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The Big Bang Theory

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“The Big Bang Theory” é um seriado pelo qual tenho um carinho especial.  Por vários motivos. 

No início de 2009, começava a trabalhar em uma série de TV para um concurso de roteiro – um drama sobre estudantes de baixa renda em uma escola pública – quando recebi a notícia de que um amigo havia sofrido um acidente de carro… dias antes de uma formatura que aguardávamos havia meses.

“Que filho da p*=%!”, foi minha primeira reação. “Foi bater o carro bem agora!” Mas aí descobri que ele estava em coma. Aí a coisa perdeu a graça. 

Passou o Carnaval, passou a formatura… nosso amigo ainda no hospital. E eu precisava escrever. Sentado no computador, pensava naqueles personagens que precisavam nascer, naquela história dramática que precisava se desenrolar. E nada… Não dava pra pensar em outra coisa senão no meu amigo. Será que ele vai acordar? Será que ele vai voltar a ser o Pindinha de antes?

Minha cabeça estava a mil. Não conseguia escrever uma palavra, estava quase desistindo do concurso, até que me lembrei do “The Big Bang Theory”. Um dos meus amigos – que faz aniversário hoje! – sempre falava desse seriado, de como era bom, de como era engraçado. Fanático por números, sempre achei a ideia de “um seriado sobre quatro cientistas nerds e uma gostosa” bem interessante. Resolvi assistir a um episódio para relaxar. Não consegui mais parar.
Naquela semana, a única coisa que tirava minha cabeça daquela tensão era o seriado.  Em meio àquele turbilhão de preocupações, “The Big Bang Theory” me fazia rir. Lembrei-me do filme “Sullivan’s Travels”, em que um diretor de cinema decide que quer fazer um filme-cabeça sobre os problemas da sociedade, até ver a alegria de um grupo de presos que assiste a um filme do Mickey. Foi então que decidi que não queria escrever um drama sobre a escola pública. Meu projeto virou o “Bola 7”, uma comédia sobre amigos em um bar de sinuca, que levam a vida com bom-humor apesar de todos os percalços.
Meu amigo eventualmente saiu do hospital, sem nenhuma sequela, e voltou a andar um ano depois. “Bola 7” bateu na trave. Chegou pertíssimo, mas não ganhou o concurso (não se pode ganhar todas…) E “The Big Bang Theory” continuou sendo meu seriado favorito.
Qual não foi minha surpresa quando, há alguns meses, recebo um e-mail de uma das minhas professoras nos convidando uma gravação ao vivo do seriado, e pedindo para que votássemos na data mais adequada: 16/11 ou 23/11. Perfeito! A não ser pelo fato de que em 16/11 estaria no Brasil. Com um jeitinho brasileiro, pedi aos meus colegas que votassem pelo dia 23. Deu certo.
Lá fomos nós no dia 23 aos estúdios da Warner. Passamos por galpões onde grandes clássicos do cinema foram filmados até chegarmos no estúdio de “The Big Bang Theory”… e ali, a poucos metros, estavam aqueles cenários que eu conhecia tão bem. Horas depois, entravam os atores e, como tantos outros que havia visto pela TV, vejo um episódio – “The Justice League Recombination” – surgir diante dos meus olhos. Pela primeira vez, me senti, de verdade, numa fábrica de sonhos.
Para tornar a noite mais incrível, ao término da gravação, pudemos descer até os cenários, sentar na poltrona do Sheldon, subir e descer as escadas falsas, transitar entre os atores e, o melhor de tudo, conversar com um dos criadores de tudo aquilo, Bill Prady.
Na saída, Kunal Nayyar – o Raj –, jogando pingue-pongue em um dos cenários, acenou para nós. “Obrigado por terem vindo”.
Sorri. “Eu é que agradeço”, pensei. Era como um ciclo que se completava.
Nilton Bonder, em seu livro “A Alma Imoral”, ao comentar sobre uma passagem bíblica, diz: 
“Surpreender-se é, na realidade, a maior prova de poder de um ser humano. Surpreender os outros é fazer uso de nossos truques já dominados; surpreender a si mesmo é ser um mago diante daquele que julgávamos ser.”
Naquele dia, por alguns instantes, tudo fez sentido. O porquê eu estava ali, o porquê eu escrevo, o porquê os filmes, os seriados, as novelas – as imagens em movimento – são importantes.
Enfim, me surpreendi.
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E.R.

Então.  A história das cirurgias foi assim…
Notei num dia qualquer que tinha um pouco de sangue na urina.  No dia seguinte, não tinha mais. No outro dia, tinha de novo. E assim foi por uma semana.
Aí num sábado à noite, estou num bar com o pessoal do curso, e lá está de novo o xixi do Chapolin – vermelhinho. Resolvo acabar com a palhaçada e dar um pulinho no hospital.
Sábado à noite o hospital é tão agitado quando a balada!  Motoristas bêbados, crianças com convulsão e senhores com ataque cardíaco povoam a sala de espera.
Me aproximo da recepção, tentando ser discreto.
–  Olá, estou com sangue na urina, posso ver um médico?
– Como?
– Tô mijando sangue, dá pra me atender?
– Ah, OK. Me passe seus dados e aguarde ali.
Eu já sabia a resposta, mas resolvo perguntar mesmo assim:
– Você pode me confirmar se meu plano cobre esse hospital?
– Não posso.
– Como assim!?
– Por lei, não podemos dar essa informação. Temos que te atender e só depois podemos informar se você está coberto ou não. Se quiser, pode ligar para o seu plano pra checar.
Deixa pra lá. Sento na cadeirinha e assisto a pessoas morrerem afogadas – Titanic está passando na TV.
Depois de uma hora – e de vááááááááários documentos assinados, o médico me atende. Faz perguntas, exame de sangue, urina etc. Coloco aquela camisolinha ridícula e aguardo na sala de emergência.
Na cama ao lado, uma garota acompanha o namorado que teve uma convulsão no ônibus e bateu a cabeça. Ela está tensa porque ele não tem plano de saúde. Ela conversa com o médico.
– Não podemos ir para o hospital da USC?
– Não.  Ele não pode ser liberado sem fazer todos os exames.
– Mas eu não tenho plano, como eu faço?
– Ah, isso eu não sei. Você vai receber uma conta de alguém… agora se você vai pagar ou não, é outra história.  O sistema tá ferrado, mesmo.
Nesse espírito positivo, o médico sai da sala. Duas horas depois, ele ainda não voltou. Pergunto para uma enfermeira o que aconteceu.
– Ele teve um “code blue”, já deve estar voltando.
Depois de mais uma hora – e de uma prisão de um motorista bêbado – ele volta.
– Seus exames estão OK.  Procure um urologista.
Semanas depois, lá estou eu no urologista.  Mais exames. Sangue, urina, raio X, ressonância, ultrassom e afins.
Resultados em mão, ele me mostra as imagens dos meus rins.
– Tá vendo esses pontinhos brancos bem discretos no rim esquerdo?
– Tô.
– Então, são pedrinhas bem pequenas. Agora olha o rim direito.
Uma mancha branca surge na tela.
– Isso é uma pedra de 5 centímetros. Por causa do tamanho, recomendo fazer uma ureteroscopia.
Bacana.
Dias depois, lá estou eu de novo no hospital. Assino mais váááááários documentos, faço os exames pré-operatórios. A enfermeira me dá todos os detalhes da cirurgia.
– Olha, quando você acordar da anestesia, vão te mostrar uma escala de dor. Fale a verdade! Se você estiver com dor, é aí que vão te dar a “coisa boa”, direto na veia. Depois disso, é só comprimido que demora meia hora pra fazer efeito.
Mais alguns dias depois, lá vou eu pra cirurgia naquela  mesma camisolinha ridícula – dessa vez com a bunda de fora.
A anestesia geral é sensacional! Quando começo a perceber “nossa, acho que já estão me dando a an—“, já estou dormindo.
Acordo em outra sala, completamente grogue. O médico se aproxima, sorrindo.
– Não pude tirar a pedra porque havia uma infecção, mas já coloquei o catéter. Vamos remarcar a cirurgia.
– Hein?
Sou transportado para outra sala. Começo a acordar de verdade. Uma vontade ABSURDA de ir ao banheiro. A enfermeira, uma senhora filipina com um sotaque irritantemente incompreensível, explica que a dor é por causa do catéter – não há nada de urina na minha bexiga. Ela me mostra a escala de dor, minha velha conhecida
– Numa escala de 1 a 10, qual a sua dor?
– Nove.
Ela me dá um comprimido de Vicodin – aquele em que o Dr. House do seriado é viciado.
A dor continua. A enfermeira volta meia hora depois, faz a mesma pergunta. Obtém a mesma resposta.
– Mas se eu tô com essa parafernália plugada em mim, você não pode me dar um remédio na veia?
– Não, só posso dar outro Vicodin depois de 4 horas.
– E eu vou ficar com dor enquanto isso!? Eu preciso mijar!
– É, chama “urgency”. É por causa do catéter.
Não quero saber a p&%a do NOME da dor! Eu quero que ela pare!
Mas não há nada a fazer senão esperar. O remédio começa a fazer efeito, a dor melhora. Sou liberado.
Os próximos dias são de altas drogas – Vicodin de 4 em 4 horas – até marcarem a próxima cirurgia, que seria dali a cinco dias. Seria.
Sem notícias do hospital, ligo pro médico um dia antes da suposta nova data.
– O outro urologista quebrou a máquina estamos esperando consertar.
Bacana.
Volto no consultário do médico, ele explica todos os detalhes da cirurgia anterior e, enfim, agenda a nova cirurgia.
– Ah, aproveitando. Essa pinta aqui no meio peito tá meio estranha.
Ele examina.
– Mas você tá zoado, hein?
Ele diz que pode remover a pinta na próxima cirurgia. 2 por 1!
Lá vou eu pro pré-operatório, assinar mais váááááários documentos. As enfermeiras já são minhas amigas de infância.
– Esse seu plano de saúde é bom, hein? Da onde é?
– É do governo.
– Ah, é? Porque você tem plano do governo?
– Porque trabalho na C.I.A. – brinco.
– Sério!? O que você faz lá?
Sorrio. Explico a brincadeira.
– O sistema tá dizendo aqui que você tem um co-pagamento de US$150…
-Não, é de U$15.
– Hum… Peraí.
Muitas pesquisas depois, ela volta. Eu tinha razão.
No dia da cirurgia, chego ao hospital às 7h da manhã para o check-in.
– Bom dia. O sistema tá dizendo aqui que você tem um co-pagamento de US$150.
– Não, é de US$15. E eu já paguei.
Muitas pesquisas depois, ela volta. Eu tinha razão. De novo.
Enfim, faço a cirurgia. A pedra vai embora. A pinta vai embora. O pinto quase vai também. Mas ele sobrevive – mesmo depois da retirada do catéter, um procedimento surreal que se parece com fazer xixi ao contrário. Sem anestesia.
Depois de uma semana coando urina – que não é problema nenhum em casa, mas que gera várias perguntas em banheiros públicos – volto ao médico. Com todos os resultados em mãos, ele explica cada elemento em excesso, cada alimento que deve ser evitado e, finalmente, dá o veredito…
– Você precisa tomar mais água.
…E “não tomar água” teria me custado 59 mil dólares se eu não tivesse plano de saúde.
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Tô nem aí

Ontem foi meu aniversário. 
Quando eu era pequeno, não conseguia dormir de ansiedade ao pensar que no dia seguinte ganharia presentes e que toda a atenção seria voltada a mim.
Aí eu cresci. 
Progressivamente, os presentes foram se transformando em beijos, abraços, e-mails e mensagens no Orkut – que hoje em dia valem tanto quanto os presentes de quando eu era pequeno. 
Tenho um amigo que diz que eu fico bravo se alguém esquece meu aniversário.
– Cara, eu prefiro esquecer o aniversário da minha mãe do que o seu – ele brinca.
Não é verdade. Tanto que não fiquei bravo quando ele esqueceu esse ano.  😉
Mas acho natural que no dia do seu aniversário, talvez até um pouco sem querer, você espere um parabéns daqui, um sorriso dali, um “não tô afim de estudar hoje” – algum reconhecimento de que hoje é o SEU DIA, e que VOCÊ é quem importa.
E é aí que a coisa empaca. 
Acostumado com a extrema solicitude dos brasileiros, cada vez mais tenho essa noção de que os americanos são bastante adeptos ao “Tô nem aí”. “Tô nem aí” pra tudo que não me beneficie de alguma forma.
Se fosse apenas uma questão de “o cara preferiu ficar vendo TV a ir almoçar comigo no meu aniversário”, tudo bem, a gente releva. Mas é um pouco mais do que isso.
Há um certo tempo conheci duas russas cujas famílias mudaram para os EUA há alguns anos. Elas diziam que viviam sempre cercadas pela comunidade russa, porque não se identificavam muito com a cultura Americana, mas sempre ressaltavam com convicção que os americanos sempre lhe estenderam a mão:
– Na Rússia, você pode estar congelando na rua, pedindo ajuda e todo mundo te ignora. Aqui, se você pede ajuda, alguém sempre vai te estender a mão.
Não sei quanto a parte que diz respeito à Rússia, mas quanto aos americanos, tenho duas observações: alguém sempre vai te ajudar… desde que isso não exija nenhum sacrfício desse alguém. E desde que você, de fato, PEÇA ajuda. Raramente ajuda é oferecida.
Não é por maldade. É simplesmente como aprenderam a ser. Tenho a impressão de que os americanos sabem de muita coisa – tanto que dominam o mundo – mas ainda têm de aprender a colocar o interesse dos outros a frente dos seus… nem que seja só uma vez por ano.
Isso ficou bem claro pra mim nas últimas semanas. Tive que passar por duas cirurgias (assuntos dos próximos posts!). Naturalmente, precisei que um dos meus roommates me levasse e buscasse do hospital – que fica a 15 minutos de casa. Era uma sexta-feira – dia em que não temos aula – 10h da manhã. Sem problemas!
Após a cirurgia, sou trazido para casa, ainda meio drogado da anestesia. Horas depois, meu roommate bate à minha porta. 
“Veio ver se eu preciso de alguma coisa”, penso, inocente.
– To indo pro bar com o pessoal. Tá afim?
Semana seguinte, outra cirurgia, dessa vez marcada para às 6h da manhã de terça-feira – véspera do meu aniversário. Comento com o mesmo roommate sobre a nova data.
– Quem vai te buscar no hospital? 
(leia-se: Você não tá achando que eu vou ficar de motorista outra vez, né?)
– É, preciso achar alguém – respondo, entendendo o recado.
– Vai ser difícil, todo mundo tem aula, né? 
“É, onde já se viu faltar na aula por uma bobagem médica como essa. Ainda se fosse por um jogo de futebol americano….” – penso.
Mais tarde, tento meu outro roommate:
– Cara, preciso de um favorzão. Você pode me buscar no hospital na terça-feira? Mas tem um porém: você vai ter que faltar na aula do Estrin.
Ele olha pra mim. Longa pausa.
– Não tem mais ninguém que possa ir? Quer dizer… Tipo, não, tudo bem, assim, se você não achar mais ninguém… tudo bem. Eu posso ser um plano B.
Para não exigir esse mega-sacrifício de ninguém, combino com as enfermeiras que ele virá me buscar às 16h30 – isto é, depois da aula. 
Felizmente, na terça-feira, às 10h45 – bem antes do esperado -, já estou prontinho para ir pra casa. A enfermeira liga para meu roommate.
– Putz, mas já to na porta da escola. Ele falou que só ia sair mais tarde! Tenho uma aula agora das 11h. Só vou poder chegar aí umas 13h.
Ele chega, às 13h45. Sua próxima aula começa às 14h.
– Acho que não vou na aula. Até eu te deixar em casa e voltar pro AFI já vão ser quase 14h30. Odeio chegar atrasado na aula do Estrin.
“P#&a! Todo esse drama e você vai faltar na aula de qualquer jeito?” – penso.
Mas tudo bem, pelo menos não vou ficar sozinho em casa nas próximas horas…
Chego em casa, deito na cama. Minutos depois, ele bate à minha porta:
– To indo escrever no Starbucks. Volto às 21h. Qualquer coisa liga.
Pego no sono… e quando acho que nada mais vai me surpreender, acordo com uma mensagem no celular:
– Você tá acordado?
– Sim.
– Dá pra dar comida pro cachorro?
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Coisas que você poderia dizer só de olhar para ela

Nas orientações do início do curso no ano passado, um dos comentários da coordenadora, logo após “Estupro é proibido”, foi que as más reputações se criam muito rápido no AFI. “E depois é difícil se livrar delas”. 
Naquele momento em que todos estavam “ansiosos para trabalhar com tanta gente talentosa”, a ideia de que nem tudo mundo ali é um Spielberg parecia absurda.
As reputações já estavam sendo distribuídas, é verdade, mas o que se ouvia nos primeiros dias de aula eram coisas do tipo: 
– Ouvi dizer que o Eric é um gênio, tipo, gênio mesmo, superdotado.
– A Kailey é a que tem mais experiência no Avid em todo AFI.
– O Ben é o melhor diretor de fotografia do curso, sem dúvida.
– Parece que a Sam é muito boa com diálogo.
Você já falou com a Sam alguma vez? Você leu alguma coisa que a Sam escreveu? A pessoa que te falou isso já leu alguma coisa que a Sam escreveu? A pessoa que te falou isso CONHECE a Sam? 
Claro que não. E daí?
Passada a exaltação inicial onde tudo é lindo, os 3.789 degraus até a biblioteca nem são tão puxados assim e a falta de ar condicionado – e de cadeiras – na sala de aula é um mero detalhe, as reputações começam a mudar.
Isso em geral acontece na terceira semana, quando os alunos começam, de fato, a ter de trabalhar um com os outros.
– Não dá pra nem conversar com Sergio. Ele é a pessoa mais arrogante na face da Terra!
– A minha produtora não tem a menor ideia do que ela tá fazendo. Não sei como ela foi aceita.
Todo e qualquer sinal de humildade também começa a ir para o espaço. Afinal, você está no AFI, o que automaticamente faz de você uma sumidade na sua disciplina – mesmo que toda sua experiência até aquele momento seja em arquitetura.
– Meu diretor não para de se meter no meu roteiro. Porra, eu sou roteirista, eu sei o que eu to fazendo! E agora tenho que ir praquela sauna praquela aula inútil e não tenho tempo pra escrever!
Com o passar do ano, boa parte do “high school drama” surgido durante aulas e filmagens acaba sendo esquecido, mas algumas pessoas seguem firmes e conseguem o título mais inconfundível que se pode receber no AFI: o de serem insuportáveis.
Uma delas é uma roteirista que adquiriu uma obsessão semi-fatal pelo meu roommate, ao ponto de ele ter de sempre se sentar entre duas pessoas no auditório para que ela não sentasse ao seu lado. Ao ponto de pessoas organizarem o almoço mandando mensagens de texto para que ela não ouvisse.
O problema desse título é que ele é vitalício, irrevogável e intrasferível.
Não importa o que ela escreva. Ninguém vai gostar. Não importa o evento. Ninguém quer que ela vá.
 “Let’s all be good to each other” – foi parte do discurso de agradecimento de Kyra Sedgwick no Emmy deste ano.
Parece tão simples…
Há meses a tal garota mal fala com o meu roommate, nunca mais tentou se convidar para o almoço, nem sequer senta na mesma fileira que ele. Metade das pessoas não gostam dela por tabela, sem nunca terem-lhe dirigido a palavra.
Não importa.
Uma vez que você virou aquela pessoa de quem falar mal é o assunto do almoço, aquela pessoa de quem “falar mal está OK”, é tarde demais para voltar.
Não importa quem você é, não importa se você mudou, melhorou, aprendeu. 
Ao olhar alheio, você é sempre o que o outro quer que você seja.
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Comer, rezar, amar… por apenas $9,90

Filmes sobre viagens, sobre pessoas que deixam tudo para trás em busca de algo, sempre me atraíram. (Filmes que falam sobre o ambiente escolar também, mas isso não vem ao caso agora.)
Fui assistir ao filme do título nesse fim de semana. Não li o livro, mas acho difícil acreditar que o filme agregue alguma experiência que já não seja possível vivenciar apenas com a leitura.
O fato de eu não acreditar por um segundo que Julia Roberts era aquela mulher em crise, ou o fato de Javier Bardem se passar por brasileiro não ajudaram muito, é verdade. O fato de toda e qualquer cidade do mundo ter sido fotografada com a mesma luz de por-do-sol tambem não. E nem o fato de que Ryan Murphy esqueceu que não está mais dirigindo “Glee”. Mas na verdade, percebi que o filme me deixou irritado.
Vou tentar explicar porquê.
Tem uma passagem no filme em um personagem diz:
“Vocês americanos sabem o que é entretenimento, mas não prazer”.
Morando já há um ano nos EUA, algumas coisas vão se tornando evidentes. Além de uma quase obsessão por entretenimento – sejam video games, filmes ou reality shows com celebridades drogadas – o consumismo é outro forte aspecto da cultura americana. Garanto que a grande maioria dos americanos que eu conheço poderiam viver com metade do que têm – o que é válido para a maioria das pessoas que eu conheço no mundo, é verdade, mas a diferença é que sinto que aqui eles não percebem isso.
Acabo de mudar para uma casa com dois dos meus melhores amigos – ambos americanos. Basta dizer que juntos temos 4 TVs (sendo 3 delas HD), um XBOX, um PS2, um PS3. TV a cabo em todos os quartos – com DVR. E HBO por “apenas 14,90”. Tem também um home theater cujas caixas de trás do sofá eu nunca vi funcionar – embora estejam simetricamente aparfusadas na parede.
O que importa é ter.
“Como assim você não tem um iPad?”.
“Você vai comprar um iPhone 3GS? Que sucata!”
O consumismo também é uma coisa que te consome. Para não ser “o cara que não quer rachar a HBO”, você acaba entrando na onda e esquecendo que você não precisa de um porta-sacos de aço inox para ser feliz.
Mas o que isso tem a ver com o filme?
Tem a ver que a história, em termos bem vagos, fala sobre um pessoa à procura da felicidade em coisas mais mundanas. Você não vê ninguém pedindo conselhos espirituais a um CEO formado em Harvard, mas a um guru desdentado em Bali. Você também não vê sabedoria naquele que juntou seu dinheirinho e hoje tem sua TV de LCD e seu sofá retrátil, mas naquele que tem uma vida simples colhendo alface no campo.
É como se eles dissessem: olha que coisa sensacional que a gente ACABOU de descobrir! Dá pra ser feliz sem um Nintendo Wii!
Peraí! Vocês estão aí, entuchando a gente de pipoca e refrigerante “que você não pode ficar sem!”, cobrando um ingresso de US$12 “que garante um sistema de som indispensável para o seu entretenimento”, pra exibir um filme que “em breve estará em Blu-Ray, que não pode faltar na sua coleção”, pra você assistir na sua TV de 60”, “por que a de 40” já ficou pequena para toda a família!”, que fala sobre “a felicidade está nas coisas simples”?
Para!
É claro que eu entendo que a história é sobre a jornada de UMA pessoa em particular, sobre SUA experiência, SUA visão. Respeito demais Liz Gilbert como escritora e também entendo que a cada nova geração, o mundo parece estar mais distante das “coisas simples”; que alguém nascido na década de 60 tem percepções diferentes do mundo atual das de alguém que nasceu nas últimas décadas.
Mas estando neste país e até certo ponto inserido nesta cultura, fica difícil não ver uma certa esquizofrenia quando colocam Julia Roberts para representar o “dolce far niente”.
“Tenha a vida simples que você sempre sonhou. Faça uma viagem espiritual para Índia. Tudo em 12x sem juros no seu VISA.”
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A vida secreta de Ryan

Ryan é um dos meus colegas do curso. Tem 29 anos, embora pareça bem mais velho. De cara, achei que nos daríamos bem, não sei bem porquê. Logo conheci sua quase-esposa, Lauren, e juntos, começaram a me arrastar por Los Angeles.
– A gente não bebe, é uma saco ficar indo em bar toda hora. Por isso a gente procura uns restaurantes mais bacanas ou uns eventos diferentes – explicam.
Ir à exibição mensal de “The Room” (2003) é um desses eventos. O filme, considerado por muitos o pior filme de todos os tempos, é exibido em uma rede de cinemas todo o último sábado do mês, há cinco anos. E sempre lota.
O ator/diretor/produtor/roteirista/editor/operador-de-microfone, Tommy Wiseau, sempre comparece para apresentar o filme. Durante a exibição, a plateia – muitas vezes vestida como os personagens do filme – grita, pula, xinga e arremessa colheres de plástico na tela. É melhor que 3D!
Seguindo a mesma linha, Ryan e Lauren me levaram à exibição dupla de “Troll 2” (1990) e do documentário “Best Worst Movie”, feito 19 anos depois pelo ator-(então)-mirim do filme. Ele e o protagonista do filme (que na verdade é dentista!) compareceram à exibição para um Q&A com a plateia. Ryan, Lauren a todos que nos acompanhavam acharam tudo muito engraçado. Confesso que achei o documentário um pouco deprimente…
– Como assim, deprimente? – pergunta meu amigo.
– Ah, sei lá, o cara é dentista há 30 anos, e ficam fazendo ele viver e reviver esse filme mega-fracasso até hoje como se fosse o ponto alto da vida dele – justifico.
– Ele provavelmente está melhor que você!
Ainda na linha “tiração de sarro”, Ryan e Lauren me arrastam para a peça “Point Break Live!”, uma versão satirizada – e muito interativa! – do filme “Caçadores de Emoção”(1991), onde o personagem de Keanu Reeves – Johnny Utah – é selecionado na plateia. Não sei o que foi melhor: as piadas afiadas, os banhos de água, os banhos de sangue, ou o fato de John Terry (o pai de Jack em “Lost”) estar sentado ao nosso lado na plateia.
Ryan e Lauren também são fanáticos por música, e sempre me arrastam para shows. Literalemente.
– Comprei um ingresso pra você para o show do RJD2. Você me deve 25 dólares.
– Quem é esse???
Foi assim que fui ao El Rey, a casa de shows mais antiga de Los Angeles. E foi assim que descobri que eu curto RJD2. Da mesma forma, conheci o Music Box, onde ouvi pela primeira vez a banda Broken Bells.
Recentemente após uma discussão entre Ryan e Lauren pra decidir quem é mais fã de Plants & Animals, fui convencido a ir a um show deles, no El Trobadour, onde ficamos literalmente a um metro do palco.
A banda de abertura – Lost in The Trees – foi um surpresa à parte.  Juro que a banda de seis integrantes toca mais de 20 instrumentos, e metade deles eu nunca ouvi falar.
Hoje, depois de copiar o HD do Ryan, tenho 20 novos gigas de música (além de uma cópia do filme “Eliott”, um spin-off do filme ET, considerado o pior curta produzido no AFI esse ano.)
Agora Ryan e Lauren (entre outros!) têm o plano de me americanizar fazendo com que eu assista ao que eles consideram melhores comédias lançadas nos útimos anos – um conceito no mínimo subjetivo…
Lauren parece estar melhor de saúde. Depois de ter passado por uma cirurgia no cérebro e uma para a retirada do baço no passado, esteve o mês de maio inteiro internada com um problema no pâncreas, que ninguém consegue identificar. Passou mais de um mês sem alimentos de verdade e foi à metade dos eventos mencionados usando um tubo de alimentação.
Ryan, que foi preso duas vezes, esteve à beira da morte e foi internado em uma clínica de reabilitação, não usa drogas há mais de 3 anos.
 
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Mr. Smith (finally) goes to Washington

Em fevereiro deste ano, deveria ter acontecido em Washington D.C. um seminário da Fulbright sobre Empreendedorismo Social. Como toda neve DO MUNDO resolveu cair naquela cidade precisamente naquela semana, o evento foi adiado para esta semana que passou.
Ainda no areoporto de Los Angeles, começam as aventuras.
Dentro do avião, com o voo atrasado, o jovem piloto dá o primeiro aviso:
– Boa noite, senhores passageiros. Eu tenho uma notícia boa e uma– na verdade, eu tenho uma notícia mais ou menos boa. Nós vamos decolar em cerca de quinze minutos, porque ainda tem uns dez voos na nossa frente – o que é muito estranho, já que eu sempre faço esse voo e isso nunca aconteceu. Assim que nós decolarmos, o ar vai estar um pouco agitado, então eu peço pra que vocês não levantem dos seus assentos. Cerca de uma hora depois, nos vamos novamente enfrentar uma turbulência severa– quer dizer, não severa, mas assim, seria bom se os comissários também permanecessem sentados e com o cinto de segurança afivelado. Obrigado.
Cadê a notícia boa!?
Horas de chocoalhos depois – lá pelas 2h da manhã – um bebê na fileira do lado começa a chorar… e assim permanece pelos próximos 90 minutos, até desembarcarmos em Washington, onde já são 6h30. Dormir, pra quê?
Depois de uma insignifcante cochilada, seguimos para um tour relâmpago pela cidade, no esquema 297 pontos turísticos em 3 horas – Casa Branca, Capitólio etc.
No primeiro jantar (peixe + cheesecake), conhecemos os 60 integrantes do evento – vindos de 47 países diferentes e com as mais diversas especialidades.
– Sou da Holanda, PhD em medicina. Estou procurando a cura para a enxaqueca.
– Eu estudo na Georgia Tech. Estamos desenvolvendo melhores uniformes para astronautas terem maior mobilidade no espaço.
Todos parecem bastante impressionados, mas nada se compara às reações eufóricas após:
– Meu nome é Filipe. Sou do Brasil e estudo roteiro em Hollywood.
Das duas uma: ou eu não entendo Hollywood, ou eles não entendem o mundo.
Conheço também meu roommate pelos próximos dias: um australiano cujas características marcantes são ter 1,91m de altura, ter costeletas de cowboy, estudar oceonografia e roncar absurdamente. Tudo que eu precisava.
No dia seguinte, com o sono totalmente desregulado, começam as palestras. Entre os palestrantes, estão:
– Maya Ajmera, fundadora e presidente do The Global Funding For Children;
– Chandler Arnold, diretor executivo da First Book Market Place;
– Shari Berenbach, presidente da Calvert Fundation.
“Meu Deus, eles aqui explicando como salvar o mundo e eu me matando pra ficar acordado.”
Depois do almoço (peixe + cheesecake), alguns de nós seguimos para a Howard University – a primeira universidade para negros dos EUA – para algumas horas de trabalho voluntário, catalogando um pesquisa popular sobre a revitalização de uma rua do bairro. 
À noite, churrasco – isto é, hamburguer + cachorro quente – na casa de um Fulbrighter da Inglaterra. Entre estudantes da Rússia, Austrália, Ucrânia, Equador, Espanha e Alemanha, surge uma inusitada conversa:
– Então, quando eu fui pra Ucrânia, eu juro que toda balada que eu entrava, por mais normal que parecesse, tinha alguém tirando a roupa – diz o inglês.
– Tem certeza de que não tinham uns letreiros luminosos na entrada? – brinca o espanhol.
– Ah, mas é assim mesmo. Toda balada tem uma área de dança, uma área com sinuca, uma área de restaurante, e uma área de striptease. Sempre tem alguém tirando a roupa – esclarece a ucraniana.
– Gostei! – diz o alemão – Precisamos importar o modelo. 
No segundo dia, somos divididos em grupos para uma competição de empreendedorismo social. O objetivo é identificar um problema em uma área – educação, economia, saúde, ambiente – e propor uma solução concreta e sustentável. 
Conforme cada um do meu grupo se apresenta, mordo a língua por toda vez que tirei sarro dos americanos por não saberem geografia.
– Olá, meu nome Igor, sou de Benin.
– Eu sou a Shwe, de Burma.
– Meu nome é Patrick. Eu sou da Suazilândia.
Jura que isso são países!?
Num dos raros intervalos do dia, corro até o Starbucks para acessar o google maps e descobrir onde exatamente fica Burkina Faso. Conseguir acessar a internet no Starbucks é tão ou mais difícil do que entender a lógica por trás dos três tamanhos de café oferecidos (“tall”, “grande” e “venti”). Mas sou brasileiro e não desisto nunca!
No último dia, depois do almoço (peixe + cheesecake), seguimos para uma espécie de caça ao tesouro pelo National Mall. Do grupo de seis pessoas, duas não poderiam estar menos interessadas. 
– Tem certeza de que não querem ir para um bar?
Derrotadas, eles apenas nos seguem sob o calor de 30 graus, entrando e saindo de museus e bibliotecas atrás de pistas – o que exige, é claro, passagens por equipes de segurança que escaneiam celulares, carteiras, relógios, cintos e afins. 
À certa altura, estamos perdidos pelo Museu de História Natural, em meio a fósseis de pássaros, procurando pelos sapatinhos da Dorothy em O Mágico de Oz.
– Vocês estão no museu errado – informa a funcionária. – O Museu de História Americana fica do outro lado da rua. 
Termina a gincana. Voltamos para o hotel com alguns minutos para o banho e já temos que seguir para o jantar de despedida. 
O menu? Peixe + tortinha de chocolate. Agora sim!
Saem os resultados das gincanas e da competição de empreendedorismo social. Perdemos em tudo. A moderadora tenta animar os derrotados – que, convenhamos, não estão lá muito preocupados.
– Lembrem-se de que todos aqui são vencedores!
Mas ela também diz algo que, de fato, tem efeito:
“Tenham em mente que o papel de vocês como bolsistas Fulbright não é dar o peixe… e nem ensinar a pescar. É mudar a indústria da pesca.
Dia seguinte, tenho planejado um bate-volta de trem até Baltimore para almoçar com um amigo. Tudo milimetricamente programado para a volta: pega o trem em Baltimore às 2:43, chega em Washington às 3:25, corre até o hotel, pega o Super Shuttle às 3:50 pro aeroporto, voo pra Los Angeles às 6:30. 
No discreto trânsito da incrivelmente quente cidade de Baltimore, meu amigo tenta me acalmar.
– Relaxa, os trens sempre atrasam.
– Não, cara! O trem não pode atrasar! Tem que estar tudo no horário!
A alguns metros da estação, pulo do carro e corro até a área de embarque. “Cadê a plataforma E?” Enfim, encontro a plataforma E, escondidinha lá no canto. Alguns passageiros ainda estão sentados. Ufa!
Uma senhora, porém, me alerta: “Senhor, nós estamos esperando o trem das 3:20. O das 2:43 está saindo agora.”
Voo escada abaixo e me deparo com o trem já em movimento, saindo da estação. Junto com o trem, visualizo também a van e o avião partindo sem mim. No desespero, corro em paralelo ao trem e vejo que a porta ainda está aberta. É agora ou nunca!
Segundos depois, estou me equilibrando dentro do trem, procurando um assento, ainda impressionado com a minha manobra. Aí bate a dúvida: será que estou no trem certo?
Sim, estava. Tudo corre bem, e consigo embarcar no avião a tempo – mesmo com a tensão de alerta laranja devido às ameaças de bomba em Nova York, o que torna a vida de qualquer passageiro ligeiramente árabe um inferno. 
Sento na minha poltrona, exausto, e aguardo enquanto os outros passageiros lutam para conseguir um espaço no compartimento de bagagens –  é isso que dá quando começam a cobrar para despachar bagagens. Quando estamos prestes a decolar, vem o aviso:
– Senhores passageiros, devido ao mau tempo no Tennessee, vamos ter que aguardar uma hora no solo. Por favor, permaneçam em seus assentos. Obrigado pela compreensão.
Crianças choram, mulheres reclamam, homens bufam. Não tenho dúvida: viro pro lado, encosto a cabeça na janela e, enfim, consigo dormir. Pelo menos ninguém ronca.
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Road trip

Minhas últimas semanas foram as mais corridas desde que cheguei a Los Angeles. Alguns eventos merecem destaque:
– Última semana de março = spring break = road trip!
– Passamos por 3 estados (Nevada, Arizona, Utah), sem contar a Califórnia.
– Visitamos 3 parques nacionais – Grand Canyon, Zion e Bryce Canyon. É impossível dizer qual é mais impressionante.

– Rodamos 3.365km – o que exige que eu leve meu carro para a revisão em menos de dois meses de uso.

– Cruzamos 2 fusos horários – que bizarramente mudam de Norte a Sul, e não de Leste a Oeste, devido ao fato de o Arizona não acatar o horário de verão.
– Fui parado pela polícia pela primeira vez por excesso de velocidade – adoro quando a velocidade máxima na estrada é 40km/h.
– Passamos pelo Hoover Dam, uma barragem que contém a maior estrutura de concreto do mundo.
– Passamos uma noite em Laughlin, Nevada, na divisa com o Arizona, onde a idade média dos hóspedes do hotel era 58 anos – e a julgar pelo cheiro do cassino, a média de cigarros fumados por dia por cada hóspede também era 58.
– Passamos duas noites em Flagstaff, Arizona, em um hotel contruído em 1897 e que sem dúvida era mal-assmobrado.
– Visitamos um igreja encrustrada em uma pedra em Sedona, Arizona.
– Dirigi na neve pela primeira vez.
– Comi nas redes IHOP, Denny’s, Sonic e Joe’s Crab Shack pela primeira vez.
– Por alguns minutos, ficamos perdidos em uma trilha em Zion, sob um sol escaldante – e sem garrafas d’água.
– Por alguns minutos, ficamos perdidos em uma trilha em Bryce, isolados na neve – e sem garrafas d’água.
– Ficamos hospedados na cidade de Kanab, Utah, onde diversos faroestes foram filmados – e onde tive as três melhores refeições desde que cheguei nos EUA.
– Assisti ao filme The Room na TV – versão censurada – pela primeira vez. (Se você ainda não assistiu a The Room, você ainda não é um ser-humano completo.)
– Dirigi por 50km em uma estrada sem passar por nenhum carro.
– Dirigi pela Rota 66 – mesmo sem ter certeza se estava ou não na Rota 66.
– Ultrapassei um veículo que carregava a frente de um avião.
– Cruzamos com um ônibus de turistas orientais. Três vezes. Em três cidades diferentes.
– Dirigimos uma hora em uma estrada de terra até o West Grand Canyon só para andar no Skywalk – e não andamos no Skywalk. E foi incrível mesmo assim.
 – Voltei para LA e sofri de “depressão-pós-spring-break” por alguns dias. Por vários dias. 
– Vivenciei meu primeiro terremoto – que me acordou da minha primeira soneca vespertina em muito tempo.
– Achei demais ter almoçado a algumas mesas de Ethan Embry – até descobrir que Juliette Lewis também estava lá e eu não notei.
– Tive uma palestra com o roteirsta Rodrigo García, que se tornou ainda mais fascinante quando descobri tratar-se do filho de Gabriel García Marquez.
– Assisti a um curta-tese entitulado “Resposta Sexual Equestre”. Protagonizado por uma criança. E um cavalo.
– Terminei o primeiro tratamento do meu longa-metragem. E também do meu curta-tese. Agora só tenho que re-escrever tudo…
– Participei da minha última filmagem como microfonista, onde na reunião de segurança recebemos o seguinte aviso: “Não pise no gramado dos vizinhos. Você pode levar um tiro.”
– Não levei um tiro.
E acho que é só…
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What happens in Vegas…

…goes to Facebook, Youtube and everywhere else.
Neste último fim de semana, fui a um casamento em Las Vegas. Uma colega do curso de produção (natural da Carolina do Norte) ia se casar com um espanhol e decidiu – sabe-se lá porque – casar-se em Las Vegas, em um fim de semana em que 70% dos alunos estavam filmando. Felizmente, não era um desses alunos e pude comparecer ao evento.
A noiva aluga uma van para que possamos sair do AFI logo após a aula da manhã e chegarmos a tempo para a despedida de solteiro. É claro que decidem marcar uma palestra com Aaron Eckhart até às 6h da tarde, o que acaba com nossos planos. Já são quase 9h da noite quando deixamos Los Angeles rumo à excêntrica cidade de Las Vegas.
Chegamos por volta das 2h da manhã. Alguns bares e cassinos depois, estávamos caídos em nossas camas. O casamento é no dia seguinte às 2h30 da tarde. Logan (que dividia o quarto comigo) e eu perdemos a van e temos que chegar ao local da cerimônia de táxi. O taxista, é claro, não tem o inglês mais compreensível do mundo.
– Vão pra onde?
Damos o endereço.
– Não conheço.
Olho pro Logan. E agora? Um funcionário do hotel se aproxima. Explicamos a situação, ele tenta ajudar o taxista.
– Ih, esse lugar é longe… Acabei de explicar pra outro motorista como chegar lá. Você segue atééééé o Sahara, vira à direita na Bufalo, vai em frente, passa o lago e vira a segunda à esquerda.
– Direto até o Sahara, depois…?
Olho para o relógio. Temos 20 minutos. Logan acessa o mapa no celular e seja o que Deus quiser! Exatos 20 minutos e 35 dólares depois, chegamos ao local. E cadê a van? Nada do pessoal. Sem dúvida se perderam. Não seria o fim do mundo, não fosse o fato de que o cerimonialista – que também é aluno do AFI! – estar na van.
Minutos depois, chegam todos, esbaforidos. Sentamos nas cadeiras em frente ao lago. Cadê os outros convidados? Não tem. Somos só nós. Legal! 
A cerimônia começa. Começam também os latidos dos cachorros, os aviões e, é claro, todos os tipos de embarcações que passeiam pelo lago. 
Algumas horas mais tarde, estamos no sexagésimo quarto andar do hotel Trump para o jantar. A vista da cidade é impressionante. De um lado, uma imensa chapada, onde é difícil saber o que é deserto e o que são casas. Do outro, imensos hotéis, perdidos no meio do nada. Dentro do hotel, muita comida, muita bebida e muitos banheiros em uma suíte de US$3.800 por noite.
Todos relativamente comportados, partimos para a terceira parte do evento: um “after-party” na boate do hotel Wynn. Vamos à pé. Noivas atravessando a rua, dia ou noite, é uma imagem completamente normal em Las Vegas.
Lá pelas 11h da noite, o espírito da cidade já tomou conta dos convidados, e nem todos conseguem lidar muito bem com o generoso amigo chamado open bar. Entre eles, Logan.
À uma da manhã, um segurança calmamente se aproxima de mim:
– Acho que seria bom você levar seu amigo embora, senão vamos ter que tomar providências.
Parecia uma tarefa fácil. Ha-ha.
Entre gritos de “Eu odeio o mundo!” e “Eu te amo, cara!”, arrasto Logan pra fora da balada, atravesso o cassino e chego até a porta do hotel. Os táxis – enfim! – estão logo ali. Mas Logan foge de mim.
– As pessoas estão aqui dentro…
– Eu sei, cara, mas a gente precisa ir embora!
Minutos de diálogo… e nada. Tento arrastá-lo para o táxi, ele fica violento. As pessoas na fila do táxi adoram o show. Logan se diverte me dando joelhadas e cotoveladas, enquanto a plateia tira fotos e torce para um de nós. Os funcionários, já vacinados, assitem a tudo sem exaltação. “Mais um…”
Com a promessa de que o levaria para um lugar “com pessoas”, e não para o hotel, consigo arrastá-lo para dentro do táxi – e também convencer a fila de que preciso passar na frente de todos antes que ele me nocauteie.
Às 10h da manhã – após uma madrugada inteira explicando ao Logan de que o banheiro não era o lugar mais apropriado para dormir – é hora de partir. No elevador, é difícil identificar quem está bêbado e quem está de ressaca. O mesmo ocorre no cassino, na rua, no Starbucks e em qualquer lugar onde haja seres humanos.
Na van de volta, comentários, troca de fotos da noite anterior e, é claro, trânsito.
Depois de dois dias intensos em Las Vegas – que, honestamente, acho que são suficientes – e mais sete horas de estrada, chegamos em casa… 
Pela primeira vez desde que cheguei a Los Angeles, tenho a sensação de que estou, de fato, EM CASA. E também, pela primeira vez, me dou conta de que, em breve, vou sentir falta dessas pessoas, que de “colegas do AFI”, sem que eu perceba, vão se tornando grandes amigos.
What happens in Vegas… lasts for a lifetime.
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Oscar

Estar em Hollywood durante o Oscar pode parecer incrível, mas tirando o fato de que a cerimônia acaba às 8h da noite e não à 1h da manhã, pouca coisa muda.
Um dia antes, resolvi dar uma de turista e fui dar uma volta na frente do Kodak Theater. Advinha quem encontrei? Mais turistas, é claro. A Hollywood Boulevard (aquela mesma onde pego o ônibus há sete meses…) fica interditada por vários quarteirões. Muitos guardas, muitos turistas, poucos atrativos… a não ser uma estátua gigante do Oscar toda envolvida em plástico.
No dia seguinte, nos reunimos na casa de um colega – o Bob – para assistirmos à cerimônia. 
– Pessoal, não fala pra fulana que eu convidei vocês! Ela perguntou se eu ia fazer alguma coisa e eu disse que não.
Qualquer semelhança com a 7a série não é mera coincidência…
Começa a cerimônia. Bob tem TiVo, assim podemos rebobinar e rir de novo com todas as piadas de Alec Baldwin e Steve Martin, que os americanos acham sensacionais. Admito que rachei o bico com algumas delas também.
Jason Reitman (Up In The Air) perde o Oscar de roteiro original para Geoffrey Fletcher (Precious). Confesso que Up in The Air é disparado meu filme favorito do ano, mas Jason Reitman perdeu toda a popularidade depois que veio dar uma palestra no AFI e “esqueceu” de mencionar que  não escreveu o roteiro do filme sozinho, entre outros comentários infelizes.
Fletcher sobe ao palco para receber o prêmio. Meu roommate, que é negro, canta a bola:
– Lá vem o “slavery speech”. Por que eles sempre têm que falar sofrendo?
Dito e feito.
Pouco depois, chegam dois colegas de Bob. Eu achava que era impossível estar alheio ao mundo do cinema estando em Hollywood, principalmente em dia de Oscar… até conhecer esses dois.
– Quem é Kathryn Bigelow?
– É a diretora que vai ganhar o Oscar – responde a única mulher entre nós.
– Onde é essa festa? É em Los Angeles? – pergunta o outro
– É a umas dez quadras daqui – responde Bob.
– Ah, legal.
Minutos depois, eles partem, entediados.
El Secreto de Sus Ojos surpreende e dá a Argentina o Oscar de melhor filme estrangeiro. Estou louco pra o ver filme (na verdade, assisto a qualquer coisa de Juan José Campanella ou com Ricardo Darín). O filme não estreou por aqui ainda, e só pra me provocar, meu outro roommate (argentino) tem o DVD original do filme… que não roda aqui nos EUA. 
Mark Boal ganha o Oscar de melhor roteiro original por The Hurt Locker. Embora todos ao meu redor sejam fãs do filme (eu nem tanto), Mark Boal também não era a figura mais carismática do painel de roteiristas ao qual havíamos comparecido algumas semanas antes no WGA. Os comentários de “Espero que você ganhe, Mark!” vindos do público, também não aumentaram sua popularidade, uma vez que Alessandro Camon, indicado ao Oscar por The Messenger na mesma categoria, sentava-se ao seu lado. 
Kathryn Bigelow confirma as espectativas e leva o Oscar de melhor diretora, minutos antes de arrebatar o Oscar de melhor filme. Os americanos a minha volta ficam satisfeitíssimos. Minha vida permance a mesma.
Bob nos leva para mais um tour em seu prédio, onde foram filmados episódios de 24, Heroes, entre outras séries. Explica também o motivo de pagar um aluguel tão baixo por seu apartamento: a moradora anterior suicidou-se ali mesmo. Legal!
Volto pra casa. Ainda é cedo, tenho páginas para entregar na segunda-feira. Sabe como é, vida normal. Até que no dia seguinte vou almoçar, estaciono carro e uma pessoa me chama a atenção, sentada na mesinha da calçada. “Conheço essa mulher”, penso.
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