Contos

Os outros

Suzana aguardava ao lado da amiga na sala de espera enquanto não chamavam seu nome. Com uma revista de moda na mão, desviava o olhar para a outra candidata sentada à sua frente, que lia uma revista de automóveis. Cutucou sua amiga para indicar a meia-calça discretamente desfiada da concorrente. Contiveram o riso, cúmplices.

Uma porta se abriu, e a secretária anunciou: “Andréa?”. A moça da meia-calça deixou a revista, ajeitou a saia, respirou fundo e entrou.

— Podia olhar no espelho antes de sair de casa, né? — alfinetou Suzana.

— Tadinha, às vezes ela não viu, ou não dava mais tempo de trocar — defendeu a amiga.

— Ah, sabe quem conseguiu um emprego? A Jussara.

— Sério? Que ótimo!

— Né? Vou te falar, viu, sofreu tanto depois que o marido foi embora…

— Ouvi dizer que ele largou aquela lá e já ‘tá com outra, acredita? Já foi pra terceira.

— Mentira.

— Juro! Oito anos de casamento pra isso…

— Merecia um emprego, tadinha.

— O Rogério até tinha indicado ela pro RH, mas acharam que não era o perfil. Aliás, te falei que ele conseguiu a vaga?

— Não! Como assim? E você não me conta?

— Ah, finalmente! Mais de um ano que prometeram essa vaga pra ele e nada! Lembra que eu falei que ele ‘tava superestressado, trabalhando de fim de semana, o dia inteiro no computador?

— Lembro, claro.

— Então, parece que o chefe dele ‘tava querendo dar uma cortada, sabe?

— O viado?

— Isso. Ficou com medo, né? Via que só o Rogério trabalhava enquanto ele só coçava, quis proteger o dele. Aí puxou tanto o saco do chefão que conseguiu ser transferido pra Alemanha.

— É sempre assim…

— O problema é que agora que o Rogério tem que fazer o trabalho que o viado não fazia, ‘tá mais estressado que nunca.

— Ah, mas é assim mesmo… Quando eu entrei no lugar da Patrícia foi a mesma coisa. Todo mundo sabia que ela só ‘tava ali porque dava pro Marco. Aí quando perceberam que ela não dava conta, sobrou pra quem consertar a cagada? Eu, né?

Suzana desviou o olhar para a revista. Surpreendeu-se com uma foto.

— Nossa! Não é a Roberta? – disse mostrando a página para a amiga.

— É, sim. Como ela ‘tá bonita!

— Com Photoshop até eu, né?

A amiga riu. Suzana continuou.

— Mas quem diria, né? Depois de tudo que ela passou, ‘tava mais que na hora das coisas darem certo.

— Como assim?

— Não soube? Sofreu um puta acidente de carro. Morreram os dois irmãos. Ela ficou cheia de cicatriz, é que na foto não se vê.

— Nossa, não se vê mesmo.

— Lembra daquele namorado dela? Todo bonitão, parecia modelo?

— Não foi ele que ficou milionário?

— Era isso que eu ia falar! Você viu? Abriu um negócio de importação de vinho, agora ‘tá nadando em dinheiro.

— É muito injusto, né? Tem gente que consegue as coisas tão fácil, e os outros…

— Bom, mas ele, mesmo milionário, não conseguiu segurar a Roberta… – disse Suzana, com um contentamento mal disfarçado.

A porta se abriu novamente. Andrea saiu com um sorriso confiante. Suzana foi tomada por uma súbita ansiedade quando a secretária chamou seu nome.

— Fica tranquila, Su. Vai dar tudo certo. Você merece!

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