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Tô nem aí

Ontem foi meu aniversário. 
Quando eu era pequeno, não conseguia dormir de ansiedade ao pensar que no dia seguinte ganharia presentes e que toda a atenção seria voltada a mim.
Aí eu cresci. 
Progressivamente, os presentes foram se transformando em beijos, abraços, e-mails e mensagens no Orkut – que hoje em dia valem tanto quanto os presentes de quando eu era pequeno. 
Tenho um amigo que diz que eu fico bravo se alguém esquece meu aniversário.
– Cara, eu prefiro esquecer o aniversário da minha mãe do que o seu – ele brinca.
Não é verdade. Tanto que não fiquei bravo quando ele esqueceu esse ano.  😉
Mas acho natural que no dia do seu aniversário, talvez até um pouco sem querer, você espere um parabéns daqui, um sorriso dali, um “não tô afim de estudar hoje” – algum reconhecimento de que hoje é o SEU DIA, e que VOCÊ é quem importa.
E é aí que a coisa empaca. 
Acostumado com a extrema solicitude dos brasileiros, cada vez mais tenho essa noção de que os americanos são bastante adeptos ao “Tô nem aí”. “Tô nem aí” pra tudo que não me beneficie de alguma forma.
Se fosse apenas uma questão de “o cara preferiu ficar vendo TV a ir almoçar comigo no meu aniversário”, tudo bem, a gente releva. Mas é um pouco mais do que isso.
Há um certo tempo conheci duas russas cujas famílias mudaram para os EUA há alguns anos. Elas diziam que viviam sempre cercadas pela comunidade russa, porque não se identificavam muito com a cultura Americana, mas sempre ressaltavam com convicção que os americanos sempre lhe estenderam a mão:
– Na Rússia, você pode estar congelando na rua, pedindo ajuda e todo mundo te ignora. Aqui, se você pede ajuda, alguém sempre vai te estender a mão.
Não sei quanto a parte que diz respeito à Rússia, mas quanto aos americanos, tenho duas observações: alguém sempre vai te ajudar… desde que isso não exija nenhum sacrfício desse alguém. E desde que você, de fato, PEÇA ajuda. Raramente ajuda é oferecida.
Não é por maldade. É simplesmente como aprenderam a ser. Tenho a impressão de que os americanos sabem de muita coisa – tanto que dominam o mundo – mas ainda têm de aprender a colocar o interesse dos outros a frente dos seus… nem que seja só uma vez por ano.
Isso ficou bem claro pra mim nas últimas semanas. Tive que passar por duas cirurgias (assuntos dos próximos posts!). Naturalmente, precisei que um dos meus roommates me levasse e buscasse do hospital – que fica a 15 minutos de casa. Era uma sexta-feira – dia em que não temos aula – 10h da manhã. Sem problemas!
Após a cirurgia, sou trazido para casa, ainda meio drogado da anestesia. Horas depois, meu roommate bate à minha porta. 
“Veio ver se eu preciso de alguma coisa”, penso, inocente.
– To indo pro bar com o pessoal. Tá afim?
Semana seguinte, outra cirurgia, dessa vez marcada para às 6h da manhã de terça-feira – véspera do meu aniversário. Comento com o mesmo roommate sobre a nova data.
– Quem vai te buscar no hospital? 
(leia-se: Você não tá achando que eu vou ficar de motorista outra vez, né?)
– É, preciso achar alguém – respondo, entendendo o recado.
– Vai ser difícil, todo mundo tem aula, né? 
“É, onde já se viu faltar na aula por uma bobagem médica como essa. Ainda se fosse por um jogo de futebol americano….” – penso.
Mais tarde, tento meu outro roommate:
– Cara, preciso de um favorzão. Você pode me buscar no hospital na terça-feira? Mas tem um porém: você vai ter que faltar na aula do Estrin.
Ele olha pra mim. Longa pausa.
– Não tem mais ninguém que possa ir? Quer dizer… Tipo, não, tudo bem, assim, se você não achar mais ninguém… tudo bem. Eu posso ser um plano B.
Para não exigir esse mega-sacrifício de ninguém, combino com as enfermeiras que ele virá me buscar às 16h30 – isto é, depois da aula. 
Felizmente, na terça-feira, às 10h45 – bem antes do esperado -, já estou prontinho para ir pra casa. A enfermeira liga para meu roommate.
– Putz, mas já to na porta da escola. Ele falou que só ia sair mais tarde! Tenho uma aula agora das 11h. Só vou poder chegar aí umas 13h.
Ele chega, às 13h45. Sua próxima aula começa às 14h.
– Acho que não vou na aula. Até eu te deixar em casa e voltar pro AFI já vão ser quase 14h30. Odeio chegar atrasado na aula do Estrin.
“P#&a! Todo esse drama e você vai faltar na aula de qualquer jeito?” – penso.
Mas tudo bem, pelo menos não vou ficar sozinho em casa nas próximas horas…
Chego em casa, deito na cama. Minutos depois, ele bate à minha porta:
– To indo escrever no Starbucks. Volto às 21h. Qualquer coisa liga.
Pego no sono… e quando acho que nada mais vai me surpreender, acordo com uma mensagem no celular:
– Você tá acordado?
– Sim.
– Dá pra dar comida pro cachorro?
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