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A Los Angeles que não vemos nos filmes

As pessoas que vêm a Los Angeles, em geral, visitam todos aqueles lugares relacionados a filmes e entretenimento: estúdios, parques temáticos, casas de show. No máximo, vão até a praia – principalmente Malibu, à procura de salva-vidas a la Baywatch.
Admito que não sou diferente – isto é, quando não “deixo pra depois”, esquecendo que os dois anos passam mais rápido do que a gente imagina.
Pois bem, nesta sexta-feira fizemos um passeio que dificilmente teríamos feito, não fosse pelo esforço de Ann Kerr.
Primeira parada: RAND, uma instituição sem fins lucrativos voltada à pesquisa e desenvolvimento, onde fomos apresentados a dados estatísticos surpreendentes, referentes à disparidade social entre brancos e negros/latinos em Los Angeles. Mais surpreendente foi descobrir que cerca de 45% dos homens de até 17 anos em Los Angeles são latinos. Não é à toa que ouço espanhol constantemente por aqui.
No almoço, integração com os candidatos a PhD da instituição. Entre eles, um cientista da computação formado em Harvard, que agora estuda a eficácia dos serviços médicos pelos EUA, e que nos explicou brevemente a discussão envolvendo a reforma do sistema de saúde por aqui. (Ah, ele mencionou também que seu colega de faculdade criou um site hoje bastante conhecido, chamado Facebook.)
Em seguida, partimos para a uma das sedes do OPCC, uma organização que realiza serviços em prol dos moradores de rua – que somam nada menos que 80.000, em uma população de cerca de 14 milhões.
Lá, fomos recebidos por dois funcionários extremamente carismáticos, que juntamente com alguns clientes, nos apresentaram a extremamente bem-cuidada instituição. 
O primeiro programa que visitamos é chamado Safe Haven, e é voltado para moradores de rua com alguma deficiência mental. O local permite que os clientes – como são chamados – tomem banho, lavem as roupas, façam suas refeições e envolvam-se em atividades de entretenimento. Inclui ainda algumas dezenas de leitos, onde alguns deles moram enquanto passam por um processo cuidadoso de reintegração à sociedade.
O segundo programa, chamado Daybreak, segue mais ou menos a mesma linha, mas é voltado exclusivamente para mulheres. Entre as diversas atividades oferecidas está um workshop, onde as clientes produzem peças que são vendidas na pequena loja existente no local.
O grande êxito da instituição – que recebe fundos do governo, de fundações e de instituições privadas – é conseguir manter os clientes longe das ruas, uma vez que tenham sido reintegrados à sociedade.
O OPCC inclui ainda diversos outros programas, como o K9 Connection, onde crianças de rua ajudam cães abandonados através de um programa de treinamento de animais.
Por último, visitamos um banco de alimentos, onde um dos funcionários nos guiou por todo o processo de doação e distribuição de alimentos, além de nos informar sobre os programas de ajuda do governo à população menos favorecida.
Voltei pra casa bastante impressionado com o trabalho e a dedicação dessas pessoas, desconhecidos para a maioria dos moradores de Los Angeles, e sobretudo para seus visitantes.
Essas pessoas não ganham o Oscar.
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Beleza americana

Às vezes, não entendo os americanos. 
Mentira. Eu quase nunca entendo os americanos.
Um dia desses conversava com um colega do curso que morou dois anos no Japão antes de vir pro AFI. 
– Depois que voltei do Japão comecei a reparar que os americanos reclamam demais. 
– Sério? – respondi. – Nunca tive essa imagem.
Até que comecei a prestar atenção…
É comum ouvir pelos corredores que algumas das disciplinas não têm aulas o suficiente. A de roteiro, inclusive. Até aí, tudo bem. É de se esperar, então, que esses insatisfeitos sedentos por aulas aproveitem todas as oportunidades oferecidas, certo?
Errado.
Nesta primeira semana do semestre – chamada Conservatory Week – tivemos uma série de palestras sobre temas relacionados às nossas áreas. A principal delas foi uma série de quatro palestras com Bruce A. Block, autor do livro The Visual Story – leitura obrigatória para admissão em todos os cursos do AFI. Era de se esperar que todos os alunos – mestrandos! – tivessem lido o livro a essa altura. 
Então… não. 
Também era de se esperar que os alunos COMPARECESSEM às palestras. 
Também não.
– Nossa, são três horas de palestra, muito chato!
– Putz, esse cara fala muito. Os exemplos são os mesmos do livro.
– Você leu o livro? – pergunto.
– Não.
Ah, tá. 
À tarde, palestra com a roteirista Sandra Berg sobre roteiros de suspense. Um terço dos alunos de roteiro estão ausentes. Como assim? Não queriam mais aulas?
No outro dia, palestra com David Misch, criador do seriado Duckman. Se metade da turma compareceu, foi muito. “Ah, é TV, nem quero…”
Pegar pesado também não pode! Essa coisa de trabalhar o dia inteiro e ir pra aula à noite é coisa de país pobre! Nesta semana voltamos a ter aulas normais. Voltam também as reclamações sobre nossas “insanely busy Wednesdays”: workshop pela manhã, palestra à tarde, aula à noite – de quinze em quinze dias!
– Alguém precisa mudar essa aula da noite pra outro dia! – exclama um.
– Chega essa hora eu já não raciocino mais – confessa outro.
– Nossa, depois de um dia assim, intenso, eu fico até de mau-humor – lamenta um terceiro.
Ah, para! 
Se pelo menos essas palestras de quarta à tarde fossem interessantes, mas não… eles trazem uns Zé Ninguém que não sabem de nada! Um tal de Soderbergh, um alemão estranho que chamam de Herzog, um moleque chamado Jason Reitman… Nossa, que saco.
Amanhã vem um outro, aí. Um tal de Frank Darabont. Só de pensar me dá uma preguiça…
Pelo menos no fim de semana não tenho que ir ao cinema. Ufa!
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De volta para o presente

Depois de 20 dias no Brasil, correndo para encontrar os amigos, passar tempo com a família, comer açaí, pão de queijo, a salada de lula da mamãe, tomar água de coco e caipirinha – lembra quando elas eram feitas com limão e pinga? – é hora de voltar para a “América”.
Na polícia federal em Cumbica, uma fila quilométrica. E estática. Um pequeno grupo de adolescentes e seu guia empolgam-se com os planos para o dia seguinte.
– Só podemos entrar no hotel em Orlando às 6, então vamos fazer compras no Wall-Mart antes de fazermos check-in.
A mulher atrás de mim está impaciente com a fila que não anda. E com o Brasil que não melhora. 
– Esqueci que nessa época as pessoas vão pra Disney!
Sorrio. 
– Você vai pra onde? – pergunto.
– Nova York… Fazia 1 ano e 8 meses que não voltava pro Brasil e não vejo nenhuma melhora. Meu vôo sai em 40 minutos e eu presa aqui nessa fila… É sempre assim e ninguém faz NADA!
Uma família de gaúchos tem a mesma preocupação. A mãe, aflita, pede à filha para que pergunte a algum agente se eles não podem passá-los na frente. A filha se recusa. “Perguntar pra quem, mãe? Não tá vendo que a gente tá no meio da fila? Tá todo mundo atrasado!” Ah, férias em família…
Quase uma hora depois, com metade das pessoas prestes a perderem seus vôos – inclusive eu -, brotam mais funcionários e a fila começa a andar rapidamente. Uma funcionária vem apressada a procura de uma família. É a família de gaúchos, que acaba resgatada da fila e encaminhada ao seu portão de embarque, prestes a fechar. 
Cerca de 15 horas depois – sendo 14 delas dormindo –, estou em Los Angeles. O policial da imigração, ouvindo um som alto às 6 da manhã, checa meus documentos. “Você escreve roteiros? Legal! Seja bem-vindo.” 
Parece que foi ontem que estava na mesma esteira, esperando a mala (não a mesma – aliás, a história da mala fica para um outro momento). Pego o mesmo SuperShuttle – dessa vez 9 dólares mais caro! – e chego em casa. Não tem comida na geladeira, é claro. Saio para comer um hambúrguer e já me readaptar aos hábitos alimentares locais. 
Meu roommate me convida para assistir a Avatar. Como se não tivesse ficado sentado o suficiente, aceito. Chegando ao cinema, sessão lotada. Será que estou em São Paulo novamente? Pegamos a sessão seguinte. Antes do filme começar, um funcionário dá o aviso: “Estes óculos 3D não funcionarão nas suas casas, portanto não adianta levá-los para casa. Favor devolvê-los na saída. Obrigado.” Será MESMO que não estou em São Paulo?
Antes de voltar para casa, supermercado. Juro que tentei comprar cenouras e cogumelos de verdade. Mas os que já vem cortados e lavados são mais baratos! Pelo menos a hortelã era real – a 2 dólares o maço.
Na manhã seguinte, reencontro meus colegas. 
– Como foram as férias no Brasil? – perguntam.
Lembro-me do dia anterior. Um churrasco com quase todos os meus amigos, que não querem me deixar ir para o aeroporto. Demoro quase uma hora só para me despedir de todos – e só obtenho êxito depois de muitos abraços, alguns banhos de cerveja e uma camiseta rasgada.
– Incríveis – respondo.
Pergunto sobre suas férias, desejo feliz ano novo e, quase por inércia, os abraço. Alguns estranham. 
Aí me dou conta: definitivamente, não estou mais no Brasil.
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Garota interrompida

Cinzia é uma italiana aluna do curso de direção do AFI. Foi uma das primeiras pessoas que conheci ao chegar na escola. Ela já havia estagiado – ou algo parecido – no AFI no verão anterior, o que gerava diversas piadas entre ela e um dos funcionários – “nunca vou esquecer nosso intenso verão juntos, Cinzia”.

Se não me engano, foi a primeira pessoa com quem almocei na primeira semana de aula, ao lado de outros colegas do Canadá, França e EUA. Lembro que conversamos sobre as tradições, os feriados e a diferença de importância entre Natal e Ação de Graças em cada país, sendo a Itália evidentemente bastante tradicional no que diz respeito ao Natal. Por esse motivo, é claro, ela passaria o Natal na Itália com a família. 
Em novembro, Cinzia teve de antecipar sua volta à Itália devido a problemas de saúde, na expectativa de voltar no próximo semestre para dar continuidade ao curso junto conosco.
Temos um professor que sempre diz: “Remember the truck”. Se você fosse atropelado por um caminhão amanhã, qual o último filme que você gostaria de ter feito? Qual a última coisa que você gostaria de ter escrito? Lembre-se de que o caminhão pode vir a qualquer momento, portanto sempre pondere bastante o que você está deixando aqui.
O curta que Cinzia dirigiu antes de voltar para a Itália chama-se “Sigmund” e trata-se de uma comédia sobre como Freud “inventou” o complexo de Édipo.  Devido sua ausência em parte do período de edição, seu filme foi exibido na aula de análise narrativa com algumas semanas de atraso, já sem sua presença. Sem sombra de dúvida foi um dos filmes mais engraçados da turma – que já havia visto uma quantidade mais do que suficiente de comédias sem a menor graça. 

Enfim, alguém nos fazia rir. 

Câmeras e microfones foram instalados no auditório para que os comentários fossem enviados a ela mais tarde.
Esta foto foi tirada em sua homenagem, algumas semanas antes da exibição de seu filme, na última aula em que ela esteve presente.
Cinzia morreu de câncer no dia 5 de janeiro, um mês antes de completar 29 anos.
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Up in the air

Ligo para a American Airlines. Depois de digitar 3, digitar 7, digitar 3 de novo e penar para que o software de reconhecimento de voz entendesse meu sotaque, enfim ouço uma voz humana.
– American Airlines, boa tarde.
– Boa tarde. Eu queria checar uma informação sobre bagagens.
Silêncio.
– Tenho um vôo marcado para o Brasil e queria saber qual é o limite de bagagem exatamente.
– Dois volumes de 50 libras.
– Você tem certeza? O site diz que para o Brasil são duas malas de 70 libras.
– Só um momento que eu vou transferir para os responsáveis pelo site.
Musiquinha.
– American Airlines, boa tarde.
Faço a mesmo pergunta, recebo a mesma resposta. Insisto.
– Mas o site diz que são duas de 70 libras.
– Ah, acho que é isso mesmo.
– Será que você poderia se certificar? É importante.
– Um momento.
Nova musiquinha. Surge uma terceira atendente.
– American Airlines, boa tarde.
Explico novamente a complexa situação.
– Aguarde um momento enquanto localizo sua reserva.
– Eu só queria checar se existe mesmo essa exceção para—
– Senhor, eu pedi para aguardar.
– Desculpe.
Silêncio.
– O senhor tem razão. Para o Brasil são duas malas de 70 libras.
– E você sabe me dizer se as malas vão direto para São Paulo, ou se eu preciso despachá-las novamente na conexão?
– Só um momento que eu vou transferi-lo.
– NÃO! Não precisa, obrigado. Eu pergunto no aeroporto. Boa tarde.
Na dúvida, achei melhor imprimir a página do site… e deixar juntinho com minha mala de 69.7 libras.
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Quanto mais gente melhor

      Neste último fim de semana tive um almoço com outros bolsistas Fulbright que realizam seus estudos aqui em Los Angeles. Era possível que o que mais chamasse a atenção fosse a impressionante vista da cidade de Los Angeles que a casa oferecia, ou o fato de que quem organizava o almoço era a mãe de um renomado jogador de basquete da NBA. Mas não. O que fica na memória são as experiências trocadas com pessoas que pareciam ser amigos de infância, embora as conhecesse há poucas horas.   
O evento me fez lembrar da cidade de Boulder, no Colorado – minha primeira parada nos EUA – onde mais de quarenta Fulbrighters de todo o mundo reuniram-se para uma semana de palestras e orientações.   
É sempre muito fácil apontar as diferenças entre os povos, mas em Boulder o que me chamou a atenção foram as semelhanças. Mundos tão distantes e pessoas tão parecidas. Quem diria que minha primeira cerveja na terra do Tio Sam seria ao lado de uma paquistanesa? Que meu primeiro sushi seria ao lado de uma dominicana e de um rapaz de Bangladesh (que comia sushi pela primeira vez)? Que minha primeira trilha pelas montanhas seria filosofando ao lado de uma bósnia?
         Isso não se limita, é claro, aos eventos organizados pela Fulbright. A cada dia, a cada lugar, uma pessoa nova me surpreende, e mesmo que parta poucos dias ou horas depois, vai deixar uma marca para sempre.
         Em meus primeiros dias em Los Angeles, por uma série de imprevistos, acabei tendo de ficar quarto dias em um albergue. Foi assim que conheci um alemão que largou o emprego – exatamente no mesmo dia que eu – e decidiu vir para os EUA… para ter aulas de street dance. É sempre fascinante encontrar pessoas que estão a caminho de seus sonhos… Entre churrascos no albergue, passeios pela calçada da fama e trilhas no Griffith Park, fomos nos tornando amigos e percebendo que embora vivêssemos a um oceano de distância, tínhamos muito em comum.
         Passados os quarto dias, mudei para a casa de minha colega e ele seguiu seu rumo pelos EUA, dizendo que voltaria para LA antes de partir de vez. Uma semana depois, reencontrei-o no albergue para uma última cerveja. Como não podia deixar de ser, acabei conhecendo novas pessoas. Dessa vez, duas inglesas apaixonadas por cinema que ficaram de visitar o AFI na manhã seguinte. A visita estendeu-se para um jantar com ainda mais viajantes do albergue, até que, enfim, disse adeus a esses breves amigos.
Engenheiros, biólogos, artistas, físicos, filósofos, estudiosos de histórias em quadrinhos; homens e mulheres da Rússia, Turquia, Nova Zelândia, Palestina, Egito, Namíbia, Moçambique, Guatemala, Inglaterra, Alemanha… As nacionalidades e as ocupações das pessoas que conheci nesses quatro meses são tão distintas quanto as experiências que tive com cada uma delas. Seja lá como for, estar longe de casa faz o mundo parecer tão pequeno quanto o mapa-múndi de papel da parede do meu quarto.
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Jogos, trapaças e dois canos de mentira, não-operantes e inspecionados pelo departamento de produção

Com o término do primeiro semestre inacreditavelmente se aproximando, não posso deixar de compartilhar algumas curiosidades sobre o American Film Institute, cujas atividades, alunos, professores e funcionários representam 90% do meu universo em Los Angeles – os outros 10% correspondem às parcas horas dedicadas ao sono e à higiene pessoal.
– O número máximo de vagas anuais é 140, sendo 28 para roteiro, 28 para direção, 28 para direção de fotografia, 28 para produção, 14 para edição e 14 para direção de arte.
– Em 2009, apenas 135 alunos iniciaram o curso – uma aluna de edição desistiu antes do início e somente 10 alunos foram qualificados para admissão em direção de arte. 
– Desses 135, apenas 43 são mulheres.
– Os países de nacionalidade desses alunos são*: Estados Unidos (80), Canadá (9), México (4), Espanha (3), Itália (3), França (3), Israel (3), Dinamarca (3), Coréia (3), Austrália (2), Alemanha (2), Kosovo (2), Venezuela (2), Rússia (2), Suécia (2), Argentina (1), Áustria (1), Holanda (1), Quênia (1), Nigéria (1), Indonésia (1), Grécia (1), Porto Rico (1), Irlanda (1), Índia (1), Inglaterra (1) e Brasil (eu).
– Dos 28 alunos de roteiro, apenas dois não têm o inglês como língua nativa. Incluindo eu.
– Embora o processo de seleção seja considerado bastante rigoroso, em 2009 foram recebidas cerca de 160 applications para o curso de roteiro, o que gera uma relação próxima de 5.71 candidatos por vaga. A relação c/v da FUVEST 2010 para o Curso Superior do Audiovisual é 34.14.
– Os créditos dos alunos do primeiro ano incluem, em capacidades diversas, filmes como O Senhor dos Anéis, Harry Potter, O Incrível Hulk, King Kong, Avatar, Star Wars, Mais Estranho Que a Ficção, Jumper, Era do Gelo 2, Jogo de Amor em Las Vegas, Ponto de Vista, entre outros.
– O aluno mais velho do curso é da disciplina de roteiro. Ele também é o co-criador do desenho animado “Doug”. 
– Ao menos dois alunos têm pais que já foram indicados ao Oscar®.
– Ao término no primeiro ano letivo, os alunos precisam ser “re-admitidos” ao curso, baseado em seu desempenho durante o ano.
– Darren Aronofsky, um dos nomes recentes mais expressivos a estudar no AFI, não foi re-admitido.
– É bastante comum encontrar lagartos e esquilos pelo campus. Veados e raposas também não são raros.
– As portas dos banheiros abrem para fora, o que significa que ao sair de um banheiro você sempre pode dar com a porta na cara de algum professor.
– O manual do aluno do American Film Institute informa que é proibido perseguir, estuprar ou abusar verbal e/ou sexualmente de alunos e/ou professores dentro da escola. Ufa.
– Um dos professores estabeleceu três regras para sua aula ao longo do semestre: 1. Sejam pontuais; 2. Estejam alertas, seja lá qual for a substância utilizada para tal fim; 3. Não usem chapéu. E ele não estava brincando.
– A biblioteca não possui um website para consulta de títulos. É necessário consultá-los através do catálogo físico ou da bibliotecária. Ou na raça.
– Se você precisa ter uma arma de fogo em uma cena, é preciso que ela seja completamente falsa, seja aprovada pelo deparamento de produção, esteja sob a supervisão ininterrupta de uma pessoa designada exclusivamente para isso e, ainda assim, você não pode apontá-la para nenhum membro do elenco, da equipe ou para a câmera.
– Após quatro meses conhecendo gente nova, é difícil me imaginar em outra escola…
* dados não-oficiais.
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Apenas uma vez

“Não se esqueçam de se divertir”.
Esse foi o segundo maior conselho dado pela coordenação do AFI durante as palestras das primeiras semanas do curso.
Todos chegam ao AFI sedentos por aulas, palestras, informações. Em sua maioria jovens ao redor dos 25 anos, todos estão loucos para varar a noite preparando produções, debruçar em livros e filmes. Entendo que para a maioria dos mortais assistir a um filme é exclusivamente uma atividade de lazer. Para nós, é quase sempre um exercício. Assim sendo, mesmo sem perceber, estamos envolvidos quase 24 horas por dia em atividades acadêmicas. 
É comum ouvir planos para o futuro. “Daqui dois anos quero ter minha produtora independente”. Ou: “Preciso estar preparado para poder dirigir um longa quando me formar”. Ou ainda: “Quando sair daqui, preciso ter três roteiros, assim com certeza vou conseguir vender um deles ou pelo menos encontrar um agente.”
Certo, tudo isso é lindo… Mas isso só em 2011, 2012! Até lá tem copa do mundo, jogos pan-americanos, eleições, enchentes… A pergunta é: o que você quer fazer AGORA?
É natural – e correto! – que queiramos dedicar estes dois anos de curso aos estudos, mas não podemos ignorar que esses dois anos não voltam mais. Os estudos são prioridade, mas não exclusividade. Estudar é legal, mas viajar também, fazer passeios turísticos também. Viver também. Sabe-se lá quando voltarei a Los Angeles ou mesmo aos Estados Unidos.
Com esse espírito, eu e alguns colegas começamos a programar algumas atividades “non-movie-related”. Devo confessar que estando em Los Angeles, isso não é lá muito fácil.
Nosso primeiro evento foi o show “The Swell Season”, de Glen Hansard & Markéta Irglová, o casal do filme Apenas Uma Vez, cuja canção arrebatou um Oscar® no ano passado. OK, não é exatamente uma atividade dissociada do mundo do cinema, mas já é um começo.
Chegando lá, damos de cara com Kunal Nayyar, o Raj do seriado “The Big Bang Theory”. Ele também está lá como mero espectador, com amigos, provavelmente também em um momento “non-movie related”. Penso em tirar uma foto, mas fico envorgonhado ao lembrar que a colega ao meu lado, filha de um famoso diretor, está acostumada à presença de famosos. Não quero parecer ridículo e decido, então, apenas curtir o momento e guardar na memória meu “primeiro encontro” com um famoso em Hollywood  (na verdade já encontrei Jamie Kennedy em um restaurante, mas ele está tão sumido que quase não conta.)
Abrindo o show, uma agradável surpresa: Josh Ritter, para mim um então desconhecido. Uma hora depois, já era um fã, louco para conhecer mais sobre o artista e sua banda.
Enfim, sobem ao palco Glen Hansard e Markéta Irglová. É fascinante estar a poucos metros de pessoas que pareciam tão distantes na tela de cinema ou na TV. Lembro-me claramente de assistir à entrega do Oscar® naquele ano.
Falling Slowly levara a estatueta de melhor canção. Não tinha visto o filme ainda, mas lembro ter ficado fascinado com a música. A dupla sobe ao palco. Glen Hansard agradece e, antes que sua parceira possa dizer qualquer coisa, a música sobe e eles têm de sair do palco. Mas para a surpresa de todos, em um momento (creio) sem precedentes, o apresentador chama Markéta Irglová de volta ao palco para que ela também possa desfrutar o momento. E seu discurso foi inesquecível. 
“(…) O fato de estarmos aqui essa noite, o fato de podermos ter isto em mãos, é a prova de que não importa quão grande é seu sonho, ele é possível. Força àqueles que ousam sonhar e não desistem. Essa música foi escrita sob uma perspectiva de esperança, e esperança, no fim das contas, é o que nos conecta, independentemente de nossas diferenças. (…)”
Isso me leva ao maior conselho dado pela coordenação do AFI: “Façam amigos. Conectem-se. Esse é, de longe, a experiência mais valiosa que você pode ter no AFI.”
E o que mais queremos senão nos conectarmos? Afinal, não é isso que gente quer quando procura a namorada ou mesmo os amigos? Conectar-se com o outro? Não é por isso que durante o show muitos gritam para os artistas, esperando por aqueles dois segundos de conexão, em que ele vai te olhar e te identificar no meio da multidão (ainda que esteja pensando “quem é o babaca que está gritando que me ama?”) Não é pra isso que criamos perfis no Facebook, Orkut, My Space? Pra que temos MSN, Google Talk, Yahoo Talk, AOL Messenger, Skype, todos abertos ao mesmo tempo, senão para nos sentirmos conectados com o mundo, com o outro?
Sem dúvida, para mim, um das coisas mais fascinantes em escrever filmes é poder, ainda que por um breve momento, estar conectado às mais diversas pessoas, seja do outro lado da rua ou do planeta, através de uma simples história que um dia foi apenas uma ideia na minha cabeça.
Em uma das primeiras músicas do show, Glen Hansard desconecta o violão, deixa o microfone pra trás, vem até a beiradinha do palco, e começa a tocar, sem qualquer outro artíficio. Apenas a sua voz e seu violão. É quase como se dissesse: “Esquece todo o resto. Curte esse momento aqui comigo, só eu e vocês, rapidinho. Olha que demais.” 
Várias câmeras e flashes, todos desesperados para resgistrar aquele momento, para curtir aquilo mais tarde.
Por que não curtir agora, ao vivo?
Jason Segel aparece de surpresa no palco para uma paródia musical. Mais fotos, mais vídeos. A dupla faz uma brincadeira e canta uma música de Justin Timberlake. Glen Hansard se aproxima da platéia e agora diz com todas as letras: “Vamos fazer um acordo? Ninguém coloca essa música no YouTube, tudo bem? Vamos curtir o momento agora, só entre a gente?” 
Não sei se o acordo foi cumprido. O que sei é que as vezes a gente se preocupa tanto com o depois que se esquece do agora. Não acho que viver no presente seja tão fácil quanto pode parecer, mas sem dúvida vale a tentativa.
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Um dia a casa cai – o juízo final

Depois de uma odisséia de três meses entre “Ei, gostei da sua ideia” e “Não aguento mais editar esse filme”, chega enfim o dia da exibição do filme “Tree House” – o “The” inicial foi eliminado, não me perguntem porquê.
Dois filmes são apresentados em cada exibição. O nosso é o segundo do dia. 
Nove e meia da manhã, o primeiro filme já vai começar. 
– Cadê o nosso diretor de fotografia?
Nossa produtora tenta seu celular. Ninguém atende. Tenta seu colega de apartamento. Nada. Provavelmente, ele está dormindo. Não seria a primeira vez.
O primeiro filme termina: uma comédia… em que ninguém deu risada. A equipe assume a frente do auditório e se prepara para receber críticas de cento e trinta alunos, sem contar o corpo docente. A maioria delas é bastante negativa. O professor definitivamente não está feliz com o resultado.
Hora do intervalo. Nada do diretor de fotografia. Um dos meus colegas se aproxima com um sorriso de orelha a orelha: 
– Relaxa, Filipe, depois desse filme-bomba, qualquer coisa vai parecer uma obra-prima.
Embora não queira pensar no nosso curta como “qaulquer coisa”, sua linha de raciocínio faz sentido. Além disso, todos sabem dos problemas que tivemos na produção e pré-produção. As espectativas dos colegas não são lá muito altas.
Voltamos ao auditório. O diretor de fotografia chega correndo. “Desculpa, pessoal, o despertador não tocou!”
Começa o filme. Nossos nomes são aplaudidos pelos colegas conforme aparecem nos créditos iniciais. Estou sentado do lado da editora. Prestamos mais atenção na reação das pessoas do que no filme em si. Vinte minutos depois, termina o filme. Mais aplausos. Ninguém riu nas cenas dramáticas. Muitos riram das pequenas gags. Alívio. A parte um do julgamento parece não ter ido tão mal.
Se tem uma coisa sobre a qual não posso reclamar é o respeito da minha equipe para com o meu roteiro. Muitos roteiristas tiveram problemas sérios com seus diretores, que se achavam no direto de alterar completamente as ações e principalmente o diálogo. Meu diretor não mudou praticamente nenhuma palavra. Salvo raríssimas exceções, tudo o que escrevi foi filmado, e praticamente cem por cento sobreviveu ao corte final.
Assumimos a frente do auditório. Apresentamo-nos. Uma vez lá, não podemos dizer nada, apenas ouvir. O professor – que aliás, é ninguém menos que Gill Dennis, o roteirista de Johnny & June – começa a discussão.
– Quem é o protagonista? Quem é o antagonista?
Alguns colegas vão respondendo às perguntas. Ele começa a ir mais fundo.
– Quem gostaria de ter sido informado sobre a profissão do genro mais cedo na história?
Alguns levantam a mão.
– Quem acha que não ficou claro o motivo pela qual ele estava construindo a casa na árvore?
Mais algumas mãos.
À medida que vamos avançando na discussão, fica claro que Gil não está satisfeito, sobretudo com a direção. Quanto mais ele critica o filme, porém, sinto que mais o público o defende.
– Acho que deveria ter ficado mais claro desde o início o motivo pelo qual ele está construindo a casa na árvore – ele argumenta.
Uma colega discorda. “Não gosto de filmes que me tratam como idiota. Gostei que o filme deixou algumas coisas em aberto, sem prejudicar a história”.
Outro colega a apoia: “Acho que se ficasse claro desde o início o quanto o pai gosta da filha, o personagem não teria nenhuma progressão durante o filme”.
–  Não fiquei convencido de que o pai e a filha se amam de verdade – continua o professor. – Quem acha que o pai realmente ama a filha?
Praticamente todos levantam a mão.
– Quem acha que a filha realmente ama o pai?
Novamente, quase todos levantam a mão.
A discussão termina. Talvez esteja enganado, mas saio com a impressão de que a maioria dos colegas se surpreendeu positiviamente com o filme. Partimos para a sessão para elenco, equipe e convidados. Os atores ficam satisfeitíssimos. Seguimos, então, para a última etapa: a análise do filme, pausando cena a cena, apenas com equipe e professor presentes.
Gil Dennis claramente não é um grande fã do filme. Ele aponta cada um dos problemas técnicos – todos bastante válidos, devo admitir. Aponta, também, é claro, os pontos positivos. A cena que mais me desagrada, por exemplo, é uma das cena que menos o incomoda… No início, nosso diretor está um pouco defensivo. Aos poucos, os ânimos se acalmam e todos voltam a enxergar as críticas como forma de aprendizagem. E sob essa perspectiva, fazer esse filme foi uma jornada e tanto.
Aprendi a colaborar com diretor, produtor e todo resto da equipe. Aprendi que o que vemos na tela nunca é exatamente o que imaginamos. Aprendi muitíssimo sobre a função de cada membro da equipe e o quão trabalhoso é tirar um filme do papel. Aprendi que quinze páginas de roteiro talvez seja muito para uma filmagem de quatro dias. Aprendi, principalmente,  que a maior parte dos problemas se dá por falta de comunicação.
É claro que não sou apaixonado por toda e qualquer passagem do filme. Não gosto de algumas reações, alguns diálogos não saíram exatamente como eu imaginava, alguns elementos que pra mim eram claríssimos no papel passam desapercebidos na tela. Sem dúvida, muitos apreciaram os vinte minutos de filme. Outros odiaram. Não importa. Valeu a pena. Apesar de todos os percalços, me diverti demais. Aprendi demais.
E é por isso que se me perguntam: qual o resultado final? 
A minha resposta: foi um sucesso.
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Um dia a casa cai – o retorno


Quando estamos filmando, todo resto da nossa vida fica em standby. Durante quarto dias, passamos cerca de treze horas em meio a equipe, atores, camera, tripés, três-tabelas, mantas de som, garrafinhas d’água e afins. Lavar a roupa, limpar o banheiro, fazer supermercado ou responder e-mails fica pra depois. Dormir também. E, infelizmente, escrever também. Por mais que eu tente sentar no computador, depois de doze horas em pé, não há nada que me faça ficar acordado. Eis o motivo do meu sumiço. Mas agora que meus dias de filmagens estão oficialmente encerrados – pelo menos até o ano que vem – posso voltar à minha vida normal, onde escrever e tomar banho voltam a ser prioridade.

Fim de semana retrasado tivemos nosso grande momento: as filmagens de “The Tree House”.

No primeiro dia, tensão total. Será que o diretor vai enlouquecer e esbofetear a produtora? Será que o diretor de fotografia vai conseguir coordenar a equipe de cinco assistentes com planos improvisados? Será que vou conseguir estar no set apenas como roteirista e nada mais?

Quando estamos na filmagem de nosso próprio roteiro, teoricamente não devemos excercer nenhuma atividade, apenas assistir às filmagens. É um direito nosso, após meses de trabalho. Na prática, não é bem assim. Sempre tem alguém precisando mudar um sofá de lugar, carregar uma escada ou encontrar um objeto desaparecido. Até aí, sem problemas. Mas é claro que no nosso set, tudo é um pouquinho mais complicado.

Já nos primeiros minutos do primeiro dia, a produtora se aproxima de mim, enquanto escrevo algo no meu computador.

– “Filipe, o nosso sound mixer vai chegar atrasado. Eu já estava sabendo, está tudo certo, mas será que você poderia operar o mixer até a hora do almoço?”

Se ela já sabia, por que não encontrou um substituto com antencedência? – penso eu.

– “Não.”

– “Por quê não?”

– “Porque não sei operar o mixer”.

Ela parte. Fico com remorso, mas de fato, acho fundamental que o mixer seja operado por alguém com mais experiência.

Algumas horas depois, chega o sound mixer. De bicicleta. Bêbado. O diretor o manda embora. Ele parte, não sem antes arremessar alguns copos de água pela casa.

Não me resta outra alternativa senão operar o microfone… Paciência.

Hora do almoço. Cadê o almoço?

– “A produtora foi buscar, mas não voltou ainda”.

Ela chega com uma hora de atraso. O que significa uma hora a menos de filmagem. O que significa mais adaptações no cronogama. Diretor e diretor de fotografia varam a noite na locação, planejando o dia seguinte.

No dia seguinte, nada de sound mixer. Continuo operando o boom. No início da tarde, um equipamento precisa de pilhas. A produtora sai apressada para comprá-las e volta com pilhas recarregáveis… sem carga. Mais atrasos. Mais adaptações. A continuísta precisa deixar o set por algumas horas. Ao voltar, ela percebe que em uma das cenas o ator está usando o figurino errado. Tarde demais…

Dois dias depois, terminam as filmagens. Apesar de todos os contratempos, deixo o set satisfeito. Nem tudo saiu como o esperado, mas meu roteiro agora ganhou vida. O diretor esteve inacreditavelmente calmo, concentrado e atencioso com a equipe. A equipe foi extremamente esforçada e paciente. Alguns planos não foram filmados, algumas falas foram alteradas, algumas ações saíram diferente do que esperava, mas não importa. “The Tree House” agora não é mais apenas um roteiro. É um filme. 

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