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Um breve relato sobre o adeus

      Certa noite voltava para casa quando comecei a reparar quantos lugares que haviam sido importantes para mim na última década já não existiam mais. Fecharam. Mudaram de nome. Mudaram de nome e depois fecharam. Um bar que era meu reduto com dois amigos por tantas sextas-feiras hoje tem uma placa de aluga-se. Outro, que nos ensinou a apreciar cervejas importadas e foi palco de tantas comemorações, virou um hortifrúti, e agora “aluga-se para eventos”. Por alguns instantes, senti saudades de uma época que não volta mais, de pessoas que já não vejo com tanta frequência, mas logo senti a tranquilidade de saber que há ainda muitas épocas por vir.
      Na manhã seguinte, acordo com a mensagem de um desses amigos, que hoje vive nos EUA, informando que seu pai, após semanas no hospital, havia falecido. Dois dias depois, numa ensolarada manhã de domingo, os três amigos, que há tanto não se viam, reuniam-se no velório. Usávamos um quipá, assim como há cinco anos em seu casamento: uma das últimas celebrações que dividimos no país antes de sua mudança. 
      O clima, ao que possa surpreender, era de paz. Os três filhos levantaram-se perante o enorme grupo de amigos e familiares que viera prestar as últimas homenagens e puderam sorrir. Rir, até.
     Disseram que a morte do pai havia feito nascer a esperança do reencontro; que a dor é dilacerante, mas o amor é inabalável; que em meio a tanta adversidade, nunca se amaram tanto.
      É curioso observar como reagimos ao fim de uma vida… Dias depois, eu acordaria com a notícia do falecimento de um jovem conhecido no México, no mesmo dia em que um acidente aéreo tirou a vida de um time inteiro de futebol, entre tantos mais. 
      “Nos vimos no sábado! E no domingo, faleceu,” contou uma amiga mexicana, ainda processando o ocorrido. “Teria dito tanta coisa se soubesse que não o veria mais…” confessou outra. 
     Vídeos da alegria de um grupo de jogadores comemorando a classificação para um jogo que nunca viria emocionaram um país; imagens questionáveis da imprensa sobre o mesmo grupo uniram as redes em revolta. “Que falta de empatia!” gritam uns. “Que alienação!” reagem outros. Mas apesar da constante necessidade de polemizar que as redes sociais parecem suscitar, minha sensação é de que, seja bem de perto dos acontecimentos ou como meros espectadores, em meio a tanta adversidade, amamo-nos mais.

      Voltando para casa após o velório, começa a tocar no rádio o terceiro movimento da Sonata nº 2 em Si bemol da Opus 35 de Chopin: a marcha fúnebre. Apreciando a sincronicidade do momento, parei para ouvi-la. Descobri que passado o trecho mais conhecido da sonata, tão popularizado por desenhos animados, ela ganha um tom suave, apaziguante, quase alegre. Grave e agudo intercalam-se, misturando as emoções.
      Então pensei o quanto ela é apropriada: primeiro é preciso passar pela parte mais grave, mais difícil, para só então chegar à parte mais leve, mais bela. Sim, ela está lá. Basta deixar a sonata seguir. 
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Quanto vale?

Assisti ao filme Hard Candy pela primeira vez em 2006, quando trabalhava na Paris Filmes. Além da história bastante incômoda e envolvente, várias coisas sobre o filme ficaram marcadas na minha memória. Foi ali, por exemplo, que conheci a pintura Nighthawks, de Edward Hooper, que hoje preenche o fundo de tela do meu computador. Hard Candy foi também um dos títulos mais difíceis de se traduzir para o português, o que ficaria comprovado por aquele que é provavelmente o pior título brasileiro de todos os tempos: MeninaMá.com. Como pode uma palavra (ou seriam duas? ou seriam três?), ao mesmo tempo, quebrar as regras gramaticais, colocar acento em um endereço de internet e ainda entregar a virada do filme?

Mas, para mim, o mais marcante foi uma cena que sem dúvida passa despercebida por quem assiste ao filme: a cena em que a personagem de Patrick Wilson diz à personagem da então desconhecida Ellen Page que ela parece ser “do tipo que ouve Coldplay.”

Era a primeira vez que eu ouvia falar da banda, e ainda levariam dois anos para que eu começasse a apreciar sua música, para que Coldplay virasse tema de conversa, semente de amizade, cena de roteiro. De repente eu, também, havia me tornado “o tipo que ouve Coldplay”, e o que se seguiu foi uma série de desencontros, com shows deles aqui quando eu estava fora, shows fora quando eu estava aqui.

Até que este ano tudo prometia mudar: a banda e eu estaríamos, enfim, na mesma região geográfica. Mas a expectativa durou tão pouco quanto os ingressos, que se esgotaram em poucas horas. Resignado à ideia de que minha relação com a banda seria apenas virtual, um dia antes do show recebo a mensagem de um amigo:

— Meu irmão e a namorada não vão mais. Tenho dois ingressos sobrando. Você quer um?

A resposta seria evidente, não fosse um pequeno detalhe: o preço.

Existia, é claro, a possibilidade da meia-entrada. “Você não consegue arranjar uma carteirinha?” Claro, também consigo arranjar TV a cabo de graça, roubar castanha na feira e me indignar com a corrupção.

Os amigos dividiam-se entre “você não vai pagar isso tudo por um ingresso, né?!” e “como assim você ‘tá na dúvida se vai ou não no show?!”

Então me lembrei de uma entrevista com José Mujica para o documentário Human: “Quando compramos algo, não compramos com dinheiro, mas com o tempo de vida que gastamos para ganhar esse dinheiro.”

E aí, como no mid-point de Hard Candy, a perspectiva mudou.

Um dia e meio de trabalho: esse era o preço para assistir, ao vivo, a uma das minhas bandas favoritas.

Comecei, então, a calcular outros preços da minha rotina. Andar de carro me custa dois dias de trabalho por mês — o mesmo que cuidar da minha saúde. Os gastos da casa exigem duas semanas de trabalho, e por apenas três dias levo um mês de atividades de lazer.

E por que não pensar em dinheiro assim, como uma mera unidade de conversão? Como uma bateria que armazena a energia do seu trabalho para quando você precisa usar?

Afinal, ninguém guarda quilômetros no cofre, nem rouba graus Celsius, nem mata por centímetros cúbicos.

Vale a pena trabalhar um dia inteiro por uma refeição? Dois dias para visitar um amigo distante? Três dias por um sapato? Porque esse é o real preço das coisas.

Só que existe ainda aquele trabalho que não gera nenhum excesso de energia, que gera um calor que não pode ser armazenado, que deve ser consumido ali mesmo. Um calor humano. Passar o dia pintando uma instituição carente, ou levando comida a quem precisa, ou fazendo qualquer trabalho que traz um retorno em outra unidade que não aquela que compra um ingresso do Coldplay ou uma torta de frango. Um trabalho que recarrega outras baterias. E que nem por isso vale menos.

A ideia é simples. E eu gosto de coisas simples: você dedica seu dia a algo ou a alguém e essa dedicação te dá um retorno, que pode ser em forma de um relógio que você vai comprar na semana que vem, um abraço que você vai receber na hora ou um momento com amigos em um estádio lotado, onde all the kids they dance, all the kids all night, until monday morning feels another life, I turn the music up, I’m on a roll this time.


And heaven is in sight.

Show do Coldplay – Allianz Parque

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A história sem fim

Quando acordei naquela manhã de sábado, não imaginava que em algumas horas estaria na sala de espera de um hospital público, trocando mensagens de texto com um policial militar, digitadas na tela estilhaçada do meu próprio celular.
O dia começou no chão de uma sala de aula na Zona Sul de São Paulo, onde acordei determinado a pintar aquela instituição, ao lado de outras pessoas que trocaram dias de descanso por um fim de semana com rolos, pincéis, pó no nariz e uma sensação de realização (e dores no corpo) digna de um maratonista ao cruzar a linha de chegada.
Mas como bem sabe Vanderlei Cordeiro de Lima, nem sempre tudo sai como esperado.
Sentado no chão, observava enquanto Luks caminhava sobre o telhado, pintando a parte superior de um dos prédios.
Sentado no chão, percebi quando a telha cedeu.
Sentado no chão, percebi quando
                     L                                                        
                                                          U
                                                          K
                                                          S
                                                         caiu pelo vão do telhado e veio ao chão, levando consigo a escada que atrapalhava sua queda livre.           
               Sentado no mesmo chão, percebi o barulho da queda transformar-se em silêncio enquanto a multidão aglomerava-se ao seu redor em meio a suspiros de meu Deus, o que aconteceu?
Na dúvida entre um braço quebrado e um mero arranhão, partimos, Luks e eu, rumo ao hospital, a bordo da ambulância do SAMU. Ele imobilizado com um colar cervical, eu tentando entender em que momento dos minutos anteriores a tela do meu celular se espatifara.                                                                             
— Já andou de ambulância? – pergunta a paramédica.
— Não – ele diz.
— E você? – brinco com ela.       
              
Já na sala do pronto-socorro, aguardamos atendimento em meio a pacientes com crises de asma, ossos quebrados e cortes misteriosos.
— Seu sobrenome é Barros? – pergunto.
— Não, por quê?
— Erraram seu nome na pulseira do seu braço.
— Que ótimo.
— Você fez cinema, né?
— Aham. E você escreveu um livro né?
— Aham. O que você curte de filmes?
— Gosto muito do Wes Anderson, sabe?
— Sei! Curto muito aquele…
— Isso.
— Eu também.
— Tem muita gente aqui?
— Oi?
— É que eu não consigo olhar pro lado com esse troço no pescoço.
— Ah! Tem umas quatro. O da sua esquerda parece estar desmaiado…
Chegam mais alguns. Pedem que eu aguarde na sala de espera, onde em meio a atendentes sobrecarregados e pacientes desesperados, um familiar ansioso encontra outro, já mais aliviado.
— ‘Tão costurando ele agora. Saiu a pele da mão todinha, veio parar aqui no braço!
— Mas graças a Deus não perdeu a mão!
— Quando eu entrei aqui, acredita que o segurança falou: “Tá procurando o rapaz da padaria? Esse aí perdeu a mão…” Pode?!
— Imagina a força que ele fez pra puxar o braço!
— Eu sabia! Quando falaram o que aconteceu, eu logo pensei: “alguma coisa emperrou na máquina e o Thiago foi lá consertar. É a cara do Thiago fazer isso!”
É a cara do Thiago…
Uma enfermeira me chama. Perceberam que o sobrenome de Luks não é Barros. A atendente sobrecarregada faz a correção.
Meu celular vibra. Um joinha de um número desconhecido surge na tela quebrada – o mesmo número que me ligara cinco vezes na madrugada anterior, quando a tela ainda não cortava meus dedos.
Quem é?
Antonio Filipe?
Sim. Quem é?
O senhor teve um celular roubado
em outubro de 2015?
[foto do celular]
[foto do B.O.]
Sim. Quem é?
Soldado Afrânio. Nós recuperamos o seu celular
numa operação ontem à noite.
Sério?! E agora…?
Pode comparecer à XXª DP com o B.O.
e retirar o aparelho.  Mas liga lá antes!
E parabéns por ter registrado o roubo.
Nossa. Obrigado!
De nada.
Viu, se o senhor quiser e puder
mandar um e-mail de agradecimento
ao batalhão, este é o e-mail: [e-mail]
[fotomontagem com celular, viatura e brasão]
A enfermeira me chama novamente. Seguimos para o raio-X. Passadas três horas desde o embarque na ambulância, apenas um sentimento toma conta de nós dois: fome.
O raio-X aponta o que a essa altura já tínhamos certeza: todos os ossos estão em seus devidos lugares.
— Mas, assim, eu não sou ortopedista, né? O ideal seria o senhor passar com o especialista antes de ir – informa o médico.
— Naaa, ‘tô de boa.
— Então é só ir até a sala 10 que a enfermeira tira o acesso pra você.
— Dói muito pra tirar – pergunta Luks à enfermeira, já na sala 10.
— Dói menos que pra colocar, né, meu filho. Vocês fazem cada pergunta…
Quem seriam “vocês”? Vocês homens? Vocês jovens? Vocês pessoas que caem do telhado?
Uma acompanhante agitada aparece à porta.
— Moça, minha filha ainda ‘tá com muita dor! O remédio não ‘tá fazendo efeito!
— VOCÊ NÃO ‘TÁ VENDO QUE EU SÓ UMA SÓ?! ELA VAI TER QUE ESPERAR! – brada a enfermeira enquanto arranca a agulha do braço de Luks.
Partimos.
Luks volta às atividades em meio a gritos de e aí, ‘tá tudo bem, não foi nada, mesmo? Eu ligo para a delegacia. Pedem para que eu ligue na noite seguinte, depois na manhã seguinte.
— Amigô, isso aqui é uma delegacia! Sabe quantos celulares tem aqui?!
Pedem que eu compareça pessoalmente. Compareço pessoalmente. Aguardo enquanto um rapaz faz um B.O. de uma mochila roubada.
—Volta daqui a 40 dias, quando o escrivão que guardou seu celular volta de férias. Vai saber em que armário ele guardou o celular…
Como diria Red ao final de Rita Hayworth and the Shawshank Redemption, eu espero que tudo dê certo.
Eu espero que fazer o B.O. seja o suficiente para recuperar um celular roubado.
Eu espero que a moça com dor tenha se recuperado.
Eu espero que Thiago possa voltar a trabalhar.
Eu espero que médicos e enfermeiros tenham sobrevivido àquele turno, e aos outros.
Eu espero que nosso trabalho tenha feito a diferença naquela comunidade.
Eu espero.
Luks, eu, os maratonistas e o telhado.
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Pornográfico

Desde pequeno eu sempre adorei matemática. Perceber o mundo em números, com uma lógica clara, com certos e errados definidos, sempre me fascinou.  Na sétima série, tive um professor (casado com a professora de Língua Portuguesa, já fazendo um prenúncio da minha vida futura…) que brincava com a turma ao ensinar planos cartesianos, dizendo ser aquele seu momento favorito: o momento pornográfico.
Brincar com a matemática também fazia parte do meu dia a dia, mas conforme fui migrando para o mundo das palavras, os números foram virando coadjuvantes, meras casas decimais a serem arredondadas.
Um mês antes de me mudar para Los Angeles, em 2009, comecei a registrar com papel e caneta meus pensamentos, aspirações, medos e tudo aquilo que preenchia minha cabeça prestes a embarcar em uma nova aventura. Poucos meses depois, quando os registros revelavam uma adaptação difícil à nova realidade, recorri aos números para avaliar cada um desses registros diários, buscando uma lógica, um sentido, uma progressão; buscando transformar o caos da vida em uma ciência exata, em uma curva ascendente que me provasse que cada dia era melhor que o anterior e me fizesse conseguir aproveitar aqueles que deveriam ser os melhores dois anos da minha vida. E foram.
Em 2011, voltei ao Brasil com uma missão: ter anos tão incríveis quanto aqueles nos EUA. Com todas as parciais anotadas, tinha um recorde a bater. Mas como superar anos com tantos eventos extraordinários? Com tantas viagens, tantos novos amigos, tantas novas experiências?
Os anos seguintes teriam seus altos e baixos, e, embora minha memória ainda lembrasse os anos nos EUA como os melhores em muito tempo, a matemática dizia o contrário. Fiz como meu professor de Matemática e usei o método pornográfico para entender, com a ajuda dos números que tanto me fascinam, os anos que as palavras registraram com tanto detalhe.
Cheguei a 2015 com um 2014 mediano nas costas, cheio de picos e vales, e sem grandes expectativas. Trabalhei mais. Viajei menos. Descansei menos ainda. Somem-se a isso dois assaltos, instabilidade profissional e a perda de um ente querido: 2015 tinha tudo para entrar para história como um ano esquecível. Até que a matemática provou que o ano não apenas tinha sido bom: tinha sido o melhor. 
Como um ano aparentemente tão trivial poderia ter sido tão incrível? Como minha memória poderia me enganar tanto?
Mas os números não me enganam. Olhei para trás e tentei deduzir a fórmula, reduzir a fração, chegar a um denominador comum. E concluí que a chave estava justamente ali: no olhar.
Notei que em 2015 olhei menos para fora e mais para dentro. Olhei mais para os picos do que para os vales. Não olhei com raiva. Olhei com gratidão. Olhei com desapego. Olhei com as lentes que escolhi olhar.
E ao buscar algo para justificar um ano surpreendentemente bom, não descobri nada extraordinário. Descobri que extraordinário é viver. É só olhar direito.
 
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