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Quanto mais gente melhor

      Neste último fim de semana tive um almoço com outros bolsistas Fulbright que realizam seus estudos aqui em Los Angeles. Era possível que o que mais chamasse a atenção fosse a impressionante vista da cidade de Los Angeles que a casa oferecia, ou o fato de que quem organizava o almoço era a mãe de um renomado jogador de basquete da NBA. Mas não. O que fica na memória são as experiências trocadas com pessoas que pareciam ser amigos de infância, embora as conhecesse há poucas horas.   
O evento me fez lembrar da cidade de Boulder, no Colorado – minha primeira parada nos EUA – onde mais de quarenta Fulbrighters de todo o mundo reuniram-se para uma semana de palestras e orientações.   
É sempre muito fácil apontar as diferenças entre os povos, mas em Boulder o que me chamou a atenção foram as semelhanças. Mundos tão distantes e pessoas tão parecidas. Quem diria que minha primeira cerveja na terra do Tio Sam seria ao lado de uma paquistanesa? Que meu primeiro sushi seria ao lado de uma dominicana e de um rapaz de Bangladesh (que comia sushi pela primeira vez)? Que minha primeira trilha pelas montanhas seria filosofando ao lado de uma bósnia?
         Isso não se limita, é claro, aos eventos organizados pela Fulbright. A cada dia, a cada lugar, uma pessoa nova me surpreende, e mesmo que parta poucos dias ou horas depois, vai deixar uma marca para sempre.
         Em meus primeiros dias em Los Angeles, por uma série de imprevistos, acabei tendo de ficar quarto dias em um albergue. Foi assim que conheci um alemão que largou o emprego – exatamente no mesmo dia que eu – e decidiu vir para os EUA… para ter aulas de street dance. É sempre fascinante encontrar pessoas que estão a caminho de seus sonhos… Entre churrascos no albergue, passeios pela calçada da fama e trilhas no Griffith Park, fomos nos tornando amigos e percebendo que embora vivêssemos a um oceano de distância, tínhamos muito em comum.
         Passados os quarto dias, mudei para a casa de minha colega e ele seguiu seu rumo pelos EUA, dizendo que voltaria para LA antes de partir de vez. Uma semana depois, reencontrei-o no albergue para uma última cerveja. Como não podia deixar de ser, acabei conhecendo novas pessoas. Dessa vez, duas inglesas apaixonadas por cinema que ficaram de visitar o AFI na manhã seguinte. A visita estendeu-se para um jantar com ainda mais viajantes do albergue, até que, enfim, disse adeus a esses breves amigos.
Engenheiros, biólogos, artistas, físicos, filósofos, estudiosos de histórias em quadrinhos; homens e mulheres da Rússia, Turquia, Nova Zelândia, Palestina, Egito, Namíbia, Moçambique, Guatemala, Inglaterra, Alemanha… As nacionalidades e as ocupações das pessoas que conheci nesses quatro meses são tão distintas quanto as experiências que tive com cada uma delas. Seja lá como for, estar longe de casa faz o mundo parecer tão pequeno quanto o mapa-múndi de papel da parede do meu quarto.
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Jogos, trapaças e dois canos de mentira, não-operantes e inspecionados pelo departamento de produção

Com o término do primeiro semestre inacreditavelmente se aproximando, não posso deixar de compartilhar algumas curiosidades sobre o American Film Institute, cujas atividades, alunos, professores e funcionários representam 90% do meu universo em Los Angeles – os outros 10% correspondem às parcas horas dedicadas ao sono e à higiene pessoal.
– O número máximo de vagas anuais é 140, sendo 28 para roteiro, 28 para direção, 28 para direção de fotografia, 28 para produção, 14 para edição e 14 para direção de arte.
– Em 2009, apenas 135 alunos iniciaram o curso – uma aluna de edição desistiu antes do início e somente 10 alunos foram qualificados para admissão em direção de arte. 
– Desses 135, apenas 43 são mulheres.
– Os países de nacionalidade desses alunos são*: Estados Unidos (80), Canadá (9), México (4), Espanha (3), Itália (3), França (3), Israel (3), Dinamarca (3), Coréia (3), Austrália (2), Alemanha (2), Kosovo (2), Venezuela (2), Rússia (2), Suécia (2), Argentina (1), Áustria (1), Holanda (1), Quênia (1), Nigéria (1), Indonésia (1), Grécia (1), Porto Rico (1), Irlanda (1), Índia (1), Inglaterra (1) e Brasil (eu).
– Dos 28 alunos de roteiro, apenas dois não têm o inglês como língua nativa. Incluindo eu.
– Embora o processo de seleção seja considerado bastante rigoroso, em 2009 foram recebidas cerca de 160 applications para o curso de roteiro, o que gera uma relação próxima de 5.71 candidatos por vaga. A relação c/v da FUVEST 2010 para o Curso Superior do Audiovisual é 34.14.
– Os créditos dos alunos do primeiro ano incluem, em capacidades diversas, filmes como O Senhor dos Anéis, Harry Potter, O Incrível Hulk, King Kong, Avatar, Star Wars, Mais Estranho Que a Ficção, Jumper, Era do Gelo 2, Jogo de Amor em Las Vegas, Ponto de Vista, entre outros.
– O aluno mais velho do curso é da disciplina de roteiro. Ele também é o co-criador do desenho animado “Doug”. 
– Ao menos dois alunos têm pais que já foram indicados ao Oscar®.
– Ao término no primeiro ano letivo, os alunos precisam ser “re-admitidos” ao curso, baseado em seu desempenho durante o ano.
– Darren Aronofsky, um dos nomes recentes mais expressivos a estudar no AFI, não foi re-admitido.
– É bastante comum encontrar lagartos e esquilos pelo campus. Veados e raposas também não são raros.
– As portas dos banheiros abrem para fora, o que significa que ao sair de um banheiro você sempre pode dar com a porta na cara de algum professor.
– O manual do aluno do American Film Institute informa que é proibido perseguir, estuprar ou abusar verbal e/ou sexualmente de alunos e/ou professores dentro da escola. Ufa.
– Um dos professores estabeleceu três regras para sua aula ao longo do semestre: 1. Sejam pontuais; 2. Estejam alertas, seja lá qual for a substância utilizada para tal fim; 3. Não usem chapéu. E ele não estava brincando.
– A biblioteca não possui um website para consulta de títulos. É necessário consultá-los através do catálogo físico ou da bibliotecária. Ou na raça.
– Se você precisa ter uma arma de fogo em uma cena, é preciso que ela seja completamente falsa, seja aprovada pelo deparamento de produção, esteja sob a supervisão ininterrupta de uma pessoa designada exclusivamente para isso e, ainda assim, você não pode apontá-la para nenhum membro do elenco, da equipe ou para a câmera.
– Após quatro meses conhecendo gente nova, é difícil me imaginar em outra escola…
* dados não-oficiais.
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Apenas uma vez

“Não se esqueçam de se divertir”.
Esse foi o segundo maior conselho dado pela coordenação do AFI durante as palestras das primeiras semanas do curso.
Todos chegam ao AFI sedentos por aulas, palestras, informações. Em sua maioria jovens ao redor dos 25 anos, todos estão loucos para varar a noite preparando produções, debruçar em livros e filmes. Entendo que para a maioria dos mortais assistir a um filme é exclusivamente uma atividade de lazer. Para nós, é quase sempre um exercício. Assim sendo, mesmo sem perceber, estamos envolvidos quase 24 horas por dia em atividades acadêmicas. 
É comum ouvir planos para o futuro. “Daqui dois anos quero ter minha produtora independente”. Ou: “Preciso estar preparado para poder dirigir um longa quando me formar”. Ou ainda: “Quando sair daqui, preciso ter três roteiros, assim com certeza vou conseguir vender um deles ou pelo menos encontrar um agente.”
Certo, tudo isso é lindo… Mas isso só em 2011, 2012! Até lá tem copa do mundo, jogos pan-americanos, eleições, enchentes… A pergunta é: o que você quer fazer AGORA?
É natural – e correto! – que queiramos dedicar estes dois anos de curso aos estudos, mas não podemos ignorar que esses dois anos não voltam mais. Os estudos são prioridade, mas não exclusividade. Estudar é legal, mas viajar também, fazer passeios turísticos também. Viver também. Sabe-se lá quando voltarei a Los Angeles ou mesmo aos Estados Unidos.
Com esse espírito, eu e alguns colegas começamos a programar algumas atividades “non-movie-related”. Devo confessar que estando em Los Angeles, isso não é lá muito fácil.
Nosso primeiro evento foi o show “The Swell Season”, de Glen Hansard & Markéta Irglová, o casal do filme Apenas Uma Vez, cuja canção arrebatou um Oscar® no ano passado. OK, não é exatamente uma atividade dissociada do mundo do cinema, mas já é um começo.
Chegando lá, damos de cara com Kunal Nayyar, o Raj do seriado “The Big Bang Theory”. Ele também está lá como mero espectador, com amigos, provavelmente também em um momento “non-movie related”. Penso em tirar uma foto, mas fico envorgonhado ao lembrar que a colega ao meu lado, filha de um famoso diretor, está acostumada à presença de famosos. Não quero parecer ridículo e decido, então, apenas curtir o momento e guardar na memória meu “primeiro encontro” com um famoso em Hollywood  (na verdade já encontrei Jamie Kennedy em um restaurante, mas ele está tão sumido que quase não conta.)
Abrindo o show, uma agradável surpresa: Josh Ritter, para mim um então desconhecido. Uma hora depois, já era um fã, louco para conhecer mais sobre o artista e sua banda.
Enfim, sobem ao palco Glen Hansard e Markéta Irglová. É fascinante estar a poucos metros de pessoas que pareciam tão distantes na tela de cinema ou na TV. Lembro-me claramente de assistir à entrega do Oscar® naquele ano.
Falling Slowly levara a estatueta de melhor canção. Não tinha visto o filme ainda, mas lembro ter ficado fascinado com a música. A dupla sobe ao palco. Glen Hansard agradece e, antes que sua parceira possa dizer qualquer coisa, a música sobe e eles têm de sair do palco. Mas para a surpresa de todos, em um momento (creio) sem precedentes, o apresentador chama Markéta Irglová de volta ao palco para que ela também possa desfrutar o momento. E seu discurso foi inesquecível. 
“(…) O fato de estarmos aqui essa noite, o fato de podermos ter isto em mãos, é a prova de que não importa quão grande é seu sonho, ele é possível. Força àqueles que ousam sonhar e não desistem. Essa música foi escrita sob uma perspectiva de esperança, e esperança, no fim das contas, é o que nos conecta, independentemente de nossas diferenças. (…)”
Isso me leva ao maior conselho dado pela coordenação do AFI: “Façam amigos. Conectem-se. Esse é, de longe, a experiência mais valiosa que você pode ter no AFI.”
E o que mais queremos senão nos conectarmos? Afinal, não é isso que gente quer quando procura a namorada ou mesmo os amigos? Conectar-se com o outro? Não é por isso que durante o show muitos gritam para os artistas, esperando por aqueles dois segundos de conexão, em que ele vai te olhar e te identificar no meio da multidão (ainda que esteja pensando “quem é o babaca que está gritando que me ama?”) Não é pra isso que criamos perfis no Facebook, Orkut, My Space? Pra que temos MSN, Google Talk, Yahoo Talk, AOL Messenger, Skype, todos abertos ao mesmo tempo, senão para nos sentirmos conectados com o mundo, com o outro?
Sem dúvida, para mim, um das coisas mais fascinantes em escrever filmes é poder, ainda que por um breve momento, estar conectado às mais diversas pessoas, seja do outro lado da rua ou do planeta, através de uma simples história que um dia foi apenas uma ideia na minha cabeça.
Em uma das primeiras músicas do show, Glen Hansard desconecta o violão, deixa o microfone pra trás, vem até a beiradinha do palco, e começa a tocar, sem qualquer outro artíficio. Apenas a sua voz e seu violão. É quase como se dissesse: “Esquece todo o resto. Curte esse momento aqui comigo, só eu e vocês, rapidinho. Olha que demais.” 
Várias câmeras e flashes, todos desesperados para resgistrar aquele momento, para curtir aquilo mais tarde.
Por que não curtir agora, ao vivo?
Jason Segel aparece de surpresa no palco para uma paródia musical. Mais fotos, mais vídeos. A dupla faz uma brincadeira e canta uma música de Justin Timberlake. Glen Hansard se aproxima da platéia e agora diz com todas as letras: “Vamos fazer um acordo? Ninguém coloca essa música no YouTube, tudo bem? Vamos curtir o momento agora, só entre a gente?” 
Não sei se o acordo foi cumprido. O que sei é que as vezes a gente se preocupa tanto com o depois que se esquece do agora. Não acho que viver no presente seja tão fácil quanto pode parecer, mas sem dúvida vale a tentativa.
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Um dia a casa cai – o juízo final

Depois de uma odisséia de três meses entre “Ei, gostei da sua ideia” e “Não aguento mais editar esse filme”, chega enfim o dia da exibição do filme “Tree House” – o “The” inicial foi eliminado, não me perguntem porquê.
Dois filmes são apresentados em cada exibição. O nosso é o segundo do dia. 
Nove e meia da manhã, o primeiro filme já vai começar. 
– Cadê o nosso diretor de fotografia?
Nossa produtora tenta seu celular. Ninguém atende. Tenta seu colega de apartamento. Nada. Provavelmente, ele está dormindo. Não seria a primeira vez.
O primeiro filme termina: uma comédia… em que ninguém deu risada. A equipe assume a frente do auditório e se prepara para receber críticas de cento e trinta alunos, sem contar o corpo docente. A maioria delas é bastante negativa. O professor definitivamente não está feliz com o resultado.
Hora do intervalo. Nada do diretor de fotografia. Um dos meus colegas se aproxima com um sorriso de orelha a orelha: 
– Relaxa, Filipe, depois desse filme-bomba, qualquer coisa vai parecer uma obra-prima.
Embora não queira pensar no nosso curta como “qaulquer coisa”, sua linha de raciocínio faz sentido. Além disso, todos sabem dos problemas que tivemos na produção e pré-produção. As espectativas dos colegas não são lá muito altas.
Voltamos ao auditório. O diretor de fotografia chega correndo. “Desculpa, pessoal, o despertador não tocou!”
Começa o filme. Nossos nomes são aplaudidos pelos colegas conforme aparecem nos créditos iniciais. Estou sentado do lado da editora. Prestamos mais atenção na reação das pessoas do que no filme em si. Vinte minutos depois, termina o filme. Mais aplausos. Ninguém riu nas cenas dramáticas. Muitos riram das pequenas gags. Alívio. A parte um do julgamento parece não ter ido tão mal.
Se tem uma coisa sobre a qual não posso reclamar é o respeito da minha equipe para com o meu roteiro. Muitos roteiristas tiveram problemas sérios com seus diretores, que se achavam no direto de alterar completamente as ações e principalmente o diálogo. Meu diretor não mudou praticamente nenhuma palavra. Salvo raríssimas exceções, tudo o que escrevi foi filmado, e praticamente cem por cento sobreviveu ao corte final.
Assumimos a frente do auditório. Apresentamo-nos. Uma vez lá, não podemos dizer nada, apenas ouvir. O professor – que aliás, é ninguém menos que Gill Dennis, o roteirista de Johnny & June – começa a discussão.
– Quem é o protagonista? Quem é o antagonista?
Alguns colegas vão respondendo às perguntas. Ele começa a ir mais fundo.
– Quem gostaria de ter sido informado sobre a profissão do genro mais cedo na história?
Alguns levantam a mão.
– Quem acha que não ficou claro o motivo pela qual ele estava construindo a casa na árvore?
Mais algumas mãos.
À medida que vamos avançando na discussão, fica claro que Gil não está satisfeito, sobretudo com a direção. Quanto mais ele critica o filme, porém, sinto que mais o público o defende.
– Acho que deveria ter ficado mais claro desde o início o motivo pelo qual ele está construindo a casa na árvore – ele argumenta.
Uma colega discorda. “Não gosto de filmes que me tratam como idiota. Gostei que o filme deixou algumas coisas em aberto, sem prejudicar a história”.
Outro colega a apoia: “Acho que se ficasse claro desde o início o quanto o pai gosta da filha, o personagem não teria nenhuma progressão durante o filme”.
–  Não fiquei convencido de que o pai e a filha se amam de verdade – continua o professor. – Quem acha que o pai realmente ama a filha?
Praticamente todos levantam a mão.
– Quem acha que a filha realmente ama o pai?
Novamente, quase todos levantam a mão.
A discussão termina. Talvez esteja enganado, mas saio com a impressão de que a maioria dos colegas se surpreendeu positiviamente com o filme. Partimos para a sessão para elenco, equipe e convidados. Os atores ficam satisfeitíssimos. Seguimos, então, para a última etapa: a análise do filme, pausando cena a cena, apenas com equipe e professor presentes.
Gil Dennis claramente não é um grande fã do filme. Ele aponta cada um dos problemas técnicos – todos bastante válidos, devo admitir. Aponta, também, é claro, os pontos positivos. A cena que mais me desagrada, por exemplo, é uma das cena que menos o incomoda… No início, nosso diretor está um pouco defensivo. Aos poucos, os ânimos se acalmam e todos voltam a enxergar as críticas como forma de aprendizagem. E sob essa perspectiva, fazer esse filme foi uma jornada e tanto.
Aprendi a colaborar com diretor, produtor e todo resto da equipe. Aprendi que o que vemos na tela nunca é exatamente o que imaginamos. Aprendi muitíssimo sobre a função de cada membro da equipe e o quão trabalhoso é tirar um filme do papel. Aprendi que quinze páginas de roteiro talvez seja muito para uma filmagem de quatro dias. Aprendi, principalmente,  que a maior parte dos problemas se dá por falta de comunicação.
É claro que não sou apaixonado por toda e qualquer passagem do filme. Não gosto de algumas reações, alguns diálogos não saíram exatamente como eu imaginava, alguns elementos que pra mim eram claríssimos no papel passam desapercebidos na tela. Sem dúvida, muitos apreciaram os vinte minutos de filme. Outros odiaram. Não importa. Valeu a pena. Apesar de todos os percalços, me diverti demais. Aprendi demais.
E é por isso que se me perguntam: qual o resultado final? 
A minha resposta: foi um sucesso.
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Um dia a casa cai – o retorno


Quando estamos filmando, todo resto da nossa vida fica em standby. Durante quarto dias, passamos cerca de treze horas em meio a equipe, atores, camera, tripés, três-tabelas, mantas de som, garrafinhas d’água e afins. Lavar a roupa, limpar o banheiro, fazer supermercado ou responder e-mails fica pra depois. Dormir também. E, infelizmente, escrever também. Por mais que eu tente sentar no computador, depois de doze horas em pé, não há nada que me faça ficar acordado. Eis o motivo do meu sumiço. Mas agora que meus dias de filmagens estão oficialmente encerrados – pelo menos até o ano que vem – posso voltar à minha vida normal, onde escrever e tomar banho voltam a ser prioridade.

Fim de semana retrasado tivemos nosso grande momento: as filmagens de “The Tree House”.

No primeiro dia, tensão total. Será que o diretor vai enlouquecer e esbofetear a produtora? Será que o diretor de fotografia vai conseguir coordenar a equipe de cinco assistentes com planos improvisados? Será que vou conseguir estar no set apenas como roteirista e nada mais?

Quando estamos na filmagem de nosso próprio roteiro, teoricamente não devemos excercer nenhuma atividade, apenas assistir às filmagens. É um direito nosso, após meses de trabalho. Na prática, não é bem assim. Sempre tem alguém precisando mudar um sofá de lugar, carregar uma escada ou encontrar um objeto desaparecido. Até aí, sem problemas. Mas é claro que no nosso set, tudo é um pouquinho mais complicado.

Já nos primeiros minutos do primeiro dia, a produtora se aproxima de mim, enquanto escrevo algo no meu computador.

– “Filipe, o nosso sound mixer vai chegar atrasado. Eu já estava sabendo, está tudo certo, mas será que você poderia operar o mixer até a hora do almoço?”

Se ela já sabia, por que não encontrou um substituto com antencedência? – penso eu.

– “Não.”

– “Por quê não?”

– “Porque não sei operar o mixer”.

Ela parte. Fico com remorso, mas de fato, acho fundamental que o mixer seja operado por alguém com mais experiência.

Algumas horas depois, chega o sound mixer. De bicicleta. Bêbado. O diretor o manda embora. Ele parte, não sem antes arremessar alguns copos de água pela casa.

Não me resta outra alternativa senão operar o microfone… Paciência.

Hora do almoço. Cadê o almoço?

– “A produtora foi buscar, mas não voltou ainda”.

Ela chega com uma hora de atraso. O que significa uma hora a menos de filmagem. O que significa mais adaptações no cronogama. Diretor e diretor de fotografia varam a noite na locação, planejando o dia seguinte.

No dia seguinte, nada de sound mixer. Continuo operando o boom. No início da tarde, um equipamento precisa de pilhas. A produtora sai apressada para comprá-las e volta com pilhas recarregáveis… sem carga. Mais atrasos. Mais adaptações. A continuísta precisa deixar o set por algumas horas. Ao voltar, ela percebe que em uma das cenas o ator está usando o figurino errado. Tarde demais…

Dois dias depois, terminam as filmagens. Apesar de todos os contratempos, deixo o set satisfeito. Nem tudo saiu como o esperado, mas meu roteiro agora ganhou vida. O diretor esteve inacreditavelmente calmo, concentrado e atencioso com a equipe. A equipe foi extremamente esforçada e paciente. Alguns planos não foram filmados, algumas falas foram alteradas, algumas ações saíram diferente do que esperava, mas não importa. “The Tree House” agora não é mais apenas um roteiro. É um filme. 

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Um dia a casa cai

Segunda-feira, dois de novembro. Cinco dias antes do início das filmagens do meu roteiro. Última reunião da nossa equipe com as coordenadoras de produção. Nossa produtora está tendo problemas para realizar seu trabalho. A coordenadora começa com as perguntas:
– Tudo certo com a locação?
– Na verdade, mais ou menos.
– Que horas vocês podem entrar para filmar?
– Então, meio que depende, preciso checar ainda.
– Como assim?
– Tipo, sábado e domingo a gente só pode usar o interior da casa em algumas partes do dia. O resto a gente tem que filmar do lado de fora.
– Mas metade do roteiro se passa dentro da casa. Na segunda e terça você tem acesso ilimitado ao interior da casa, pelo menos?
– Hum… sim, até às 16h.
O diretor quer matá-la. Ninguém até o momento havia sido informado sobre esses pequenos detalhes. É evidente que não será possível filmar quinze páginas em um cronograma tão limitado.
A essa altura a casa na árvore do roteiro já foi modificada – ainda é uma casa na árvore, mas está sendo construída no chão. O ator que deveria ter 70 anos tem 52. O que deveria ter 28 parece 41. Perguntam se estou satisfeito com elenco. “E eu lá tenho opção?”
 – Banheiros. A equipe terá acesso aos banheiros da casa?
– Sim.
– Você tem certeza que 25 pessoas podem entrar e sair da casa a qualquer momento para usar o banheiro?
– Hum… não exatamente… Temos que ver um esquema, um horário.
– Ah, então quer dizer que as pessoas têm que marcar hora pra ir ao banheiro?
– Eu posso alugar um banheiro químico.
– Você incluiu isso no orçamento, que alias já está 500 dólares acima do previsto?
– Hum… não.
Mal sabíamos que na mesma noite perderíamos não apenas a já problemática locação, mas também a figurinista e o assistente de arte – que atende pelo nome de Fluido.
Começa a saga atrás de uma nova locação. Temos dois dias para fazer algo que deveria ter sido feito em dois meses.
Só conseguimos fechar nossa locação na quinta-feira. Diretor e diretor de fotografia desaparecem de todas as aulas para poder adaptar os set-ups à nova locação. O roteiro precisa sofrer alterações pelo mesmo motivo.
E qual a maior preocupação da produtora? Que cada um no set tenha sua garrafa d’água para não usarmos garrafinhas descartáveis…
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Luz, câmera, ação! Mas e o som?

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Se existe uma área que é injusta e consistentemente negligenciada no set de filmagem, essa área é o som. Ninguém presta atenção naquele cara que vagueia com o microfone na mão… até que você esteja fazendo sombra em algum lugar que não deveria. Nas últimas duas semanas, esse cara era eu.
Comecemos pelo fato de que o AFI não tem uma disciplina de som. Isso significa que praticamente todas as funções do set são exercidas por pessoas extremamente capacitadas na sua área, enquanto o som fica a cargo de uma boa alma que normalmente não estaria no set, mas que sabe-se lá porque se sujeitou a ajudar as outras equipes. Isto é, roteiristas e editores.
Nos curtas que estamos gravando este ano, a equipe de câmera é composta de pelo menos seis pessoas: diretor de fotografia, operador de câmera, assistente de câmera, gaffer, key grip e swing.
A equipe de som é composta por dois “caras”.
O equipamento de luz ocupa um caminhão inteiro, mas é claro que o que está sempre no caminho é nossa maleta de som e o boom, que ninguém nunca sabe onde foi parar. Nem os cabos de som são dignos de uma maleta exclusiva e precisam dividir a o espaço com os cabos de vídeo. Na nossa maleta, um microfone unidirecional e um lapela com fio. Microfones sem fio ainda são modernos demais.
Apesar de tudo conspirar contra, a primeira experiência como operador de boom no curta Broken Branch foi incrível. Mas precisamente, foi hilária. A equipe de câmera tinha lá seus trinta minutos para preparar a cena. Ai de nós do som se não estivéssemos prontos na hora em que a câmera estivesse posicionada.
Primeira cena: um diálogo entre um mecânico e um advogado em um escritório minúsculo. Todas as janelas fechadas, três refletores apontados para nós, seis pessoas respirando (sempre que possível), sem contar a câmera e a dolly. Chegam os caras do som. No caso, nós. Penso comigo: “Nossa, essa cena vai ficar sensacional na tela. Mas já pensou que demais se a gente também pudesse OUVIR o diálogo?” Aparentemente somos os únicos com esse pensamento revolucionário.
Temos que nos encaixar onde sobra espaço, isto é, embaixo da mesa. O microfone está a quilômetros do ator. Informamos ao diretor que o som não está bom… e aí vem o clássico: “depois a gente dubla”. É ótimo ouvir isso depois de parecer um contorcionista tentando captar o melhor som. Evidentemente, no dia seguinte todo mundo esquece desses detalhes, e o produtor informa: “o editor disse que o som da primeira cena está muito baixo”. “Sério?! Tivemos tanto tempo pra nos preparar… Quem iria imaginar uma coisa dessas!”
Essa dinâmica continua ao longo do dia, com algumas variações. A maior parte do tempo, porém, estamos esperando a cena ser montada… enquanto enrolamos cabos. Se tem uma coisa que aprendi no set foi a enrolar cabos.
Entre uma cena e outra, converso com a australiana supervisora de roteiro, que tem o excitante trabalho de anotar todas as cenas, takes e timecodes, e cuja principal atividade no set, assim como eu, é… esperar. Aproveitamos o tempo parar tirar sarro do (inexistente) craft service, que está sendo feito por um aluno do curso de produção.
“A equipe está derretendo. Precisamos de água no set” – anuncia o assistente de direção no walkie-talkie. Vem a resposta: “A água acabou. O fulano já foi comprar.”
Hora do almoço. Cadê os pratos? Minha colega australiana cai na gargalhada: “Meu Deus! Não temos pratos! Será que ele vai conseguir resolver isso sozinho? Talvez seja demais pra ele.” Ela tinha razão… O responsável pelo craft service, DE FATO, pede minha ajuda:
– “Você fala espanhol?”
– “Não, eu falo português.”
– “Mas você sabe falar espanhol, não sabe?”
– “Sei, por quê?”
– “Vem comigo!”
Sou arrastado até a lojinha ao lado para solicitar, em espanhol, alguns pacotes de pratos descartáveis. Até agora não entendi da onde ele tirou a ideia de que a atendente não falava inglês…
A comida é colocada na mesa. Sob um sol de 40 graus. Um dos membros da equipe de câmera que carregou escadas e tripés o dia todo ajuda a carregar as cadeiras.
– “Não podemos colocar essa mesa ali na sombra?” – ele pergunta ao produtor.
– “Não, ali já é a propriedade daquela senhora.”
– “Mas não podemos pelo menos perguntar? Eu mesmo vou lá, posso?”
– “Na verdade, não.”
– “Ah é? Então também não posso carregar essas cadeiras!”
Ele parte, faminto, sedento, suando e agora também irritado.
Eu, minha colega e o ator observamos a cena, contendo o riso. Ela começa a se servir de arroz. “Não tem colher de servir?”. Não, não tem. Ela se serve pacientemente com uma colher de sobremesa. “Desculpe pessoal, vai demorar um pouco.” 
Comida no prato, viramos para trás… e a mesa foi embora! Olhamos um para o outro e caímos na gargalhada. Descobrimos que a mesa foi levada para o jardim na frente da casa, onde há sombra. Conduzimos o ator até lá. Sentamos… e onde estão os talheres? Com medo de pedir qualquer coisa, o ator contenta-se em cortar a carne com uma colher. A essa altura, ninguém mais consegue comer de tanto rir. Vou até o outro lado da casa e volto com facas. Pouco depois, chega o cooler com águas e refrigerantes, quentinhos, recém-colocados no gelo, prontos para matar nossa sede.
Inexplicavelmente, lá estou eu, na semana seguinte, no set de Guttersnipes, prestes a exercer a mesma função de operador de boom. O filme conta com uma personagem autista que repete a fala “Where’s mommy?” trezentas e oitenta e seis mil vezes. Em cada take. A locação é um beco no centro de Los Angeles. Um lugar lindo de se ver… terrível de se cheirar.
Já no primeiro dia, eu e meu novo sound mixer nos perdemos no caminho da base até o quarteirão onde a cena seria filmada. Olho para um lado, uma modelo, frente a uma parede toda pichada, posando para um fotógrafo. Viramos a esquina e lá está um grupo de pessoas com refletores e uma câmera… mas não, não é a nossa equipe. Voltamos, viramos a direita… e lá estão eles. Não, espera! É OUTRA equipe! Voltamos para a base e membros da nossa equipe limpam o sangue fictício na calçada, usado para uma OUTRA filmagem no dia anterior. Me dou conta de que estou em Los Angeles e que a cada rua pode haver uma equipe de filmagem… e de que o mais bizarro ainda está por vir.
Uma hora da manhã. Estamos prestes a filmar a cena mais intensa do filme quando, de repente, um carro de polícia passa devagar pela rua. Minutos depois, outro. E outro. E então, um helicóptero rasante começa a rondar o quarteirão com um holofote, praticamente apontado para nós, até que uma voz grita em um megafone: “Fulano de Tal. Renda-se agora! Você não tem para onde fugir!”
Aí já é demais. Recolhemos todo o equipamento e encerramos o dia de trabalho. Três dias depois, terminam as filmagens e meus dias de escravidão voluntária no set.
Ficam as lembranças das aventuras no set… e a certeza de que sou mais feliz sentado no meu computador, criando todo esse universo que um dia um grupo de pessoas incrivelmente esforçadas fará de tudo para tornar realidade.
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