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Pauliceia desvairada

Eu adoro sair em São Paulo. Seja para um passeio, pra jantar ou ver um filme, sair de casa é sempre muito fácil. Muito seguro. E pouco estressante.

No último feriado dei um pulo no shopping para comprar uma capa antialérgica para o travesseiro. (O ar de São Paulo já ajuda, eu sei, mas prevenção nunca é demais.) Em menos de trinta minutos encontrei uma vaga. Fiquei radiante! A meros doze reais a hora, esperava um estacionamento completamente lotado.

Porque esse é outro fator que me incentiva a sair de casa: os preços convidativos. Mês passado fui a um restaurante com alguns amigos. Paramos o carro no valet a vinte e cinco reais. Na saída, o atendente pediu que fôssemos buscar o carro diretamente no hotel ao lado, afinal, chovia. Achei justo. Em menos de dez minutos manobramos nós mesmos o carro heroicamente estacionado em uma rampa entre um carro e um portão. Logo estávamos prontos para seguir rumo ao trânsito livre da madrugada paulistana.

Falando em trânsito, preciso parar e dizer: eu adoro a Rebouças! Raramente encontro caminho melhor para chegar à região central. O que eu gosto muito na Rebouças – e no trânsito paulistano em geral – é a constância. Ouvi dizer que existe uma medida chamada PMT – Política de Manutenção do Trânsito. Ela consiste em fazer obras, descargas e outras interferências no trânsito de forma a mantê-lo sempre constante, mesmo em períodos do dia em que as ruas deveriam estar desertas. Quer melhor iniciativa de segurança pública?

São Paulo é também a Meca das atividades culturais. Filmes, peças, exposições: tudo a um clique de distância, por uma pequena taxa de conveniência. Basta se programar com alguns meses de antecedência para usufruir das melhores produções culturais dos melhores assentos. E o melhor: sem filas!

Há algumas semanas resolvi visitar uma hamburgueria gourmet, dessa vez com amigos de outra cidade. Ainda bem que agora chamam de “hamburgueria”. Não ousaria levar meus amigos a uma mera “lanchonete”. Mais uma vez, o principal atrativo foi o preço: a quarenta e oito reais, não podíamos perder a oportunidade de experimentar o hambúrguer de queijo gouda. A batata era à parte, afinal não se pode esperar que uma hamburgueria tenha prejuízo. Ela chegou logo depois de terminarmos os sanduíches. Achei ousada essa maneira de servir os pratos fora de ordem e as bebidas trocadas. Deve ser tendência lá fora. (A julgar pelo nome em inglês, o lugar deve ser internacional.) Fiquei tentado a pagar o dobro de serviço pela iniciativa, mas me contive. Investi os dezoito reais economizados em uma bola de sorvete na sorveteria – perdão, “gelateria” – do outro lado da rua.

Recentemente resolvi viver uma aventura e parei o carro na rua. Nunca mais consegui fazer diferente. É impressionante como na quinta volta no quarteirão você repara em coisas que jurava não estar ali nas outras quatro. Você começa a realmente apreciar a cidade. Financeiramente, então, é um ótimo negócio! Raramente pago mais de vinte reais ao guardador autorizado da região. Mas o melhor são os lugares remotos, onde não posso contar com serviço salvador dos guardadores. Nesses casos, sou tomado por uma crescente adrenalina toda vez que me aproximo do local onde estacionei e a dúvida vai encurtando minha respiração: “será que ainda está lá?”. Meus amigos tentaram me tirar dessa: “Para no estacionamento, a gente paga!”. “Não é porque todo mundo faz que você precisa fazer também!” Eu sei, eu sei. Mas a vontade de vivenciar tudo isso a cada saída é mais forte do que eu. O que eu posso fazer? 

Esses pequenos prazeres paulistanos foram me conquistando – me viciando! – e agora é tarde para fazer alguma coisa. Por isso não troco essa cidade por nada. Por isso e pelo ar puro. 

Quem disse que São Paulo não tem verde? (Crédito: JF DIORIO/Estadão) 

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The unfriendly skies

Saí mais cedo de casa, já pensando que entre cruzar a cidade, devolver o carro alugado e despachar a mala, era possível haver imprevistos. Cheguei ao LAX com menos tempo livre do que previa, graças à demora na devolução do Nissan Versa – que foi parar na minha mão depois de o Ford Focus apresentar um problema no motor e de o Hyundai Elantra ficar sem pneu.
Procuro um ser humano no guichê do check-in da United, pronto para voar “the friendly skies”. Não há nenhum. Uma atendente se aproxima.
– Vai fazer check-in?
Não, não. É que eu gosto de visitar aeroportos e trazer minha mala pra passear.
– Sim.
– É tudo automático. Você tem que usar aquela tela ali – esclareceu ela com a cortesia típica de alguém radiante em estar trabalhando às 10h da noite de um domingo.
Coloco minha mala na balança. 56 libras. Um novo atendente se manifesta.
– O limite é 50. Você precisa tirar 6 libras.
Explico que meu ticket me permite levar 70 libras. Ele ignora. A primeira atendente retorna. Aquela, radiante em estar trabalhando às 10h da noite de um domingo.
– Qual é o problema?
– Meu voo é parte de um trajeto internacional para o Brasil, por isso posso despachar duas malas de 70 libras.
– Não, não pode. Se quiser discutir, vai falar com aquela senhora no guichê número seis.
Sigo com minha bagagem até o guichê número seis. Uma senhora de um metro e cinquenta se aproxima. Não sei dizer se era asiática, latina ou ambos. Vamos chamá-la de Nancy. Explico a situação a Nancy. Ela me olha com desdém. Ou melhor: com pena. “Esse idiota acha que vai embarcar com uma mala de 56 libras!” Ela pergunta qual o destino do meu voo.
– Filadélfia, com conexão em Houston.
– Então, “querido”, seu voo é local.
– Então, “querida”, o site de vocês informa que este trecho, por ser parte de uma viagem com origem e destino no Brasil, me permite despachar duas malas de 70 libras.
– Não, essa não é nossa política – responde ela, nada “friendly”.
Desisto de discutir e chego à conclusão de que é mais fácil transferir as 6 libras para minha bagagem de mão e encerrar o assunto.
Forço o zíper emperrado na bermuda e abro a mala no meio do saguão. Entre presentes e cuecas usadas, resgato alguns itens mais pesados, como dois potes de limpa-carpete em pó – os quais, descobriria depois, poderiam ter sido comprados com toda facilidade na cidade-destino.
Neste momento, Nancy se aproxima.
– Quando é mesmo seu voo para o Brasil?
– Semana que vem.
Eis que Nancy começa a gargalhar.
Não costumo ter pensamentos homicidas, mas Nancy soube resgatá-los.
– Do que você está rindo? – pergunto, contendo meus instintos.
Nancy ignora a pergunta e volta, sorridente, ao seu posto no guichê número seis. “Friendly”.
Respiro fundo, sento sobre a mala de mão para conseguir fechá-la e despacho a mala maior – não sem antes provar para o atendente número 2 que não, eu não precisava pagar pela mala despachada.
Corro para o controle de segurança, a essa altura já em cima do horário para o voo. Passo pelo raio-x. Um agente me chama para o canto.
– Senhor, precisamos abrir a sua mala. 
Aquela, que eu precisei sentar em cima para conseguir fechar.
Ele retira o pote de limpa-carpete em pó, é claro, e chama um novo agente, que ainda está em treinamento.
– O senhor está atrasado para o voo?
– Ainda não – respondo apanhando o relógio, o celular, o laptop, o casaco, os sapatos e a pasta de dente da esteira.
Luvas, máscaras, conta-gotas: todo um aparato é utilizado para provar que não, o limpa-carpete que deveria estar na mala despachada não é cocaína.
Enfim chego ao portão, já no meio do embarque, e, seis horas mal dormidas depois, chego ao destino. Reencontro minha mala de 50 libras na esteira e sigo ao encontro de minha irmã, que me aguarda. Já a caminho do carro, algo chama sua atenção.
– Por que sua mala tem pregos saindo pra fora?
– Que pregos? – pergunto, antes de notar a famigerada mala sem um dos pés.
– Quer voltar lá pra reclamar?
Retorno ao balcão de malas perdidas e aguardo enquanto uma funcionária explica a um passageiro do meu voo que sua mala pode estar em Nova Iorque, na Califórnia ou no Alasca.
– Posso ajudar?
– Sim. Vocês quebraram minha mala.
Ela observa o dano.
– Seu voo era nacional ou internacional?
Como é possível que uma pergunta tão banal tenha se tornado tão complexa nas últimas horas?
– Nacional – arrisco.
– Então, é que para voos nacionais a companhia não cobre danos nas rodas, nos pés o nas alças. Só na estrutura.
– Bom, na verdade, esse voo é parte de um ticket internacional…
Ela checa no computador. Pergunto qual a lógica por trás de tal política.
– It’s business – ela responde com um sorriso cúmplice. O ticket internacional é mais caro, logo, tem cobertura maior.
Ela desaparece por alguns minutos e retorna com uma mala nova em folha. Pela segunda vez em 12 horas, abro minha mala no meio do saguão e transfiro os presentes e as cuecas usadas para a mala nova. A funcionária parte com a minha, que será consertada e repassada a algum felizardo que tiver sua mala destruída em um voo “friendly”.
Chego em casa e logo acesso o site da companhia, fazendo uma reclamação formal sobre o atendimento “friendly” de Nancy e sua trupe, indignado com a falta informação de toda equipe. “Humilhado! Desrespeitado! Decepcionado!”, para destacar algumas palavras. Drama!
Uma semana depois, já de volta ao Brasil, recebo a resposta da United, com um pedido de desculpas pelo comportamento de Nancy, porém afirmando que “após uma análise cuidadosa do meu itinerário, foi constatado que a política de bagagem aplicada estava correta.”
Respondo, frustrado, encaminhando a informação dada pelo próprio site da companhia, provando que eu tinha razão. Observo minha mala nova, buscando consolo. Mas meu esforço é em vão.

Já posso ouvir Nancy gargalhando, triunfante, em frente ao guichê número seis, enquanto aguarda sua próxima vítima, que espera, inocente, voar “the friendly skies”.
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Cem anos sem solidão

Hoje minha avó faz 100 anos.
Cem. Anos.
Paremos aqui um instante. Ter 100 anos significa ter nascido antes de existirem Copas do Mundo. Antes de inventarem a televisão. Antes de existirem voos comerciais.
Significa ter vivido as duas Guerras Mundiais.
Acompanhado vinte e duas Olimpíadas.
Visto nove Papas.
Significa também que TODAS as pessoas mais velhas que conheceu já não vivem mais…
Conhecer alguém com cem anos também incita à inevitável pergunta: qual o segredo?
Minha avó nasceu na Itália e provavelmente teria sido freira, não tivesse conhecido meu avô e vindo para o Brasil – em uma época em que dizer adeus significava, mesmo, dizer adeus.
Assim, desafiando todas as expectativas de quem observa a pequena senhorinha na missa das sete, minha avó viria a ser uma das pessoas mais ousadas que já conheci.
Teve um marido, quatro filhas, dez netos e onze bisnetos. Insistiu em morar sozinha dos 66 aos 96 anos, nunca teve um celular e dizia sem pudor quando não gostava de um presente. Quer ousadia maior?
Recentemente sua mente deixou de acompanhar seu espírito e sua lucidez começou a se esvair, mas não sem antes termos esta conversa, supostamente trivial:
– Tá tudo bem com você?
– Tudo sim, Nonna.
– Tá gostando do trabalho?
– Tô sim.
– Porque se não estiver, vai pro próximo! Só não fica parado. Não tá bom? Segue em frente!
– Pode deixar, Nonninha.
– Sabe, eu posso te dizer: eu fiz tudo o que queria na vida… Não me arrependo de nada!
Demorei alguns instantes para absorver a magnitude da afirmação.
Se já são pouquíssimos os centenários no mundo, o que dizer dos que vivem um século podendo dizer o mesmo?
E então me pareceu claro que o segredo para viver mais tempo é simplesmente viver mais.
Nonninha intrigada com meu iPhone.
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A Copa do mundo é minha

Eu nunca fui muito fã de futebol.

Brincava de gol-a-gol quando era pequeno, cheguei a fazer escolinha na segunda série… mas parei por aí.

Mesmo assim, eu adoro a Copa. Sempre gostei da ideia de boa parte do mundo com os olhos voltados a um único evento – que não fosse uma guerra ou um acidente de avião.

Minha primeira Copa de verdade foi a de 94. Lembro-me de praticamente todos os jogos, a maioria deles visto com os vizinhos do prédio, com uma overdose refrigerante e amendoim japonês, seguida quase sempre de uma leve dor de barriga.

O empate com a Suécia na primeira fase, a cotovelada do Leonardo nas oitavas, o gol “cala a boca” do Branco no jogo tenso contra a Holanda… E, é claro, o inesquecível pênalti de Baggio e os gritos de “É tetra!” de Galvão Bueno. Mal sabia eu que 17 anos depois estaria naquele mesmo estádio, assistindo – veja só – a um jogo de futebol americano.

Até hoje tenho guardada a camisa do Brasil (que não era do Brasil, mas de algum banco ou empresa de tintas) com todos os nomes dos vizinhos assinados, consolidando em um pedaço de pano aquele mês tão inesquecível.

Vinte anos e um título depois, chega mais uma Copa. Surgem as legiões de fanáticos, com orgulho de serem brasileiros; surgem os pessimistas, a espera do caos aéreo, dos ingressos falsos e dos turistas assassinados. Surgem os bolões – impossíveis de acertar. E surgem também as intensas trocas de figurinha.

Como crianças na hora do recreio, de uma hora para outra, marmanjos começam a se reunir nos bares, no cafezinho, na mesa de trabalho, ávidos pelos cromos faltantes.

Comecei a colecionar o álbum quando senti que precisava de uma atividade que rompesse o ciclo computador-do-trabalho/celular/computador-de-casa. Qualquer atividade offline me pareceu atraente, e quando vi um álbum jogado na casa dos meus pais, achei que tinha encontrado a resposta.

Na produtora onde trabalho, em um andar com 300 funcionários, a máfia das figurinhas rolou solta. Bolos presos em elásticos passeavam de mesa em mesa, com homens e mulheres, de 20 a 50 anos, cada um a sua maneira, checando os números que faltavam numa folha de papel, num aplicativo ou num post-it.

Imperava o sistema de confiança. “Toma, eu peguei 6.” “Beleza, eu peguei 10. Pega mais 4 aí.” “Não precisa, depois a gente acerta.”

Sem perceber, passei a conhecer uma pessoa nova a cada dia. Passei a dar mais bom dia.

Descobri que uma colega é polonesa; trocamos dez figurinhas e conversamos sobre o jogo de vôlei entre nossas seleções, que ocorria ao vivo naquele momento (sim, existiam outros jogos rolando além da Copa.) Descobri que um colega estudou documentário na Argentina; me contou que dirigiu um curta-metragem sobre a morte e me prometeu conseguir a figurinha 34.

Outro colega procurava freneticamente a figurinha 241 – a última que faltava. Todo o andar se uniu em busca pelo derradeiro cromo. Ganhou a figurinha de presente de um funcionário a 18 baias de distância.

Dos odiadores de plantão, ouvi diversos comentários do tipo: “Que absurdo! Onde já se viu? Um monte de marmanjo trocando figurinha na hora do almoço!”

Seria melhor um monte de marmanjo isolado ao telefone?

Nos dias de jogo, a festa era certa. Mesmo com trânsito, mesmo com 7×1, dia de jogo era dia de sorriso. Era dia de encontrar os amigos, de torcer, de fazer charutinho de kafta com gorgonzola na churrasqueira e até de conhecer gente nova.

Foram 32 dias, 64 jogos: 64 chances de quebrar a rotina, de viver um dia diferente dos outros 333.

Pra mim, a Copa é isso. Seja no Brasil, na Rússia ou na Eritreia, a Copa tem pouco a ver com futebol. Tem a ver com as pessoas. Tem ver com os momentos.

Eu já costumo interagir bastante com as pessoas ao meu redor, já costumo festejar os dias mais cinzentos. 

Imagina na Copa! 


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No pain, no gain

Hoje faz seis semanas que uma dor de cabeça me acompanha. É uma dorzinha leve que começa na nuca, passa pelas têmporas e se encerra no rosto.
Enquanto passeio por médicos e faço exames para saber o que acontece, começo a lembrar de todas as dores que já senti.
A primeira vez que me lembro claramente de ter sentido dor foi aos cinco anos de idade. Estávamos em uma viagem de família na casa de uma prima, prestes a seguir para outra cidade. As malas prontas, janelas sendo fechadas. Eu aguardava no topo da escada. Minha irmã tentava fechar a porta do quarto, mas não conseguia. Ela fazia força, mas a porta não fechava. “Tem alguma coisa prendendo a porta!”
Era a minha mão.
Esmagada ao lado das dobradiças, entre a porta e o batente, minha mão impedia que a porta se fechasse. Minha irmã, de costas, não me via. Eu, em choque, não gritava. Não me lembro muito do que aconteceu depois. Lembro que eu chorava, lembro que minha mãe acariciava minha mão no táxi. Mas não me lembro da dor em si.
Alguns anos depois, correndo pelo playground do prédio, senti que tinha pisado em algo estranho. Chovia, e a água lavou o pouco de sangue que saiu da ferida. Dias depois descobri que tinha um caco de vidro alojado no pé. Tentamos a farmácia, mas um mero toque já me fazia tremer de dor. Ficou claro que eu iria precisar de anestesia. Fomos ao pediatra. “Só uma picadinha e você não vai sentir mais nada”.
Dessa dor eu me lembro muito bem.
Lembro como eu esmagava a mão da minha mãe, que devia estar em tanta dor quanto eu. Lembro também da cara das crianças da sala de espera, depois de ouvirem meu grito.
Conforme fui ficando mais velho, as dores físicas foram ficando mais comuns. Teve a luxação no braço jogando bola, teve a pedra no rim. E, talvez por isso, meu corpo tenha criado seu próprio mecanismo de defesa: o ataque de riso.
É chegar perto de uma agulha ou começar a sentir uma dor mais forte, pronto: não consigo controlar a risada. Se estou tirando sangue, a enfermeira pergunta, entretida: “Tá tudo bem?” Certa vez em uma cirurgia para a retirada de um nevo nas costas, a dermatologista ria comigo: “Se você não parar de rir eu não consigo cortar!”
Com a idade, começaram a vir também as outras dores. Aquelas que não são físicas. Aquelas que, nem de longe, provocam ataques de riso.
Tem a dor da saudade. Do prédio que você já não mora mais, da escola que foi demolida, dos lugares que você já não visita, da rotina que você gostava e já não existe mais. E principalmente das pessoas. Daqueles amigos que eram parte tão íntima da sua vida e que ficaram pra trás; daqueles que ficaram longe. Mas essa dor é mais doce, deixa um gosto bom.  É uma dor de “ah, que pena que acabou!” e pra essas não tem melhor remédio do que o tempo.
Tem a dor da espera. Do resultado de uma prova, de um exame. Lembro o dia da divulgação da lista de aprovados no vestibular. Eu sentado no computador, ouvindo dezessete vezes a mesma música, atualizando a página do UOL de 3 em 3 segundos. A espera também pode ser por uma pessoa que não chega, que não liga, que não manda mensagem. Quantas vezes ainda não ficaria grudado ao telefone, checando a tela a cada piscada? Mas essa dor, como um sabor muito salgado que é eliminado com um simples copo d´água, pode passar em menos de um segundo, com o resultado que sai, a pessoa que chega, o telefone que toca.
Tem a dor do arrependimento. Essa é azeda, vai corroendo por dentro. Faz você viver e reviver aquele dia, aquela atitude, calculando tudo que poderia ter feito diferente. Mas essa não tem muito remédio: é aceitar que o que passou, passou, o que está feito, está feito e que nenhum exercício de ficção ou universo paralelo vai alterar o que já ficou pra trás.
E tem a dor da traição. Não só dessas que tem amante no meio. Traição dessas que você se sente enganado, seja qual for a situação; dessas que destroem suas expectativas, que tiram sarro de tudo aquilo em que você acreditava, como um adolescente cruel que ri de uma criança que ainda acredita em Papai Noel. É aquela dor que te deixa revoltado com o outro, consigo, com o mundo; que te faz querer deitar na cama, abraçar o cachorro e não sair mais de lá. E você nem tem um cachorro. Essa dor é a mais amarga. Deixa um gosto difícil de eliminar. E pra ela só tem um remédio: o perdão.
Para essas dores, o meu analgésico paliativo são as comédias, que provocam aqueles ataques de riso que meu corpo ainda não aprendeu a conceder. E não é que até as comédias precisam de momentos sem risos para valorizar a piada?
Como muitas das coisas que queremos evitar, as dores têm uma função importante: fazem a gente crescer. Elas mostram como a gente é forte; como a gente sempre consegue começar de novo. Mostram uma capacidade de superação que a gente não imaginava ter.
E, acima de tudo, mostram como é importante valorizar os momentos sem dor.
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Minha vida como Walter Mitty

Outro dia decidi desbloquear meu aparelho de celular. Desde que voltei dos EUA, há mais de dois anos, meu Motorola i465 estava guardado na gaveta com todos os apetrechos que funcionavam perfeitamente: carregador de parede, de carro, cabo de dados, fone de ouvido etc.

Decidi que era hora de ele voltar a viver e levei-o a uma assistência técnica.

– Olá, vocês por acaso conseguem desbloquear este aparelho pra que ele funcione no Brasil?

Simpática, Janaína disse que precisaria fazer alguns testes e me daria um retorno no dia seguinte. Comprei uma capinha para o meu iPhone e parti.

No dia seguinte, ela me retorna:

– Conseguimos sim. Vai ficar 95 reais.

Hesitei. Não precisava daquele aparelho para nada, mas sentia que ele precisava existir e exercer sua função de conectar pessoas. Quantas mensagem já não haviam sido trocadas nele! Quantas ligações, quantos almoços combinados, cinemas agendados… Não poderia privá-lo de tantas outras aventuras que ele ainda poderia vivenciar. Aceitei.
Na semana seguinte, Janaína me recebe com o aparelho em mãos. Ela testa um chip da Oi. Não funciona.

– É, então, ele só funciona como Nextel, mesmo.
– Oi?
– Esse aparelho é só Nextel – diz ela, segura.
– Não, não é. Eu sempre usei como um aparelho normal.

Surge Gustavo, o irmão/colega/chefe/namorado/cara-que-resolve-pepino.

– Olá. Qual é a situação?
– Eu deixei esse celular pra desbloquear, mas ninguém me avisou que só seria desbloqueado para Nextel.
– Bom, mas isso era óbvio.
– Oi?
– Esse aparelho é um Nextel, não é um celular.
– Ah, não? E como é que eu usava como celular comum?
– Mas aqui no Brasil é só Nextel.
– E vocês não pensaram em me dar essa informação quando eu deixei o celular aqui e perguntei: “Dá pra desbloquear?”
– Mas isso era óbvio.

Notei que a argumentação não iria muito longe. Frustrado, decidi tentar um acordo quanto ao valor.

– Vocês me dão um desconto, já que o serviço foi incompleto, e ficamos todos felizes.

Mas isso, é claro, não era óbvio pra eles. Vencidos pelo cansaço, consegui o desconto e parti, resignado à situação.
No dia seguinte, levo o aparelho a um amigo. Ele insere seu chip Nextel. Não funciona. Tento outro chip. Nada. É óbvio…

Nesse momento, como Ben Stiller em A Vida Secreta de Walter Mitty, uma realidade paralela forma-se na minha frente. 
Me imaginei voltando à loja, revoltado, onde Janaína e Gustavo ririam da minha cara, recusando-se a refazer o serviço, dizendo: “Você deveria ter testando um chip Nextel antes de sair da loja. É óbvio.” Me imaginei roubando as capinhas de celular penduradas na parede e saindo da loja vingado. Eles viriam atrás, mas já seria tarde – meu carro já estaria disparando rua abaixo. Pelo retrovisor, eu os veria gritando revoltados enquanto eu sorriria. Na esquina seguinte, um reviravolta: policiais me alcançariam e me trariam de volta. Janaína e Gustavo me acusariam de tê-los roubado. Eu me faria de ofendido e mostraria o comprovante de débito do cartão, provando que havia pago pelas capinhas – que venderia em segredo e recuperaria o valor perdido e um pouco mais. Indignados, os pombinhos refutariam inflamados que aquele valor se referia ao desbloqueio. “É óbvio!” Nesse momento, eu sacaria o celular triunfante e mostraria ao policial: “Que desbloqueio? Meu celular está bloqueado! Não sei do que eles estão falando!” Os policiais sairiam da loja – não sem antes ralhar com o casal – e me pediriam desculpas. Eu daria um sorriso triunfante e partiria de carro, com o porta-luvas recheado de capinhas de celular.

Mas a vida às vezes é anticlimática e faz com que Gustavo peça desculpas pelo ocorrido e devolva o celular devidamente desbloqueado dias depois.

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