
Os amadores


Um das coisas que pude observar com clareza durante minha temporada nos EUA foi a diferença no conceito de amizade que existe entre aqui e lá.
Certa tarde em um evento em Los Angeles, durante uma conversa despretensiosa, uma mulher me perguntou:
– Quantos amigos você tem?
Parei. Pensei. – Ah, não sei, muitos.
– Não, mas assim, amigos próximos…
– Sei lá, pelo menos uns vinte.
– Não, você não entendeu. Me refiro a amigos, assim, que você confia mesmo, que você conversa com frequência, com quem você pode contar.
– Acho que foi você quem não entendeu – respondi sorrindo, antes de repetir. – Pelo menos vinte.
Muitos dos meus amigos são amigos há uma, duas décadas. Tem os amigos do prédio onde eu nasci, que são amigos, literalmente, desde que nasci. Tem os amigos do Jardim II, os da 1ª série, os da 3ª, os da 7ª e os do 1º colegial. Surpreendentemente, tem os grandes amigos do cursinho – quem faz amigos no cursinho?
E tem também o !kbhit().
Conheci os primeiros membros do !kbhit() no melhor estilo “amigo-da-namorada-do-primo-da-vizinha-da-minha-vó.” Depois de uma viagem despretensiosa, percebi que tinha muito mais em comum com aquele grupo de engenheiros do interior que faziam paródias musicais do que com o mundo do qual fazia parte naquele momento. E assim o !kbhit() passou a ser composto por “dez engenheiros e o Coxa”.
Sem nunca ter assistido a uma aula daquela universidade, frequentei jogos universitários, fui batizado como membro honorário de uma república; fui a churrascos, formaturas; gritei o hino da faculdade como se tivesse feito parte daquele universo. E de certa forma, fiz.
Aos poucos, passei a ser apresentado como “amigo da faculdade” – era mais fácil assim.
Aos poucos, fui confirmando minha teoria de que amizade requer manutenção; que se deixada guardada como uma caixa de ferramentas que só sai do armário quando necessário, ela enferruja.
Aos poucos, fui percebendo que às vezes é difícil explicar porque se é amigo: às vezes simplesmente se é.
Em abril de 2007, em minha primeira aula do curso de extensão em roteiro da UCLA, Scott Kraft sugeriu que elaborássemos duas perguntas no formato “E se…?” A ideia era que uma delas viesse a ser a base da história que desenvolveríamos durante os próximos meses.
Para algumas pessoas as ideias vêm aos montes. Para essas, falta apenas tempo para sentar e desenvolver tantas e tantas possíveis histórias que sem dúvida se tornariam grandes sucessos de bilheteria. Se há tempo, então recai sobre elas a árdua tarefa de decidir qual história desenvolver primeiro.
Eu não sou uma dessas pessoas.
Ideias geniais me vêm a cada ano bissexto. No resto dos dias, preciso lapidar histórias de blocos de mármore; enfrentar diariamente – e sozinho – a intimidadora página em branco.
Com seu processo – que, é claro, vai além das duas simples perguntas – Scott Kraft tornou a página em branco menos assustadora e, em algumas semanas, comecei a escrever “Sixteen Light-Years Away”, um roteiro sobre um adolescente de Ushuaia, na Argentina, que perde o irmão mais novo e é forçado a viver com a avó numa pequena cidade praiana nos EUA, onde desenvolve uma inesperada amizade com a vizinha de dez anos que lhe ensina a ver o mundo com outros olhos.
Cerca de um ano depois, após muitas noites solitárias enfrentando a sempre imponente página em branco, a primeira versão do roteiro estava pronta. Resolvi adaptar a história para enviá-la a um concurso de desenvolvimento de roteiro aqui no Brasil. A pequena cidade nos EUA virou uma pequena cidade no nordeste; Johnny virou Francisco, Annie virou Valentina, e assim como os personagens, o roteiro também ganhou um novo nome em português: Do Outro Lado da Lua.
O concurso premiava 10 projetos entre cerca de 900 inscritos. “Do Outro Lado da Lua” foi o 12º.
Francisco voltou a ser Johnny, Valentina voltou a ser Annie e “Sixteen Light-Years Away” chegou às mãos de Barney Lichtenstein, o mentor da UCLA que faria as últimas considerações sobre o roteiro antes do término do curso. Barney não apenas foi incrível em seus comentários, mas também escreveu uma carta de recomendação que acabou sendo decisiva na minha seleção para a bolsa CAPES/Fulbright que receberia meses depois.
Sem saber do futuro que me aguardava, fui de férias a Ushuaia e pude ver com meus próprios olhos, pela primeira vez, aqueles lugares que já pareciam vívidos na descrição das páginas do meu roteiro.

As primeiras páginas do segundo tratamento de “Sixteen Light-Years Away” foram lidas por Dan Vining, um dos professores e membros da comissão de seleção do American Film Institute. Foi ele que, durante minha entrevista, disse ter ficado bastante intrigado com o roteiro e com vontade de continuar a lê-lo. Assim, “Sixteen Light-Years Away” me abriu as portas do AFI – e de um mundo de aprendizagem do qual eu faria parte nos dois anos seguintes.
“Sixteen Light-Years Away” ficou adormecido enquanto o AFI me forçava a lapidar mais e mais blocos de mármore. No dia de Ação de Graças – haveria um dia melhor? – conheci Barney Lichtenstein pessoalmente. Durante um agradável almoço no Mimi’s Café que ele insistiu em pagar, agradeci por tudo que havia feito por mim e contei a ele toda a saga do roteiro que havia me levado até ali, com a promessa de mantê-lo informado sobre os futuros acontecimentos.
Foi então que “Sixteen Light-Years Away” caiu nas mãos do meu amigo e produtor André Gevaerd. André, quem eu havia conhecido na Austrália aos 16 anos e quem havia reencontrado poucos anos antes, abraçou o projeto e se disse decidido a filmá-lo na sua cidade natal, em Santa Catarina.
Novamente, Johnny virou Francisco, Annie virou Valentina, e agora a pequena cidade do nordeste virou a praia de Canto Grande, em Bombinhas. Personagens deixaram de existir, novas locações surgiram e “Do Outro Lado da Lua” ganhou mais uma versão.
No início deste mês, André, a essa altura tão envolvido no projeto quanto eu, me levou a Canto Grande para que eu conhecesse aquele lugarejo que ele insistia ser perfeito para o filmar o roteiro.



Quase cinco anos se passaram desde que a história de Johnny/Francisco e Annie/Valentina começou a surgir. O roteiro já foi lido por muitos, mentorado por vários, abraçado por alguns e me abriu portas que eu jamais pensei pudessem ser abertas. Enfim, cumpriu seu papel de roteiro.
Agora, pouco a pouco, “Do Outro Lado da Lua” deixa de ser uma empreitada individual e solitária e começa a ganhar o apoio de pessoas que acreditam no projeto e querem dar vida àquelas pessoas e lugares que só existem no papel.
Pouco a pouco, “Do Outro Lado da Lua” deixa de ser um roteiro e começa a ser um filme.
Fotos: arquivo pessoal
Com meus planos escorrendo pelo ralo, tive de encontrar novos roommates às pressas e fui morar com dois completos desconhecidos – um deles dormindo na sala. Durante todo o primeiro (e mais difícil) mês em L.A., só pensava em como tudo seria mais fácil se tivesse saído como planejado. Como eu queria que aquela história tivesse sido…
(Bob casou-se hoje com a mulher de sua vida e está de mudança para os EUA. Vai viver a história que tinha de ser.)
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| “Flying” Filipe & “Hawaiian” Ailani no “Big Show” |
Em nossa última sessão, nosso head mentor informou às crianças como seria o “Big Show” (como é chamada a apresentação final): contou que receberiam um crachá VIP, que entrariam em um tapete vermelho, que tiraríamos fotos, que atores de Hollywood se apresentariam individualmente para que cada uma delas escolhesse seu elenco, e que em seguida sua história seria apresentada para todo o 5º ano e seus convidados.
Já no primeiro mês com meu novo roommate canino, Logan foi viajar e tive que cuidar de Lebowski por um fim de semana. Foi naquele fim de semana que ele teve diarreia juntamente com uma crise de vômito. Às três da manhã. Como se retribuísse meus cuidados, algumas semanas depois, quando passei por uma cirurgia que me deixou de molho por algum tempo, Lebowski começou a correr para o meu quarto todas as manhãs, logo que acordava, para me dar bom dia.
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| Ground Zero |
Com 31 camisetas e 9 calças jeans no armário, eu não preciso de mais roupa, mesmo que seja um pacote de 3 por 19,90. Eu também não preciso um iPad. (Por mais que possa garimpar utilidades pra ele, não há viv’alma que me convença de que aquilo é essencial pra alguma coisa. Pode ser “muito louco”, “irado”, “da hora, velho”, mas essencial, não é.)
Desde que me mudei para uma casa no subúrbio de Los Angeles minha relação com animais de toda sorte tem sido bastante intensa.
O mais proeminente deles é Lebowski, o cão. Sua presença é sempre notável por seus movimentos bruscos, sua cara de pidão e, acima de tudo, pela quantidade absurda de pêlos espalhados pela casa. Há também os esquilos, que correm do lado de fora da casa, e que enlouquecem Lebowski. E há ainda uma série de animais menores, menos companheiros e bem menos agradáveis.
Comecemos pelas baratas. Nas primeiras semanas na casa, éramos recebidos na garagem por uma família de três, quatro, às vezes oito baratinhas, ansiosas por companhia. Alguns dias e algumas latas de veneno depois, desapareceram. Esporadicamente um membro da família volta para uma visita… mas não sobrevive.
Tem também as formigas. Essas vêm em fases. Ficam meses sem dar as caras, mas quanto voltam, voltam em bando, pra passar umas férias. Um dia invadiram o lavabo, com ovinhos e tudo. Tiveram de ser aniquiladas – um verdadeiro genocídio. Em uma outra ocasião, invadiram a lava-louças. Nada grave, exceto pelo fato de que alguém teve a genial ideia de matá-las com um spray anti-inseto. Resultado? Cinco ciclos de lavagem até que os pratos perdessem o sabor de veneno. Recentemente invadiram a dispensa. Venenos em spray e “ant-traps” surtiram um efeito semi-satisfatório. O próximo passo será adquirir um tamanduá.
Há ainda as moscas. Como todas as janelas têm uma tela de proteção e a casa está sempre fechada devido ao ar condicionado, elas raramente entram. Mas também, quando entram, raramente saem. As moscas gostam de companhia, tadinhas. Têm a casa toda para explorar, mas quando escapam da fúria das patinhas de Lebowski, ficam por ali, rondando o computador, clamando por atenção. Recentemente desenvolvi uma técnica bastante eficiente para eliminá-las. Abro a janela, e espero até que pousem na tela. Em seguida, num movimento ágil, fecho a janela, prendendo o indefeso animal entre o vidro e a tela. Dois dias depois, ela se junta às suas colegas de vala. Para obter o resultado desejado, é preciso manter a janela fechada por dois dias – um preço pequeno a pagar pela vitória.
Mas as minhas favoritas são elas: as aranhas! Aranha aqui é o que não falta. Nos primeiros dias foi difícil de me adaptar. Já entrava no quarto dando “oi” enquanto elas saíam de trás do quadro, do pôster, do relógio, loucas para me cumprimentar. Ao voltar de viagem, elas me esperavam em lugares mais aconchegantes: a pia, a banheira, a privada. Totalmente “Aracnofobia”.
Aos poucos, fomos aprendendo a conviver. Elas migraram para fora de casa e raramente se aventuram pelos espaços internos. Uma vez no jardim, ah, como se proliferam! Dominam o território de uma forma que desafia as leis da física. Quaisquer duas hastes, desde que não movimentadas por mais de 24 horas, estarão fatalmente conectadas por uma teia de aranha.
Outro dia deixei minhas luvas de boxe sobre a mesa do jardim… por dois dias inteirinhos! Que erro primário… Devo admitir que não fiquei surpreso ao encontrá-las conectadas por uma suntuosa teia que abrigava sua anfitriã. Limpei tudo com um papel… mas cadê a coragem pra enfiar a mão ali dentro? Traz o aspirador, aspira dentro da luva por vários minutos, respira fundo, e vai! Sucesso.
Certa noite, Logan, meu colega de quarto, avista uma aranha em uma teia que vai da churrasqueira até a parede.
– Cara, é uma viúva negra. É melhor matar, vai que ela pica o Lebowski!
Concordei. Chamem-me de cruel, mas sou sempre a favor de matar aranhas, sobretudo dessas que matam a gente.
Preparamos a emboscada. Eu seguro a lanterna e ele a ataca com um spray em uma mão, e uma raquete em outra, só por segurança. Não sei se ela morreu envenenada ou afogada, mas o fato é que ela morreu.
– Melhor tirar ela daqui, vai que o Lebowski come!
Enquanto Logan apanha um copo descartável para recolher o cadáver, noto algo altamente perturbador: a um metro de distância, em uma outra teia, uma OUTRA viúva negra nos observa, à espreita. Seria a irmã? A prima? Não importa. Ambas têm o mesmo destino fatal e terminam a noite – e a vida – em um copo usado do Starbucks.
Mal sabia eu que meu contato mais íntimo com um animal peçonhento dar-se-ia algumas semanas depois, a 2.000 km dali, em Canyon Lake, Texas. Foi lá que passei o Spring Break, na casa de veraneio recém-construída da família de Logan. Durante a construção, Logan frequentemente contava sobre os animais encontrados: cobras, aranhas, centopéias venenosas e muitos, muitos escorpiões. Uma verdadeira casa dos sonhos.
Ao chegar na casa e conhecer sua família (e a família de Lebowski!), os animais peçonhentos da região tornaram-se assuntos constantes.
– Vocês encontram muito escorpião aqui na casa? – pergunto ao pai de Logan.
– Ah, toda hora! De vez em quando aparecem umas centopeias também. Dessas que queimam, sabe?
– Ah…
– Minha neta de 7 anos foi picada por um escorpião há uns meses. Apoiou a mão em cima de um…
– E teve que ir pro hospital?!
– Magina! Passei uma pomadinha e ficou tudo bem. Outro dia achei um no travesseiro da minha cama, mas não fala pra minha mulher, senão ela fica assustada!
Mas esse povo se assusta com qualquer coisa, não?
A semana passa, as malas estão prontas para o voo de volta do dia seguinte, e nenhum visitante maligno aparece. Despeço-me dos pais de Logan que partem um dia antes, e vou ao banheiro. Ao levantar a tampa do vaso, sinto algo queimando meu dedo. Em um reflexo, chacoalho a mão e vejo que algo cai dentro do vaso. Avalio meu dedo, que agora arde intensamente. Nenhuma marca. “Deve ter sido a tal da centopeia que queima”, penso. E eis que ao olhar dentro do vaso, lá está ele, nadando por sua vida: um escorpião.
Bato na porta de Logan.
– Cara, você não vai acreditar, mas eu acabei de ser picado por um escorpião.
– Tá me tirando, né?
– Juro.
Ele ri. – Peraí que eu vou ligar pro meu pai. (…) Ele falou pra passar essa pomada aqui. Eu vou dar uma cochilada, se você se sentir mal, me avisa.
– Tá… Não tranca a porta!
Passo a tal da pomada, volto pra Los Angeles, e no dia seguinte, nem sinal do ocorrido. Fica a história pra contar, e a foto (fora de foco) do animalzinho, nos seus últimos segundos de vida.
Semana passada, Logan me mostra a foto de uma tarântula, que caminha pela porta de entrada daquela mesma casa.
– E aí, vocês mataram?!
– Não, não. Elas comem os escorpiões!
Ah, então tá.
Outro dia me peguei pensando em como é mais difícil aprender coisas novas conforme ficamos mais velhos. Talvez seja pelo fato de ser cada vez mais difícil selecionar as informações. Diferenciar o essencial do inútil. Quando crianças, sabemos que a informação necessária vem dos pais, da escola. Na faculdade, temos os professores, os livros que nos foram recomendados. Mas e depois? Quando não há uma fonte definida e segura de conhecimento, como continuamos a aprender?
Ultimamente tenho reparado que aprendo muito conversando com pessoas.
(Preciso abrir parênteses aqui. Não é sempre que aprendo conversando com pessoas, é verdade. Às vezes, me vejo em meio a um argumento em que o objetivo do outro não é defender seu ponto de vista, mas discordar do meu; um argumento em que “concordar em discordar” não é uma opção válida. Ontem mesmo tive uma conversa dessas. O que começou como um bate-papo sobre um filme de comédia, em poucos minutos tornou-se uma discussão acalorada, que me fez pensar: “Por que estou tendo essa conversa? Por que quero estragar a noite defendendo um ponto de vista para alguém que não se importa com ele?”)
Mas o fato é que grande parte das minhas boas memórias envolvem conversas. Teve uma com a minha vó, que aos 95 anos me solta um “não me arrependo de nada que fiz na vida”, assim, como quem não quer nada. Teve outra há uns cinco anos, sobre astronomia, com um conhecido, que depois desse dia tornou-se um grande amigo.
E teve uma com meu professor, semana passada.
Nos encontramos no Starbucks para conversar sobre meu roteiro. Ele chegou atrasado, de papete e meia, e foi até o balcão pedir um café. Começou comentando sobre meu roteiro, elogiando os personagens e apontando onde poderia melhorar a história. De repente, estamos conversando sobre sua vida, sobre seu passado em Kentucky, sua passagem pela marinha. Contou histórias sobre seus colegas de turma, falou sua opinão sobre filmes, sobre Hollywood, sobre o ensino de roteiro.
Contou que “nunca tinha sequer visto um roteiro antes de entrar no AFI,” nos anos 60. Falou que adora dar aulas, mas que às vezes “preferiria ensinar algo mais concreto, como… história da arte!” Falou que o ensino de roteiro faz muito mais sentido quando se trabalha com a prática, “resolvendo problemas concretos ao invés de transmitir conceitos genéricos.” E confessou que prefere não assistir a seus filmes, “pra não ver como eles cagaram tudo.”
E eu fiquei ali, pensando em quantos não gostariam de estar no meu lugar, praticamente entrevistando aquele homem, que fala sem pretensão sobre sua vida enquanto derruba o café sobre as páginas do meu roteiro.
Meu professor é Tom Rickman, roterista indicado ao Oscar de Melhor Roteiro por “O Destino Mudou Sua Vida”. Seus “colegas de turma” são Frank Pierson, Paul Schrader, Terrence Malick e David Lynch. E no fim daquela conversa, reparei que em algum momento da minha vida aprendi algo que não se aprende nos livros: aprendi a ouvir.