Cotidiano

Feliz dia novo

Durante mais de 20 anos da minha vida, passei a virada do ano exatamente no mesmo lugar, com as mesmas pessoas: minha família. A casa onde tios, primos e afins reuniam-se era situada em um lugar estratégico onde era impossível ver qualquer tipo de fogos, e a proximidade com uma favela sempre deixava dúvidas sobre o teor dos estouros. Foram fogos? Foram tiros?

Havia uma superstição de que os desertores sofreriam as consequências. “Vai pra praia com os amigos? Certeza que vai chover!” “Fulana foi viajar com o namorado, acredita?! Aposto que vão terminar!” A primeira vez que passei o réveillon longe da família foi em 2007, quando fui a Fortaleza com a namorada e alguns amigos. Tenho certeza que o motivo de eu ter passado as últimas horas do ano vomitando foi o excesso de comida, e não uma maldição. O namoro terminou algumas semanas depois. 
 
Particularmente, nunca dei tanto peso para a data em si, talvez porque eu tenha a sorte de passar praticamente o ano todo rodeado por pessoas que gosto e de não precisar de datas definidas para reuni-las.
 
Ou talvez porque eu reconheça a arbitrariedade dessa data.
 
Em algum ponto da história, decidimos que uma posição específica da Terra em relação ao Sol seria um marco; que uma vez que nossa bola azul cruzasse essa linha de chegada imaginária, daríamos um grande reset no jogo de seus habitantes. Aí, em 1582, o Papa Greg e sua turma perceberam que estava tudo errado e decidiram dar uma ajustadinha nessa linha, puxando-a uns dez dias para trás. “Vamos pular do dia 4 de outubro direto pro dia 15?” “Bora!”
 
Eu não teria feito aniversário em 1582…
 
Cada país resolveu adotar o calendário quando estava a fim, o que levou alguns anos. Tipo uns 350. Mas não foi só isso. Para evitar novos grandes ajustes no futuro, resolveram calcular direito essa história de ano bissexto, afinal, o ano trópico não tem EXATAMENTE 365 dias, mas 365 dias, 5 horas, 48 minutos e 46 segundos.
 
(Parênteses aqui. Uma busca rápida na internet vai mostrar que são considerados dois cálculos para a duração do ano: o ano sideral, que usa as estrelas como referência, e o ano trópico, que leva em consideração as estações do ano. E, não, eles não têm a mesma duração. VAI VENDO!)
 
Pois bem, com esse negócio de um ano ter 365 dias, mais um quarto de dia, decidiram enfiar um dia a mais em fevereiro a cada quatro anos. Só que, de novo, esse “um quarto de dia” não é EXATAMENTE um quarto de dia. E como a gente compensa esses minutinhos que a gente está colocando de brinde a cada ano? Fácil: a gente cancela o ano bissexto a cada 100 anos, nos anos múltiplos de 100!
 
“Nem vem! O ano 2000 foi bissexto que eu lembro muito bem. Teve enchente, teve Olimpíada e teve 29 de fevereiro, sim!” — você pode estar pensando.
 
É que a coisa não para por aí: a gente cancela o ano bissexto nos anos múltiplos de 100… A MENOS que eles sejam, também, múltiplos de 400.
 
Olha. Que. Simples. Tudo para manter uma linha imaginária mais ou menos no mesmo lugar todo ano.
 
Seja como for, é fascinante pensar como ciclos arbitrários têm o poder de nos inspirar, de nos fazer refletir, de criar novas metas e ressuscitar velhos sonhos. E também de nos dar uma folga. Afinal, seria excruciante andar por aí carregando décadas de decepções e escolhas erradas nas costas, sem poder encostá-las ali num cantinho de dezembro antes de seguir adiante.
 

Fico pensando como, todos os anos, mais ou menos no mesmo ponto do universo, o dia 1º de janeiro vai surgindo no horizonte, timidamente, de hora em hora por todo o planeta, trazendo logo atrás um ano carregado de sonhos, alheio ao mundo de expectativas colocadas sobre ele. 

Foto: Wikipedia

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Qualquer coisa, grita

“Eu sou um pouco travada pra falar em público, me dá umas dicas?”, pediu uma amiga outro dia. Eu ri. Sete anos atrás isso seria uma piada.

Veio-me à memória um dia durante o mestrado em que o professor, como de costume, passou um curta feito por um grupo de alunos, que em seguida foi discutido pela turma em um auditório com 120 pessoas. Eu levantei a mão para fazer um comentário, mas havia muitas mãos levantadas e acabei não sendo chamado.
 
Por que eu me lembro disso? Porque em dois anos de mestrado nos EUA, essa foi a única vez que levantei a mão.
 
Não posso dizer que eu era tímido, mas em um mundo de smartphones recém-nascidos e um Facebook que engatinhava, gritar sua opinião sobre o mundo a todo momento não era exatamente um hábito — certamente não pra mim.  
 
De volta ao Brasil, fui convidado a apresentar um festival de cinema. “Mas eu nunca fiz isso!” “Mas eu não sei falar em público!” “Mas eu não conheço as pessoas!”
 
Aceitei. Minhas tarefas se resumiam a fazer uma breve apresentação de cada palestrante e mediar dois debates — um na abertura, outro no encerramento — com uma dupla de diretores de cinema.
 
Passei manhãs inteiras estudando a vida de cada palestrante, decorando histórico acadêmico, prêmios, cargos, conquistas, títulos… tudo para uma apresentação de trinta segundos. “E se eu errar? E se me acharem incapaz?” eu pensava, com as mãos suando. “Errar o quê, meu Deus?!” diria eu hoje. A faculdade? Um prêmio? Uma data? O MUNDO TÁ ACABANDO E VOCÊ TÁ COM MEDO DE PRONUNCIAR UM SOBRENOME ERRADO?!
 
Dizem que o Senna corria melhor na chuva porque tinha medo, e por isso se preparava mais.
 
As pessoas naquela plateia eram o meu dilúvio.
 
Para os debates com os diretores, me preparei como um atleta: vi os filmes que seriam exibidos, pesquisei sobre seus trabalhos, anotei perguntas… “E se ninguém perguntar nada?” Anotei mais perguntas.
 
No dia da abertura, após o filme, subi ao palco e me sentei ao lado dos diretores, com um auditório de 700 lugares me encarando. “Que bom que está meio vazio…” Fiz uma ou duas perguntas até que um deles, sem qualquer cerimônia, soltou:
 
— Filipe, a gente não quer ouvir suas perguntas, a gente quer ouvir as deles.
 
Em um misto de “quero sumir” e “que alívio”, passei o microfone para a plateia, com as mãos suando só de pensar que estaria naquele mesmo palco quatro dias depois, com os mesmos diretores, debatendo outro filme. Mal sabia eu que seria pior, e um deles — alcoolizado — praticamente tiraria o microfone da minha mão para seguir falando.
 
Já estava aceitando meu fiasco, prestes a voltar para casa, quando uma das palestrantes sorriu pra mim e disse:
 
— Nossa, como você fala bem! Você tem uma facilidade… Quem dera ser assim.
 
Eu sorri de volta e agradeci, escondendo as mãos suadas. No fim das contas, havia sobrevivido. O preparo não havia sido em vão. Eu tinha medo que as coisas dessem errado. E deram. E tudo bem. Porque às vezes as coisas dão certo mesmo quando dão errado.
 
É irônico pensar que, anos depois, estaria à frente de um programa social com o lema “toda criança tem algo a dizer, toda criança merece ser ouvida”; que falar em público se tornaria comum, prazeroso, até. Como diria um personagem que eu mesmo havia criado anos antes, é engraçado como nossos medos se tornam tolos quando a gente os supera.
 
Ano passado me pediram para fazer um breve discurso de agradecimento. Para duas mil pessoas.
 
Eu subi na arquibancada do ginásio, apanhei o microfone, olhei para as duas mil pessoas, pensei na fala que tinha preparado e sorri.
 
Lá fora, estava chovendo.
 

Foto: Acervo pessoal

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Circo da vida

Quando uma amiga me convidou para assistir a um espetáculo de dança atlética numa noite de quinta-feira, não imaginava o impacto que ele teria nos dias que viriam. O espetáculo da companhia italiana Kataklo é certamente uma das coisas mais impressionantes a que já tive o prazer de assistir (ao lado de “O”, do Cirque du Soleil, onde artistas voam pelo palco de maneiras inimagináveis).

Uma das coisas que me fascinam na música e na dança é que não consigo racionalizar o que está acontecendo: eu apenas sinto. Como roteirista, é impossível desligar totalmente o intelecto ao assistir a um filme ou série de TV;  já a música e os movimentos do corpo me surpreendem a cada nova experiência. Como pode alguém combinar sons e fazer chorar? Ou visualizar movimentos do corpo que conectados a uma determinada música geram uma determinada emoção? Não entendo: apenas sinto.

Descobri que a companhia dava aulas de atividades circenses e pensei que poderia ser divertido participar de algo parecido, despretensiosamente. Certamente haveria escolas de circo por aqui.

A primeira vez que me pendurei num trapézio, há sete meses, não consegui levantar os pés do chão. Literalmente. Vi pessoas penduradas em outras, presas por voltas em um tecido, e tive certeza de que aquilo estava muito além do que eu, mero mortal, poderia alcançar.

No começo, tudo parece impossível. Você não se acha capaz, acha que jamais daria conta, que não foi feito para aquilo; aceita que nem todo mundo precisa ser capaz de tudo, que cada um tem sua habilidade. Então pensa em desistir.

Mas você decide ir em frente, dar uma chance. Aos poucos, vai se superando. Reconhece que tem limites, mas que tudo bem: dá pra trabalhar dentro deles. Alguns você supera, outros você aceita.

Você conhece novas pessoas: pessoas que estão na mesma que você, que riem dos seus limites, que se frustram, que te incentivam, que te ensinam. Aliás, você aprende (ou reaprende) a torcer pelos outros, a vibrar genuinamente pelas conquistas alheias.

Aos poucos, aquilo ocupa sua mente – o que a deixa livre de todo o resto. A três metros do chão, de ponta-cabeça, pendurado por uma corda ou um pedaço de pano, tudo o que vem à cabeça é manter-se firme, terminar o movimento, seguir para o próximo. Você vive no momento. Onde mais você faz isso hoje em dia?

Você sua, cansa, alonga, descobre músculos novos, tira força de onde não tem: nada no seu corpo fica indiferente.

E, é claro, você sente dor.

Todo movimento inclui uma parcela de dor. Primeiro você para no caminho. “Não vai dar…”. Você tenta de novo, falha de novo. Insiste, até que você esgota a dor ao ponto de ela não ter mais efeito: não porque ela sumiu, mas porque ela não te limita mais.

E talvez justamente por isso o resultado valha tanto a pena, e seja tão bonito.

Isso vale pro circo. E vale pra vida.

Foto: Acervo pessoal

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cinema, Cotidiano

Conectados

“Esqueceram de Mim” foi o primeiro filme que vi no cinema. A extinta sala 3 do cinema da Paris Filmes do Shopping Ibirapuera tinha pouco mais de 100 lugares — provavelmente uma das menores da cidade, mas eu não sabia disso. Muito menos sabia que 15 anos depois trabalharia naquela empresa que por tanto tempo estampou os ingressos dos filmes que vi na adolescência.

A sala estava lotada, e alguém sentou na poltrona à minha frente, bloqueando parte da minha visão. Migrei para a poltrona ao lado, dividindo o espaço com uma amiga. Do mesmo assento, assistimos fascinados às aventuras de Kevin McCallister, interpretado por aquele ator que não sabíamos o nome.

Era 1991 e, para um garoto de sete anos de idade, qualquer assunto que não estivesse nos livros da escola, na Barsa (onde?!) ou em alguma revista era completamente inacessível — incluindo o nome do ator que interpretava Kevin McCallister em “Esqueceram de Mim”.

Um ano inteiro se passou até que uma reportagem da revista Veja enfim revelou o grande mistério. 

Disquei do telefone vermelho para o 571-6291 e minha colega de poltrona atendeu.

— Descobri o nome dele! Adivinha! Começa com M!

O mundo mudaria muito nas décadas seguintes, conectando pessoas e espalhando informações de forma inimaginável. Levei 20 minutos para encontrar a reportagem da foto, e pareceu uma eternidade. Hoje basta um clique — literalmente — para saber que Macaulay Culkin é fã de luta livre e World of Warcraft, mede um metro e setenta e divorciou-se após dois anos de casado.

Liv Tyler da capa do meu fichário hoje está no meu Instagram, onde descobri que seus filhos estão grandes demais para pijamas de bichinhos, e onde posso acompanhá-la enquanto anda a cavalo com a família. É possível até mesmo alfinetar um presidente e receber a resposta por Twitter minutos depois.

Aqueles que até recentemente estavam tão distantes de nós agora parecem estar aqui do lado, suas vidas conectadas às nossas, nossos celulares notificados a cada passo. Mas quanto dessa conexão é real?

Há alguns anos gravei a narração para o teaser de um longa-metragem em desenvolvimento nos EUA. O produtor/editor me conheceu pessoalmente alguns meses depois.

— Cara, parece que eu te conheço há séculos, de tanto que eu já ouvi sua voz! — disse ele no primeiro aperto de mãos.

Sinto que conheço profundamente o apresentador e os convidados de um programa semanal  — “Conectados”, vejam só — que legendo há mais de um ano para uma companhia aérea. Até que nos cruzamos pelos corredores e me dou conta de que nem sabem que eu existo. Por que saberiam?

Como roteirista de vídeos corporativos, já perdi a conta de quantas vezes escrevi a frase: “O mundo está cada vez mais conectado”.

Agora só falta dizer: conectado com o quê?


Outro dia fui ao cinema com a mesma amiga — cada um em sua poltrona. Não conseguia lembrar que outro filme o ator do trailer tinha feito. Puxei o celular, abri o IMDb e conferi toda sua filmografia. Depois coloquei o aparelho no modo avião para me desconectar do mundo e enchi a mão de pipoca, aguardando o filme começar. 

Foto: Revista Veja, 15 de janeiro de 1992.

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Um breve relato sobre o adeus

Certa noite voltava para casa quando comecei a reparar quantos lugares que haviam sido importantes para mim na última década já não existiam mais. Fecharam. Mudaram de nome. Mudaram de nome e depois fecharam. Um bar que era meu reduto com dois amigos por tantas sextas-feiras hoje tem uma placa de aluga-se. Outro, que nos ensinou a apreciar cervejas importadas e foi palco de tantas comemorações, virou um hortifrúti, e agora “aluga-se para eventos”. Por alguns instantes, senti saudades de uma época que não volta mais, de pessoas que já não vejo com tanta frequência, mas logo senti a tranquilidade de saber que há ainda muitas épocas por vir.

Na manhã seguinte, acordo com a mensagem de um desses amigos, que hoje vive nos EUA, informando que seu pai, após semanas no hospital, havia falecido. Dois dias depois, numa ensolarada manhã de domingo, os três amigos, que há tanto não se viam, reuniam-se no velório. Usávamos um quipá, assim como há cinco anos em seu casamento: uma das últimas celebrações que dividimos no país antes de sua mudança. O clima, ao que possa surpreender, era de paz. Os três filhos levantaram-se perante o enorme grupo de amigos e familiares que viera prestar as últimas homenagens e puderam sorrir. Rir, até. Disseram que a morte do pai havia feito nascer a esperança do reencontro; que a dor é dilacerante, mas o amor é inabalável; que em meio a tanta adversidade, nunca se amaram tanto.

É curioso observar como reagimos ao fim de uma vida… Dias depois, eu acordaria com a notícia do falecimento de um jovem conhecido no México, no mesmo dia em que um acidente aéreo tirou a vida de um time inteiro de futebol, entre tantos mais. 
 
“Nos vimos no sábado! E no domingo, faleceu,” contou uma amiga mexicana, ainda processando o ocorrido. “Teria dito tanta coisa se soubesse que não o veria mais…” confessou outra. 
 
Vídeos da alegria de um grupo de jogadores comemorando a classificação para um jogo que nunca viria emocionaram um país; imagens questionáveis da imprensa sobre o mesmo grupo uniram as redes em revolta. “Que falta de empatia!” gritam uns. “Que alienação!” reagem outros. Mas apesar da constante necessidade de polemizar que as redes sociais parecem suscitar, minha sensação é de que, seja bem de perto dos acontecimentos ou como meros espectadores, em meio a tanta adversidade, amamo-nos mais.
 
Voltando para casa após o velório, começa a tocar no rádio o terceiro movimento da Sonata nº 2 em Si bemol da Opus 35 de Chopin: a marcha fúnebre. Apreciando a sincronicidade do momento, parei para ouvi-la. Descobri que passado o trecho mais conhecido da sonata, tão popularizado por desenhos animados, ela ganha um tom suave, apaziguante, quase alegre. Grave e agudo intercalam-se, misturando as emoções.
 
Então pensei o quanto ela é apropriada: primeiro é preciso passar pela parte mais grave, mais difícil, para só então chegar à parte mais leve, mais bela. Sim, ela está lá. Basta deixar a sonata seguir. 
 
 

Foto: Mary Evans Picture Library

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Quanto vale?

Assisti ao filme Hard Candy pela primeira vez em 2006, quando trabalhava na Paris Filmes. Além da história bastante incômoda e envolvente, várias coisas sobre o filme ficaram marcadas na minha memória. Foi ali, por exemplo, que conheci a pintura Nighthawksde Edward Hooper, que hoje preenche o fundo de tela do meu computador. Hard Candy foi também um dos títulos mais difíceis de se traduzir para o português, o que ficaria comprovado por aquele que é provavelmente o pior título brasileiro de todos os tempos: MeninaMá.com. Como pode uma palavra (ou seriam duas? ou seriam três?), ao mesmo tempo, quebrar as regras gramaticais, colocar acento em um endereço de internet e ainda entregar a virada do filme?

Mas, para mim, o mais marcante foi uma cena que sem dúvida passa despercebida por quem assiste ao filme: a cena em que a personagem de Patrick Wilson diz à personagem da então desconhecida Ellen Page que ela parece ser “do tipo que ouve Coldplay.”
 
Era a primeira vez que eu ouvia falar da banda, e ainda levariam dois anos para que eu começasse a apreciar sua música, para que Coldplay virasse tema de conversa, semente de amizade, cena de roteiro. De repente eu, também, havia me tornado “o tipo que ouve Coldplay”, e o que se seguiu foi uma série de desencontros, com shows deles aqui quando eu estava fora, shows fora quando eu estava aqui.
 
Até que este ano tudo prometia mudar: a banda e eu estaríamos, enfim, na mesma região geográfica. Mas a expectativa durou tão pouco quanto os ingressos, que se esgotaram em poucas horas. Resignado à ideia de que minha relação com a banda seria apenas virtual, um dia antes do show recebo a mensagem de um amigo:
 
— Meu irmão e a namorada não vão mais. Tenho dois ingressos sobrando. Você quer um?
 
A resposta seria evidente, não fosse um pequeno detalhe: o preço.
 
Existia, é claro, a possibilidade da meia-entrada. “Você não consegue arranjar uma carteirinha?” Claro, também consigo arranjar TV a cabo de graça, roubar castanha na feira e me indignar com a corrupção.
 
Os amigos dividiam-se entre “você não vai pagar isso tudo por um ingresso, né?!” e “como assim você ‘tá na dúvida se vai ou não no show?!”
 

Então me lembrei de uma entrevista com José Mujica para o documentário Human: “Quando compramos algo, não compramos com dinheiro, mas com o tempo de vida que gastamos para ganhar esse dinheiro.”

E aí, como no mid-point de Hard Candy, a perspectiva mudou.
 
Um dia e meio de trabalho: esse era o preço para assistir, ao vivo, a uma das minhas bandas favoritas.
 
Comecei, então, a calcular outros preços da minha rotina. Andar de carro me custa dois dias de trabalho por mês — o mesmo que cuidar da minha saúde. Os gastos da casa exigem duas semanas de trabalho, e por apenas três dias levo um mês de atividades de lazer.
 
E por que não pensar em dinheiro assim, como uma mera unidade de conversão? Como uma bateria que armazena a energia do seu trabalho para quando você precisa usar?
 
Afinal, ninguém guarda quilômetros no cofre, nem rouba graus Celsius, nem mata por centímetros cúbicos.
 
Vale a pena trabalhar um dia inteiro por uma refeição? Dois dias para visitar um amigo distante? Três dias por um sapato? Porque esse é o real preço das coisas.
 

Só que existe ainda aquele trabalho que não gera nenhum excesso de energia, que gera um calor que não pode ser armazenado, que deve ser consumido ali mesmo. Um calor humano. Passar o dia pintando uma instituição carente, ou levando comida a quem precisa, ou fazendo qualquer trabalho que traz um retorno em outra unidade que não aquela que compra um ingresso do Coldplay ou uma torta de frango. Um trabalho que recarrega outras baterias. E que nem por isso vale menos.

A ideia é simples. E eu gosto de coisas simples: você dedica seu dia a algo ou a alguém e essa dedicação te dá um retorno, que pode ser em forma de um relógio que você vai comprar na semana que vem, um abraço que você vai receber na hora ou um momento com amigos em um estádio lotado, onde all the kids they dance, all the kids all night, until monday morning feels another life, I turn the music up, I’m on a roll this time.
 
And heaven is in sight.
 

Foto: Acervo pessoal

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A história sem fim

Quando acordei naquela manhã de sábado, não imaginava que em algumas horas estaria na sala de espera de um hospital público, trocando mensagens de texto com um policial militar, digitadas na tela estilhaçada do meu próprio celular.

O dia começou no chão de uma sala de aula na Zona Sul de São Paulo, onde acordei determinado a pintar aquela instituição, ao lado de outras pessoas que trocaram dias de descanso por um fim de semana com rolos, pincéis, pó no nariz e uma sensação de realização (e dores no corpo) digna de um maratonista ao cruzar a linha de chegada. Mas como bem sabe Vanderlei Cordeiro de Lima, nem sempre tudo sai como esperado.
 
Sentado no chão, observava enquanto Luks caminhava sobre o telhado, pintando a parte superior de um dos prédios. Sentado no chão, percebi quando a telha cedeu. Sentado no chão, percebi quando
               L                                                        
               U
               K
               S
                 caiu pelo vão do telhado e veio ao chão, levando consigo a escada que atrapalhava sua queda livre.           
 
Sentado no mesmo chão, percebi o barulho da queda transformar-se em silêncio enquanto a multidão aglomerava-se ao seu redor em meio a suspiros de meu Deus, o que aconteceu?
 
Na dúvida entre um braço quebrado e um mero arranhão, partimos, Luks e eu, rumo ao hospital, a bordo da ambulância do SAMU. Ele imobilizado com um colar cervical, eu tentando entender em que momento dos minutos anteriores a tela do meu celular se espatifara.                 
                                                            
— Já andou de ambulância? – pergunta a paramédica.
 
— Não – ele diz.
 
— E você? — brinco com ela.       
              
Já na sala do pronto-socorro, aguardamos atendimento em meio a pacientes com crises de asma, ossos quebrados e cortes misteriosos.
 
— Seu sobrenome é Barros? — pergunto.
 
— Não, por quê?
 
— Erraram seu nome na pulseira do seu braço.
 
— Que ótimo.
— Você fez cinema, né?
 
— Aham. E você escreveu um livro né?
 
— Aham. O que você curte de filmes?
 
— Gosto muito do Wes Anderson, sabe?
 
— Sei! Curto muito aquele…
 
 
— Isso.
 
— Eu também.
 
— Tem muita gente aqui?
 
— Oi?
 
— É que eu não consigo olhar pro lado com esse troço no pescoço.
 
— Ah! Tem umas quatro. O da sua esquerda parece estar desmaiado…
 
Chegam mais alguns. Pedem que eu aguarde na sala de espera, onde em meio a atendentes sobrecarregados e pacientes desesperados, um familiar ansioso encontra outro, já mais aliviado.
 
— ‘Tão costurando ele agora. Saiu a pele da mão todinha, veio parar aqui no braço!
 
— Mas graças a Deus não perdeu a mão!
 
— Quando eu entrei aqui, acredita que o segurança falou: “Tá procurando o rapaz da padaria? Esse aí perdeu a mão…” Pode?!
 
— Imagina a força que ele fez pra puxar o braço!
 
— Eu sabia! Quando falaram o que aconteceu, eu logo pensei: “alguma coisa emperrou na máquina e o Thiago foi lá consertar. É a cara do Thiago fazer isso!”
 
É a cara do Thiago…
 
Uma enfermeira me chama. Perceberam que o sobrenome de Luks não é Barros. A atendente sobrecarregada faz a correção.
 
Meu celular vibra. Um joinha de um número desconhecido surge na tela quebrada – o mesmo número que me ligara cinco vezes na madrugada anterior, quando a tela ainda não cortava meus dedos.
 
Quem é?
Antonio Filipe?
Sim. Quem é?
O senhor teve um celular roubado
em outubro de 2015?
[foto do celular]
[foto do B.O.]
Sim. Quem é?
Soldado Afrânio. Nós recuperamos o seu celular
numa operação ontem à noite.
Sério?! E agora…?
Pode comparecer à XXª DP com o B.O.
e retirar o aparelho.  Mas liga lá antes!
E parabéns por ter registrado o roubo.
Nossa. Obrigado!
De nada.
Viu, se o senhor quiser e puder
mandar um e-mail de agradecimento
ao batalhão, este é o e-mail: [e-mail]
[fotomontagem com celular, viatura e brasão]
 
A enfermeira me chama novamente. Seguimos para o raio-X. Passadas três horas desde o embarque na ambulância, apenas um sentimento toma conta de nós dois: fome.
 
O raio-X aponta o que a essa altura já tínhamos certeza: todos os ossos estão em seus devidos lugares.
 
— Mas, assim, eu não sou ortopedista, né? O ideal seria o senhor passar com o especialista antes de ir — informa o médico.
 
— Naaa, ‘tô de boa.
 
— Então é só ir até a sala 10 que a enfermeira tira o acesso pra você.
 
— Dói muito pra tirar – pergunta Luks à enfermeira, já na sala 10.
 
— Dói menos que pra colocar, né, meu filho. Vocês fazem cada pergunta…
 
Quem seriam “vocês”? Vocês homens? Vocês jovens? Vocês pessoas que caem do telhado?
 
Uma acompanhante agitada aparece à porta.
 
— Moça, minha filha ainda ‘tá com muita dor! O remédio não ‘tá fazendo efeito!
 
— VOCÊ NÃO ‘TÁ VENDO QUE EU SÓ UMA SÓ?! ELA VAI TER QUE ESPERAR! — brada a enfermeira enquanto arranca a agulha do braço de Luks.
 
Partimos.
 
Luks volta às atividades em meio a gritos de e aí, ‘tá tudo bem, não foi nada, mesmo? Eu ligo para a delegacia. Pedem para que eu ligue na noite seguinte, depois na manhã seguinte.
 
— Amigô, isso aqui é uma delegacia! Sabe quantos celulares tem aqui?!
 
Pedem que eu compareça pessoalmente. Compareço pessoalmente.
 
Aguardo enquanto um rapaz faz um B.O. de uma mochila roubada.
 
— Volta daqui a 40 dias, quando o escrivão que guardou seu celular volta de férias. Vai saber em que armário ele guardou o celular…
 
Como diria Red ao final de Rita Hayworth and the Shawshank Redemption, eu espero que tudo dê certo. Eu espero que fazer o B.O. seja o suficiente para recuperar um celular roubado. Eu espero que a moça com dor tenha se recuperado. Eu espero que Thiago possa voltar a trabalhar. Eu espero que médicos e enfermeiros tenham sobrevivido àquele turno, e aos outros. Eu espero que nosso trabalho tenha feito a diferença naquela comunidade.
 
Eu espero.
 

Foto: Acervo pessoal

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Pornográfico

Desde pequeno eu sempre adorei matemática. Perceber o mundo em números, com uma lógica clara, com certos e errados definidos, sempre me fascinou.  Na sétima série, tive um professor (casado com a professora de Língua Portuguesa, já fazendo um prenúncio da minha vida futura…) que brincava com a turma ao ensinar planos cartesianos, dizendo ser aquele seu momento favorito: o momento pornográfico.

Brincar com a matemática também fazia parte do meu dia a dia, mas conforme fui migrando para o mundo das palavras, os números foram virando coadjuvantes, meras casas decimais a serem arredondadas.
 
Um mês antes de me mudar para Los Angeles, em 2009, comecei a registrar com papel e caneta meus pensamentos, aspirações, medos e tudo aquilo que preenchia minha cabeça prestes a embarcar em uma nova aventura. Poucos meses depois, quando os registros revelavam uma adaptação difícil à nova realidade, recorri aos números para avaliar cada um desses registros diários, buscando uma lógica, um sentido, uma progressão; buscando transformar o caos da vida em uma ciência exata, em uma curva ascendente que me provasse que cada dia era melhor que o anterior e me fizesse conseguir aproveitar aqueles que deveriam ser os melhores dois anos da minha vida. E foram.
 
Em 2011, voltei ao Brasil com uma missão: ter anos tão incríveis quanto aqueles nos EUA. Com todas as parciais anotadas, tinha um recorde a bater. Mas como superar anos com tantos eventos extraordinários? Com tantas viagens, tantos novos amigos, tantas novas experiências?
 
Os anos seguintes teriam seus altos e baixos, e, embora minha memória ainda lembrasse os anos nos EUA como os melhores em muito tempo, a matemática dizia o contrário. Fiz como meu professor de Matemática e usei o método pornográfico para entender, com a ajuda dos números que tanto me fascinam, os anos que as palavras registraram com tanto detalhe.
 
Cheguei a 2015 com um 2014 mediano nas costas, cheio de picos e vales, e sem grandes expectativas. Trabalhei mais. Viajei menos. Descansei menos ainda. Somem-se a isso dois assaltos, instabilidade profissional e a perda de um ente querido: 2015 tinha tudo para entrar para história como um ano esquecível. Até que a matemática provou que o ano não apenas tinha sido bom: tinha sido o melhor. 
 
Como um ano aparentemente tão trivial poderia ter sido tão incrível? Como minha memória poderia me enganar tanto?
 
Mas os números não me enganam. Olhei para trás e tentei deduzir a fórmula, reduzir a fração, chegar a um denominador comum. E concluí que a chave estava justamente ali: no olhar.
 
Notei que em 2015 olhei menos para fora e mais para dentro. Olhei mais para os picos do que para os vales. Não olhei com raiva. Olhei com gratidão. Olhei com desapego. Olhei com as lentes que escolhi olhar.
 
E ao buscar algo para justificar um ano surpreendentemente bom, não descobri nada extraordinário. Descobri que extraordinário é viver. É só olhar direito.
 

Foto: Acervo pessoal

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O baile

Aqueles que me conhecem sabem que levo uma vida irritantemente organizada. Gosto de saber que o mundo ao meu redor está sob controle, que tudo está na sua devida prateleira, caixa ou gaveta, e por isso uso diariamente uma agenda – dessas de verdade, que você pega na mão e derruba café. É como um guia da NET com a programação da minha vida.

Naquela sexta-feira, véspera de feriado, meu guia da NET dizia que sairia do trabalho às seis da tarde, limparia a casa, terminaria os trabalhos do curso, arrumaria a mala, jantaria na casa dos pais, daria carona para um amigo e, enfim, pegaria um ônibus para Jundiaí.
 
Mas nos 400 metros que separam minha casa do trabalho, tudo mudou.
 
Como um plantão urgente que invade a programação, um rapaz que descia da moto estacionada veio em minha direção e pediu meu celular. Depois meu relógio, minha corrente, meu dinheiro, minha mochila… com a minha agenda. Segundos depois, ele partia na moto com tudo aquilo que até então era meu, e eu seguia na direção oposta, a pé, reorganizando mentalmente a gaveta que ele sem perceber jogara para o alto.
 
Chego em casa e lembro que não tenho um telefone fixo. Em seguida, descubro que o Skype não faz chamadas de emergência. Vou até meus pais. No caminho, um rapaz se aproxima da minha janela, totalmente aberta, e pede um trocado. Sorrio com a ironia.
 
–  Cara, acabei de ser assaltado…
 
Ele me olha fundo nos olhos, para de sorrir e responde:
 
–  Eu sei. Eu vi tudo. Eu vi tudo! – e vai embora.
 
Faço o B.O. “O IMEI? Tenho sim, peraí! Ah, não, esquece, ‘tava na agenda.” Pego um celular emprestado, corro para a Vivo: a loja fechou. Vou até outra, troco o chip. Aviso meu amigo que não poderei buscá-lo como planejado. Volto para casa, termino o trabalho como dá, arremesso as coisas na mala, passo na farmácia para comprar, de novo, o remédio que estava na mochila e chego em cima da hora para seguir viagem.
 
Já no ônibus, penso que perdi o celular, o dinheiro, o relógio, mas que o que mais me incomodou foi perder a sensação – ou a ilusão – de que tenho tudo sob controle.
 
O assaltante mudou o canal no meio do filme, tirou os livros da ordem alfabética. Tinha uma vida detalhadamente desenhada a lápis. E então veio uma borracha: uma borracha que pode vir a qualquer momento, de qualquer lugar. Um emprego para o qual você deixa de ser essencial, uma pessoa que de uma hora para outra não está mais ali, uma perna quebrada, um celular roubado: basta uma peça torta para dar game over no tetris perfeito que você criou com as peças que a vida mandou.
 
Como diz a música de Dave Matthews, though we would like to believe we are, we are not in control.
 
É como se estivéssemos numa grande festa, a banda a todo vapor. Talvez o ritmo mude, talvez a música acabe, mas a playlist não está sob nosso controle. A nós cabe apenas continuar dançando. 
 

Foto: “O baile”, Paulo Rego.

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