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Cotidiano

Na trave

A vida de quem escreve, e acredito que da maioria dos artistas, é recheada de nãos. O padrão de qualquer coisa é o não. “Não, não queremos ler seu projeto.” “Não, não temos interesse”. “Não, não vamos seguir adiante.” “Não, seu corte de cabelo não ficou bom.” Ou seja, receber um não não é nada surpreendente. (Reparou quantos nãos tem neste parágrafo? Não é por acaso).

Ocorre também de eu receber um não que é um quase-sim. Esses, sim, costumam marcar. Em 2008, participei de um concurso de desenvolvimento de roteiros do Ministério da Cultura, que pagava 50 mil reais para os dez melhores projetos (entre 843 inscritos). O meu roteiro, Do Outro Lado da Lua, ficou em décimo segundo. No mesmo ano, um outro concurso do MinC, dessa vez de roteiros de série (FICTV/Mais Cultura), selecionou vinte projetos, entre 225 inscritos, para a fase de pitching. Minha série de comédia, Bola 7, avançou para essa fase, onde oito projetos seriam escolhidos para receber 250 mil reais para a produção de um piloto. O meu ficou em nono. (Foi deste edital, aliás, que nasceu o piloto de 3%, que acabou eventualmente se tornando a primeira série brasileira produzida pela Netflix.)

Recentemente participei de um concurso para tradutor público (a arte nem sempre paga as contas — chocante, eu sei). A note de corte era 7.0. A minha foi 6.97. Um “expectaitva” digitado errado, e as expectativas de aprovação foram pro brejo.

Tem também outras situações em que esse “na trave” não foi, assim, tão literal. Foi um “o-que-podia-ter-sido-e-que-não-foi”, como diria Manuel Bandeira. O próprio Do Outro Lado da Lua, que chegou a ser rodado em 2018, mas nunca viu a luz do dia (ou de um projetor). Minha vida na Paris Filmes, que na época em que eu era da equipe de marketing lançava pérolas como A Colheita, e que hoje produz os maiores sucessos do cinema nacional. E se eu tivesse ficado por lá?

Em todas essas situações, de uma forma ou de outra, a vida trouxe alternativas. Novos projetos, novas oportunidades. Não faltaram nãos, mas bastou um “sim” para um livro ser publicado. Bastou um “sim” para que eu recebesse uma bolsa de mestrado que me levou por dois anos aos Estados Unidos. Havia “sins” disponíveis, havia editais, bolsas, possibilidades, sonhos.

Só que esta semana tivemos mais uma bola na trave, uma bola perigosa. Um “não” que pode ser bem definitivo. Entre um plano de governo muito longe de ser perfeito, mas orientado para quem mais precisa, para a cultura, para a educação e, acima de tudo, democrático; e outro, que normaliza as maiores atrocidades, que nega a ciência e que já tentou dar um golpe de estado, escolhemos o último. A diferença é que não há alternativas para esse não. Aliás, a proposta desse não é justamente minar as alternativas — presentes e futuras.

A vida de quem escreve, e acredito que da maioria dos artistas, é recheada de nãos. Mas é preciso continuar podendo escrever, podendo ser artista, podendo receber nãos. Os ventos da extrema direita, como chamam os analistas, vieram como um tsunami, mas esse “não” definitivo não pode vir. Precisa continuar, apenas, batendo na trave.

Foto (editada): Simon Bratt

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