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Quanto mais gente melhor

      Neste último fim de semana tive um almoço com outros bolsistas Fulbright que realizam seus estudos aqui em Los Angeles. Era possível que o que mais chamasse a atenção fosse a impressionante vista da cidade de Los Angeles que a casa oferecia, ou o fato de que quem organizava o almoço era a mãe de um renomado jogador de basquete da NBA. Mas não. O que fica na memória são as experiências trocadas com pessoas que pareciam ser amigos de infância, embora as conhecesse há poucas horas.   
O evento me fez lembrar da cidade de Boulder, no Colorado – minha primeira parada nos EUA – onde mais de quarenta Fulbrighters de todo o mundo reuniram-se para uma semana de palestras e orientações.   
É sempre muito fácil apontar as diferenças entre os povos, mas em Boulder o que me chamou a atenção foram as semelhanças. Mundos tão distantes e pessoas tão parecidas. Quem diria que minha primeira cerveja na terra do Tio Sam seria ao lado de uma paquistanesa? Que meu primeiro sushi seria ao lado de uma dominicana e de um rapaz de Bangladesh (que comia sushi pela primeira vez)? Que minha primeira trilha pelas montanhas seria filosofando ao lado de uma bósnia?
         Isso não se limita, é claro, aos eventos organizados pela Fulbright. A cada dia, a cada lugar, uma pessoa nova me surpreende, e mesmo que parta poucos dias ou horas depois, vai deixar uma marca para sempre.
         Em meus primeiros dias em Los Angeles, por uma série de imprevistos, acabei tendo de ficar quarto dias em um albergue. Foi assim que conheci um alemão que largou o emprego – exatamente no mesmo dia que eu – e decidiu vir para os EUA… para ter aulas de street dance. É sempre fascinante encontrar pessoas que estão a caminho de seus sonhos… Entre churrascos no albergue, passeios pela calçada da fama e trilhas no Griffith Park, fomos nos tornando amigos e percebendo que embora vivêssemos a um oceano de distância, tínhamos muito em comum.
         Passados os quarto dias, mudei para a casa de minha colega e ele seguiu seu rumo pelos EUA, dizendo que voltaria para LA antes de partir de vez. Uma semana depois, reencontrei-o no albergue para uma última cerveja. Como não podia deixar de ser, acabei conhecendo novas pessoas. Dessa vez, duas inglesas apaixonadas por cinema que ficaram de visitar o AFI na manhã seguinte. A visita estendeu-se para um jantar com ainda mais viajantes do albergue, até que, enfim, disse adeus a esses breves amigos.
Engenheiros, biólogos, artistas, físicos, filósofos, estudiosos de histórias em quadrinhos; homens e mulheres da Rússia, Turquia, Nova Zelândia, Palestina, Egito, Namíbia, Moçambique, Guatemala, Inglaterra, Alemanha… As nacionalidades e as ocupações das pessoas que conheci nesses quatro meses são tão distintas quanto as experiências que tive com cada uma delas. Seja lá como for, estar longe de casa faz o mundo parecer tão pequeno quanto o mapa-múndi de papel da parede do meu quarto.
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Jogos, trapaças e dois canos de mentira, não-operantes e inspecionados pelo departamento de produção

Com o término do primeiro semestre inacreditavelmente se aproximando, não posso deixar de compartilhar algumas curiosidades sobre o American Film Institute, cujas atividades, alunos, professores e funcionários representam 90% do meu universo em Los Angeles – os outros 10% correspondem às parcas horas dedicadas ao sono e à higiene pessoal.
– O número máximo de vagas anuais é 140, sendo 28 para roteiro, 28 para direção, 28 para direção de fotografia, 28 para produção, 14 para edição e 14 para direção de arte.
– Em 2009, apenas 135 alunos iniciaram o curso – uma aluna de edição desistiu antes do início e somente 10 alunos foram qualificados para admissão em direção de arte. 
– Desses 135, apenas 43 são mulheres.
– Os países de nacionalidade desses alunos são*: Estados Unidos (80), Canadá (9), México (4), Espanha (3), Itália (3), França (3), Israel (3), Dinamarca (3), Coréia (3), Austrália (2), Alemanha (2), Kosovo (2), Venezuela (2), Rússia (2), Suécia (2), Argentina (1), Áustria (1), Holanda (1), Quênia (1), Nigéria (1), Indonésia (1), Grécia (1), Porto Rico (1), Irlanda (1), Índia (1), Inglaterra (1) e Brasil (eu).
– Dos 28 alunos de roteiro, apenas dois não têm o inglês como língua nativa. Incluindo eu.
– Embora o processo de seleção seja considerado bastante rigoroso, em 2009 foram recebidas cerca de 160 applications para o curso de roteiro, o que gera uma relação próxima de 5.71 candidatos por vaga. A relação c/v da FUVEST 2010 para o Curso Superior do Audiovisual é 34.14.
– Os créditos dos alunos do primeiro ano incluem, em capacidades diversas, filmes como O Senhor dos Anéis, Harry Potter, O Incrível Hulk, King Kong, Avatar, Star Wars, Mais Estranho Que a Ficção, Jumper, Era do Gelo 2, Jogo de Amor em Las Vegas, Ponto de Vista, entre outros.
– O aluno mais velho do curso é da disciplina de roteiro. Ele também é o co-criador do desenho animado “Doug”. 
– Ao menos dois alunos têm pais que já foram indicados ao Oscar®.
– Ao término no primeiro ano letivo, os alunos precisam ser “re-admitidos” ao curso, baseado em seu desempenho durante o ano.
– Darren Aronofsky, um dos nomes recentes mais expressivos a estudar no AFI, não foi re-admitido.
– É bastante comum encontrar lagartos e esquilos pelo campus. Veados e raposas também não são raros.
– As portas dos banheiros abrem para fora, o que significa que ao sair de um banheiro você sempre pode dar com a porta na cara de algum professor.
– O manual do aluno do American Film Institute informa que é proibido perseguir, estuprar ou abusar verbal e/ou sexualmente de alunos e/ou professores dentro da escola. Ufa.
– Um dos professores estabeleceu três regras para sua aula ao longo do semestre: 1. Sejam pontuais; 2. Estejam alertas, seja lá qual for a substância utilizada para tal fim; 3. Não usem chapéu. E ele não estava brincando.
– A biblioteca não possui um website para consulta de títulos. É necessário consultá-los através do catálogo físico ou da bibliotecária. Ou na raça.
– Se você precisa ter uma arma de fogo em uma cena, é preciso que ela seja completamente falsa, seja aprovada pelo deparamento de produção, esteja sob a supervisão ininterrupta de uma pessoa designada exclusivamente para isso e, ainda assim, você não pode apontá-la para nenhum membro do elenco, da equipe ou para a câmera.
– Após quatro meses conhecendo gente nova, é difícil me imaginar em outra escola…
* dados não-oficiais.
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