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What happens in Vegas…

…goes to Facebook, Youtube and everywhere else.
Neste último fim de semana, fui a um casamento em Las Vegas. Uma colega do curso de produção (natural da Carolina do Norte) ia se casar com um espanhol e decidiu – sabe-se lá porque – casar-se em Las Vegas, em um fim de semana em que 70% dos alunos estavam filmando. Felizmente, não era um desses alunos e pude comparecer ao evento.
A noiva aluga uma van para que possamos sair do AFI logo após a aula da manhã e chegarmos a tempo para a despedida de solteiro. É claro que decidem marcar uma palestra com Aaron Eckhart até às 6h da tarde, o que acaba com nossos planos. Já são quase 9h da noite quando deixamos Los Angeles rumo à excêntrica cidade de Las Vegas.
Chegamos por volta das 2h da manhã. Alguns bares e cassinos depois, estávamos caídos em nossas camas. O casamento é no dia seguinte às 2h30 da tarde. Logan (que dividia o quarto comigo) e eu perdemos a van e temos que chegar ao local da cerimônia de táxi. O taxista, é claro, não tem o inglês mais compreensível do mundo.
– Vão pra onde?
Damos o endereço.
– Não conheço.
Olho pro Logan. E agora? Um funcionário do hotel se aproxima. Explicamos a situação, ele tenta ajudar o taxista.
– Ih, esse lugar é longe… Acabei de explicar pra outro motorista como chegar lá. Você segue atééééé o Sahara, vira à direita na Bufalo, vai em frente, passa o lago e vira a segunda à esquerda.
– Direto até o Sahara, depois…?
Olho para o relógio. Temos 20 minutos. Logan acessa o mapa no celular e seja o que Deus quiser! Exatos 20 minutos e 35 dólares depois, chegamos ao local. E cadê a van? Nada do pessoal. Sem dúvida se perderam. Não seria o fim do mundo, não fosse o fato de que o cerimonialista – que também é aluno do AFI! – estar na van.
Minutos depois, chegam todos, esbaforidos. Sentamos nas cadeiras em frente ao lago. Cadê os outros convidados? Não tem. Somos só nós. Legal! 
A cerimônia começa. Começam também os latidos dos cachorros, os aviões e, é claro, todos os tipos de embarcações que passeiam pelo lago. 
Algumas horas mais tarde, estamos no sexagésimo quarto andar do hotel Trump para o jantar. A vista da cidade é impressionante. De um lado, uma imensa chapada, onde é difícil saber o que é deserto e o que são casas. Do outro, imensos hotéis, perdidos no meio do nada. Dentro do hotel, muita comida, muita bebida e muitos banheiros em uma suíte de US$3.800 por noite.
Todos relativamente comportados, partimos para a terceira parte do evento: um “after-party” na boate do hotel Wynn. Vamos à pé. Noivas atravessando a rua, dia ou noite, é uma imagem completamente normal em Las Vegas.
Lá pelas 11h da noite, o espírito da cidade já tomou conta dos convidados, e nem todos conseguem lidar muito bem com o generoso amigo chamado open bar. Entre eles, Logan.
À uma da manhã, um segurança calmamente se aproxima de mim:
– Acho que seria bom você levar seu amigo embora, senão vamos ter que tomar providências.
Parecia uma tarefa fácil. Ha-ha.
Entre gritos de “Eu odeio o mundo!” e “Eu te amo, cara!”, arrasto Logan pra fora da balada, atravesso o cassino e chego até a porta do hotel. Os táxis – enfim! – estão logo ali. Mas Logan foge de mim.
– As pessoas estão aqui dentro…
– Eu sei, cara, mas a gente precisa ir embora!
Minutos de diálogo… e nada. Tento arrastá-lo para o táxi, ele fica violento. As pessoas na fila do táxi adoram o show. Logan se diverte me dando joelhadas e cotoveladas, enquanto a plateia tira fotos e torce para um de nós. Os funcionários, já vacinados, assitem a tudo sem exaltação. “Mais um…”
Com a promessa de que o levaria para um lugar “com pessoas”, e não para o hotel, consigo arrastá-lo para dentro do táxi – e também convencer a fila de que preciso passar na frente de todos antes que ele me nocauteie.
Às 10h da manhã – após uma madrugada inteira explicando ao Logan de que o banheiro não era o lugar mais apropriado para dormir – é hora de partir. No elevador, é difícil identificar quem está bêbado e quem está de ressaca. O mesmo ocorre no cassino, na rua, no Starbucks e em qualquer lugar onde haja seres humanos.
Na van de volta, comentários, troca de fotos da noite anterior e, é claro, trânsito.
Depois de dois dias intensos em Las Vegas – que, honestamente, acho que são suficientes – e mais sete horas de estrada, chegamos em casa… 
Pela primeira vez desde que cheguei a Los Angeles, tenho a sensação de que estou, de fato, EM CASA. E também, pela primeira vez, me dou conta de que, em breve, vou sentir falta dessas pessoas, que de “colegas do AFI”, sem que eu perceba, vão se tornando grandes amigos.
What happens in Vegas… lasts for a lifetime.
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Oscar

Estar em Hollywood durante o Oscar pode parecer incrível, mas tirando o fato de que a cerimônia acaba às 8h da noite e não à 1h da manhã, pouca coisa muda.
Um dia antes, resolvi dar uma de turista e fui dar uma volta na frente do Kodak Theater. Advinha quem encontrei? Mais turistas, é claro. A Hollywood Boulevard (aquela mesma onde pego o ônibus há sete meses…) fica interditada por vários quarteirões. Muitos guardas, muitos turistas, poucos atrativos… a não ser uma estátua gigante do Oscar toda envolvida em plástico.
No dia seguinte, nos reunimos na casa de um colega – o Bob – para assistirmos à cerimônia. 
– Pessoal, não fala pra fulana que eu convidei vocês! Ela perguntou se eu ia fazer alguma coisa e eu disse que não.
Qualquer semelhança com a 7a série não é mera coincidência…
Começa a cerimônia. Bob tem TiVo, assim podemos rebobinar e rir de novo com todas as piadas de Alec Baldwin e Steve Martin, que os americanos acham sensacionais. Admito que rachei o bico com algumas delas também.
Jason Reitman (Up In The Air) perde o Oscar de roteiro original para Geoffrey Fletcher (Precious). Confesso que Up in The Air é disparado meu filme favorito do ano, mas Jason Reitman perdeu toda a popularidade depois que veio dar uma palestra no AFI e “esqueceu” de mencionar que  não escreveu o roteiro do filme sozinho, entre outros comentários infelizes.
Fletcher sobe ao palco para receber o prêmio. Meu roommate, que é negro, canta a bola:
– Lá vem o “slavery speech”. Por que eles sempre têm que falar sofrendo?
Dito e feito.
Pouco depois, chegam dois colegas de Bob. Eu achava que era impossível estar alheio ao mundo do cinema estando em Hollywood, principalmente em dia de Oscar… até conhecer esses dois.
– Quem é Kathryn Bigelow?
– É a diretora que vai ganhar o Oscar – responde a única mulher entre nós.
– Onde é essa festa? É em Los Angeles? – pergunta o outro
– É a umas dez quadras daqui – responde Bob.
– Ah, legal.
Minutos depois, eles partem, entediados.
El Secreto de Sus Ojos surpreende e dá a Argentina o Oscar de melhor filme estrangeiro. Estou louco pra o ver filme (na verdade, assisto a qualquer coisa de Juan José Campanella ou com Ricardo Darín). O filme não estreou por aqui ainda, e só pra me provocar, meu outro roommate (argentino) tem o DVD original do filme… que não roda aqui nos EUA. 
Mark Boal ganha o Oscar de melhor roteiro original por The Hurt Locker. Embora todos ao meu redor sejam fãs do filme (eu nem tanto), Mark Boal também não era a figura mais carismática do painel de roteiristas ao qual havíamos comparecido algumas semanas antes no WGA. Os comentários de “Espero que você ganhe, Mark!” vindos do público, também não aumentaram sua popularidade, uma vez que Alessandro Camon, indicado ao Oscar por The Messenger na mesma categoria, sentava-se ao seu lado. 
Kathryn Bigelow confirma as espectativas e leva o Oscar de melhor diretora, minutos antes de arrebatar o Oscar de melhor filme. Os americanos a minha volta ficam satisfeitíssimos. Minha vida permance a mesma.
Bob nos leva para mais um tour em seu prédio, onde foram filmados episódios de 24, Heroes, entre outras séries. Explica também o motivo de pagar um aluguel tão baixo por seu apartamento: a moradora anterior suicidou-se ali mesmo. Legal!
Volto pra casa. Ainda é cedo, tenho páginas para entregar na segunda-feira. Sabe como é, vida normal. Até que no dia seguinte vou almoçar, estaciono carro e uma pessoa me chama a atenção, sentada na mesinha da calçada. “Conheço essa mulher”, penso.
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Diários de motocicleta – parte 3

Sem carro, sem motoca e com uma viagem acadêmica para Washington agendada para o dia seguinte, minha única opção é pedir ajuda ao meu colega de quarto e a sua caminhonete (que cheira a gasolina até hoje por causa disso), e levar a falecida ao meu já conhecido colega Edgar: o mecânico da “scooter mundo”.
– Cara, estou indo viajar amanhã. Só volto na outra segunda. Seja lá qual for o problema, CONSERTE! Não tem pressa, mas por favor, não posso mais ter problema com essa scooter.
Volto pra casa, e descubro que toda neve do mundo está caindo em Washington, o que significa, é claro, que meu vôo foi cancelado. Remarco para um dia depois.
Quatro cancelamentos depois, o seminário – o motivo da minha viagem – é cancelado. Desfaço as malas e ligo para meu amigo Edgar.
– Então, não fui viajar. Posso ir buscar a moto hoje?
– Ih, mas você disse que só vinha na segunda. Ela ainda não tá pronta.
– Bom, você pode consertar hoje, então?
– Se você vier pagar hoje, posso.
Vou até lá, pago a nova bateria, volto no dia seguinte. O PROBLEMA PERSISTE!
– Você precisa arrumar a compressão do motor. Do jeito que tá, ela vai ligar, mas vai demorar alguns minutos.
– Quanto custa pra consertar isso?
– Pelo menos uns 300 dólares.
Desencana. Afinal, o que são cinco minutos toda vez que você tem que ligar a moto?
Passo no supermercado, no que seria provavelmente a última viagem da coitada. Coloco algumas cervejas no baú. Chego em casa… e quem disse que o baú abre? Muito esforço depois, arrebento a fechadura e resgato as cervejas. O baú agora não fecha mais.
Decido andar de ônibus por uma semana, para evitar qualquer stress. Decido também que já é passada a hora de comprar um carro. Árdua pesquisa, até achar um carro dentro do meu orçamento.
Decido por um carro 2001 com 91.000 milhas. O vendedor diz que o carro ficará pronto na quarta-feira, o dia seguinte da minha nova prova de direção. Perfeito.
Dessa vez mais calmo, eu e “Little Dogy” enfrentamos mais uma vez o examinador do DMV. Ele nem se importa com o “defroster” e logo começamos a prova. Em um farol vermelho que não abre nunca, resolvo puxar conversa.
– Você é de Los Angeles?
– Não.
Loooonga pausa.
– Sou do Iraque.
E ponto. Nem mais uma palavra.
O farol não abre. Aí me lembro de que é permitido virar à direita com o farol fechado. Temo que essa falha me custará mais um dia de prova. Mas não! Minutos depois tenho em mãos o bendito papelzinho que diz “PASSING”. Enfim, Little Doggy, Kim e eu havíamos vencido a batalha.
No caminho de casa, o vendedor do carro me liga.
– Tenho uma notícia boa e uma ruim.
– A ruim primeiro.
– Seu carro só vai ficar pronto na sexta-feira.
– E a boa?
– Nós vamos ter que colocar um motor novo.
Me bate aquele medo: será que comprei um carro que já vem pifado? Mas agora é tarde, não dá mais pra voltar atrás.  Prefiro acreditar que a boa notícia é boa mesmo.
Carro na garagem (mentira, na rua, porque tecnicamente não tenho vaga na garagem), vou à Best Buy comprar um GPS. Quantas vezes você ouviu falar em blackout na Best Buy? Pois então, aquele dia foi a primeira vez pra mim também.
Volto na segunda. O GPS dobrou de preço.
– A promoção era só até domingo.
Deixa pra lá. Depois eu vejo na Amazon.
Será que a maldição dos transportes não acaba nunca?
Até que dois dias depois, checo minha caixa de correio… e lá está! Uma carta de Arnold Schwarzenegger. Minha carteira de motorista!
Antes de sair novamente, passo na garagem para estacionar a motoca em outro lugar.
E não é que ela liga de primeira?
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Diários de motocicleta – parte 2

Depois de uma longa e mal-sucedida busca por lâmpadas 12V/35W/35W pelas lojas  do ramo em Los Angeles, acabo recorrendo a um misterioso site especializado em scooters. Surpreendentemente, antes do prazo estipulado, as duas lâmpadas estavam na minha casa. (Sim, comprei duas, já prevendo que tudo poderia acontecer no trajeto estoque-minha casa).
Com a scooter funcionando, resolvo agendar a prova de direção (de carro) para ter a carteira de motorista da California de uma vez por todas. Persigo um amigo que preencha todos os quesitos. Kim e sua Mercedes (apelidada de Little Doggy) resolvem me ajudar. 
Chega o dia 12 de novembro, o dia da prova. Antes de sair de casa, tento imprimir o comprovante de agendamento. Quem disse que o encontro? Procuro por todos as pastas no computador, entro no site do DMV, até que, enfim, descubro que a prova não foi agendada.
Programo uma nova tentativa para o dia 1 de dezembro. Chego no DMV, apresento meus documentos, Kim apresenta os dele… e onde está o seguro do “Little Doggy”? 
– Sem o comprovante do seguro você não pode fazer a prova.
Kim liga para sua mãe. Está com ela. O atendente do DMV dá o veredicto:
– Puxa, você até poderia passar um fax, mas nosso aparelho não está funcionando. Você vai ter de remarcar.
Claro.
Remarco a prova para o dia 17 de dezembro. Dois depois, me dou conta que temos aula no dia 17 de dezembro. Deixa pra 2010. Remarco novamente. 20 de janeiro.
Volto de férias do Brasil, e descubro que Frank Darabont virá dar uma palestra no AFI. Que dia? 20 de janeiro, é claro.
Remarco novamente. 5 de fevereiro. Arrasto Kim e “Little Doggy” ao DMV mais uma vez. Apresento os documentos, tudo OK. Agora vai! Sento no carro e aguardo o avaliador. Chega uma avaliadora.
– Bom dia – digo.
Ela ignora.
– “Permit”?
Apresento meu documento mais uma vez, ela checa o papel.
– Demonstre os sinais com o braço.
Coloco os braços para fora e faço os sinais.
– Esquerda, direita, pare.
– Está incorreto – ela responde, enquanto entra no carro.
Dizer como seria o correto, nem pensar!
– Você tem que desligar o rádio.
Obedeço. Ela se prepara para fechar a porta do carro, e então:
– Onde está a maçaneta interna?
– Quebrou.
– Como assim? Precisa ter maçaneta!
Nem tento discutir. Se ela tentar me convencer de que ter maçaneta interna é uma “questão de segurança”, juro que desço do carro. 
Ela analisa o caso e, contrariada, me deixa prosseguir. Começo a demonstrar onde estão todos os ítens importantes do carro (limpador, faróis etc.)
– Onde está o “defroster”?
Meu Deus, o que é mesmo o defroster???
– Não tenho idéia.
– Você pelo menos sabe pra que serve o “defroster”?
Se eu lembrasse a tradução, sem dúvida saberia para o que serve! Começo a me explicar, ela me interrompe e me manda ligar o carro para seguir a prova. 
Nesse momento começo a pensar que ela provavelmente sorriu pela última vez em 1992, logo após ter feito sexo pela última vez. 
Vinte minutos depois, estou de volta do lento passeio pelas ruas de Hollywood, ao lado de minha agradável companhia. 
Estaciono o carro. Ela faz diversas anotações em seu papelzinho e começa:
– Bom, na saída do estacionamento, você fez uma curva muito fechada, saindo da área da guia rabaixada. Só por isso você já teria sido reprovado. 
Não contente, ela se empolga:
Depois, suas conversões à esquerda foram muito lentas. O carro atrás de você também precisa pegar o farol aberto! Naquele outro cruzamento, a preferencial era sua e você demorou para seguir. Na hora de dar ré, você apenas checou os retrovisores, não olhou pra trás! E na hora de mudar de faixa, você reduziu a velocidade! Isso é tão perigoso quando dirigir em alta velocidade!
Não me conformo que serei reprovado por dirigir com excesso de cautela. Ela, certa de que sou uma ameaça ao pseudo-caótico trânsito de Los Angeles, dá o verdicto com prazer:
– Você terá de refazer a prova.
Ela desce do carro, realizada. Conto o ocorrido ao Kim. Ele ri. “Bem-vindo a Los Angeles”. Ele tenta me animar, insiste para que eu remarque a prova e diz que ele e “Little Doggy” estarão comigo nessa odisséia até o fim! E me explica também que “defroster” é o desembaçador. Lógico!
Tudo bem. No fundo, não muda muito minha vida. Afinal, tecnicamente não preciso passar nessa prova para dirigir legalmente em LA.
Kim me deixa em casa. Decido ir dar uma volta com a scooter. 
Quem disse que ela liga?
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Diários de motocicleta – parte 1


Los Angeles sempre foi conhecida como uma cidade onde é imprescindível ter um carro. O corpo docente do AFI confirma a teoria – mas sempre lembrando que há poucas vagas no estacionamento do campus!

Antes de tomar qualquer grande decisão em relação a meios de transporte, resolvo comprar uma bicicleta, na esperança de percorrer diariamente os 5 km que separam a minha casa e o AFI – estrategicamente posicionado no alto de uma interminável colina. 

Tento enviar uma solicitação para o “bilhete único” estudantil à empresa de ônibus, juntamente com toda documentação necessária, foto e um cheque de US$1.00. Ainda aguardo resposta.
 

Depois de muita – MUITA! – indecisão, resolvo comprar uma scooter. Mamãe ficou bem feliz. Tento explicar que o super-veículo atinge a exorbitante velocidade de 50 km/h (na descida), e que o trânsito aqui é bem diferente da loucura de São Paulo. Mas acho que foi em vão.
Não preciso nem me preocupar em como me desfazer da bicicleta, uma vez que ela é roubada na semana seguinte – de dentro da gargem do prédio.
Motoca na mão, falta tirar a carteira de motorista. Faço a prova escrita e só com isso já tenho um permit que me autoriza a dirigir durante o dia. Como tenho aulas à noite, agendo a prova prática o mais rápido possível para poder, enfim, não depender mais de caronas ou do imprevisível sistema de transporte público.
Três semanas e duas voltinhas em volta de cones depois, já tenho o protocolo em mãos. A atendente do DMV (algo como o DETRAN daí), está confusa:
– Você não vai marcar a prova prática com o carro?
– Eu não tenho carro.
Silêncio.
– Mas para ter a carteira de motorista você precisa fazer a prova com o carro. Você pode agendar pela internet.
– Eu não posso dirigir a moto só com esse protocolo?
– Hum… Até pode, mas você precisa vir renovar esse papelzinho aqui pessoalmente de 2 em 2 meses.
Bacana!
– E o que eu preciso para fazer a prova?
– Você precisa vir com um carro em perfeitas condições de segurança, registrado, segurado e acompanhado de um motorista com carteira de motorista da California. 
Ah, tá.
– OK, vou pensar, então.
Apesar de tudo, volto pra casa empolgado, afinal, agora posso dirigir a qualquer hora do dia. Até que minutos antes de estacionar, percebo que o farol da scooter – daqueles que não se acha pra vender em lugar nenhum – parou de funcionar. 
Tudo bem, o ponto de ônibus continua a duas quadras casa…
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A Los Angeles que não vemos nos filmes

As pessoas que vêm a Los Angeles, em geral, visitam todos aqueles lugares relacionados a filmes e entretenimento: estúdios, parques temáticos, casas de show. No máximo, vão até a praia – principalmente Malibu, à procura de salva-vidas a la Baywatch.
Admito que não sou diferente – isto é, quando não “deixo pra depois”, esquecendo que os dois anos passam mais rápido do que a gente imagina.
Pois bem, nesta sexta-feira fizemos um passeio que dificilmente teríamos feito, não fosse pelo esforço de Ann Kerr.
Primeira parada: RAND, uma instituição sem fins lucrativos voltada à pesquisa e desenvolvimento, onde fomos apresentados a dados estatísticos surpreendentes, referentes à disparidade social entre brancos e negros/latinos em Los Angeles. Mais surpreendente foi descobrir que cerca de 45% dos homens de até 17 anos em Los Angeles são latinos. Não é à toa que ouço espanhol constantemente por aqui.
No almoço, integração com os candidatos a PhD da instituição. Entre eles, um cientista da computação formado em Harvard, que agora estuda a eficácia dos serviços médicos pelos EUA, e que nos explicou brevemente a discussão envolvendo a reforma do sistema de saúde por aqui. (Ah, ele mencionou também que seu colega de faculdade criou um site hoje bastante conhecido, chamado Facebook.)
Em seguida, partimos para a uma das sedes do OPCC, uma organização que realiza serviços em prol dos moradores de rua – que somam nada menos que 80.000, em uma população de cerca de 14 milhões.
Lá, fomos recebidos por dois funcionários extremamente carismáticos, que juntamente com alguns clientes, nos apresentaram a extremamente bem-cuidada instituição. 
O primeiro programa que visitamos é chamado Safe Haven, e é voltado para moradores de rua com alguma deficiência mental. O local permite que os clientes – como são chamados – tomem banho, lavem as roupas, façam suas refeições e envolvam-se em atividades de entretenimento. Inclui ainda algumas dezenas de leitos, onde alguns deles moram enquanto passam por um processo cuidadoso de reintegração à sociedade.
O segundo programa, chamado Daybreak, segue mais ou menos a mesma linha, mas é voltado exclusivamente para mulheres. Entre as diversas atividades oferecidas está um workshop, onde as clientes produzem peças que são vendidas na pequena loja existente no local.
O grande êxito da instituição – que recebe fundos do governo, de fundações e de instituições privadas – é conseguir manter os clientes longe das ruas, uma vez que tenham sido reintegrados à sociedade.
O OPCC inclui ainda diversos outros programas, como o K9 Connection, onde crianças de rua ajudam cães abandonados através de um programa de treinamento de animais.
Por último, visitamos um banco de alimentos, onde um dos funcionários nos guiou por todo o processo de doação e distribuição de alimentos, além de nos informar sobre os programas de ajuda do governo à população menos favorecida.
Voltei pra casa bastante impressionado com o trabalho e a dedicação dessas pessoas, desconhecidos para a maioria dos moradores de Los Angeles, e sobretudo para seus visitantes.
Essas pessoas não ganham o Oscar.
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Beleza americana

Às vezes, não entendo os americanos. 
Mentira. Eu quase nunca entendo os americanos.
Um dia desses conversava com um colega do curso que morou dois anos no Japão antes de vir pro AFI. 
– Depois que voltei do Japão comecei a reparar que os americanos reclamam demais. 
– Sério? – respondi. – Nunca tive essa imagem.
Até que comecei a prestar atenção…
É comum ouvir pelos corredores que algumas das disciplinas não têm aulas o suficiente. A de roteiro, inclusive. Até aí, tudo bem. É de se esperar, então, que esses insatisfeitos sedentos por aulas aproveitem todas as oportunidades oferecidas, certo?
Errado.
Nesta primeira semana do semestre – chamada Conservatory Week – tivemos uma série de palestras sobre temas relacionados às nossas áreas. A principal delas foi uma série de quatro palestras com Bruce A. Block, autor do livro The Visual Story – leitura obrigatória para admissão em todos os cursos do AFI. Era de se esperar que todos os alunos – mestrandos! – tivessem lido o livro a essa altura. 
Então… não. 
Também era de se esperar que os alunos COMPARECESSEM às palestras. 
Também não.
– Nossa, são três horas de palestra, muito chato!
– Putz, esse cara fala muito. Os exemplos são os mesmos do livro.
– Você leu o livro? – pergunto.
– Não.
Ah, tá. 
À tarde, palestra com a roteirista Sandra Berg sobre roteiros de suspense. Um terço dos alunos de roteiro estão ausentes. Como assim? Não queriam mais aulas?
No outro dia, palestra com David Misch, criador do seriado Duckman. Se metade da turma compareceu, foi muito. “Ah, é TV, nem quero…”
Pegar pesado também não pode! Essa coisa de trabalhar o dia inteiro e ir pra aula à noite é coisa de país pobre! Nesta semana voltamos a ter aulas normais. Voltam também as reclamações sobre nossas “insanely busy Wednesdays”: workshop pela manhã, palestra à tarde, aula à noite – de quinze em quinze dias!
– Alguém precisa mudar essa aula da noite pra outro dia! – exclama um.
– Chega essa hora eu já não raciocino mais – confessa outro.
– Nossa, depois de um dia assim, intenso, eu fico até de mau-humor – lamenta um terceiro.
Ah, para! 
Se pelo menos essas palestras de quarta à tarde fossem interessantes, mas não… eles trazem uns Zé Ninguém que não sabem de nada! Um tal de Soderbergh, um alemão estranho que chamam de Herzog, um moleque chamado Jason Reitman… Nossa, que saco.
Amanhã vem um outro, aí. Um tal de Frank Darabont. Só de pensar me dá uma preguiça…
Pelo menos no fim de semana não tenho que ir ao cinema. Ufa!
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De volta para o presente

Depois de 20 dias no Brasil, correndo para encontrar os amigos, passar tempo com a família, comer açaí, pão de queijo, a salada de lula da mamãe, tomar água de coco e caipirinha – lembra quando elas eram feitas com limão e pinga? – é hora de voltar para a “América”.
Na polícia federal em Cumbica, uma fila quilométrica. E estática. Um pequeno grupo de adolescentes e seu guia empolgam-se com os planos para o dia seguinte.
– Só podemos entrar no hotel em Orlando às 6, então vamos fazer compras no Wall-Mart antes de fazermos check-in.
A mulher atrás de mim está impaciente com a fila que não anda. E com o Brasil que não melhora. 
– Esqueci que nessa época as pessoas vão pra Disney!
Sorrio. 
– Você vai pra onde? – pergunto.
– Nova York… Fazia 1 ano e 8 meses que não voltava pro Brasil e não vejo nenhuma melhora. Meu vôo sai em 40 minutos e eu presa aqui nessa fila… É sempre assim e ninguém faz NADA!
Uma família de gaúchos tem a mesma preocupação. A mãe, aflita, pede à filha para que pergunte a algum agente se eles não podem passá-los na frente. A filha se recusa. “Perguntar pra quem, mãe? Não tá vendo que a gente tá no meio da fila? Tá todo mundo atrasado!” Ah, férias em família…
Quase uma hora depois, com metade das pessoas prestes a perderem seus vôos – inclusive eu -, brotam mais funcionários e a fila começa a andar rapidamente. Uma funcionária vem apressada a procura de uma família. É a família de gaúchos, que acaba resgatada da fila e encaminhada ao seu portão de embarque, prestes a fechar. 
Cerca de 15 horas depois – sendo 14 delas dormindo –, estou em Los Angeles. O policial da imigração, ouvindo um som alto às 6 da manhã, checa meus documentos. “Você escreve roteiros? Legal! Seja bem-vindo.” 
Parece que foi ontem que estava na mesma esteira, esperando a mala (não a mesma – aliás, a história da mala fica para um outro momento). Pego o mesmo SuperShuttle – dessa vez 9 dólares mais caro! – e chego em casa. Não tem comida na geladeira, é claro. Saio para comer um hambúrguer e já me readaptar aos hábitos alimentares locais. 
Meu roommate me convida para assistir a Avatar. Como se não tivesse ficado sentado o suficiente, aceito. Chegando ao cinema, sessão lotada. Será que estou em São Paulo novamente? Pegamos a sessão seguinte. Antes do filme começar, um funcionário dá o aviso: “Estes óculos 3D não funcionarão nas suas casas, portanto não adianta levá-los para casa. Favor devolvê-los na saída. Obrigado.” Será MESMO que não estou em São Paulo?
Antes de voltar para casa, supermercado. Juro que tentei comprar cenouras e cogumelos de verdade. Mas os que já vem cortados e lavados são mais baratos! Pelo menos a hortelã era real – a 2 dólares o maço.
Na manhã seguinte, reencontro meus colegas. 
– Como foram as férias no Brasil? – perguntam.
Lembro-me do dia anterior. Um churrasco com quase todos os meus amigos, que não querem me deixar ir para o aeroporto. Demoro quase uma hora só para me despedir de todos – e só obtenho êxito depois de muitos abraços, alguns banhos de cerveja e uma camiseta rasgada.
– Incríveis – respondo.
Pergunto sobre suas férias, desejo feliz ano novo e, quase por inércia, os abraço. Alguns estranham. 
Aí me dou conta: definitivamente, não estou mais no Brasil.
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Garota interrompida

Cinzia é uma italiana aluna do curso de direção do AFI. Foi uma das primeiras pessoas que conheci ao chegar na escola. Ela já havia estagiado – ou algo parecido – no AFI no verão anterior, o que gerava diversas piadas entre ela e um dos funcionários – “nunca vou esquecer nosso intenso verão juntos, Cinzia”.

Se não me engano, foi a primeira pessoa com quem almocei na primeira semana de aula, ao lado de outros colegas do Canadá, França e EUA. Lembro que conversamos sobre as tradições, os feriados e a diferença de importância entre Natal e Ação de Graças em cada país, sendo a Itália evidentemente bastante tradicional no que diz respeito ao Natal. Por esse motivo, é claro, ela passaria o Natal na Itália com a família. 
Em novembro, Cinzia teve de antecipar sua volta à Itália devido a problemas de saúde, na expectativa de voltar no próximo semestre para dar continuidade ao curso junto conosco.
Temos um professor que sempre diz: “Remember the truck”. Se você fosse atropelado por um caminhão amanhã, qual o último filme que você gostaria de ter feito? Qual a última coisa que você gostaria de ter escrito? Lembre-se de que o caminhão pode vir a qualquer momento, portanto sempre pondere bastante o que você está deixando aqui.
O curta que Cinzia dirigiu antes de voltar para a Itália chama-se “Sigmund” e trata-se de uma comédia sobre como Freud “inventou” o complexo de Édipo.  Devido sua ausência em parte do período de edição, seu filme foi exibido na aula de análise narrativa com algumas semanas de atraso, já sem sua presença. Sem sombra de dúvida foi um dos filmes mais engraçados da turma – que já havia visto uma quantidade mais do que suficiente de comédias sem a menor graça. 

Enfim, alguém nos fazia rir. 

Câmeras e microfones foram instalados no auditório para que os comentários fossem enviados a ela mais tarde.
Esta foto foi tirada em sua homenagem, algumas semanas antes da exibição de seu filme, na última aula em que ela esteve presente.
Cinzia morreu de câncer no dia 5 de janeiro, um mês antes de completar 29 anos.
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Up in the air

Ligo para a American Airlines. Depois de digitar 3, digitar 7, digitar 3 de novo e penar para que o software de reconhecimento de voz entendesse meu sotaque, enfim ouço uma voz humana.
– American Airlines, boa tarde.
– Boa tarde. Eu queria checar uma informação sobre bagagens.
Silêncio.
– Tenho um vôo marcado para o Brasil e queria saber qual é o limite de bagagem exatamente.
– Dois volumes de 50 libras.
– Você tem certeza? O site diz que para o Brasil são duas malas de 70 libras.
– Só um momento que eu vou transferir para os responsáveis pelo site.
Musiquinha.
– American Airlines, boa tarde.
Faço a mesmo pergunta, recebo a mesma resposta. Insisto.
– Mas o site diz que são duas de 70 libras.
– Ah, acho que é isso mesmo.
– Será que você poderia se certificar? É importante.
– Um momento.
Nova musiquinha. Surge uma terceira atendente.
– American Airlines, boa tarde.
Explico novamente a complexa situação.
– Aguarde um momento enquanto localizo sua reserva.
– Eu só queria checar se existe mesmo essa exceção para—
– Senhor, eu pedi para aguardar.
– Desculpe.
Silêncio.
– O senhor tem razão. Para o Brasil são duas malas de 70 libras.
– E você sabe me dizer se as malas vão direto para São Paulo, ou se eu preciso despachá-las novamente na conexão?
– Só um momento que eu vou transferi-lo.
– NÃO! Não precisa, obrigado. Eu pergunto no aeroporto. Boa tarde.
Na dúvida, achei melhor imprimir a página do site… e deixar juntinho com minha mala de 69.7 libras.
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