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Colega de quarto

Semana passada entrou em cartaz por aqui um filme chamado The Roommate.  Não à toa, é um filme de terror.
Eu gosto muito dos meus dois rommates, de verdade. Se tivesse que escolher novamente, escolheria os mesmos dois. Mas ainda assim, manter uma boa relação com colegas de casa é uma arte que requer paciência, compreensão, saber ceder. E requer também uma habilidade monumental em saber quando calar e quando mandar tomar no &#.
Eu sempre pendo pelo lado do calar.
O chão tá empoeirado? Prefiro limpar a entrar na discussão “de quem é a vez, mesmo?” O fogão tá sujo? Passo um pano e em dois minutos tá limpo de novo. Você quer ver um filme e tem alguém tocando bateria? Põe um fone e tudo bem. Acabou o detergente? Custa $2, eu compro de novo.
Sem discussão, sem stress. Nem tudo vai ser do seu jeito, é natural.
O que não é natural é o completo descaso para com os recursos naturais e a propensão ao desperdício dos meus colegas de casa. Segundo o Greendex, o Brasil é o segundo país mais preocupado com a sustentabilidade, atrás apenas da Índia.
Os EUA são os últimos.
Aqui em casa, com o gás, que ironicamente é a energia mais eficiente, o uso é mais consciente. Vai entender… Evita-se usar o aquecimento central com muita frequencia, a lareira só está ligada quando estamos na frente dela e o forno quase nunca é esquecido ligado. Quase nunca.
Aí vem a luz. Sair do quarto e deixar a luz e a televisão ligadas é de lei.  É claro que eu também faço isso às vezes – quando vou pegar alguma coisa na cozinha. Não quando vou ao cinema.
Logan sempre se lembra de ligar as luzes exteriores da casa antes de dormir. E jamais se recorda de desligá-las pela manhã. Aliás, em um dia de sol (que em Los Angeles são todos), pra que abrir a cortina se você pode acender a luz?
Tem também a nossa incrível geladeira fantasma que abre sozinha! Você pode acordar e ela já estar aberta, com o leite quentinho esperando por você. Enquanto não consertamos a borrachinha, usamos uma fita adesiva. Mas só quando eles lembram, afinal, “geladeira aberta nem gasta tanta energia.”
Segue um exemplo da rotina de Logan ao voltar do supermercado.
– Abrir a geladeira;
– Descarregar as compras do carro;
– Calmamente tirar as compras das sacolas (não vou nem entrar no mérito das sacolas reutilizáveis que jamais saem do armário…);
– Colocar cada produto no seu devido lugar no armário;
– Colocar um bife na geladeira;
– Colocar mais produtos no armário;
– Jogar as sacolas plásticas na lata de lixo orgânico (que fica ao lado da lata de lixo reciclável e do armário de sacolas plásticas);
– Fechar a geladeira.
Mas com a luz, na maioria das vezes, também prefiro praticar o calar. Desligar um interruptor demora meio segundo. Discutir, demora muito mais. E desperdiça ainda mais energia.
Agora o que me tira do sério é a água. Ah, a água!
A primeira vez que notei a propensão para o total descaso com a água foi em uma viagem que fizemos juntos antes de mudarmos para a mesma casa. Ficamos em um hotel de mil oitocentos e bola, em que a pia ficava dentro do quarto. Foi então que reparei que Logan escovava os dentes com a torneira ligada. Fiz um comentário, meio brincando. Ele fez outro, meio brincando. E a torneira continuou ligada pelos longos minutos em que ele passeava pelo quarto com a escova nos dentes.
Agora que moramos juntos, é possível ouvir a torneira ligada em qualquer lugar da casa. Dizem que o que os olhos não veem, o coração não sente. Mentira! Meus ouvidos sentem do mesmo jeito. Mas quando vejo – é verdade – é bem pior. Como por exemplo a torneira da cozinha.
Segue um exemplo da rotina de Logan ao lavar uma panela.
– Ligar a torneira quente;
– Esperar um minuto até que a água esquente (porque “você sabia que o que mata os germes é a água quente e não o sabão?”);
– Forrar a panela de detergente e molhá-la discretamente;
– Esfregar a panela com uma escovinha 23 vezes menos eficiente que uma esponja normal enquanto a água escorre pelo ralo;
– Colocar a panela para secar;
– Colocar comida para o cachorro, que clama por sua atenção;
– Abrir a geladeira para pegar o alimento que será cozido na panela recém-lavada;
– Pegar no armário outro alimento que será cozido na na panela recém-lavada;
– Fechar a geladeira;
– Fechar a torneira.
Se estou na cozinha, saio de perto. Se estou no quarto, onde ainda posso ouvir a torneira, ligo uma música. Algo do tipo Faroeste Caboclo, que dure toda a lavagem.
Mas ontem, algo me tirou do modo “calar”: a lava-louças.
Eu consigo ignorar o fato de que “eficiência” parece ser uma palavra aplicada única e exclusivamente a roteiros, e que as louças são colocadas na máquina de forma absolutamente aleatória, ou de modo a aproveitar o espaço o mínimo possível. Novamente, é mais fácil levantar a tigela e acrescentar mais três pratos do que discutir. (E você de há de concordar que eu seria muito mala em reclamar quanto à posição das tigelas na lava-louças).
Agora o que eu não consigo ignorar é quando Logan, sem perceber que a máquina está limpa, acrescenta um garfo sujo, e a liga novamente.
A primeira vez que ele fez isso, não falei nada. Na segunda, avisei-o. “Presta atenção.” Ele fez isso uma terceira vez. Uma quarta. Uma quinta. Ontem foi a sexta vez.
Respirei fundo e, mais uma vez, fui até ele.
– Cara, você prescia prestar atenção, já é a sexa vez que você faz isso!
E qual foi a resposta?
– COMO É QUE EU VOU SABER SE A MÁQUINA TÁ LIMPA?
Agora me diz, como você responde a uma argumento desses?
a) manda tomar no &^; b) manda tomar no &^%#; c) manda tomar no *$%^@$%^&*
Optei por d) nenhuma das anteriores, e respondi civilizadamente.
– É só você olhar! Não é tão complicado.
E qual foi a resposta?
– É COMPLICADO, SIM. VOCÊ QUER QUE EU INSPECIONE A LOUÇA PRA SABER SE ELA TÁ LIMPA?
A, B, ou C?
Hesitei seriamente entre B e C, mas respirei fundo e deixei em branco.
Mesmo que quisesse responder, o inglês não sairia. Há uma cena em O Discurso do Rei, em que Bertie discute com o irmão, que retrata perfeitamente essa sensação.
Meu pai sempre foi preocupado com o consumo de água e energia de casa.  Ele é do tipo que anda pela casa apagando as luzes – inclusive quando você ainda está dentro do quarto.
Agora eu entendo.
É verdade que quando você começa a pagar suas próprias contas, você começa a ver as coisas de um modo diferente. Mas acho que é mais do que isso. É uma questão de consciência. Porque falando de forma realista, esse gasto extra de água e luz, dividido por três, no fim do mês, não chega a ser um rombo financeiro. E é por isso que ninguém dá bola.
Paga-se pelo conforto. Ligar e desligar a torneira constantemente é um pé no saco. Pagar $7 a mais no fim mês é bem mais confortável. E f%4@-se se água do mundo está acabando.
Eu tento fazer a minha parte, e faço o possível pra que as pessoas ao meu redor façam também, mas tem um limite até onde você pode ir.
E depois, eu também tenho muito a aprender com eles. Não dá pra levar tudo a ferro e fogo, brigar por tudo, querer tudo do seu jeito, mesmo quando você está certo. Relaxar um pouco às vezes também faz bem. E eles também têm de aturar minhas idiossincrasias. 
No final, tudo se resume a uma única questão: ser feliz ou ter razão?
Só sei que o detergente da lava-louças acabou. E eu é que não vou comprar.

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