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De volta para o presente

Depois de 20 dias no Brasil, correndo para encontrar os amigos, passar tempo com a família, comer açaí, pão de queijo, a salada de lula da mamãe, tomar água de coco e caipirinha – lembra quando elas eram feitas com limão e pinga? – é hora de voltar para a “América”.
Na polícia federal em Cumbica, uma fila quilométrica. E estática. Um pequeno grupo de adolescentes e seu guia empolgam-se com os planos para o dia seguinte.
– Só podemos entrar no hotel em Orlando às 6, então vamos fazer compras no Wall-Mart antes de fazermos check-in.
A mulher atrás de mim está impaciente com a fila que não anda. E com o Brasil que não melhora. 
– Esqueci que nessa época as pessoas vão pra Disney!
Sorrio. 
– Você vai pra onde? – pergunto.
– Nova York… Fazia 1 ano e 8 meses que não voltava pro Brasil e não vejo nenhuma melhora. Meu vôo sai em 40 minutos e eu presa aqui nessa fila… É sempre assim e ninguém faz NADA!
Uma família de gaúchos tem a mesma preocupação. A mãe, aflita, pede à filha para que pergunte a algum agente se eles não podem passá-los na frente. A filha se recusa. “Perguntar pra quem, mãe? Não tá vendo que a gente tá no meio da fila? Tá todo mundo atrasado!” Ah, férias em família…
Quase uma hora depois, com metade das pessoas prestes a perderem seus vôos – inclusive eu -, brotam mais funcionários e a fila começa a andar rapidamente. Uma funcionária vem apressada a procura de uma família. É a família de gaúchos, que acaba resgatada da fila e encaminhada ao seu portão de embarque, prestes a fechar. 
Cerca de 15 horas depois – sendo 14 delas dormindo –, estou em Los Angeles. O policial da imigração, ouvindo um som alto às 6 da manhã, checa meus documentos. “Você escreve roteiros? Legal! Seja bem-vindo.” 
Parece que foi ontem que estava na mesma esteira, esperando a mala (não a mesma – aliás, a história da mala fica para um outro momento). Pego o mesmo SuperShuttle – dessa vez 9 dólares mais caro! – e chego em casa. Não tem comida na geladeira, é claro. Saio para comer um hambúrguer e já me readaptar aos hábitos alimentares locais. 
Meu roommate me convida para assistir a Avatar. Como se não tivesse ficado sentado o suficiente, aceito. Chegando ao cinema, sessão lotada. Será que estou em São Paulo novamente? Pegamos a sessão seguinte. Antes do filme começar, um funcionário dá o aviso: “Estes óculos 3D não funcionarão nas suas casas, portanto não adianta levá-los para casa. Favor devolvê-los na saída. Obrigado.” Será MESMO que não estou em São Paulo?
Antes de voltar para casa, supermercado. Juro que tentei comprar cenouras e cogumelos de verdade. Mas os que já vem cortados e lavados são mais baratos! Pelo menos a hortelã era real – a 2 dólares o maço.
Na manhã seguinte, reencontro meus colegas. 
– Como foram as férias no Brasil? – perguntam.
Lembro-me do dia anterior. Um churrasco com quase todos os meus amigos, que não querem me deixar ir para o aeroporto. Demoro quase uma hora só para me despedir de todos – e só obtenho êxito depois de muitos abraços, alguns banhos de cerveja e uma camiseta rasgada.
– Incríveis – respondo.
Pergunto sobre suas férias, desejo feliz ano novo e, quase por inércia, os abraço. Alguns estranham. 
Aí me dou conta: definitivamente, não estou mais no Brasil.
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