“Eu sou um pouco travada pra falar em público, me dá umas dicas?”, pediu uma amiga outro dia. Eu ri. Sete anos atrás isso seria uma piada.
Foto: Acervo pessoal
“Eu sou um pouco travada pra falar em público, me dá umas dicas?”, pediu uma amiga outro dia. Eu ri. Sete anos atrás isso seria uma piada.
Foto: Acervo pessoal
Quando uma amiga me convidou para assistir a um espetáculo de dança atlética numa noite de quinta-feira, não imaginava o impacto que ele teria nos dias que viriam. O espetáculo da companhia italiana Kataklo é certamente uma das coisas mais impressionantes a que já tive o prazer de assistir (ao lado de “O”, do Cirque du Soleil, onde artistas voam pelo palco de maneiras inimagináveis).
Descobri que a companhia dava aulas de atividades circenses e pensei que poderia ser divertido participar de algo parecido, despretensiosamente. Certamente haveria escolas de circo por aqui.
No começo, tudo parece impossível. Você não se acha capaz, acha que jamais daria conta, que não foi feito para aquilo; aceita que nem todo mundo precisa ser capaz de tudo, que cada um tem sua habilidade. Então pensa em desistir.
Você conhece novas pessoas: pessoas que estão na mesma que você, que riem dos seus limites, que se frustram, que te incentivam, que te ensinam. Aliás, você aprende (ou reaprende) a torcer pelos outros, a vibrar genuinamente pelas conquistas alheias.
Você sua, cansa, alonga, descobre músculos novos, tira força de onde não tem: nada no seu corpo fica indiferente.
Todo movimento inclui uma parcela de dor. Primeiro você para no caminho. “Não vai dar…”. Você tenta de novo, falha de novo. Insiste, até que você esgota a dor ao ponto de ela não ter mais efeito: não porque ela sumiu, mas porque ela não te limita mais.
Foto: Acervo pessoal
Ele era um homem alto. Tinha mais de um metro e noventa de altura e energia para derrubar um touro ou levantar um trem se precisasse. Mas naquele entardecer não precisava levantar um trem, nem sequer um carro ou uma caixa de papelão: simplesmente procurava por algo que não conseguia encontrar.
Foto: Shutterstock
“Esqueceram de Mim” foi o primeiro filme que vi no cinema. A extinta sala 3 do cinema da Paris Filmes do Shopping Ibirapuera tinha pouco mais de 100 lugares — provavelmente uma das menores da cidade, mas eu não sabia disso. Muito menos sabia que 15 anos depois trabalharia naquela empresa que por tanto tempo estampou os ingressos dos filmes que vi na adolescência.
A sala estava lotada, e alguém sentou na poltrona à minha frente, bloqueando parte da minha visão. Migrei para a poltrona ao lado, dividindo o espaço com uma amiga. Do mesmo assento, assistimos fascinados às aventuras de Kevin McCallister, interpretado por aquele ator que não sabíamos o nome.
Era 1991 e, para um garoto de sete anos de idade, qualquer assunto que não estivesse nos livros da escola, na Barsa (onde?!) ou em alguma revista era completamente inacessível — incluindo o nome do ator que interpretava Kevin McCallister em “Esqueceram de Mim”.
Um ano inteiro se passou até que uma reportagem da revista Veja enfim revelou o grande mistério.
Disquei do telefone vermelho para o 571-6291 e minha colega de poltrona atendeu.
— Descobri o nome dele! Adivinha! Começa com M!
O mundo mudaria muito nas décadas seguintes, conectando pessoas e espalhando informações de forma inimaginável. Levei 20 minutos para encontrar a reportagem da foto, e pareceu uma eternidade. Hoje basta um clique — literalmente — para saber que Macaulay Culkin é fã de luta livre e World of Warcraft, mede um metro e setenta e divorciou-se após dois anos de casado.
A Liv Tyler da capa do meu fichário hoje está no meu Instagram, onde descobri que seus filhos estão grandes demais para pijamas de bichinhos, e onde posso acompanhá-la enquanto anda a cavalo com a família. É possível até mesmo alfinetar um presidente e receber a resposta por Twitter minutos depois.
Aqueles que até recentemente estavam tão distantes de nós agora parecem estar aqui do lado, suas vidas conectadas às nossas, nossos celulares notificados a cada passo. Mas quanto dessa conexão é real?
Há alguns anos gravei a narração para o teaser de um longa-metragem em desenvolvimento nos EUA. O produtor/editor me conheceu pessoalmente alguns meses depois.
— Cara, parece que eu te conheço há séculos, de tanto que eu já ouvi sua voz! — disse ele no primeiro aperto de mãos.
Sinto que conheço profundamente o apresentador e os convidados de um programa semanal — “Conectados”, vejam só — que legendo há mais de um ano para uma companhia aérea. Até que nos cruzamos pelos corredores e me dou conta de que nem sabem que eu existo. Por que saberiam?
Como roteirista de vídeos corporativos, já perdi a conta de quantas vezes escrevi a frase: “O mundo está cada vez mais conectado”.
Agora só falta dizer: conectado com o quê?
Outro dia fui ao cinema com a mesma amiga — cada um em sua poltrona. Não conseguia lembrar que outro filme o ator do trailer tinha feito. Puxei o celular, abri o IMDb e conferi toda sua filmografia. Depois coloquei o aparelho no modo avião para me desconectar do mundo e enchi a mão de pipoca, aguardando o filme começar.
Foto: Revista Veja, 15 de janeiro de 1992.
Quando eu era pequeno, um dos grandes ritos de passagem era poder ir sozinho à lojinha de presentes e guloseimas que ficava literalmente a uma quadra do prédio onde eu morava. A infância era dividida entre poder/não poder ir sozinho até a Rosinha: uma distância que podia ser integralmente vigiada por pais atentos da janela da cozinha.
Fui uma criança de prédio. Brincava de pega-pega, alerta e esconde-esconde, que incluía as variações vale/não vale passar pela janelinha. Quebrei vidro, esfolei o joelho, brinquei na quadra até as luzes apagarem e alguém gritar do terraço que era hora de subir.
Outro dia tentei lembrar quando foi a última vez que brinquei de esconde-esconde. Não consegui. Em algum momento cresci, deixei de passar pela janelinha e, sem perceber, o “mãe, posso descer?” virou “mãe, tô saindo.”
A Rosinha fechou. Veio a fase do “não volta tarde”, do “não bebe muito”, do “avisa quando chegar”.
Tirei carta. Dei ré com meu Uno Mille numa Mitsubishi Station Wagon na frente de casa. “Pai, bati o carro.”
Fui morar fora. Fui morar sozinho.
E então os papéis se inverteram.
Isso ficou mais claro do que nunca quando decidi presentear minha mãe e minha tia (que somam 140 anos de idade) com ingressos para o show de um cantor italiano. Como um pai caridoso que vai atrás da meia-entrada para o filho adolescente, me vi em meio a uma odisseia que envolveu duas idas ao local do evento, um sistema fora do ar e clientes de meia-idade revoltados com o descaso.
— Mas que inferno isso! Vou processar todo mundo! — esbravejava um.
— Escuta, mas a gente não saiu de casa pra se divertir? — rebatia a esposa, tentando salvar o programa, fadado a falhar antes mesmo de começar.
No mesmo guichê, um pai comprava um ingresso de um show de rock para a filha.
— Ih, só tem lugar lá em cima. Paciência, vai esse mesmo. E ai dela se reclamar! Ainda vou ter que vir buscá-la depois do show — confidenciou ele ao senhor que ia processar todo mundo.
Horas depois, saio com um par de ingressos na mão e uma série de preocupações na cabeça. Se eu for levar, como vão voltar? Posso ficar no shopping esperando… Ah, elas voltam de táxi. Será que é perigoso? Elas não têm aplicativo… Ah, mas na porta sempre tem táxi. E se eu voltar pra buscar depois? Qualquer coisa tem minha prima. O que é Uber? Põe o cinto. Carrega o celular, hein? Liga quando chegar.
Sobreviveram. Radiantes.
Curioso pensar como o jogo vira, como o sol muda de lado. Não importa se você foi um grande líder, um grande executivo ou um grande boçal: se você tiver sorte — e esta é a grande ironia — se você tiver sorte, vai viver o suficiente para tomar um banho de humildade e perceber que você invariavelmente precisa do outro.
Hoje você dá conselhos, amanhã recebe. Hoje você cuida, amanhã é cuidado. Hoje você pode estar no alto da roda gigante, mas amanhã — se tiver sorte — ainda vai estar nela para apreciar a beleza da descida.
Outro dia cheguei à casa dos meus pais e vi uma carta da prefeitura sobre a mesa.
— Seu pai levou outra multa, mas não dá bronca nele — disse minha mãe, enquanto tricotava.
Ele desceu as escadas, veio até mim, cauteloso.
— Viu, eu tomei uma multa porque eu tava sem cinto, mas já aprendi a lição. Não faço mais, tá bom?
E foi para a cozinha.
Foto: The King Photography
Certa noite voltava para casa quando comecei a reparar quantos lugares que haviam sido importantes para mim na última década já não existiam mais. Fecharam. Mudaram de nome. Mudaram de nome e depois fecharam. Um bar que era meu reduto com dois amigos por tantas sextas-feiras hoje tem uma placa de aluga-se. Outro, que nos ensinou a apreciar cervejas importadas e foi palco de tantas comemorações, virou um hortifrúti, e agora “aluga-se para eventos”. Por alguns instantes, senti saudades de uma época que não volta mais, de pessoas que já não vejo com tanta frequência, mas logo senti a tranquilidade de saber que há ainda muitas épocas por vir.
Na manhã seguinte, acordo com a mensagem de um desses amigos, que hoje vive nos EUA, informando que seu pai, após semanas no hospital, havia falecido. Dois dias depois, numa ensolarada manhã de domingo, os três amigos, que há tanto não se viam, reuniam-se no velório. Usávamos um quipá, assim como há cinco anos em seu casamento: uma das últimas celebrações que dividimos no país antes de sua mudança. O clima, ao que possa surpreender, era de paz. Os três filhos levantaram-se perante o enorme grupo de amigos e familiares que viera prestar as últimas homenagens e puderam sorrir. Rir, até. Disseram que a morte do pai havia feito nascer a esperança do reencontro; que a dor é dilacerante, mas o amor é inabalável; que em meio a tanta adversidade, nunca se amaram tanto.
Foto: Mary Evans Picture Library
Assisti ao filme Hard Candy pela primeira vez em 2006, quando trabalhava na Paris Filmes. Além da história bastante incômoda e envolvente, várias coisas sobre o filme ficaram marcadas na minha memória. Foi ali, por exemplo, que conheci a pintura Nighthawks, de Edward Hooper, que hoje preenche o fundo de tela do meu computador. Hard Candy foi também um dos títulos mais difíceis de se traduzir para o português, o que ficaria comprovado por aquele que é provavelmente o pior título brasileiro de todos os tempos: MeninaMá.com. Como pode uma palavra (ou seriam duas? ou seriam três?), ao mesmo tempo, quebrar as regras gramaticais, colocar acento em um endereço de internet e ainda entregar a virada do filme?
Então me lembrei de uma entrevista com José Mujica para o documentário Human: “Quando compramos algo, não compramos com dinheiro, mas com o tempo de vida que gastamos para ganhar esse dinheiro.”
Só que existe ainda aquele trabalho que não gera nenhum excesso de energia, que gera um calor que não pode ser armazenado, que deve ser consumido ali mesmo. Um calor humano. Passar o dia pintando uma instituição carente, ou levando comida a quem precisa, ou fazendo qualquer trabalho que traz um retorno em outra unidade que não aquela que compra um ingresso do Coldplay ou uma torta de frango. Um trabalho que recarrega outras baterias. E que nem por isso vale menos.
Foto: Acervo pessoal
Quando acordei naquela manhã de sábado, não imaginava que em algumas horas estaria na sala de espera de um hospital público, trocando mensagens de texto com um policial militar, digitadas na tela estilhaçada do meu próprio celular.
Foto: Acervo pessoal
Desde pequeno eu sempre adorei matemática. Perceber o mundo em números, com uma lógica clara, com certos e errados definidos, sempre me fascinou. Na sétima série, tive um professor (casado com a professora de Língua Portuguesa, já fazendo um prenúncio da minha vida futura…) que brincava com a turma ao ensinar planos cartesianos, dizendo ser aquele seu momento favorito: o momento pornográfico.
Foto: Acervo pessoal
Aqueles que me conhecem sabem que levo uma vida irritantemente organizada. Gosto de saber que o mundo ao meu redor está sob controle, que tudo está na sua devida prateleira, caixa ou gaveta, e por isso uso diariamente uma agenda – dessas de verdade, que você pega na mão e derruba café. É como um guia da NET com a programação da minha vida.
Foto: “O baile”, Paulo Rego.