Cotidiano

Permanente

Quando estava na terceira série, recebi a lista de materiais para o ano letivo e, em meio a réguas de acrílico, lápis-de-cor e cadernos ¼ capa dura de 48 folhas, havia um par de itens que me deixou muito empolgado: canetas. 

Minha diminuta vida acadêmica até então incluía apenas escritos com lápis HB, que ofereciam a acolhedora propriedade de poderem ser apagados a bel-prazer a qualquer risco acidental ou tigela com j. Mas agora as coisas seriam diferentes! Os erros em canetas Faber-Castell azul e verde estariam lá para sempre, talvez riscados, talvez com alguma correção tosca, mas sempre visíveis. Permanentes. 
 
À parte dos dentes de leite (“quebrou, mas tudo bem, depois nasce outro!”) não me lembro de outra situação na infância com essa divisão tão clara de “antes era mentirinha, agora tá valendo!”. Na vida adulta, então, nem se fala.
 
Na faculdade, fui uma das últimas turmas a ter aula de montagem com negativos de cinema. “A relação com as decisões é diferente”, dizia a professora. “Uma vez que você cortou o negativo, não tem volta. Você pode colar de novo, mas já não é a mesma coisa.” Hoje você vai e vem na timeline, cortando livremente, a um Ctrl+Z de qualquer conserto. Não é preciso refletir antes de agir.
 
Fico imaginando quão diferente era o processo dos escritores que datilografavam em máquinas de escrever, cada letra perpetuamente marcada na folha, fosse ela para o texto final ou para o cesto de lixo.
 
Não era diferente com as fotografias. Os passeios de escola eram acompanhados por um filme de 12 poses; um aniversário, de 24; um fim de semana na praia, de 36. Os registros tinham de ser pensados, refletidos. Havia limitações: o número de poses, o valor da revelação; e ainda era necessário esperar — algumas horas, alguns dias — para ver a imagem final: tudo muito diferente das sete opções de foto que tiramos do grupo hoje em dia, que rodam pelos grupos de WhatsApp por algumas horas e depois desaparecem num buraco negro, como diria minha mãe. Queremos tanto registrar o momento para que ele dure para sempre, mas depois raramente voltamos a ele: basta a (falsa) sensação de que ele é eterno, de que pode ser vivido depois, se eu quiser — mesmo que eu provavelmente não vá querer. 
 
Tudo hoje parece ser feito para ser reversível. O permanente assusta: seja um emprego, um relacionamento, uma moradia. “Mas eu vou ficar aqui PRA SEMPRE!? E se aparecer uma opção melhor?” Cada vez menos nos preparamos para qualquer tipo de para sempre, mas, ao mesmo tempo, o incerto e o imprevisível também não nos acolhem. Exigimos tudo: liberdade, opções, mas também algo sólido em que nos apoiar, algo que sempre esteja lá — e meras tatuagens não dão conta do recado.
 
Outro dia fui visitar uma amiga de infância que estava prestes a ter um filho — uma das poucas coisas verdadeiramente permanentes dos tempos atuais. 
 
— Como você conseguiu continuar amigo dela até hoje? — perguntou minha sobrinha adolescente. 
 
A resposta não veio imediatamente. Como, afinal, foi possível manter amizades por 20, 30 anos, grande parte deles sem Facebook, WhatsApp ou qualquer rede social que (supostamente) nos mantivesse conectados? 
 
Em termos práticos, respondi que foi me lembrando de aniversários todo ano (às vezes anotando na agenda física), ligando para dar Feliz Natal, criando eventos (reais) para reunir as pessoas. Mas por trás disso esteve sempre algo mais profundo: a vontade de manter as amizades vivas, a noção de que a quantidade de bons amigos (ao contrário do que podem dizer likes e followers) é limitada como um filme de 12 poses. Era mais difícil encontrar e reencontrar pessoas, por isso sempre foi fundamental mantê-las no nosso convívio e não descartá-las como uma foto desfocada do jantar passado.
 
Com tantas opções à disposição, nunca foi tão fácil trocar: trocar de amigo, de emprego, de país, de amante. Para que consertar a sola do sapato se eu posso comprar um novo? O para sempre deu lugar ao eterno enquanto dure; o praticar a lápis deu lugar a rabiscos direto a caneta, com um pote de liquid paper sempre a mão. E nessa longa trilha entre a segurança do permanente e a leveza do efêmero, caminhamos cautelosos (ou não), cientes (ou não) do abismo do vazio a poucos metros de cada passo.
 

Foto: Acervo pessoal

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Cotidiano, viagem

Um dia na história contemporânea

Esta semana tive de ir ao consulado italiano solicitar a emissão de um novo passaporte. Não é primeira tentativa. Ano passado estive no mesmo local, porém um registro desatualizado de endereço me fez voltar ao final da fila e aguardar por um novo agendamento – meses depois.

Sabendo que o local não permite o uso de celulares, vou munido de um livro – Sapiens – que leva o ousado (e acertado) subtítulo de Uma Breve História da Humanidade. Apanho minha senha – 78 – e tomo assento em meio a uma miríade de descendentes de italianos com suas respectivas pastinhas, sonhos e medos. 
 
― As senhas para passaporte serão chamadas por voz, em grupos de dez ― informa o segurança.
 
Ponho-me a ler sobre os Homo sapiens caçadores-coletores de 50 mil anos atrás: como se organizavam, como se alimentavam e como nossa estrutura foi se adaptando agora que não precisamos mais fugir de leões ou sentir o cheiro da chuva. 
 
― Senhas 40 a 50 ― anuncia a voz, cerca de meia hora depois.
 
Faço uma rápida conta e percebo que passaria muito mais horas ali do que o previsto. Uma senhora ao meu lado, com a senha 81, também percebe e bufa, antes de voltar para sua leitura: Abílio – Determinado, Ambicioso, Polêmico.
 
Se por um lado o Homo sapiens é um ser extremamente adaptável que conseguiu dominar outras espécies e povoar toda a Terra, por outro ainda resta adaptar-se a um ambiente fechado, sem ar-condicionado e sem acesso à tecnologia. Observar pessoas em tais condições é como participar de um experimento sociológico: um grupo de Homo sapiens do mundo atual é teletransportado para um saguão em 1994, pré-internet móvel, sem ar-condicionado, sem televisão, apenas com uma máquina de foto instantânea e uma de salgadinhos, bolachas e bebidas, que aceita exclusivamente notas de dois e cinco reais, e são forçadas a esperar. 
 
― Senhas 50 a 60!
 
Alguns dormem, outros rabiscam num envelope, outros leem, outros ousam interagir com o conterrâneo ao lado, e outros – sobretudo crianças, mas não apenas – choram. Entreter duas crianças pequenas que aguardam há horas sem poder lançar mão de uma Peppa Pig ou uma Galinha Pintadinha é um desafio para o qual o Homo sapiens não teve tempo de se preparar. 
 
Uma moça com um rabo de cavalo, que fez sua cidadania em Assis, mas que passava mais tempo na Toscana, e que agora estava no Brasil, mas talvez se mudasse para Malta em março, pergunta à atendente onde registrar seu endereço.
 
― É que ela tem uma carreira muito internacional ― explica o marido, com sotaque italiano.
 
A funcionária dá as instruções.
 
― Seu italiano é muito bom! ― diz ele.
 
― É que eu sou italiana ― diz ela.
 
― Senhas 60 a 70!
 
Mais um grupo sobe. Sinto fome, mas não posso caçar, nem coletar, nem comprar um Fandangos na maquininha porque usei minha última nota de 5 reais para comprar uma água. O consulado fecha em cinco minutos e, se sair, não posso voltar. Bebo água – dizem que inibe o apetite.
 
Volto ao livro e descubro que é difícil saber ao certo como viviam as sociedades de 40 mil anos atrás. Enquanto alguns fósseis encontrados indicam grupos que sofreram mortes violentas, outras regiões parecem revelar fósseis mais pacíficos. Começo a imaginar o quanto levaria para que esse grupo no saguão em 1994 começasse a guerrear por um assento, uma senha mais baixa, um pacote de Oreo. “O calor e o tédio podem levar o homem a loucura”, divago.
 
― Senhas 70 a 80!
 
Enfim! Subo ao segundo andar e aguardo ser chamado. Uma senhora de vestido azul suplica a um funcionário de cavanhaque: 
 
― Moço, faz vinte anos que estou tentando tirar esse documento! Não é possível que este comprovante de endereço não sirva. Ele é válido em qualquer lugar do Brasil!
 
― Mas aqui é a Itália. 
 
Um rapaz de óculos entrega os documentos de forma organizada a uma funcionária de longos cabelos loiros.
 
― Essa hora no fim do expediente é sempre melhor. Os mais atrapalhados sempre vêm cedinho ― conta ela.
 
Esboço um sorriso ao pensar na sua inocência em achar que conseguimos ESCOLHER nossos horários. Você passa dias tentando ligar para o número de agendamento. Alguém atende. Você abre um vinho para celebrar.
 
― Tenho disponível dia 25, às 10h, pode ser?
 
― Tá ótimo! É o casamento da minha irmã, mas ela vai entender. Ela arranja outro padrinho e, se der, ainda chego para a festa!
 
― Senha 78!
 
Vou até a mesa indicada e saco meus documentos com aquela tensão típica que só autoridades internacionais são capazes de elicitar.
 
― Esta foto não deveria estar colada. E esta assinatura deveria ter sido feita na minha frente ― diz o funcionário com a naturalidade de quem pede um pão de queijo na padaria.
 
― Eu tenho outras fotos! Eu tenho um formulário em branco! Eu te dou um abraço! Não me manda embora!
 
Ele diz que está tudo bem, confere os documentos, pede novas assinaturas. 
 
― Você precisa viajar nos próximos 40 dias?
 
― Infelizmente não.
 
Ele pega meu passaporte atual e coloca um carimbo de anulado em cada uma das páginas vazias. 
 
STOMP. STOMP. STOMP. STOMP. Um visto. STOMP. STOMP. STOMP.
 
“Preciso viajar mais”, penso.
 
Enfim, ele solicita o cartão para pagamento.
 
O cartão não funciona.
 
Ele tenta outra vez, duas vezes, três vezes. Nada. Entrego outro cartão.
 
O cartão não funciona.
 
Por alguns instantes, sinto uma ponta de inveja dos caçadores-coletores, que não possuíam um sistema monetário, um cartão de crédito, um passaporte. E daí que vez ou outra morriam de frio ou eram devorados por roedores gigantes?
 
Transação aprovada!
 
O rapaz organizado pergunta à funcionária loira:
 
― Como será daqui a dez anos, na renovação do passaporte? O processo será o mesmo?
 
― Olha, passaporte você não renova, você emite um novo, mas não tenho a menor ideia como serão as coisas daqui a dez anos…
 
Saio com meu protocolo em mãos e com a mesma pergunta na cabeça: como será daqui a dez anos? O que o Homo sapiens terá destruído, desenvolvido ou desvendado até lá? Será que voltarei a este mesmo consulado em 2029? Será que meu passaporte terá mais carimbos? Quantas pessoas novas vou conhecer? Com quantas perderei contato? Só uma coisa é certa. Do alto dos meus 45 anos, vou olhar para minha foto atual e dizer:
 
― Nossa, eu ainda tinha cabelo!

Foto: Acervo pessoal

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