Cotidiano

As oportunidades de ser gentil

No fim do ano passado, fui ao show do Imagine Dragons no Estádio do Morumbi com meu namorado e duas amigas. Chegamos não muito antes do início do show, e como nossos ingressos eram para a arquibancada superior, o desafio era encontrar quatro assentos juntos. Embrenhamo-nos em meio aos espectadores mais pontuais, pisamos em alguns pés e finalmente encontramos alguns assentos vagos, mas separados. Numa fileira havia dois assentos vazios — um deles molhado pela chuva recente — com um casal entre eles. Prontamente o casal se ofereceu para pular uma cadeira. Eles ocuparam o assento seco, eu sequei o assento molhado com minha capa de chuva e, voilá, dois assentos juntos. Logo acima, um pouco à esquerda, mais dois assentos vazios. Perfeito. Sentamos, Jeff e eu, nos assentos de baixo, e elas, diagonalmente, nos assentos de cima. Bem atrás de nós (portanto, ao lado de nossas amigas) um casal de garotas conversava animadamente, até que, pipoca vem, refrigerante vai, nos demos conta do óbvio: podemos pedir para trocar de lugar com elas, afinal, tecnicamente, nossos assentos são melhores. Educamente perguntamos se elas não gostariam de vir para frente para que pudéssemos nos juntar às nossas amigas. Para nossa surpresa, a resposta foi:

— Não. Tamo de boa.

Surpresos, Jeff e eu nos voltamos para as luzes que se acendiam sobre o vocalista descamisado no palco e assim, diagonalmente às nossas amigas, assistimos ao show que acabava de começar, não sem antes ouvir o comentário (nem tão) de canto de boca entre elas:

— Chegaram em cima da hora e ainda querem sentar juntos? Problema deles!

Antes de mais nada quero dizer que elas estavam inteiramente no direito delas: chegaram antes, ocuparam o assento que queriam e não tinham nenhuma obrigação de sair de lá. Mas minha questão não é com o direito, com a justiça, é algo mais simples, mais social. Que desperdício de uma oportunidade de ser gentil! 

Esse episódio me fez lembrar de outra situação, muitos anos atrás, em uma época em que os cinemas não tinham lugares marcados (!). Entrei na sala lotada com uma amiga durante os trailers e, na última fileira, havia dois assentos livres, bem no centro, com uma garota sozinha entre eles. Nos aproximamos, pipoca e refrigerante em mãos, e perguntamos se ela poderia pular uma cadeira, já certos de uma resposta afirmativa. Mas o que veio foi:

— Não. É que gosto de sentar EXATAMENTE no meio — disse, enquanto fuçava no celular.

Chocados, nos sentamos um de cada lado, em um esforço hercúleo para conter o riso. Como a gente vai dividir a pipoca agora?! AI DELA FICAR COM ESSE CELULAR LIGADO QUANDO O FILME COMEÇAR! Um casal à minha esquerda, divertindo-se com a situação, aproveitou a oportunidade de ser gentil que a garota central havia desperdiçado e se ofereceu para pular um assento, de forma que conseguíssemos sentar juntos em outra parte da fileira. Tão simples, tão grátis. 

Outra oportunidade se deu há uns meses atrás, quando fui assistir à apresentação do coral da USP no Teatro Sesi. Durante a apresentação, alguns dos coralistas faziam solos, entre eles, uma mulher branca, magra e alta, de rosto jovem e cabelos grisalhos na altura dos ombros. Como total leigo no mundo musical, posso dizer que todos os solos foram muito agradáveis, sobretudo o dela: um solo suave, confiante, preciso. Logo depois da apresentação, já na Avenida Paulista, me percebi caminhando ao lado dela, que conversava com um casal que eu deduzi serem seus pais.

— Nossa, é sempre assim, na hora do solo eu fico tão nervosa!

Eu queria virar para ela e dizer que estava sentado na primeira fila, a poucos metros dela, e que o solo foi perfeito, e que ninguém diria que ela estava nervosa. Mas o farol abriu e eu atravessei a rua. A oportunidade de ser gentil veio, mas eu desperdicei.  

Anos antes, fui mais sagaz. Novamente no cinema, dessa vez para assistir à pré-estreia do filme Click, eu tinha dois pares de ingresso promocionais, que ainda davam direito a pipoca e refrigerante. Com um dos pares prestes a ir para o lixo, pouco antes da sessão começar me aproximei de um casal que debatia (discutia?) sobre qual filme veriam. Eu disse que tinha ingressos para o Click, com pipoca e refrigerante, e que iam morrer na minha mão. Ele se empolgou; ela, não muito, mas cedeu. Ele sacou a carteira.

— Quanto é?

— Não, é de graça. Eu ganhei os ingressos, estou te dando também.

Eles se olharam incrédulos e finalmente abriram um sorriso: a noite estava a salvo. 

Aqui vale fazer outra ressalva: não estou defendendo a perigosíssima máxima “seja legal e as pessoas vão gostar de você”. O ponto não é se anular ou mesmo desviar do seu caminho para agradar o outro. Me refiro às breves relações sociais do dia a dia, os desconhecidos que a gente encontra no elevador, no metrô, no restaurante (e, claro, no cinema); me refiro a lançar mão da gentileza quando a oportunidade cai, assim, no seu colo. 

Alguém quer se enfiar na sua frente no trânsito, furando uma fila, você pode assumir que é um arrombado folgado ou alguém desesperado para chegar ao hospital (eu mesmo já fui os dois), mas você provavelmente nunca vai saber a resposta. Por que não assumir o melhor?

Tantas das nossas interações diárias são com desconhecidos que impactam pouco ou nada na nossa vida, cuja opinião nos é irrelevante e provavelmente não veremos novamente. Por que não ser gentil? É bom para o outro, claro, mas também é bom para nós, senão, por que razão doar um par de ingressos extras ainda estaria na minha memória vinte anos depois?

* * *

Nas inúmeras vezes em que esteve internado, meu pai insistia em ser gentil com todos que passavam no quarto. Se uma dupla de médicos entrava às seis da manhã com uma parafernália enorme para tirar um raio-x, ele sorria e dizia:

— Opa! Vieram tirar uma foto minha?

Ele não estava tentando agradar, buscando aprovação nem nada do tipo. Ele estava simplesmente sendo gentil. Talvez, do alto de seus 96 anos ele já soubesse muito bem que ser gentil é bom para a vida de todo mundo, ainda que da dele já não restasse muito mais.

Foto: O Globo

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