Quando me perguntam sobre o que eu escrevo, a resposta não vem de forma rápida, muito menos óbvia. Dez anos atrás, respondia essa pergunta dizendo que escrevia sobre personagens que não querem estar onde estão, que passam por uma jornada geográfica para completar sua jornada dramática. Recentemente descobri, quase sem querer, que sempre gostei de escrever sobre o extraordinário no cotidiano, ou sobre o cotidiano no extraordinário. Mas em 2007, quando terminei o primeiro tratamento de Do outro lado da lua (que ainda se chamava Sixteen light-years away), percebi que o assunto sobre o qual escrevia era a morte. O que eu não sabia é que o filme, assim como um de seus personagens, iria morrer na praia.
Um professor meu dizia que o fato de um filme existir — qualquer filme — é praticamente um milagre: é preciso uma história que tenha um mínimo de coerência, muitas pessoas que queiram dar vida a ela e mais outras que queiram fazer aquela história chegar a ainda mais pessoas. E muito dinheiro. Cabia a mim, a princípio, a primeira parte da equação. Ao som de Bryan Adams, os tratamentos se desdobravam em três línguas, e dezenas de páginas ganhavam tração. Do outro lado da lua venceu o prêmio Ibermedia de desenvolvimento, foi selecionado para o Laboratório Novas Histórias do SESC, para o laboratório da Spcine, para o mercado de coprodução do Festival de San Sebastián e — quem diria! — do Festival de Cannes. Em 2018, depois de mais de uma década de trabalho, o projeto foi contemplado por um edital em Santa Catarina que disponibilizava mais de um milhão de reais para que o filme fosse realizado. Parecia que o milagre da Sétima Arte iria, enfim, acontecer.
As filmagens ocorreram em outubro daquele ano, no Canto Grande, na casa do diretor/produtor do filme, onde pude acompanhar os últimos dias de ensaios e os primeiros dias de gravação. Um trio de argentinos, pais e filhos na vida real, deram vida aos irmãos Luiz e Francisco e a seu pai, Jorge; a queridíssima Paula Braun fez a mãe dilacerada pela perda de um filho; a brilhante Denise Weinberg foi a avó do garoto; e a Ivo Müller, que viraria um amigo e parceiro de escrita, coube interpretar Antonio, o pai da garotinha que deu nome ao curta-metragem e à serie infantil derivados do filme: Valentina.
Ver personagens e lugares que só existiam na imaginação ganharem vida é uma experiência única. As roupas, os desenhos que o protagonista faz; alguém preparou um salmão porque o roteiro pedia. Depois tiveram os elementos que o acaso trouxe para o filme: o pequeno lago onde os peixes garra rufa faziam um tratamento de pele nos pés; a grande pedra sob a casa que virou parte do cenário. São as pequenas belezas que brotam junto ao florescer de um filme.
Mas a partir daí as flores começaram a murchar. Soube que o clima das filmagens foi degringolando e que boa parte da equipe rompeu com diretor ao término das gravações — inclusive eu. Com as relações pessoais cortadas, começou uma eterna espera por aquele que seria o primeiro corte. “Estamos editando” deu lugar a “falta dinheiro para finalizar”, que deu lugar a um silêncio sepulcral. Até que veio a pandemia e enterrou de vez o bebê que não conseguiu nascer — ou que sufocaram no parto.
A verdade é que nunca soube, de fato, o destino do filme. A cena de Francisco correndo na praia, de Antonio observando uma tempestade de raios, de Valentina mergulhando sob o barco de pesca, ficaram apenas no papel e na imaginação. E talvez perdidas em algum HD. Também é um mistério o destino do valor milionário arrecadado para a produção, que certamente exigiu uma prestação de contas ao governo — incluindo a entrega de um filme finalizado e exibido em circuito comercial.
Na minha ficção — afinal este é meu trabalho: criar realidades — Do outro lado da lua um dia será resgatado de algum arquivo público, algum HD abandonado. Veículos especializados noticiarão o ressurgimento acidental da famigerada obra perdida; técnicos conseguirão recuperar as imagens e editores-arqueólogos recriarão a história inacabada criada décadas antes.
Como disse Denise Fraga em O que só sabemos juntos: “O meu futuro imaginado, também não faz parte da minha memória? Não são as minhas lembranças do futuro que me dão hoje a saudade do que eu não vivi?”
Saudades, Do outro lado, saudades…




