Sem categoria

What happens in Vegas…

…goes to Facebook, Youtube and everywhere else.
Neste último fim de semana, fui a um casamento em Las Vegas. Uma colega do curso de produção (natural da Carolina do Norte) ia se casar com um espanhol e decidiu – sabe-se lá porque – casar-se em Las Vegas, em um fim de semana em que 70% dos alunos estavam filmando. Felizmente, não era um desses alunos e pude comparecer ao evento.
A noiva aluga uma van para que possamos sair do AFI logo após a aula da manhã e chegarmos a tempo para a despedida de solteiro. É claro que decidem marcar uma palestra com Aaron Eckhart até às 6h da tarde, o que acaba com nossos planos. Já são quase 9h da noite quando deixamos Los Angeles rumo à excêntrica cidade de Las Vegas.
Chegamos por volta das 2h da manhã. Alguns bares e cassinos depois, estávamos caídos em nossas camas. O casamento é no dia seguinte às 2h30 da tarde. Logan (que dividia o quarto comigo) e eu perdemos a van e temos que chegar ao local da cerimônia de táxi. O taxista, é claro, não tem o inglês mais compreensível do mundo.
– Vão pra onde?
Damos o endereço.
– Não conheço.
Olho pro Logan. E agora? Um funcionário do hotel se aproxima. Explicamos a situação, ele tenta ajudar o taxista.
– Ih, esse lugar é longe… Acabei de explicar pra outro motorista como chegar lá. Você segue atééééé o Sahara, vira à direita na Bufalo, vai em frente, passa o lago e vira a segunda à esquerda.
– Direto até o Sahara, depois…?
Olho para o relógio. Temos 20 minutos. Logan acessa o mapa no celular e seja o que Deus quiser! Exatos 20 minutos e 35 dólares depois, chegamos ao local. E cadê a van? Nada do pessoal. Sem dúvida se perderam. Não seria o fim do mundo, não fosse o fato de que o cerimonialista – que também é aluno do AFI! – estar na van.
Minutos depois, chegam todos, esbaforidos. Sentamos nas cadeiras em frente ao lago. Cadê os outros convidados? Não tem. Somos só nós. Legal! 
A cerimônia começa. Começam também os latidos dos cachorros, os aviões e, é claro, todos os tipos de embarcações que passeiam pelo lago. 
Algumas horas mais tarde, estamos no sexagésimo quarto andar do hotel Trump para o jantar. A vista da cidade é impressionante. De um lado, uma imensa chapada, onde é difícil saber o que é deserto e o que são casas. Do outro, imensos hotéis, perdidos no meio do nada. Dentro do hotel, muita comida, muita bebida e muitos banheiros em uma suíte de US$3.800 por noite.
Todos relativamente comportados, partimos para a terceira parte do evento: um “after-party” na boate do hotel Wynn. Vamos à pé. Noivas atravessando a rua, dia ou noite, é uma imagem completamente normal em Las Vegas.
Lá pelas 11h da noite, o espírito da cidade já tomou conta dos convidados, e nem todos conseguem lidar muito bem com o generoso amigo chamado open bar. Entre eles, Logan.
À uma da manhã, um segurança calmamente se aproxima de mim:
– Acho que seria bom você levar seu amigo embora, senão vamos ter que tomar providências.
Parecia uma tarefa fácil. Ha-ha.
Entre gritos de “Eu odeio o mundo!” e “Eu te amo, cara!”, arrasto Logan pra fora da balada, atravesso o cassino e chego até a porta do hotel. Os táxis – enfim! – estão logo ali. Mas Logan foge de mim.
– As pessoas estão aqui dentro…
– Eu sei, cara, mas a gente precisa ir embora!
Minutos de diálogo… e nada. Tento arrastá-lo para o táxi, ele fica violento. As pessoas na fila do táxi adoram o show. Logan se diverte me dando joelhadas e cotoveladas, enquanto a plateia tira fotos e torce para um de nós. Os funcionários, já vacinados, assitem a tudo sem exaltação. “Mais um…”
Com a promessa de que o levaria para um lugar “com pessoas”, e não para o hotel, consigo arrastá-lo para dentro do táxi – e também convencer a fila de que preciso passar na frente de todos antes que ele me nocauteie.
Às 10h da manhã – após uma madrugada inteira explicando ao Logan de que o banheiro não era o lugar mais apropriado para dormir – é hora de partir. No elevador, é difícil identificar quem está bêbado e quem está de ressaca. O mesmo ocorre no cassino, na rua, no Starbucks e em qualquer lugar onde haja seres humanos.
Na van de volta, comentários, troca de fotos da noite anterior e, é claro, trânsito.
Depois de dois dias intensos em Las Vegas – que, honestamente, acho que são suficientes – e mais sete horas de estrada, chegamos em casa… 
Pela primeira vez desde que cheguei a Los Angeles, tenho a sensação de que estou, de fato, EM CASA. E também, pela primeira vez, me dou conta de que, em breve, vou sentir falta dessas pessoas, que de “colegas do AFI”, sem que eu perceba, vão se tornando grandes amigos.
What happens in Vegas… lasts for a lifetime.
Padrão
Sem categoria

Oscar

Estar em Hollywood durante o Oscar pode parecer incrível, mas tirando o fato de que a cerimônia acaba às 8h da noite e não à 1h da manhã, pouca coisa muda.
Um dia antes, resolvi dar uma de turista e fui dar uma volta na frente do Kodak Theater. Advinha quem encontrei? Mais turistas, é claro. A Hollywood Boulevard (aquela mesma onde pego o ônibus há sete meses…) fica interditada por vários quarteirões. Muitos guardas, muitos turistas, poucos atrativos… a não ser uma estátua gigante do Oscar toda envolvida em plástico.
No dia seguinte, nos reunimos na casa de um colega – o Bob – para assistirmos à cerimônia. 
– Pessoal, não fala pra fulana que eu convidei vocês! Ela perguntou se eu ia fazer alguma coisa e eu disse que não.
Qualquer semelhança com a 7a série não é mera coincidência…
Começa a cerimônia. Bob tem TiVo, assim podemos rebobinar e rir de novo com todas as piadas de Alec Baldwin e Steve Martin, que os americanos acham sensacionais. Admito que rachei o bico com algumas delas também.
Jason Reitman (Up In The Air) perde o Oscar de roteiro original para Geoffrey Fletcher (Precious). Confesso que Up in The Air é disparado meu filme favorito do ano, mas Jason Reitman perdeu toda a popularidade depois que veio dar uma palestra no AFI e “esqueceu” de mencionar que  não escreveu o roteiro do filme sozinho, entre outros comentários infelizes.
Fletcher sobe ao palco para receber o prêmio. Meu roommate, que é negro, canta a bola:
– Lá vem o “slavery speech”. Por que eles sempre têm que falar sofrendo?
Dito e feito.
Pouco depois, chegam dois colegas de Bob. Eu achava que era impossível estar alheio ao mundo do cinema estando em Hollywood, principalmente em dia de Oscar… até conhecer esses dois.
– Quem é Kathryn Bigelow?
– É a diretora que vai ganhar o Oscar – responde a única mulher entre nós.
– Onde é essa festa? É em Los Angeles? – pergunta o outro
– É a umas dez quadras daqui – responde Bob.
– Ah, legal.
Minutos depois, eles partem, entediados.
El Secreto de Sus Ojos surpreende e dá a Argentina o Oscar de melhor filme estrangeiro. Estou louco pra o ver filme (na verdade, assisto a qualquer coisa de Juan José Campanella ou com Ricardo Darín). O filme não estreou por aqui ainda, e só pra me provocar, meu outro roommate (argentino) tem o DVD original do filme… que não roda aqui nos EUA. 
Mark Boal ganha o Oscar de melhor roteiro original por The Hurt Locker. Embora todos ao meu redor sejam fãs do filme (eu nem tanto), Mark Boal também não era a figura mais carismática do painel de roteiristas ao qual havíamos comparecido algumas semanas antes no WGA. Os comentários de “Espero que você ganhe, Mark!” vindos do público, também não aumentaram sua popularidade, uma vez que Alessandro Camon, indicado ao Oscar por The Messenger na mesma categoria, sentava-se ao seu lado. 
Kathryn Bigelow confirma as espectativas e leva o Oscar de melhor diretora, minutos antes de arrebatar o Oscar de melhor filme. Os americanos a minha volta ficam satisfeitíssimos. Minha vida permance a mesma.
Bob nos leva para mais um tour em seu prédio, onde foram filmados episódios de 24, Heroes, entre outras séries. Explica também o motivo de pagar um aluguel tão baixo por seu apartamento: a moradora anterior suicidou-se ali mesmo. Legal!
Volto pra casa. Ainda é cedo, tenho páginas para entregar na segunda-feira. Sabe como é, vida normal. Até que no dia seguinte vou almoçar, estaciono carro e uma pessoa me chama a atenção, sentada na mesinha da calçada. “Conheço essa mulher”, penso.
Padrão
Sem categoria

Diários de motocicleta – parte 3

Sem carro, sem motoca e com uma viagem acadêmica para Washington agendada para o dia seguinte, minha única opção é pedir ajuda ao meu colega de quarto e a sua caminhonete (que cheira a gasolina até hoje por causa disso), e levar a falecida ao meu já conhecido colega Edgar: o mecânico da “scooter mundo”.
– Cara, estou indo viajar amanhã. Só volto na outra segunda. Seja lá qual for o problema, CONSERTE! Não tem pressa, mas por favor, não posso mais ter problema com essa scooter.
Volto pra casa, e descubro que toda neve do mundo está caindo em Washington, o que significa, é claro, que meu vôo foi cancelado. Remarco para um dia depois.
Quatro cancelamentos depois, o seminário – o motivo da minha viagem – é cancelado. Desfaço as malas e ligo para meu amigo Edgar.
– Então, não fui viajar. Posso ir buscar a moto hoje?
– Ih, mas você disse que só vinha na segunda. Ela ainda não tá pronta.
– Bom, você pode consertar hoje, então?
– Se você vier pagar hoje, posso.
Vou até lá, pago a nova bateria, volto no dia seguinte. O PROBLEMA PERSISTE!
– Você precisa arrumar a compressão do motor. Do jeito que tá, ela vai ligar, mas vai demorar alguns minutos.
– Quanto custa pra consertar isso?
– Pelo menos uns 300 dólares.
Desencana. Afinal, o que são cinco minutos toda vez que você tem que ligar a moto?
Passo no supermercado, no que seria provavelmente a última viagem da coitada. Coloco algumas cervejas no baú. Chego em casa… e quem disse que o baú abre? Muito esforço depois, arrebento a fechadura e resgato as cervejas. O baú agora não fecha mais.
Decido andar de ônibus por uma semana, para evitar qualquer stress. Decido também que já é passada a hora de comprar um carro. Árdua pesquisa, até achar um carro dentro do meu orçamento.
Decido por um carro 2001 com 91.000 milhas. O vendedor diz que o carro ficará pronto na quarta-feira, o dia seguinte da minha nova prova de direção. Perfeito.
Dessa vez mais calmo, eu e “Little Dogy” enfrentamos mais uma vez o examinador do DMV. Ele nem se importa com o “defroster” e logo começamos a prova. Em um farol vermelho que não abre nunca, resolvo puxar conversa.
– Você é de Los Angeles?
– Não.
Loooonga pausa.
– Sou do Iraque.
E ponto. Nem mais uma palavra.
O farol não abre. Aí me lembro de que é permitido virar à direita com o farol fechado. Temo que essa falha me custará mais um dia de prova. Mas não! Minutos depois tenho em mãos o bendito papelzinho que diz “PASSING”. Enfim, Little Doggy, Kim e eu havíamos vencido a batalha.
No caminho de casa, o vendedor do carro me liga.
– Tenho uma notícia boa e uma ruim.
– A ruim primeiro.
– Seu carro só vai ficar pronto na sexta-feira.
– E a boa?
– Nós vamos ter que colocar um motor novo.
Me bate aquele medo: será que comprei um carro que já vem pifado? Mas agora é tarde, não dá mais pra voltar atrás.  Prefiro acreditar que a boa notícia é boa mesmo.
Carro na garagem (mentira, na rua, porque tecnicamente não tenho vaga na garagem), vou à Best Buy comprar um GPS. Quantas vezes você ouviu falar em blackout na Best Buy? Pois então, aquele dia foi a primeira vez pra mim também.
Volto na segunda. O GPS dobrou de preço.
– A promoção era só até domingo.
Deixa pra lá. Depois eu vejo na Amazon.
Será que a maldição dos transportes não acaba nunca?
Até que dois dias depois, checo minha caixa de correio… e lá está! Uma carta de Arnold Schwarzenegger. Minha carteira de motorista!
Antes de sair novamente, passo na garagem para estacionar a motoca em outro lugar.
E não é que ela liga de primeira?
Padrão