Em janeiro de 2011, eu precisava escrever um filme. Era o início do meu último semestre do mestrado no American Film Institute, ainda nem tinha digerido os panetones e já precisava apresentar uma ideia de longa-metragem ao painel de professores, que seria desenvolvida ao longo dos próximos meses como nosso thesis film — o equivalente a uma tese de mestrado.
Eu ainda não tinha ideia de que história contar, mas sabia mais ou menos do que queria falar: queria falar sobre pessoas que passam por grandes adversidades, perdem tudo, e ainda assim conseguem seguir adiante, tocar a vida e, ouso dizer, ser feliz. Eu me lembrava de uma amiga que estava sempre sorrindo, apesar de uma série de tragédias familiares; da notícia de uma família que morreu num acidente na estrada voltando de um velório; de histórias de conhecidos que quando ouvidas de fora me faziam pensar: “como essa pessoa conseguiu seguir em frente?” Como diria C. S. Lewis ou Lou Holtz ou Lena Horne (vai depender da sua fonte), “não é o peso da carga que te derruba, mas a maneira como você a carrega”.
Com o tema definido, o próximo passo foi achar um personagem para viver essa história, uma história que precisava funcionar nos EUA, onde eu estava, e no Brasil, para onde eu voltaria em menos de um ano. Também queria pensar em algo que fosse visualmente atrativo, afinal, fazer cinema é contar histórias a partir de imagens. Que fossem bonitas, então!
Veio a memória de um curso de verão, em que por algumas semanas aprendi o básico dos saltos ornamentais na piscina gelada do CEPEUSP. Como o próprio nome diz: ornamental, “aquilo que serve de ornamento, enfeite ou decoração, tendo como principal objetivo embelezar um espaço, um objeto ou o corpo.”
Um corpo belo, um esporte belo, faltava um cenário belo. Pensei nos lugares mais lindos que já tinha visitado ou que queria visitar, e assim meu personagem foi ganhando seus destinos pelo planeta, passando pelos EUA, pelo México, pelo Brasil e pela Austrália.
Definidas as bases da história, ela foi apresentada ao corpo docente, onde foi devidamente destruída, criticada e reorganizada. Pra isso eles estavam ali, não é mesmo?
Agora era preciso fazer o principal: escrevê-la. O método pomodoro entrou em ação, e de bloco em bloco, de página em página, de workshop em workshop, foi nascendo Dive In, um roteiro que contava a história de Aaron e sua jornada pelos quatro oceanos — e cujo título é uma homenagem à música de Dave Matthews. O saudoso Tom Rickman, assim como outros mestres e colegas de turma formam fundamentais para que essa história ficasse de pé. Escrever pode ser um processo solitário, mas naqueles dias ensolarados de 2011 certamente não foi.
Roteiro pronto, mestrado concluído, diploma entregue por Helen Mirren e Spike Lee. Agora sim começava a parte difícil… Se conseguir ter um filme produzido já um esforço hercúleo, conseguir produzir um filme que se passa em quatro países e é falado em duas línguas seria um verdadeiro milagre. A obra chegou a me render um manager por algum tempo, mas com minha volta ao Brasil, tanto ele quanto o roteiro foram engavetados.
Até que, anos depois, decidi transformá-lo num livro.
Fazer um caminho contrário do que se é costume — transformar um roteiro em um romance — foi uma experiência deliciosa. A história era a mesma, mas a língua era outra e as regras do formato também. Se antes Aaron só existia através de ações, agora ele podia existir também a partir de meros pensamentos; lugares que seriam transmitidos com imagens, agora careciam de descrições precisas. E assim nasceu a primeira versão de Quatro Oceanos: a mesma história, em outra língua e em outro formato.
Mais alguns anos de maturação foram necessários para eu entender que, assim como eu tinha mudado, aquilo que eu refletia nas páginas também precisava mudar. Debrucei-me mais uma vez sobre o manuscrito, fui de um narrador-observador para um narrador-personagem e, com disciplina e constância, nascia a versão final de Quatro Oceanos, quinze anos depois da primeira palavra ter sido escrita na casa da Rua North Ontario, em Burbank, Califórnia.
Paul Valéry, o poeta e filósofo francês, diz que um poema nunca está terminado, apenas abandonado. Acho que isso vale para toda obra de arte. Depois de dias, meses, anos, décadas debruçando-se sobre uma criação, chega uma hora é que é necessário abandoná-la para o mundo, para que ela deixe de ser só sua e, com todas as suas imperfeições, passe a ser uma obra para todos.
Ilustração: Débora De Maio