Eu não costumo passar a virada de ano na praia. Em 42 anos, esta deve ter sido a sexta ou sétima vez que terminei o ano olhando para os fogos no mar. Na última virada, por exemplo, entre uma alta hospitalar do meu pai na noite de Natal e uma nova internação no início de janeiro, passei o réveillon com vista para a Marginal Pinheiros, em uma festa que me fez dormir durante todo o primeiro dia do ano. Era como se eu descansasse para tudo que viria a ocorrer no ano que começava.
Pisquei, e já era dezembro. O plano de ser fitness tinha sido abandonado em fevereiro, mas ainda assim continuei firme nas aulas de pilates e de circo, onde reencontrei uma dupla de estripolias. Juntos nos arrastamos duas vezes por semana às 7h da manhã para ficarmos de ponta cabeça num trapézio. Quem teve essa ideia? Quantos anos a gente acha que tem?! Agora é tarde, já pagamos a apresentação.
O circo não era a única oportunidade de humilhação pública. Tinha também o teatro. Aquele que até então era meu refúgio de sanidade mental agora me exigia ensaios mais constantes à medida que a data de apresentação se aproximava. Por que eu quis fazer um personagem que não cala a boca em uma peça de duas horas? Seria para compensar as aulas de Libras que também inventei de fazer esse ano, onde passo quase três horas por semana em silêncio?
Entraram na rotina também novos trâmites burocráticos. Percebi que não sabia nada dessas coisas financeiras/tributárias da vida adulta (isso que dá ficar anos estudando a Jornada do Herói e como contar histórias). A solução? Fazer uma faculdade de contabilidade, online, rapidinho. Quatro anos passam assim, num instante!
Poderia ser o suficiente, mas o dia a dia da casa estava tranquilo demais com um gato de cinco anos, altamente adaptado e comportado. Logo, resolvemos adotar outro, adicionando ao mix noites mal dormidas com uma gatinha fechada no banheiro.
Foi nesse espírito que chegamos ao fim do ano. Minha irmã sugeriu, “vamos pra Ilhabela?” Bora! Mas essa pousada ninguém conhece, tem nota 2 de avaliação. Só tem essa. Bora! Não dá mais pra reservar a balsa. Bora! Faz 40 graus de dia e cai o mundo à noite. Bora? Bora!
Embora fomos, cinco adultos, duas crianças, uma idosa e um sonho: entrar em 2026 um pouco mais leves e mais bronzeados. A configuração de pessoas exigia um mínimo de planejamento, como, por exemplo, um local específico para passar o momento da virada, mas decidimos ser mais aventureiros. Ano novo, vida nova.
E este, no fim das contas, foi o resumo perfeito de 2025: crianças, velhos e adultos vivendo juntos sem planejamento, sem expectativas, um dia de cada vez, tentando fazer as melhores caipirinhas com os limões que apareciam — quando apareciam. Era como os ovos do café da manhã da pousada: alguns dias estavam lá, outros não, porque não chegaram de Caraguatatuba, e então nos virávamos com o pão de queijo (mas só se chegássemos cedo, caso contrário, já teriam acabado.)
As praias também foram como 2025: lindas, mas acessíveis só depois de algum sofrimento (fosse o calor, o trânsito ou a lotação). Idem a virada de ano, que não prometia nada: uma festa num shopping (?), depois de uma chuva que fez todos trocarem seus looks e seguirem pelas ruas sem calçadas dividindo guarda-chuvas e capas de plástico. Mas que, no fim das contas, entregou tudo: música, fogos, comida, bebida… E a lembrança de que esse foi o último ano que meu pai viveu — e que nós seguimos aqui, navegando pelo caos incontrolável e maravilhoso que é viver.
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