Sem categoria

Diálogos que a gente não inventa

Quando as pessoas descobrem a minha profissão, é comum dizerem: “nossa, você precisa ser muito criativo, né?”

Sim, é.

Mas uma das maiores qualidades que um roteirista pode ter, mais do que saber “inventar” coisas, é saber observar o mundo à sua volta; é saber ouvir.

Crianças são particularmente férteis no que diz respeito a conversas incríveis que uma mente isolada do mundo jamais poderia inventar.

O que segue são episódios, fragmentos, comentários, envolvendo adultos, crianças, familiares, desconhecidos: histórias que um ouvido desatento deixaria passar, mas que um roteirista sempre guarda – mesmo sem perceber – em algum lugar do seu arquivo mental.

* * *
PROFISSÕES
Vicky, 6 anos de idade:
– Tio Filipe, você trabalha onde?
– Num escritório.
– Não, mas assim, você trabalha de quê?
– Eu sou escritor.
– Mas você trabalha de quê? Por exemplo, o papito trabalha de contas. Você trabalha de quê?
– Então, Vicky, eu escrevo. Sabe esses livrinhos que você lê?
– Ahã.
– Então, tem uma pessoa que escreve esses livrinhos. Eu escrevo coisas também, mas em vez de livro, é o que passa na TV.
– Ah, tipo porcaria?
SOZINHA NO CINEMA
– Desculpa, tudo bom? Nós dois temos lugares separados, e como tem um lugar vazio à sua direita e um à sua esquerda, seria que você poderia pular uma cadeira pra gente poder sentar junto?
– Ai, desculpa… Não. É que eu gosto de sentar BEM no meio.
DICIONÁRIO
– Mãe, eu não consigo segurar a faca com essa mão. Eu não sou castanha!
– É “canhota”, Vicky.
TENDÊNCIAS
– Tio Filipe, sua privada é ridícula.
– Por que, Vicky?
– Porque ela é preta!
– E qual é o problema?
– E tem um livro do lado! Que ridículo.
A irmã de 8 anos intervém:
– Para de falar isso, Vicky! Você nem sabe o que é “ridículo”.
– Claro que eu sei! Ridículo é o que tá na moda.
FÉRIAS FRUSTRADAS
No aeroporto, a funcionária faz o check-in de um senhor de idade:
– Aqui estão os cartões de embarque. O voo é às 15h. Já podem ir pro portão porque o embarque abriu às 13h30.
O senhor vira para a esposa:
– Já perdemos o avião da uma e meia. Agora tem que esperar passar o das três.
PÉ NA BUNDA
– Tio Filipe, e aquela moça que vinha aqui em casa às vezes?
– Era minha namorada, mas a gente não namora mais.
– E por que você não quis mais ela?
SOLUÇÃO
– Tio Filipe, por que você não casa com a Tia Sicilia?
* * *
No fim das contas, as histórias já estão todas contadas. Basta encontrá-las.

As personagens principais

Padrão