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Apenas uma vez

“Não se esqueçam de se divertir”.
Esse foi o segundo maior conselho dado pela coordenação do AFI durante as palestras das primeiras semanas do curso.
Todos chegam ao AFI sedentos por aulas, palestras, informações. Em sua maioria jovens ao redor dos 25 anos, todos estão loucos para varar a noite preparando produções, debruçar em livros e filmes. Entendo que para a maioria dos mortais assistir a um filme é exclusivamente uma atividade de lazer. Para nós, é quase sempre um exercício. Assim sendo, mesmo sem perceber, estamos envolvidos quase 24 horas por dia em atividades acadêmicas. 
É comum ouvir planos para o futuro. “Daqui dois anos quero ter minha produtora independente”. Ou: “Preciso estar preparado para poder dirigir um longa quando me formar”. Ou ainda: “Quando sair daqui, preciso ter três roteiros, assim com certeza vou conseguir vender um deles ou pelo menos encontrar um agente.”
Certo, tudo isso é lindo… Mas isso só em 2011, 2012! Até lá tem copa do mundo, jogos pan-americanos, eleições, enchentes… A pergunta é: o que você quer fazer AGORA?
É natural – e correto! – que queiramos dedicar estes dois anos de curso aos estudos, mas não podemos ignorar que esses dois anos não voltam mais. Os estudos são prioridade, mas não exclusividade. Estudar é legal, mas viajar também, fazer passeios turísticos também. Viver também. Sabe-se lá quando voltarei a Los Angeles ou mesmo aos Estados Unidos.
Com esse espírito, eu e alguns colegas começamos a programar algumas atividades “non-movie-related”. Devo confessar que estando em Los Angeles, isso não é lá muito fácil.
Nosso primeiro evento foi o show “The Swell Season”, de Glen Hansard & Markéta Irglová, o casal do filme Apenas Uma Vez, cuja canção arrebatou um Oscar® no ano passado. OK, não é exatamente uma atividade dissociada do mundo do cinema, mas já é um começo.
Chegando lá, damos de cara com Kunal Nayyar, o Raj do seriado “The Big Bang Theory”. Ele também está lá como mero espectador, com amigos, provavelmente também em um momento “non-movie related”. Penso em tirar uma foto, mas fico envorgonhado ao lembrar que a colega ao meu lado, filha de um famoso diretor, está acostumada à presença de famosos. Não quero parecer ridículo e decido, então, apenas curtir o momento e guardar na memória meu “primeiro encontro” com um famoso em Hollywood  (na verdade já encontrei Jamie Kennedy em um restaurante, mas ele está tão sumido que quase não conta.)
Abrindo o show, uma agradável surpresa: Josh Ritter, para mim um então desconhecido. Uma hora depois, já era um fã, louco para conhecer mais sobre o artista e sua banda.
Enfim, sobem ao palco Glen Hansard e Markéta Irglová. É fascinante estar a poucos metros de pessoas que pareciam tão distantes na tela de cinema ou na TV. Lembro-me claramente de assistir à entrega do Oscar® naquele ano.
Falling Slowly levara a estatueta de melhor canção. Não tinha visto o filme ainda, mas lembro ter ficado fascinado com a música. A dupla sobe ao palco. Glen Hansard agradece e, antes que sua parceira possa dizer qualquer coisa, a música sobe e eles têm de sair do palco. Mas para a surpresa de todos, em um momento (creio) sem precedentes, o apresentador chama Markéta Irglová de volta ao palco para que ela também possa desfrutar o momento. E seu discurso foi inesquecível. 
“(…) O fato de estarmos aqui essa noite, o fato de podermos ter isto em mãos, é a prova de que não importa quão grande é seu sonho, ele é possível. Força àqueles que ousam sonhar e não desistem. Essa música foi escrita sob uma perspectiva de esperança, e esperança, no fim das contas, é o que nos conecta, independentemente de nossas diferenças. (…)”
Isso me leva ao maior conselho dado pela coordenação do AFI: “Façam amigos. Conectem-se. Esse é, de longe, a experiência mais valiosa que você pode ter no AFI.”
E o que mais queremos senão nos conectarmos? Afinal, não é isso que gente quer quando procura a namorada ou mesmo os amigos? Conectar-se com o outro? Não é por isso que durante o show muitos gritam para os artistas, esperando por aqueles dois segundos de conexão, em que ele vai te olhar e te identificar no meio da multidão (ainda que esteja pensando “quem é o babaca que está gritando que me ama?”) Não é pra isso que criamos perfis no Facebook, Orkut, My Space? Pra que temos MSN, Google Talk, Yahoo Talk, AOL Messenger, Skype, todos abertos ao mesmo tempo, senão para nos sentirmos conectados com o mundo, com o outro?
Sem dúvida, para mim, um das coisas mais fascinantes em escrever filmes é poder, ainda que por um breve momento, estar conectado às mais diversas pessoas, seja do outro lado da rua ou do planeta, através de uma simples história que um dia foi apenas uma ideia na minha cabeça.
Em uma das primeiras músicas do show, Glen Hansard desconecta o violão, deixa o microfone pra trás, vem até a beiradinha do palco, e começa a tocar, sem qualquer outro artíficio. Apenas a sua voz e seu violão. É quase como se dissesse: “Esquece todo o resto. Curte esse momento aqui comigo, só eu e vocês, rapidinho. Olha que demais.” 
Várias câmeras e flashes, todos desesperados para resgistrar aquele momento, para curtir aquilo mais tarde.
Por que não curtir agora, ao vivo?
Jason Segel aparece de surpresa no palco para uma paródia musical. Mais fotos, mais vídeos. A dupla faz uma brincadeira e canta uma música de Justin Timberlake. Glen Hansard se aproxima da platéia e agora diz com todas as letras: “Vamos fazer um acordo? Ninguém coloca essa música no YouTube, tudo bem? Vamos curtir o momento agora, só entre a gente?” 
Não sei se o acordo foi cumprido. O que sei é que as vezes a gente se preocupa tanto com o depois que se esquece do agora. Não acho que viver no presente seja tão fácil quanto pode parecer, mas sem dúvida vale a tentativa.
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Um dia a casa cai – o juízo final

Depois de uma odisséia de três meses entre “Ei, gostei da sua ideia” e “Não aguento mais editar esse filme”, chega enfim o dia da exibição do filme “Tree House” – o “The” inicial foi eliminado, não me perguntem porquê.
Dois filmes são apresentados em cada exibição. O nosso é o segundo do dia. 
Nove e meia da manhã, o primeiro filme já vai começar. 
– Cadê o nosso diretor de fotografia?
Nossa produtora tenta seu celular. Ninguém atende. Tenta seu colega de apartamento. Nada. Provavelmente, ele está dormindo. Não seria a primeira vez.
O primeiro filme termina: uma comédia… em que ninguém deu risada. A equipe assume a frente do auditório e se prepara para receber críticas de cento e trinta alunos, sem contar o corpo docente. A maioria delas é bastante negativa. O professor definitivamente não está feliz com o resultado.
Hora do intervalo. Nada do diretor de fotografia. Um dos meus colegas se aproxima com um sorriso de orelha a orelha: 
– Relaxa, Filipe, depois desse filme-bomba, qualquer coisa vai parecer uma obra-prima.
Embora não queira pensar no nosso curta como “qaulquer coisa”, sua linha de raciocínio faz sentido. Além disso, todos sabem dos problemas que tivemos na produção e pré-produção. As espectativas dos colegas não são lá muito altas.
Voltamos ao auditório. O diretor de fotografia chega correndo. “Desculpa, pessoal, o despertador não tocou!”
Começa o filme. Nossos nomes são aplaudidos pelos colegas conforme aparecem nos créditos iniciais. Estou sentado do lado da editora. Prestamos mais atenção na reação das pessoas do que no filme em si. Vinte minutos depois, termina o filme. Mais aplausos. Ninguém riu nas cenas dramáticas. Muitos riram das pequenas gags. Alívio. A parte um do julgamento parece não ter ido tão mal.
Se tem uma coisa sobre a qual não posso reclamar é o respeito da minha equipe para com o meu roteiro. Muitos roteiristas tiveram problemas sérios com seus diretores, que se achavam no direto de alterar completamente as ações e principalmente o diálogo. Meu diretor não mudou praticamente nenhuma palavra. Salvo raríssimas exceções, tudo o que escrevi foi filmado, e praticamente cem por cento sobreviveu ao corte final.
Assumimos a frente do auditório. Apresentamo-nos. Uma vez lá, não podemos dizer nada, apenas ouvir. O professor – que aliás, é ninguém menos que Gill Dennis, o roteirista de Johnny & June – começa a discussão.
– Quem é o protagonista? Quem é o antagonista?
Alguns colegas vão respondendo às perguntas. Ele começa a ir mais fundo.
– Quem gostaria de ter sido informado sobre a profissão do genro mais cedo na história?
Alguns levantam a mão.
– Quem acha que não ficou claro o motivo pela qual ele estava construindo a casa na árvore?
Mais algumas mãos.
À medida que vamos avançando na discussão, fica claro que Gil não está satisfeito, sobretudo com a direção. Quanto mais ele critica o filme, porém, sinto que mais o público o defende.
– Acho que deveria ter ficado mais claro desde o início o motivo pelo qual ele está construindo a casa na árvore – ele argumenta.
Uma colega discorda. “Não gosto de filmes que me tratam como idiota. Gostei que o filme deixou algumas coisas em aberto, sem prejudicar a história”.
Outro colega a apoia: “Acho que se ficasse claro desde o início o quanto o pai gosta da filha, o personagem não teria nenhuma progressão durante o filme”.
–  Não fiquei convencido de que o pai e a filha se amam de verdade – continua o professor. – Quem acha que o pai realmente ama a filha?
Praticamente todos levantam a mão.
– Quem acha que a filha realmente ama o pai?
Novamente, quase todos levantam a mão.
A discussão termina. Talvez esteja enganado, mas saio com a impressão de que a maioria dos colegas se surpreendeu positiviamente com o filme. Partimos para a sessão para elenco, equipe e convidados. Os atores ficam satisfeitíssimos. Seguimos, então, para a última etapa: a análise do filme, pausando cena a cena, apenas com equipe e professor presentes.
Gil Dennis claramente não é um grande fã do filme. Ele aponta cada um dos problemas técnicos – todos bastante válidos, devo admitir. Aponta, também, é claro, os pontos positivos. A cena que mais me desagrada, por exemplo, é uma das cena que menos o incomoda… No início, nosso diretor está um pouco defensivo. Aos poucos, os ânimos se acalmam e todos voltam a enxergar as críticas como forma de aprendizagem. E sob essa perspectiva, fazer esse filme foi uma jornada e tanto.
Aprendi a colaborar com diretor, produtor e todo resto da equipe. Aprendi que o que vemos na tela nunca é exatamente o que imaginamos. Aprendi muitíssimo sobre a função de cada membro da equipe e o quão trabalhoso é tirar um filme do papel. Aprendi que quinze páginas de roteiro talvez seja muito para uma filmagem de quatro dias. Aprendi, principalmente,  que a maior parte dos problemas se dá por falta de comunicação.
É claro que não sou apaixonado por toda e qualquer passagem do filme. Não gosto de algumas reações, alguns diálogos não saíram exatamente como eu imaginava, alguns elementos que pra mim eram claríssimos no papel passam desapercebidos na tela. Sem dúvida, muitos apreciaram os vinte minutos de filme. Outros odiaram. Não importa. Valeu a pena. Apesar de todos os percalços, me diverti demais. Aprendi demais.
E é por isso que se me perguntam: qual o resultado final? 
A minha resposta: foi um sucesso.
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Um dia a casa cai – o retorno


Quando estamos filmando, todo resto da nossa vida fica em standby. Durante quarto dias, passamos cerca de treze horas em meio a equipe, atores, camera, tripés, três-tabelas, mantas de som, garrafinhas d’água e afins. Lavar a roupa, limpar o banheiro, fazer supermercado ou responder e-mails fica pra depois. Dormir também. E, infelizmente, escrever também. Por mais que eu tente sentar no computador, depois de doze horas em pé, não há nada que me faça ficar acordado. Eis o motivo do meu sumiço. Mas agora que meus dias de filmagens estão oficialmente encerrados – pelo menos até o ano que vem – posso voltar à minha vida normal, onde escrever e tomar banho voltam a ser prioridade.

Fim de semana retrasado tivemos nosso grande momento: as filmagens de “The Tree House”.

No primeiro dia, tensão total. Será que o diretor vai enlouquecer e esbofetear a produtora? Será que o diretor de fotografia vai conseguir coordenar a equipe de cinco assistentes com planos improvisados? Será que vou conseguir estar no set apenas como roteirista e nada mais?

Quando estamos na filmagem de nosso próprio roteiro, teoricamente não devemos excercer nenhuma atividade, apenas assistir às filmagens. É um direito nosso, após meses de trabalho. Na prática, não é bem assim. Sempre tem alguém precisando mudar um sofá de lugar, carregar uma escada ou encontrar um objeto desaparecido. Até aí, sem problemas. Mas é claro que no nosso set, tudo é um pouquinho mais complicado.

Já nos primeiros minutos do primeiro dia, a produtora se aproxima de mim, enquanto escrevo algo no meu computador.

– “Filipe, o nosso sound mixer vai chegar atrasado. Eu já estava sabendo, está tudo certo, mas será que você poderia operar o mixer até a hora do almoço?”

Se ela já sabia, por que não encontrou um substituto com antencedência? – penso eu.

– “Não.”

– “Por quê não?”

– “Porque não sei operar o mixer”.

Ela parte. Fico com remorso, mas de fato, acho fundamental que o mixer seja operado por alguém com mais experiência.

Algumas horas depois, chega o sound mixer. De bicicleta. Bêbado. O diretor o manda embora. Ele parte, não sem antes arremessar alguns copos de água pela casa.

Não me resta outra alternativa senão operar o microfone… Paciência.

Hora do almoço. Cadê o almoço?

– “A produtora foi buscar, mas não voltou ainda”.

Ela chega com uma hora de atraso. O que significa uma hora a menos de filmagem. O que significa mais adaptações no cronogama. Diretor e diretor de fotografia varam a noite na locação, planejando o dia seguinte.

No dia seguinte, nada de sound mixer. Continuo operando o boom. No início da tarde, um equipamento precisa de pilhas. A produtora sai apressada para comprá-las e volta com pilhas recarregáveis… sem carga. Mais atrasos. Mais adaptações. A continuísta precisa deixar o set por algumas horas. Ao voltar, ela percebe que em uma das cenas o ator está usando o figurino errado. Tarde demais…

Dois dias depois, terminam as filmagens. Apesar de todos os contratempos, deixo o set satisfeito. Nem tudo saiu como o esperado, mas meu roteiro agora ganhou vida. O diretor esteve inacreditavelmente calmo, concentrado e atencioso com a equipe. A equipe foi extremamente esforçada e paciente. Alguns planos não foram filmados, algumas falas foram alteradas, algumas ações saíram diferente do que esperava, mas não importa. “The Tree House” agora não é mais apenas um roteiro. É um filme. 

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Um dia a casa cai

Segunda-feira, dois de novembro. Cinco dias antes do início das filmagens do meu roteiro. Última reunião da nossa equipe com as coordenadoras de produção. Nossa produtora está tendo problemas para realizar seu trabalho. A coordenadora começa com as perguntas:
– Tudo certo com a locação?
– Na verdade, mais ou menos.
– Que horas vocês podem entrar para filmar?
– Então, meio que depende, preciso checar ainda.
– Como assim?
– Tipo, sábado e domingo a gente só pode usar o interior da casa em algumas partes do dia. O resto a gente tem que filmar do lado de fora.
– Mas metade do roteiro se passa dentro da casa. Na segunda e terça você tem acesso ilimitado ao interior da casa, pelo menos?
– Hum… sim, até às 16h.
O diretor quer matá-la. Ninguém até o momento havia sido informado sobre esses pequenos detalhes. É evidente que não será possível filmar quinze páginas em um cronograma tão limitado.
A essa altura a casa na árvore do roteiro já foi modificada – ainda é uma casa na árvore, mas está sendo construída no chão. O ator que deveria ter 70 anos tem 52. O que deveria ter 28 parece 41. Perguntam se estou satisfeito com elenco. “E eu lá tenho opção?”
 – Banheiros. A equipe terá acesso aos banheiros da casa?
– Sim.
– Você tem certeza que 25 pessoas podem entrar e sair da casa a qualquer momento para usar o banheiro?
– Hum… não exatamente… Temos que ver um esquema, um horário.
– Ah, então quer dizer que as pessoas têm que marcar hora pra ir ao banheiro?
– Eu posso alugar um banheiro químico.
– Você incluiu isso no orçamento, que alias já está 500 dólares acima do previsto?
– Hum… não.
Mal sabíamos que na mesma noite perderíamos não apenas a já problemática locação, mas também a figurinista e o assistente de arte – que atende pelo nome de Fluido.
Começa a saga atrás de uma nova locação. Temos dois dias para fazer algo que deveria ter sido feito em dois meses.
Só conseguimos fechar nossa locação na quinta-feira. Diretor e diretor de fotografia desaparecem de todas as aulas para poder adaptar os set-ups à nova locação. O roteiro precisa sofrer alterações pelo mesmo motivo.
E qual a maior preocupação da produtora? Que cada um no set tenha sua garrafa d’água para não usarmos garrafinhas descartáveis…
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