Sem categoria

Histórias que poderiam ter sido

Certa tarde, há muitos anos, estava com meu amigo Bob na biblioteca da faculdade de veterinária procurando um livro sobre a reprodução dos avestruzes para uma amiga quando uma garota sentou-se na mesa ao lado. Três segundos depois, Bob estava apaixonado – sem sequer haver trocado olhares com ela. Após alguns minutos de discussão, Bob decidiu que seria prudente não informá-la sobre os filhos que teriam juntos, nem sobre o nome que dariam ao cachorro, nem sobre o tamanho de sua futura casa – ou de certas partes de seu corpo.
Minutos depois, a garota se foi – sem saber que destruíra um lar imaginário – e Bob, parafraseando Manuel Bandeira, suspirou: “Ah, histórias que poderiam ter sido…
E esse virou nosso jargão: quantas “histórias poderiam ter sido” se tivéssemos tomado uma decisão diferente, se tivéssemos agido, se tivéssemos virado à esquerda, se tivéssemos ido àquela viagem. Quantas histórias poderiam ter sido se decisões tomadas por quem sequer conhecemos tivessem sido diferentes.
Durante meu intercâmbio para Austrália no Ensino Médio, conheci uma garota suíça com quem conversava vez ou outra. Às vezes nos encontrávamos no ônibus, às vezes nos víamos no intervalo das aulas da extinta Beacon Hill Technology High School enquanto tomávamos o cremoso leite com chocolate de caixinha que só a escola oferecia. Sempre senti que havia algo ali, mas o auge dos meus dezesseis anos e de minha bananisse me impediram de tomar qualquer atitude. Um dia antes de voltar ao Brasil esbarrei com ela na escola e disse que estava de partida. Desapontada, ela anotou seu endereço em um pedaço de papel. “Agora é minha chance!”, pensei…
…Só pensei.
Nos abraçamos, nos despedimos, e nunca mais nos vimos. Nunca mais nos falamos.
Já no avião, notei o papelzinho ainda no bolso da calça… e nele havia algo mais que o endereço; algo que me fez acreditar que aquela história, de fato, poderia ter sido…
*  *  *
Meses antes de me mudar para os EUA para estudar no AFI, conheci meus futuros colegas pela internet, entre eles um americano chamado Andrew. Após nos certificarmos (na medida do possível) de que não éramos serial-killers e/ou fazíamos parte de uma seita macabra, decidimos que seríamos roommates. Durante os meses seguintes conversamos várias vezes por semana, descobrimos interesses em comum, planejamos viagens para o Alasca, decidimos que ficaríamos em um albergue assim que chegássemos e procuraríamos um apartamento perto da escola. Enfim, nos tornamos amigos.
Uma semana antes de sair do Brasil, recebi um longo e-mail de Andrew me dando a triste notícia que ele não poderia mais ir ao AFI.

Com meus planos escorrendo pelo ralo, tive de encontrar novos roommates às pressas e fui morar com dois completos desconhecidos – um deles dormindo na sala. Durante todo o primeiro (e mais difícil) mês em L.A., só pensava em como tudo seria mais fácil se tivesse saído como planejado. Como eu queria que aquela história tivesse sido…

Mas o que eu não sabia é que se aquela história tivesse sido, meses depois eu não teria feito uma inesquecível road trip de 5.000 quilômetros ao redor do Grand Canyon com meus inesperados amigos; não teria conhecido o Texas, nem a família de Logan, nem teria vivido com seu fiel escudeiro Lebowski.
Só fui conhecer Andrew pessoalmente um ano depois, de passagem por sua cidade por algumas horas. Durante um almoço corrido em uma tarde incrivelmente quente, contei apressadamente as histórias do AFI – histórias que, pra ele, poderiam ter sido. Em contrapartida, Andrew me contou sobre sua vida fora do AFI, que incluía, entre outras aventuras, uma fascinante viagem à Antártica – a história que, pra ele, foi.
Inevitavelmente, cada pessoa que conheço, cada nova amizade que se forma, me faz pensar nas histórias que poderiam ter sido. Como teria sido conhecer aquela pessoa anos antes? Ter ido à sua formatura? Àquela festa de aniversário? E como teria sido não conhecê-la? Não ter ido àquela viagem?
Inevitavelmente, cada pessoa que conheço, cada nova amizade que se forma, também me leva à assustadora conclusão de que há pessoas no mundo que eu jamais vou conhecer; de que há amizades que jamais vão se formar: são histórias que eu nem sequer sei que poderiam ter sido.
E é durante esse devaneio sobre as pessoas que não vou conhecer, os lugares que não vou visitar e as experiências que não vou ter que tudo surpreendentemente volta a fazer sentido: é quando me lembro de que sou escritor, e de que o escritor vive em Pasárgada. É quando me lembro de que a cela do meu mundo real tem uma janela para o infinito.
É quando me lembro de que, no meu mundo, todas as histórias podem ser.

(Bob casou-se hoje com a mulher de sua vida e está de mudança para os EUA. Vai viver a história que tinha de ser.)

Padrão
Sem categoria

The Young Storytellers

Quando o co-criador do seriado “Glee”, Brad Falchuk, veio ao AFI e mencionou, quase sem querer, a fundação que havia criado – The Young Storytellers Foundation –, não imaginava que em breve me envolveria com um de seus projetos. E muito menos que ele se tornaria uma das coisas mas sensacionais de que já fiz parte.
O fundação foi criada em 2003 com o objetivo de “desenvolver a alfabetização através da arte de contar histórias.” Diversos programas são oferecidos, entre eles o que foca em alunos do 5º ano.
A ideia é bastante descomplicada: um head mentor, dez crianças e dez mentores (um para cada criança) que se encontram em oito reuniões semanais para escrever um pequeno de roteiro de 5 páginas, a ser encenado na nona semana no auditório da escola. Simples, não?
Agora adicione à formula a amizade e o companheirismo que surge entre os mentores; o maravilhamento das crianças a cada palavra que escrevem; e o prazer de ver atores de Hollywood improvisando despretensiosamente no auditório de uma escola pública. E eis que surge algo mágico.
Mal sabem as crianças que aprendemos tanto quanto elas. O ego fica na porta, assim como os palavrões, os pensamentos negativos, as palavras de desencorajamento. Cada um de nós assume uma nova identidade – Bowling Brian, Jovial Jon, Mystical Mary e assim por diante. Os atrasados dançam a “chicken dance” e ninguém se importa em parecer ridículo diante de vinte crianças – sim, vinte, porque ali todos viram criança – que se divertem às suas custas.
A cada semana – em meio a brincadeiras de integração e breves apresentações de conteúdo – um pedacinho da história era construído, sem qualquer censura. Príncipes que se unem a ratos para combater uma bruxa; super-herois que saem do mundo dos quadrinhos para salvar a humanidade; anoréxicas que se unem a vítimas de câncer e encontram a felicidade: tudo é válido, desde que não haja violência.
Mas sem dúvida o grande valor de tudo isso não é o resultado, e sim o processo. Ao expor suas ideias, cada criança expõe um pouco de si mesma, se abre para o mundo e, talvez pela primeira vez, sente que tem uma voz. Mais do que isso: sente que alguém quer ouvi-la.
“Hawaiian” Ailani, a menina por quem fui responsável no segundo semestre que participei do programa, era provavelmente a garota mais tímida do grupo. Raramente respondia às perguntas em meio aos colegas e jamais olhava alguém nos olhos. Ao decorrer daquelas semanas, enquanto criava sua história sobre o poder da amizade, Ailani começou a conversar mais, começou a falar mais de si; começou a sorrir.
“Flying” Filipe & “Hawaiian” Ailani no “Big Show”

Em nossa última sessão, nosso head mentor informou às crianças como seria o “Big Show” (como é chamada a apresentação final): contou que receberiam um crachá VIP, que entrariam em um tapete vermelho, que tiraríamos fotos, que atores de Hollywood se apresentariam individualmente para que cada uma delas escolhesse seu elenco, e que em seguida sua história seria apresentada para todo o 5º ano e seus convidados.

Foi então que Ailani me olhou nos olhos pela primeira vez e, sem conseguir conter a empolgação, perguntou:
– É verdade!?
– O quê?
– Que a gente entra num tapete vermelho e tiram foto da gente?
Era.
Padrão
Sem categoria

O grande Lebowski

Eu nunca gostei muito de cachorro. Minha mãe sempre teve um pouco de medo de cães e por isso sempre tivemos gato em casa. Sempre defendi os gatos: são independentes, tomam banho sozinhos e desde que tenham livre acesso à rua fazem suas necessidades sem qualquer auxílio.
Quando mudei de um apartamento nas proximidades de Hollywood para uma casa no subúrbio, Logan, meu roommate, sugeriu adotar um dos filhotes de sua Golden Retriever que daria cria em breve em sua cidade natal. Resolvi dar uma chance ao suposto melhor amigo do homem e algumas semanas depois fui apresentado a Lebowski, uma bola de pelos de apenas quarenta dias. Impossível não se apaixonar por aquele ser com patinhas quase do tamanho da cabeça que não conseguia descer escadas.

Já no primeiro mês com meu novo roommate canino, Logan foi viajar e tive que cuidar de Lebowski por um fim de semana. Foi naquele fim de semana que ele teve diarreia juntamente com uma crise de vômito. Às três da manhã. Como se retribuísse meus cuidados, algumas semanas depois, quando passei por uma cirurgia que me deixou de molho por algum tempo, Lebowski começou a correr para o meu quarto todas as manhãs, logo que acordava, para me dar bom dia.

No início deste ano, Lebowski foi castrado – como exige a lei em Los Angeles –, ficou com um hemotama gigante e precisou de cuidados especiais. Quando vi aquele bichinho indefeso cheio de curativos e com aquele protetor em volta do pescoço decidi que deixá-lo dormir na minha cama não seria assim o fim do mundo. Era minha vez de retribuir.

Os meses foram passando, Lebowski foi crescendo, aprendendo novos truques, destruindo todos os seus brinquedos e pulando freneticamente em cada pessoa nova que aparecia em casa para uma visita. À essa altura, Lebowski já era um grande amigo que tirava sonecas no chão fresquinho do meu banheiro nas posições mais bizarras; um amigo cujos pelos na minha colcha já não incomodavam mais. Um amigo que me fez achar os gatos um tanto quanto monótonos.

Na semana passada, após me despedir das centenas de amigos que fiz nos últimos dois anos, tive que dar o “até logo” mais difícil àquele companheiro que não sabia que aquela era a última vez que me via – pelo menos por um tempo.

Lebowski ainda corre para o meu quarto todas as manhãs. Mas eu já não estou mais lá.


Padrão
Sem categoria

Nine eleven

“Meu deus, já faz 10 anos!” foi a primeira coisa que me veio à cabeça quando me lembrei de que hoje é dia 11 de setembro. Com você também foi assim? Uma década! Loucura, não?
Depois me lembrei de uma garota que fazia boxe comigo e que fazia aniversário dia 11 de setembro. “Mancada, estragaram seu aniversário!” Tá certo, é uma p*** falta de sensibilidade pensar assim, mas… poxa, é seu aniversário. Todo ano! Não podiam ter esperado um dia a mais? Agora você vai sempre se sentir culpada por estar feliz no seu dia, fazer o quê!
Aí comecei a pensar que praticamente todo mundo se lembra do que estava fazendo quando ficou sabendo do atentado. Interessante pensar que existe um dia na linha do tempo em que gente do mundo todo se lembra do que estava fazendo. Não lembro o que fiz no dia 9, no dia 10, ou no dia 23, mas me lembro muito bem do dia 11. E assim como eu, todo mundo tem a sua história do 11 do setembro.
A minha começou na aula de biologia do 3º colegial. Em um mundo pré-smartphones, alguém recebeu uma ligação dizendo que “parece que um avião bateu num prédio nos EUA.” Algumas horas depois estava em casa, assistindo pela primeira vez àquelas imagens que veria 387 vezes mais no ainda inexistente YouTube. Era realmente como assistir a um filme de Hollywood. No dia seguinte, na escola, todos expressavam suas teorias, calcadas em nossos profundos 17 anos de experiência de vida, sem saber os efeitos que aquele evento realmente teria no mundo (e naquela viagem de American Airlines pra Disney.)
Passados meses, anos, muito ainda se ouvia sobre aquele que muitos ainda chamam de “o evento mais trágico do últimos tempos.” Aí, assim como eu, muitos começaram a ficar um pouco irritados. “Tem gente morrendo o tempo todo! Vocês, americanos, provavelmente estão matando muito mais gente em algum lugar do mundo por um pouquinho de petróleo ou algo assim. Algum povo africano está sendo dizimado e ninguém tá sabendo, ninguém tá vendo na TV, e ninguém vai lembrar o que fez naquele dia. Precisa falar do “nine eleven” o tempo todo?”
Até que em dezembro passado fui a Nova York pela primeira vez, e só então comecei a entender o peso daquele evento.
Ground Zero
O skyline de Manhattan é um dos cartões postais da cidade e, portanto, simplesmente olhar para aqueles prédios era uma atração turística… que agora não existe. No passeio de barco que fiz ao redor da ilha, o guia descrevia a cada curva onde estariam as torres, deprimindo todos a bordo. Um dia, saindo do metrô, ouvi alguém comentando: “Sem as torres, nunca sei direito pra que lado tenho que ir”.
Teria sido diferente se houvessem destruído uma escola térrea com 5.000 crianças inocentes. Seria terrível, sem dúvida, mas o turista passeando pelo Hudson River não se lembraria disso na sua rápida visita pela cidade; o executivo saindo do metrô não se lembraria disso ao procurar uma rua; o casal de namorados não se lembraria disso ao assistir qualquer um dos milhares de filmes que se passam em Nova York, e provavelmente não se depararia com imagens e vídeos do ataque na internet, vistos de 47 ângulos diferentes.
Era praticamente impossível não ver as torres gêmeas em Manhattan. Agora, é praticamente impossível não ver a sua ausência. É como se os americanos acordassem todas as manhãs e fossem atingidos pela mesma tragédia ao olhar pela janela. E nesse sentido, consigo entender como o 11 de setembro pode ser visto como o evento mais trágico dos últimos tempos.

Padrão
Sem categoria

A maçã do amor

Com meu retorno ao Brasil se aproximando, em meio a gritos de “menino, não seja bobo, fique aí que isso aqui tá terrível!”, “vem logo que o cinema aqui tá bombando e eu tô com saudade!”, e “pelamordideus me traz um iPad!”, começam as incertezas e inquietações sobre o meu futuro.  Dentre elas, a dramática indecisão em relação ao que trazer de volta, o que vender, o que doar, o que comprar. Uma verdadeira escolha de Sofia.
Assim que cheguei aos EUA em 2009, fui convencido a comprar um MacBook ao invés de um PC. “Mac users become Mac pushers”, disse uma amiga… E a maldição estava lançada. Passado o primeiro mês de “por que ca&%#! eu fui comprar um computador que eu não sei usar!?”, estava completamente vendido. Passava na frente da loja da Apple, branquinha (e sempre lotada!) e ficava admirando aqueles produtos que a humanidade de alguma forma conseguiu viver sem nos últimos milhares de anos.
Dois anos depois, enquanto reviso algumas páginas de roteiro e levo meu roommate canino para passear, decido que vou comprar um iMac. “Já que eu tô aqui, né?” Comprar um iMac por aqui, porém, significa ter de transportá-lo juntamente com toda minha mudança, o que posa alguns problemas dignos de “classe média sofre”.
Começo, então, a checar qual companhia aérea tem a melhor política de bagagens. Verifico as restrições de tamanho e peso, meço a tela do computador, meço a caixa, confiro novamente os valores pra ver se vale mesmo a pena. Checo as especificações técnicas, vou a outra loja, meço a caixa de novo e, enfim, chego a uma conclusão bombástica: eu não preciso de um computador novo.
Meu MacBook (esse mesmo que você tá vendo de pano de fundo!) funciona perfeitamente, e se quero uma tela um pouco maior já que passo o dia na frente de uma, basta ligá-lo à minha sub-utilizada TV e voilá! Ao invés de um computador novo, compro um teclado, um trackpad (ah, o trackpad…), atualizo o software, expando a memória e, por menos de um quinto do preço, tenho o desktop que eu precisava queria, sem a encheção de ter que ficar sincronizando arquivos de computadores diferentes e, é claro, sem ter que trazer o trambolho no avião.
Foi então que percebi quantas coisas eu não preciso. Estando em um país em que roupas, eletrônicos e afins são relativamente baratos e “só você não tem um iPhone”, é fácil cair na cilada do “já que eu tô aqui…”

Com 31 camisetas e 9 calças jeans no armário, eu não preciso de mais roupa, mesmo que seja um pacote de 3 por 19,90. Eu também não preciso um iPad. (Por mais que possa garimpar utilidades pra ele, não há viv’alma que me convença de que aquilo é essencial pra alguma coisa. Pode ser “muito louco”, “irado”, “da hora, velho”, mas essencial, não é.)

Praticar o desapego não é nada fácil, mas nada melhor do que uma mudança transcontinental e taxas de três dígitos para cada mala extra pra te dar uma forcinha. O problema é que do outro lado da balança tem uma loja da Apple, novinha, com lançamentos disfarçados de produtos de necessidade básica implorando para serem comprados.  Não é à toa que o símbolo deles é uma maçã.
Padrão
Sem categoria

Animal kingdom

Desde que me mudei para uma casa no subúrbio de Los Angeles minha relação com animais de toda sorte tem sido bastante intensa.

O mais proeminente deles é Lebowski, o cão.  Sua presença é sempre notável por seus movimentos bruscos, sua cara de pidão e, acima de tudo, pela quantidade absurda de pêlos espalhados pela casa.  Há também os esquilos, que correm do lado de fora da casa, e que enlouquecem Lebowski.  E há ainda uma série de animais menores, menos companheiros e bem menos agradáveis.

Comecemos pelas baratas.  Nas primeiras semanas na casa, éramos recebidos na garagem por uma família de três, quatro, às vezes oito baratinhas, ansiosas por companhia.  Alguns dias e algumas latas de veneno depois, desapareceram.  Esporadicamente um membro da família volta para uma visita… mas não sobrevive.

Tem também as formigas.  Essas vêm em fases.  Ficam meses sem dar as caras, mas quanto voltam, voltam em bando, pra passar umas férias.  Um dia invadiram o lavabo, com ovinhos e tudo.  Tiveram de ser aniquiladas – um verdadeiro genocídio.  Em uma outra ocasião, invadiram a lava-louças.  Nada grave, exceto pelo fato de que alguém teve a genial ideia de matá-las com um spray anti-inseto.  Resultado?  Cinco ciclos de lavagem até que os pratos perdessem o sabor de veneno.  Recentemente invadiram a dispensa.  Venenos em spray e “ant-traps” surtiram um efeito semi-satisfatório.  O próximo passo será adquirir um tamanduá.

Há ainda as moscas.  Como todas as janelas têm uma tela de proteção e a casa está sempre fechada devido ao ar condicionado, elas raramente entram.  Mas também, quando entram, raramente saem.  As moscas gostam de companhia, tadinhas.  Têm a casa toda para explorar, mas quando escapam da fúria das patinhas de Lebowski, ficam por ali, rondando o computador, clamando por atenção.  Recentemente desenvolvi uma técnica bastante eficiente para eliminá-las.  Abro a janela, e espero até que pousem na tela.  Em seguida, num movimento ágil, fecho a janela, prendendo o indefeso animal entre o vidro e a tela.  Dois dias depois, ela se junta às suas colegas de vala.  Para obter o resultado desejado, é preciso manter a janela fechada por dois dias – um preço pequeno a pagar pela vitória.

Mas as minhas favoritas são elas: as aranhas!  Aranha aqui é o que não falta.  Nos primeiros dias foi difícil de me adaptar.  Já entrava no quarto dando “oi” enquanto elas saíam de trás do quadro, do pôster, do relógio, loucas para me cumprimentar.  Ao voltar de viagem, elas me esperavam em lugares mais aconchegantes: a pia, a banheira, a privada.  Totalmente “Aracnofobia”.

Aos poucos, fomos aprendendo a conviver.  Elas migraram para fora de casa e raramente se aventuram pelos espaços internos.  Uma vez no jardim, ah, como se proliferam!  Dominam o território de uma forma que desafia as leis da física.  Quaisquer duas hastes, desde que não movimentadas por mais de 24 horas, estarão fatalmente conectadas por uma teia de aranha.

Outro dia deixei minhas luvas de boxe sobre a mesa do jardim… por dois dias inteirinhos!  Que erro primário…  Devo admitir que não fiquei surpreso ao encontrá-las conectadas por uma suntuosa teia que abrigava sua anfitriã.  Limpei tudo com um papel… mas cadê a coragem pra enfiar a mão ali dentro?  Traz o aspirador, aspira dentro da luva por vários minutos, respira fundo, e vai!  Sucesso.

Certa noite, Logan, meu colega de quarto, avista uma aranha em uma teia que vai da churrasqueira até a parede.

– Cara, é uma viúva negra.  É melhor matar, vai que ela pica o Lebowski!

Concordei.  Chamem-me de cruel, mas sou sempre a favor de matar aranhas, sobretudo dessas que matam a gente. 

Preparamos a emboscada.  Eu seguro a lanterna e ele a ataca com um spray em uma mão, e uma raquete em outra, só por segurança.  Não sei se ela morreu envenenada ou afogada, mas o fato é que ela morreu.

– Melhor tirar ela daqui, vai que o Lebowski come!

Enquanto Logan apanha um copo descartável para recolher o cadáver, noto algo altamente perturbador: a um metro de distância, em uma outra teia, uma OUTRA viúva negra nos observa, à espreita.  Seria a irmã?  A prima?  Não importa.  Ambas têm o mesmo destino fatal e terminam a noite – e a vida – em um copo usado do Starbucks.

Mal sabia eu que meu contato mais íntimo com um animal peçonhento dar-se-ia algumas semanas depois, a 2.000 km dali, em Canyon Lake, Texas.  Foi lá que passei o Spring Break, na casa de veraneio recém-construída da família de Logan.  Durante a construção, Logan frequentemente contava sobre os animais encontrados: cobras, aranhas, centopéias venenosas e muitos, muitos escorpiões.  Uma verdadeira casa dos sonhos.

Ao chegar na casa e conhecer sua família (e a família de Lebowski!), os animais peçonhentos da região tornaram-se assuntos constantes.

– Vocês encontram muito escorpião aqui na casa? – pergunto ao pai de Logan.

– Ah, toda hora!  De vez em quando aparecem umas centopeias também.  Dessas que queimam, sabe?

– Ah…

– Minha neta de 7 anos foi picada por um escorpião há uns meses.  Apoiou a mão em cima de um…

– E teve que ir pro hospital?!

– Magina!  Passei uma pomadinha e ficou tudo bem.  Outro dia achei um no travesseiro da minha cama, mas não fala pra minha mulher, senão ela fica assustada!

Mas esse povo se assusta com qualquer coisa, não?

A semana passa, as malas estão prontas para o voo de volta do dia seguinte, e nenhum visitante maligno aparece.  Despeço-me dos pais de Logan que partem um dia antes, e vou ao banheiro.  Ao levantar a tampa do vaso, sinto algo queimando meu dedo.  Em um reflexo, chacoalho a mão e vejo que algo cai dentro do vaso.  Avalio meu dedo, que agora arde intensamente.  Nenhuma marca.  “Deve ter sido a tal da centopeia que queima”, penso.  E eis que ao olhar dentro do vaso, lá está ele, nadando por sua vida: um escorpião.

Bato na porta de Logan.

– Cara, você não vai acreditar, mas eu acabei de ser picado por um escorpião.

– Tá me tirando, né?

– Juro.

Ele ri.  – Peraí que eu vou ligar pro meu pai. (…) Ele falou pra passar essa pomada aqui.  Eu vou dar uma cochilada, se você se sentir mal, me avisa.

– Tá… Não tranca a porta!

Passo a tal da pomada, volto pra Los Angeles, e no dia seguinte, nem sinal do ocorrido.  Fica a história pra contar, e a foto (fora de foco) do animalzinho, nos seus últimos segundos de vida.

Semana passada, Logan me mostra a foto de uma tarântula, que caminha pela porta de entrada daquela mesma casa.

– E aí, vocês mataram?!

– Não, não.  Elas comem os escorpiões!

Ah, então tá.

Padrão
Sem categoria

A conversação

Outro dia me peguei pensando em como é mais difícil aprender coisas novas conforme ficamos mais velhos. Talvez seja pelo fato de ser cada vez mais difícil selecionar as informações. Diferenciar o essencial do inútil. Quando crianças, sabemos que a informação necessária vem dos pais, da escola. Na faculdade, temos os professores, os livros que nos foram recomendados. Mas e depois? Quando não há uma fonte definida e segura de conhecimento, como continuamos a aprender?

Ultimamente tenho reparado que aprendo muito conversando com pessoas.

(Preciso abrir parênteses aqui. Não é sempre que aprendo conversando com pessoas, é verdade. Às vezes, me vejo em meio a um argumento em que o objetivo do outro não é defender seu ponto de vista, mas discordar do meu; um argumento em que “concordar em discordar” não é uma opção válida. Ontem mesmo tive uma conversa dessas. O que começou como um bate-papo sobre um filme de comédia, em poucos minutos tornou-se uma discussão acalorada, que me fez pensar: “Por que estou tendo essa conversa? Por que quero estragar a noite defendendo um ponto de vista para alguém que não se importa com ele?”)

Mas o fato é que grande parte das minhas boas memórias envolvem conversas. Teve uma com a minha vó, que aos 95 anos me solta um “não me arrependo de nada que fiz na vida”, assim, como quem não quer nada. Teve outra há uns cinco anos, sobre astronomia, com um conhecido, que depois desse dia tornou-se um grande amigo.

E teve uma com meu professor, semana passada.

Nos encontramos no Starbucks para conversar sobre meu roteiro. Ele chegou atrasado, de papete e meia, e foi até o balcão pedir um café. Começou comentando sobre meu roteiro, elogiando os personagens e apontando onde poderia melhorar a história. De repente, estamos conversando sobre sua vida, sobre seu passado em Kentucky, sua passagem pela marinha. Contou histórias sobre seus colegas de turma, falou sua opinão sobre filmes, sobre Hollywood, sobre o ensino de roteiro.

Contou que “nunca tinha sequer visto um roteiro antes de entrar no AFI,” nos anos 60. Falou que adora dar aulas, mas que às vezes “preferiria ensinar algo mais concreto, como… história da arte!” Falou que o ensino de roteiro faz muito mais sentido quando se trabalha com a prática, “resolvendo problemas concretos ao invés de transmitir conceitos genéricos.” E confessou que prefere não assistir a seus filmes, “pra não ver como eles cagaram tudo.”

E eu fiquei ali, pensando em quantos não gostariam de estar no meu lugar, praticamente entrevistando aquele homem, que fala sem pretensão sobre sua vida enquanto derruba o café sobre as páginas do meu roteiro.

Meu professor é Tom Rickman, roterista indicado ao Oscar de Melhor Roteiro por “O Destino Mudou Sua Vida”. Seus “colegas de turma” são Frank Pierson, Paul Schrader, Terrence Malick e David Lynch. E no fim daquela conversa, reparei que em algum momento da minha vida aprendi algo que não se aprende nos livros: aprendi a ouvir.

Padrão