futura casa – ou de certas partes de seu corpo.
Minutos depois, a garota se foi – sem saber que destruíra um lar imaginário – e Bob, parafraseando Manuel Bandeira, suspirou: “Ah, histórias que poderiam ter sido…
E esse virou nosso jargão: quantas “histórias poderiam ter sido” se tivéssemos tomado uma decisão diferente, se tivéssemos agido, se tivéssemos virado à esquerda, se tivéssemos ido àquela viagem. Quantas histórias poderiam ter sido se decisões tomadas por quem sequer conhecemos tivessem sido diferentes.
Durante meu intercâmbio para Austrália no Ensino Médio, conheci uma garota suíça com quem conversava vez ou outra. Às vezes nos encontrávamos no ônibus, às vezes nos víamos no intervalo das aulas da extinta Beacon Hill Technology High School enquanto tomávamos o cremoso leite com chocolate de caixinha que só a escola oferecia. Sempre senti que havia algo ali, mas o auge dos meus dezesseis anos e de minha bananisse me impediram de tomar qualquer atitude. Um dia antes de voltar ao Brasil esbarrei com ela na escola e disse que estava de partida. Desapontada, ela anotou seu endereço em um pedaço de papel. “Agora é minha chance!”, pensei…
…Só pensei.
Nos abraçamos, nos despedimos, e nunca mais nos vimos. Nunca mais nos falamos.
Já no avião, notei o papelzinho ainda no bolso da calça… e nele havia algo mais que o endereço; algo que me fez acreditar que aquela história, de fato, poderia ter sido…
*  *  *
Meses antes de me mudar para os EUA para estudar no AFI, conheci meus futuros colegas pela internet, entre eles um americano chamado Andrew. Após nos certificarmos (na medida do possível) de que não éramos serial-killers e/ou fazíamos parte de uma seita macabra, decidimos que seríamos roommates. Durante os meses seguintes conversamos várias vezes por semana, descobrimos interesses em comum, planejamos viagens para o Alasca, decidimos que ficaríamos em um albergue assim que chegássemos e procuraríamos um apartamento perto da escola. Enfim, nos tornamos amigos.
Uma semana antes de sair do Brasil, recebi um longo e-mail de Andrew me dando a triste notícia que ele não poderia mais ir ao AFI.

Com meus planos escorrendo pelo ralo, tive de encontrar novos roommates às pressas e fui morar com dois completos desconhecidos – um deles dormindo na sala. Durante todo o primeiro (e mais difícil) mês em L.A., só pensava em como tudo seria mais fácil se tivesse saído como planejado. Como eu queria que aquela história tivesse sido…

Mas o que eu não sabia é que se aquela história tivesse sido, meses depois eu não teria feito uma inesquecível road trip de 5.000 quilômetros ao redor do Grand Canyon com meus inesperados amigos; não teria conhecido o Texas, nem a família de Logan, nem teria vivido com seu fiel escudeiro Lebowski.
Só fui conhecer Andrew pessoalmente um ano depois, de passagem por sua cidade por algumas horas. Durante um almoço corrido em uma tarde incrivelmente quente, contei apressadamente as histórias do AFI – histórias que, pra ele, poderiam ter sido. Em contrapartida, Andrew me contou sobre sua vida fora do AFI, que incluía, entre outras aventuras, uma fascinante viagem à Antártica – a história que, pra ele, foi.
Inevitavelmente, cada pessoa que conheço, cada nova amizade que se forma, me faz pensar nas histórias que poderiam ter sido. Como teria sido conhecer aquela pessoa anos antes? Ter ido à sua formatura? Àquela festa de aniversário? E como teria sido não conhecê-la? Não ter ido àquela viagem?
Inevitavelmente, cada pessoa que conheço, cada nova amizade que se forma, também me leva à assustadora conclusão de que há pessoas no mundo que eu jamais vou conhecer; de que há amizades que jamais vão se formar: são histórias que eu nem sequer sei que poderiam ter sido.
E é durante esse devaneio sobre as pessoas que não vou conhecer, os lugares que não vou visitar e as experiências que não vou ter que tudo surpreendentemente volta a fazer sentido: é quando me lembro de que sou escritor, e de que o escritor vive em Pasárgada. É quando me lembro de que a cela do meu mundo real tem uma janela para o infinito.
É quando me lembro de que, no meu mundo, todas as histórias podem ser.

(Bob casou-se hoje com a mulher de sua vida e está de mudança para os EUA. Vai viver a história que tinha de ser.)

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The Young Storytellers

Quando o co-criador do seriado “Glee”, Brad Falchuk, veio ao AFI e mencionou, quase sem querer, a fundação que havia criado – The Young Storytellers Foundation –, não imaginava que em breve me envolveria com um de seus projetos. E muito menos que ele se tornaria uma das coisas mas sensacionais de que já fiz parte.
O fundação foi criada em 2003 com o objetivo de “desenvolver a alfabetização através da arte de contar histórias.” Diversos programas são oferecidos, entre eles o que foca em alunos do 5º ano.
A ideia é bastante descomplicada: um head mentor, dez crianças e dez mentores (um para cada criança) que se encontram em oito reuniões semanais para escrever um pequeno de roteiro de 5 páginas, a ser encenado na nona semana no auditório da escola. Simples, não?
Agora adicione à formula a amizade e o companheirismo que surge entre os mentores; o maravilhamento das crianças a cada palavra que escrevem; e o prazer de ver atores de Hollywood improvisando despretensiosamente no auditório de uma escola pública. E eis que surge algo mágico.
Mal sabem as crianças que aprendemos tanto quanto elas. O ego fica na porta, assim como os palavrões, os pensamentos negativos, as palavras de desencorajamento. Cada um de nós assume uma nova identidade – Bowling Brian, Jovial Jon, Mystical Mary e assim por diante. Os atrasados dançam a “chicken dance” e ninguém se importa em parecer ridículo diante de vinte crianças – sim, vinte, porque ali todos viram criança – que se divertem às suas custas.
A cada semana – em meio a brincadeiras de integração e breves apresentações de conteúdo – um pedacinho da história era construído, sem qualquer censura. Príncipes que se unem a ratos para combater uma bruxa; super-herois que saem do mundo dos quadrinhos para salvar a humanidade; anoréxicas que se unem a vítimas de câncer e encontram a felicidade: tudo é válido, desde que não haja violência.
Mas sem dúvida o grande valor de tudo isso não é o resultado, e sim o processo. Ao expor suas ideias, cada criança expõe um pouco de si mesma, se abre para o mundo e, talvez pela primeira vez, sente que tem uma voz. Mais do que isso: sente que alguém quer ouvi-la.
“Hawaiian” Ailani, a menina por quem fui responsável no segundo semestre que participei do programa, era provavelmente a garota mais tímida do grupo. Raramente respondia às perguntas em meio aos colegas e jamais olhava alguém nos olhos. Ao decorrer daquelas semanas, enquanto criava sua história sobre o poder da amizade, Ailani começou a conversar mais, começou a falar mais de si; começou a sorrir.
“Flying” Filipe & “Hawaiian” Ailani no “Big Show”

Em nossa última sessão, nosso head mentor informou às crianças como seria o “Big Show” (como é chamada a apresentação final): contou que receberiam um crachá VIP, que entrariam em um tapete vermelho, que tiraríamos fotos, que atores de Hollywood se apresentariam individualmente para que cada uma delas escolhesse seu elenco, e que em seguida sua história seria apresentada para todo o 5º ano e seus convidados.

Foi então que Ailani me olhou nos olhos pela primeira vez e, sem conseguir conter a empolgação, perguntou:
– É verdade!?
– O quê?
– Que a gente entra num tapete vermelho e tiram foto da gente?
Era.
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